Guatemala

 

108 430 km2 e 10,6 milhões de habitantes (o Estado mais povoado da América Central), com a seguinte composição: ladinos, categoria que agrupa brancos, raças mistas e índios que rejeitaram os trajes e as línguas tradicionais, para se libertarem da marginalização, constituindo 56% do total; índios Maias (44%); minoria negra, resultante da importação de escravos de África até 1824, ano em que a escravatura foi abolida.

Colónia espanhola a partir de 1524, tornou-se independente em 1821, integrando, imediatamente, o império do México e, entre 1823 e 1839, as Províncias Unidas da América Central. Até ao final do século, a vida da nova república girou em torno da polarização entre Conservadores e Liberais, os primeiros fazendo assentar a sua política no reforço dos privilégios do clero e da aristocracia terratenente, enquanto os segundos procuravam estimular o surgimento de novas elites, utilizando como instrumento a expropriação das terras da Igreja. Paralelamente, os processos de representação democrática nunca se consolidaram. Após as ditaduras de Manuel Estrada (entre 1898 e 1920) e de Jorge Ubico (entre 1931 e 1944), o país conheceu as primeiras reformas económicas e sociais que beneficiaram os camponeses e os trabalhadores urbanos, com a instituição de uma reforma agrária (mediante a expropriação dos latifúndios) e de um Estado providência à maneira europeia, ao mesmo tempo que os sindicatos e o Partido Comunista se tornavam em forças políticas activas. No entanto, a nacionalização das plantações da empresa norte-americana United Fruit Company, em 1954, pôs termo ao processo, quando a CIA organiza, nesse mesmo ano, um golpe de Estado, liderado pelo coronel Carlos Castillo Armas. Garantida constitucionalmente a inviolabilidade da propriedade privada (facto que se manteve até hoje, de tal forma que 2% dos proprietários detêm 78% das terras), como alternativa organiza-se estrategicamente a colonização da região de Petén, assegurando, por um lado, o povoamento da estreita faixa de terreno através da qual a Guatemala encontra a sua saída para o Golfo do México e, por outro, enfraquecer a base de apoio à guerrilha, iniciada nos anos 60 por grupos de esquerda, que rapidamente agruparam ladinos e índios. Perante a ineficácia da medida, o Governo adoptou outros meios: inauguração da táctica dos "desaparecimentos" (que depois viria a encontrar caixa de ressonância nas ditaduras militares por da América Latina); criação de patrulhas armadas civis (PAC), encarregues de organizar a autodefesa das comunidades rurais; destruição sistemática de aldeias índias e reagrupamento das populações em locais controlados pelos militares; utilização de "esquadrões da morte" - organizações terroristas de extrema direita, como Mano Blanca e Ojo por Ojo.

Com um breve interregno, entre 1966 e 1970, os governos militares sucediam-se, à medida que as diversas cliques fomentavam novos golpes de Estado, apoiando-se nas rivalidades entre os generais, mas sempre unidas pelo desprezo pelos grupos indígenas, instabilidade que cessará com o golpe, em Agosto de 1983, do general Mejía Victores, que prepara o processo de transição para a democracia, com a aprovação de uma nova Constituição, em 1985, e com a convocação de eleições, vencidas pelo líder do Partido Democrata-Cristão da Guatemala, Mario Vinicio Cerezo Arevalo. A presidência do seu sucessor, Jorge Serrano Elias ficará marcada por dois acontecimentos: o restabelecimento de relações diplomáticas com o Belize (que a Guatemala considerava como parte integrante do seu território) e, em 1993, a tentativa de auto-golpe (apoiado nos militares, que continuam a dominar o panorama político e económico), que fracassa, perante a frente comum formada pelos sindicatos, pelas associações cívicas e por alguns sectores do Exército. O Congresso nomeará um Governo de unidade nacional, chefiado por um Presidente interino, Ramiro de Léon Carpio, então Procurador dos Direitos Humanos, que, no entanto, passa também ele a depender cada vez mais dos militares, face à continuação da actividade da guerrilha, agrupada desde 1982 na União Revolucionária Nacional Guatemalteca. O conflito, que ceifou cerca de cem mil vidas, será resolvido em 1997, após vários anos de mediação da ONU e da atribuição, em 1992, do prémio Nobel da Paz à índia Rigoberta Menchú (cuja família foi morta pelos militares), com a assinatura do acordo de paz entre o Presidente Álvaro Arzú Irigoyen e a UNRG, que se transforma em partido político no ano seguinte.

Em Janeiro de 2000, as eleições colocam a presidência nas mãos de Alfonso Portillo, que contou com o apoio do Presidente do Congresso, o general Ríos Montt (que havia sido deposto por Victores em 1983).

 

© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: