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1947 |
De Santos Costa à Abrilada, a revolta da Junta de Libertação Nacional |
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Cosmopolis |
© José Adelino Maltez, História do Presente, 2006 |
As maleitas de Salazar – A
saúde do dr. Salazar, porém, não era boa. A depressão mantinha-se. Ia
assegurando a rotina do governo, mas queixava-se da falta de sono, não conseguia
dormir mesmo tomando soníferos, tinha vertigens, comia mal, trazia consigo uma
tristeza profunda e dificilmente encarava a hipótese de fazer qualquer trabalho
intelectual mais pesado como seria um discurso político de importância
(Marcelo Caetano).
Daniel Barbosa, como ministro da
economia em1947-1948, fica conhecido como o daniel das farturas, dado
ter vivido uma época de abrandamento do sistema do racionamento da economia de
guerra. Um dos paradigmas do tecnocrata do Estado Novo que também é um
dos nossos primeiros colaboradores do Opus Dei.
União Nacional: Marcello
Caetano toma posse como presidente da Comissão Executiva da União
Nacional (4 de Março). Na altura, o regime está dividido entre os partidários da
facção militar liderada por Santos Costa (o partido militar) e os adeptos
da facção civil, onde se destaca Marcello Caetano, o novo dirigente executivo do
(anti)partido único que também detesta o novo ministro da educação.
Teotónio Pereira é embaixador no Brasil. Santos Costa que parece apostar na
solução monárquica para a continuidade do regime; outros acusam-no de ter sido
germanófilo durante a guerra.
Os marcelistas. Marcello
Caetano, por seu lado, promove a adesão pública de várias figuras à União
Nacional (23 de Março). Aparecem jovens como Silva Cunha, Baltazar Rebelo de
Sousa, Henrique Veiga de Macedo, Camilo de Mendonça, Rui Sanches, João Dias
Rosas, Afonso Marchueta. Jorge Jardim, António Maria Santos da Cunha, João Paulo
Cancela de Abreu e António Manuel Couto Viana.
Revolta da Junta Militar de
Libertação Nacional Movimento encabeçado por Mendes Cabeçadas, com a
participação de Celestino Soares, João Soares, Carlos Afonso Santos (Carlos
Selvagem), Castanheira Lobo, general José Garcia Marques Godinhoö
(1881-1947) e Hermínio da Palma Inácio (previsto para 10 de Abril). A
movimentação teria sido suscitada pelo próprio Carmona e até se invoca o
espírito do 28 Maio. São presos vários oficiais, entre os quais o general
Marques Godinho. Nesse dia, Hermínio da Palma Inácio e Gabriel Gomes sabotam
aviões na Base Aérea de Sintra. Vaga de prisões de oposicionistas (15 de Abril).
Entre os detidos, Mário Soares, que será libertado em 27 de Agosto. Em 14 de
Junho, nota oficiosa do governo revela que no anterior conselho de ministros do
dia 1 haviam sido demitidos vários oficiais e professores universitários, por
estarem implicados no movimento revolucionário abortado.
Denúncia do deputado Henrique Galvão
Num Aviso prévio apresentado na Assembleia Nacional sobre as colónias,
considera que só os mortos estão isentos de trabalho forçado. Vai
participar na criação da Organização Cívica Nacional em1951, gerando, no
seio desta, um comité revolucionário com o coronel Maia. Preso em 6 de Janeiro
de 1952. Foge em1958 e pede protecção na Embaixada da Argentina.
Socialistas
Noutra postura oposicionista, destaca-se António Sérgio,
que profere a chamada Alocução aos Socialistas (1 de Maio1947), visando
a renovação do velho Partido Socialista, sendo apoiado por intelectuais como
Adolfo Casais Monteiro, António Pedro (1909-1966), antigo militante
nacional-sindicalista, José Régio e José de Sousa, antigo membro do PCP,
regressado do Tarrafal. Em Junho, jantar de homenagem a António Sérgio (a
minha fidelidade à própria inteligência havia de levar-me a este antipático
papel de sempre resistir, contrariar, combater, que tem sido o meu destino)
transforma-se em manifestação oposicionista
Julgamento dos implicados na
revolta da Mealhada. A defesa cabe a Amílcar Ramada Curto, Vasco da
Gama Fernandes, Adelino Palma Carlos e Fernando Abranches Ferrão (26 de Março)
Dia do Estudante A polícia
cerca e invade as instalações da Faculdade de Medicina de Lisboa, cujo director
se opõe à intervenção policial (Março). No mesmo dia, contra a proibição
governamental, várias associações académicas promovem o Dia do
Estudante (26 de Março).
Prisões – São detidos vários
dirigentes do MUD Juvenil, principalmente da Comissão Académica de Lisboa, com
Mário Ruivo, Castro Rodrigues, Joaquim Ângelo Rodrigues, Fernando Pulido
Valente, José Carlos Gonçalves e Orlando Pereira. Também Mário Soares, Rui
Grácio, Júlio Pomar e Salgado Zenha ficam presos no Aljube durante quatro meses
e meio.
Ilegalização do MUD Despacho do
Ministro do Interior onde se considera ilegal o MUD (26 de Abril). Notificado
aos responsáveis em 1 de Março de 1948. Sessão comemorativa promovida pelo MUD
no Porto, no Teatro Carlos Alberto (5 de Outubro).
Saneamentos.
Aprovada nota oficiosa sobre a Abrilada (1 de Junho), que apenas é
publicada na imprensa no dia 15.
Conselho de Ministros analisa a revolta
e a agitação da Faculdade de Medicina de Lisboa, de acordo com as investigações
policiais (14 de Julho). Prisão de dezenas de oficiais e políticos da
oposição. São reformados Cabeçadas; capitão Pires de Matos, general
Marques Godinho, brigadeiro Vasco de Carvalho (monárquicos, especialista em
estratégia, que comentara as acções de guerra no Diário de Notícias),
brigadeiro Eduardo Martins; brigadeiro Sousa Maia, coronel Mendes de Magalhães,
coronel Luís Tadeu, coronel Afonso dos Santos, capitão Marques Repas, tenente
José Gaita. Entre os 26 professores universitários aposentados ou demitidos:
Mário Silva, Francisco Pulido Valente, Fernando da Fonseca, Cascais Anciães,
Flávio Resende, Remy Freire, Andrée Crabée da Rocha, Luís Dias Amado. Quatro
deles acabem por ser readmitidos (Celestino da Costa, Torre da Assunção, Flávio
Resende e J. Cândido de Oliveira).
Marcello Caetano pede a demissão
de presidente da comissão executiva da União Nacional, invocando a questão
da Faculdade de Medicina de Lisboa e o desalento face à pouca operacionalidade
da União Nacional, mas, a pedido de Salazar, retoma as funções em Outubro.
Salazar é judeu – Eduardo
Carvalho da Silva, tenente que havia sido homem de confiança de Santos Costa,
proprietário de Caxarias, preso em 13 Junho, havia editado uma publicação
clandestina, onde, em nome do 28 Maio, acusa Salazar de ser o primeiro adesivo
da situação; de em 1925 fazer parte do Centro Católico que aprovou moção de
apoio ao governo de António Maria da Silva depois do golpe de 18 Abril, a
antiga minoria de 1930 que é a esmagadora maioria de hoje; insinua que
Salazar é judeu pelo que não teria as qualidades e os defeitos da nossa
raça; por não ter os nossos defeitos, não reage como nós, nunca compreenderá os
nossos desejos, porque os não pode compreender nem sentir.
Comunistas Em Junho, o PCP
aprova a linha de unidade proposta por Cunhal. Greve das construções navais: na
zona de Lisboa (7 de Abril), comandada pelos comunistas. Mobilizados cerca de 20
000 trabalhadores. Na organização do processo, António Dias Lourenço.
A
onda grevista prossegue, abrangendo estudantes (Maio e Junho) e rurais do Alentejo e Ribatejo (Julho).
Morte do general Godinho –
Entretanto em 24 de Dezembro morre no hospital da Estrela o general Godinho,
detido na Trafaria. O representante da viúva, aquele que Santos Costa considera
esse advogado sem ciência nem consciência, depois de apresentar uma
queixa na Polícia Judiciária contra Santos Costa (13 de Janeiro), acaba também
por ser brevemente detido.
Diz-se que teria sido impulsionado para essa atitude por Marcello Caetano, de quem, então, era colaborador, e não tardará a ser libertado, iniciando uma viagem de alto hierarca no regime, onde chega a ministro e assume a candidatura a sucessor do próprio Salazar. Contudo, Marcello Caetano nega o envolvimento nessa atitude de quem considera um rapaz esperto que tinha fama de esquerdista e que cometera um erro jurídico pueril, um acto de inexperiência, ao juntar ao processo cartas-missivas, consideradas secretas, que a própria família do malogrado começara a condenar.
Contudo, não nega que apoiou a família do jovem advogado e que até se mexeu junto do ministro do interior e do próprio Salazar que, década e meia volvida, o vai chamar para o governo. A circunstância será, depois, maravilhosamente aproveitada pelo advogado em causa, para uma literatura de justificação que, à maneira de Talleyrand e de Fouché, utiliza, a fim de obter uma adequada certidão de colaboração com novos regimes, permitindo branquear testemunhos como os de Adelino da Palma Carlos ou José Magalhães Godinho, dando a ilusão da história poder ficar circunscrita aos revisionistas e laudatórios artigos quase autobiográficos que antigos colaboradores vão espalhando em dicionários e enciclopédias.
Caetano, Marcello (1977): 293; Cardoso, Sá (1973):158; Nogueira, Franco (IV): 62, 71, 78, 83; Presos Políticos no Regime Fascista 1946-1948: 141 ss. (630 detidos); Queiroga, Fernando (1958/1974): 127 ss.; Rollo, Maria Fernanda (1994); Serra, Afonso (1996); Soares, Mário (1972/1974): 38, 84, 92, 137, 138; Sousa, Marcelo Rebelo de (1999): 49 ss..
© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: 23-04-2009