1959

Da integração na Europa à revolta da Sé

 

Cosmopolis

© José Adelino Maltez, História do Presente, 2006

1959

 

Brigitte Bardot, Fidel de Castro e coexistência pacífica – Quando já está em pleno o regime da V República em França e Brigitte Bardot se destaca no cinema, assinala-se o triunfo da revolução castrista em Cuba (1 de Janeiro), com a conquista de Havana pelos guerrilheiros de Fidel de Castro e a fuga de Fulgencio Batista, que se há-de refugiar no Estoril. Dá-se também a expulsão do Dalai Lama do Tibete (31 de Março), depois de uma revolta independentista, duramente reprimida pelo governo de Pequim, e a vitória eleitoral dos conservadores britânicos (8 de Outubro), para além do encontro de Eisenhower e Khruchtchev em Camp David (25 de Setembro), onde se consagra o princípio da coexistência pacífica e do chamado apaziguamento ideológico, procurando-se a contenção da corrida armamentista. Entre nós, o PCP lança as chamadas Juntas de Acção Patriótica que, em1962, passam a integrar a FPLN e surgem as revistas Tempo Presente e Cidadela, enquanto é aberto concurso público para a construção da nova ponte sobre o Tejo (27 de Abril) e se inaugura em Almada o monumento do Cristo Rei, uma espécie de réplica do monumento do marquês de Pombal, agora com a Igreja Católica a comemorar a nossa não entrada na guerra (17 de Maio), bem como o Hospital de São João no Porto (24 de Junho) e o Metropolitano em Lisboa (29 de Dezembro), num tempo em que também recebemos a visita do presidente Sukarno da Indonésia (15 de Maio) e que assistimos à morte do Almirante Gago Coutinho (18 de Fevereiro) e ao incêndio da simbólica Igreja de São Domingos (13 de Agosto).

Fim do sidonismo presidencial – Lei de 29 de Agosto altera a Constituição. Presidente da República passa a ser eleito por um colégio eleitoral. Fim do modelo de sufrágio universal, instituído pelo sidonismo, mas que há-de ser retomado em1976. Salazar tenta assim evitar o temido golpe de Estado constitucional.

Em 5 de Janeiro Henrique Galvão foge do hospital de Santa Maria. Pede asilo político na embaixada da Argentina e parte, depois, para o exílio. Transforma-se numa das figuras míticas do oposicionismo.

Marcello Caetano torna-se reitor da Universidade de Lisboa, a convite de Leite Pinto, visando a instalação de um novo campus, a chamada cidade universitária. Assim se trava o separatismo marcelista. Conforme o comentário de Marcelo Rebelo de Sousa, Salazar rejubila com a ideia de manter Caetano ligado, embora mais de longe, ao Regime e ao Governo.

Revolta do Pidjiguiti – Repressão de estivadores no porto de Bissau, ponto de partida para a guerrilha na Guiné (13 de Agosto). Segundo os dados do PAIGC, cerca de 50 mortos e cem feridos. Nesse ano, Baltazar Rebelo de Sousa, subsecretário de Estado da educação faz uma visita a Angola e Moçambique, em Setembro e Outubro, para elaborar um relatório político sobre os territórios, de acordo com uma ideia lançada por Adriano Moreira, nas vésperas de assumir um lugar no governo.

Revolta da Sé – Está prevista para 11 de Março uma revolta contra o regime salazarista, liderada por Manuel Serra e pelo major Calafate, em torno de um Movimento Militar Independente, onde também terá participado o capitão Vasco Gonçalves, sob a protecção de Delgado. Outro dos conspiradores é o crónico capitão Carlos Vilhena. Movimentar-se-ia também o major Pastor Fernandes e o capitão Almeida Santos, oficial de ligação a Craveiro Lopes. A revolta, planeada em 18 de Dezembro de 1958, estava para deflagrar logo em 28 de Dezembro desse ano de 1958. Será a primeira vez que sectores católicos actuam numa conspiração. Manuel Serra passa, a partir de então, a ser qualificado como o Manecas das intentas. As reuniões conspiratórias ocorriam na Sé de Lisboa, com a condescendência do pároco, o padre Perestrelo de Vasconcelos. Depois de julgados e presos, os implicados são repartidos por Caxias, Aljube, Trafaria e Elvas. Desta última prisão, evadem-se o capitão Almeida Santos e o médico miliciano Jean-Jacques Valente, com o apoio do cabo Gil da GNR. As circunstâncias da fuga levarão ao assassinato de Almeida Santos, dando origem ao romance de José Cardoso Pires, A Balada da Praia dos Cães, donde é extraído um célebre filme.

Bispo do Porto no exílio – Depois de longas e atribuladas negociações entre Roma e Lisboa, onde participa como intermediário D. José da Costa Nunes, o bispo D. António Ferreira Gomes é obrigado a deixar a diocese e o país, apenas podendo regressar dez anos depois (24 de Julho).

& Alves, José Felicidade: 67 ss., 89 ss.; Delgado, Humberto: 152, 153; Melo, Gonçalo de Sampaio e Melo (1984): 43 ss.; Pinto, Jaime Nogueira (I,1976): 61; Presos Políticos no Regime Fascista 1952-1960: 413 ss. (277 presos); Soares, Mário (1972/1974): 262; Sousa, Marcelo Rebelo de (1999): 86 ss., 123 ss.. Neste ano de 1959, a minha família passou a residir na cidade de Coimbra e eu fui frequentar a segunda classe na escola primária de São Bartolomeu, ao lado da Estação Nova. O meu professor era um quintanista de direito, a quem devo um dos principais impulsos na minha educação, depois da iniciação rural do ano anterior. Na escola, cantava-se A Oeste da Europa, bem juntinho ao oceano, fica o nosso Portugal. Em continente é pequeno, no império, o terceiro. Muitas palavras grandiosas, cujo conteúdo nenhum dos miúdos assimilava, até chegar o ano de 1960, quando apareceram as comemorações henriquinas, com a bandeira da Cruz de Cristo, hasteada ao lado da bandeira nacional, e todos nos passámos a sentir descendentes vivos dos marinheiros do Infante D. Henrique e de Vasco da Gama.

 

© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: