A angústia dos homens entre ruínas

No plano das ideias, quando se reconhece a angústia do tempo presente e os deveres do espírito (Encontros de Genebra, 1953), destaque para os que falam da esperança dos desesperados (Mounier, 1953), enquanto o fascista heterodoxo e esoterista Giulio Evola (1898-1974) lança Gli Uomini e le Rovine, onde defendendo o regresso ao organicismo até cita o nosso António Sardinha. Roland Barthes detaca-se com Le Degré Zero de l’Écriture. Se Russel Kirk publica The Conservative Mind, inventariando as etapas do pensamento conservador anglo-americano, de Burke a Santayana, eis que Roger Garaudy, em plena ortodoxia comunista emite La Théorie Matérialiste de la Connaissance.

Em Março reúne, sob os auspícios da American Academy of Arts and Sciences uma conferência dedicada ao Totalitarianism, cujos textos serão publicados em 1954, com prefácio de Carl Joachim Friedrich.

No plano jurídico, destacam dois importantes manuais jusfilosóficos, o do espanhol Luís Legaz y Lacambra, Filosofia del Derecho, e o do brasileiro Miguel Reale, Filosofia do Direito, bem como o livro restaurado da hermenêutica neoclássica, Topik und Jurisprudenz, de Theodor Viehweg. Já em Chicago, Leo Strauss edita Natural Right and History, onde defende o regresso ao padrão socrático de natureza e à necessida de procura do melhor regime.

Giulio Evola ataca o Estado Moderno, defendendo um Estado Orgânico, conforme as teses de Vico e Fustel de Coulanges, fazendo remontar a transcendência do princípio do Estado à ideia romana de imperium, de poder sagrado, ligado ao culto das divindades viris. O Estado é assim uma entidade masculina que, relativamente à pátria e à nação, deve ter uma relação semlhante à do homem com a mulher. Considera que a democracia, o cesarismo, a tirania e a ditadura são recursos ao demos, quando o chefe político, perdendo as relações com o alto, com o sagrado, foi obrigado aa tirara a sua legitimidade do baixo, do povo. O Estado não é um reflexo da sociedade, mas um agente que transforma e estrutura a sociedade. Assume-se contra a dimensão igualitária, em nome da elite.

Leo Strauss faz um apelo no sentido do regresso ao direito natural e à lei universal do justo e do injusto, um padrão que não serviria apenas para aferir da validade do direito estabelecido, posto, positivo, mas algo de mais global, que também seria mais elevado que o ideal mutável da nossa sociedade, dado que há no homem qualquer coisa que não está sujeita à sua sociedade e por conseguinte que somos capazes, e portanto obrigados, a procurar um padrão que nos permita julgar o ideal da nossa sociedade ou de qualquer outra. O padrão deveria ser o conceito socrático de natureza, a coisa na sua inteireza ou perfeição. Um padrão que até se não identificaria com a ideia de ser bom aquilo que é antigo, dado que este tipo de natureza até é sempre mais antigo do que aquilo que foi estabelecido pelos fundadores de uma determinada comunidade, prendendo-se com a própria ordem eterna. Neste sentido, o direito natural seria sempre equivalente à procura do melhor regime, contrariando certa tendência da modernidade, de extracção maquiavélica, que considerando a realização desse melhor regime como altamente improvável, tratou de baixar os níveis e de considerar que o melhor regime poderia ser realizado em qualquer parte.

Russell Kirk (1918-1994), por seu lado considera que o modelo liberal é caracterizado pela ideia de perfectibilidade do homem e o ilimitado progresso da sociedade, pelo desprezo da tradição, pela igualdade política, pela igualdade económica e pelo repúdio de uma concepção de Estado como "ente moral ordenado por Deus".

Herbert Marcuse retomando as perspectivas de Freud, considera que na origem da história da humanidade há sempre um pai primitivo, transformado em déspota absoluto, que impõe a sua dominação sobre os restantes membros da horda, proibindo a utilização da mulher e monopolizando o direito à posse.

Em Portugal, no ano da morte de Fezas Vital e Hipólito Raposo, se uns procuram os elementos fundamentais da cultura portuguesa (Jorge Dias, numa comunicação a um colóquio realizado em Nashville em 1950, aí publicada em 1953 e só traduzida para português em 1955) e outros continuam na pesquisa da alma dos povos, na senda de Renan, teorizando a compleição do patriotismo português (Joaquim de Carvalho, 1953), no preciso ano em que M. Dufrenne analisa o conceito sociológico de La Personalité de Base, merece destaque o inventário aventura e rotina (Gilberto Freyre, 1954), onde se procuram as constantes portuguesas de carácter e acção. Já J. Silva Saraiva lança um estudo sobre O Pensamento Político de Salazar.

 

 

Barthes, Roland

Le Degré Zero De L'Écriture, 1953

Baudin, L.

L'Aube d'un Nouveau Libéralisme, Paris, Aubier, 1953

Beveridge, Henry William

Power And Influence, 1953

Burdeau, Georges

La Démocratie. Essai Synthétique, Neuchâtel, Éditions La Baconnière, 1953 (Reed., Paris, Éditions Du Seuil, 1966; Trad. Port. A Democracia, 2ª Ed., Mem Martins, Publicações Europa-América, 1969).

Carmoy, G.

Fortune De L’Europe, Paris, 1953.

Cassirer, Ernst

The Philosophy Of Ic Forms, New Haven, Yale University Press, 1953 (Trad. Fr. La Philosophie Des Formes Iques, Paris, Éditions De Minuit, 1972).

Contamine, Henri

- La Communauté Européenne Du Charbon Et De L'acier, Paris, Lgdj, 1953

- L’Europe Est Derrière Nous, Paris, Librairie Arthème Fayard, 1953.

Dahl,Robert A./ Lindblom, Charles

Politics, Economics And Welfare, 1953 (Trad. Cast. Política, Economia Y Bienestar, Buenos Aires, Ediciones Paidós, 1971).

Deleuze, Giles

Empirisme et Subjectivité, 1953

Deutsch, Karl

Nationalism And Social Communication. An Inquiry Into The Foundation Of Nationality, Cambridge, Massachussetts/Nova York, Mit Press/John Wiley & Sons, 1953.

Dias, José Sebastião Silva

Portugal e a Cultura Europeia. Séculos XVI a XVII, Coimbra, 1953.

Dufrenne, M.

La Personnalité De Base, 1953

Dumézil, Georges

Mythes et Dieux des Germains, 1953

Easton, David

The Political System. An Inquiry Into The State Of Political Science, Nova York, Alfred A. Knopf, 1953.

Evola, Giulio Cesare Andrea

Uomini E Le Rovine, 1953 (Les Hommes Au Milieu Des Ruines, Trad. Fr., Paris, Éditions Sept Couleurs, 1972).

Finkelstein/ Bryson L./ Maciver, R. M./ Mckeon

Freedom And Authority In Our Time, Nova York, Harper Bros., 1953.

Friedman, Milton

Essay In Positive Economics, 1953

Garaudy, Roger

La Théorie Matérialiste De La Connaissance

Kirk, Russel

The Conservative Mind. From Burke To Santayana, Chicago, 1953 (Trad. Cast. La Mentalidad Conservadora En Inglaterra Y Estados Unidos, Madrid, Ediciones Rialp, 1956).

Lavau, Georges

Partis Politiques Et Realités Sociales. Contributions À Une Étude Realiste Des Partis Politiques, Paris, Librairie Armand Colin, 1953.

Macintyre, Alasdair

Marxism, An Interpretation, 1953.

Moore, Barrington

«The New Scholasticism And The Study Of Politics», In World Politics, 1953.

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Mounier, Emmanuel

L'Espoir des Desesperés, 1953 (A Esperança Dos Desesperados, Trad. Port., Rio De Janeiro, Paz E Terra, 1972).

Nisbet, Robert A.

The Quest For Community, Oxford, Oxford University Press, 1953.

Polin, Raymond

Politique Et Philosophie Chez Thomas Hobbes, Paris, Presses Universitaires De France, 1953.

Schuman, Robert

Origines et Élaboration du Plan Schuman, Bruges, 1953

Skinner, B. F.

Science And Human Behavior, 1953

Strauss, Leo

Natural Right And History, Chicago, The University Of Chicago Press, 1953 (Droit Naturel Et Histoire, Trad. Fr., Paris, Librairie Plon, 1954).

Viehweg, Theodor

Topik Und Jurisprudenz, 1953

© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: