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1969 |
Da crise de Coimbra às eleições marcelistas |
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Cosmopolis |
© José Adelino Maltez, História do Presente, 2006 |
| Janeiro | Fevereiro | Março |
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| Portugal |
Velada pela paz em São Domingos (1969) Um grupo de
católicos, opositores do salazarismo, organiza na Igreja de S. Domingos em
Lisboa, na noite do começo do ano, uma
velada pela paz a que aderem cerca de dez de sacerdotes e centena e meia de
leigos. Lança-se então a célebre Cantata da Paz, do vemos, ouvimos e
lemos, não podemos ignorar. Nesse mesmo dia é distribuído à porta das
igrejas do Porto um documento de reflexão doutrinária sobre a matéria,
intitulado Porquê o Dia Mundial da Paz?
Turbulências oposicionistas – Os funerais de António
Sérgio assumem-se como manifestação oposicionista (25 de Janeiro). Comemorações
do 31 de Janeiro no Porto, com discurso de Mário Soares no Coliseu. Um grupo de
jovens, liderado por José Pacheco Pereira, decide vaiar o líder socialista,
sendo instrumentalizado pelo PCP, que, então, acusa Soares de ter feito um
acordo com o regime, quando largou o exílio de São Tomé. César Oliveira terá
comunicado a conspiração a José Luís Nunes, conhecendo então Mário Soares. Surto
grevista nos meses de Fevereiro e Março.
Revolta estudantil de Coimbra (17 de Abril). Com
Marcello Caetano ausente da metrópole, Américo Tomás e o ministro da educação
José Hermano Saraiva vão a Coimbra inaugurar o novo edifício universitário das
Matemáticas. A recém-direcção da Associação Académica, onde uma lista de unidade
antifascista havia vencido a direita, depois de uma disputadíssima e imaginativa
campanha eleitoral, pede, através do seu presidente, Alberto Martinsö
, para falar na cerimónia. As autoridades recusam. Está aceso um rastilho de
indignação e de repressão que vai mergulhar a cidade num estado generalizado de
desobediência cívica, falhando todas as tradicionais receitas repressivas que
apenas serviram para reforçar a unidade
estudantil sob o domínio da esquerda. Antes da cerimónia, o ministro da educação
visitara o então Liceu Normal D. João III, com um grupo de estudantes
finalistas, então marcados pela militância de direita, a protestarem contra a
falta de apoio às bibliotecas e a outras actividades culturais.
Marcelos – Marcello Caetano regressa a Lisboa depois
de viagem a Angola e Moçambique (21 de Abril). Há uma
manifestação de apoio no aeroporto e em frente à sua residência, onde participa
Marcelo Rebelo de Sousa. Nesse dia, comemora-se o 20º aniversário da NATO.
Greve aos exames – Em 2 de Junho1969 começa uma
greve a exames, apenas desmobilizada em Setembro. Cerca de meia centena de
líderes estudantis são compulsivamente integrados no serviço militar e a própria
população da cidade olha com simpatia para o fenómeno de revolta. Mesmo a
chegada do novo ministro da educação, o
coimbrão Veiga Simão, que escolhe um reitor afecto à esquerda, Gouveia Monteiro,
dito representante da Universidade junto do governo, não acalma o
processo, apenas formalmente encerrado quando, em 11 de Abril1970, numa
patética cerimónia, uma comissão de estudantes, presidida
pelo mesmo Alberto Martins, com Barros Moura, Celso Cruzeiro e Osvaldo e Castro,
se desloca a Lisboa para pedir compreensão e benevolência ao venerando
Chefe de Estado, na presença do ministro da justiça, Mário Júlio de Almeida
Costa, com discursos do Reitor, numa manobra de apaziguamento, onde intervieram
professores como Teixeira Ribeiro, Sebastião Cruz e Paulo Quintela. Tomás, em
discurso, concede formalmente a benevolência: a minha dificuldade reside
somente na impossibilidade de compreensão para o que não é possível compreender.
Os estudantes serão amnistiados e perdoados. Sebastião Cruz há-de ser um dos professores
saneados pelo PREC, sem contar com a benevolência de colegas e dos líderes
estudantis de esquerda que apoiara.
Remodelação governamental (27 de Março). Mudança na
equipa económica. Dias Rosasö substitui Correia de
Oliveira na economia, mantendo as finanças. Entra a ala tecnocrática do
marcelismo a nível dos secretários de Estado: Rogério Martins, na Indústria;
Xavier Pintado, no Comércio; Costa André, no Tesouro; João Salgueiro, como
subsecretário de Estado do Planeamento Económico. Rogério Martins chama para
colaboradores João Cravinho (Gabinete de Planeamento), José Torres Campos
(Direcção-Geral da Indústria) e Magalhães Mota (chefe de gabinete). Isto é,
parte dos colaboradores do gabinete de estudos do grupo CUF ascende brevemente
Às antecâmaras do poder, uns preparando funções governamentais no abrilismo,
outros ensaiando futura militância
socialista.
Eleições livres! O governo anunciou já com todas
as letras que as eleições vão ser eleições a
disputar em igualdade para todas as candidaturas de deputados da nação (José
Guilherme de Melo e Castro).
Reformas marcelistas – Novo regime da liberdade
sindical (Decreto-Lei no 49 059, de 14 de Junho). Lei nº 2144 alarga o abono de
família aos trabalhadores rurais e reforma as Casas do Povo (29 de Maio), a
primeira grande medida do chamado Estado Social. Reforma do regime da negociação
colectiva (28 de Agosto). Criação da Direcção-Geral de Segurança, substituindo a
PIDE (DL, nº 49 401, decisão do Conselho de Ministros do dia 18, publicada no
dia 24 de Novembro). Novo regime do contrato individual de trabalho (DL 49 408,
de 24 de Novembro).
Por um corporativismo de associação. O nosso
regime corporativo tem de evoluir progressivamente para um corporativismo de
associação em que permanentemente se respeite a liberdade de associação e de
inscrição, a espontaneidade na constituição (Joaquim da Silva Pinto).
Eleição nº 62 para a Assembleia Nacional (26 de
Outubro). Lei nº 2 137 de 26 de Dezembro de 1968, estabelece o sufrágio
feminino. Decreto-lei nº 49 229 de 10 de Setembro também permite que se atinja
um recorde de 1 809 000 eleitores. Lista da União Nacional obtém 980 000 votos.
Eleições relativamente livres com a participação de três listas de oposição.
CDE obtém em Setúbal 34,7%; em Lisboa, 18,5%; no Porto, 5,1%. CEUD obtém 7,8% no
Porto. CEM apenas 0,8. Rejeitados cinco candidatos da oposição e toda a lista
que esta apresentou em Moçambique, aqui com o argumento de não fazerem prova
de serem portugueses. Entre os potenciais candidatos, António Almeida
Santos, Carlos Adrião Rodrigues, Eugénio Lisboa e Rui Knopfli.
O regime introduz mecanismos propagandísticos, cabendo a
tarefa à agência Latina, dirigida por Jorge Tavares Rodrigues que também produz
vários trabalhos de contra-informação para Marcello Caetano, em conjugação com
César Moreira Baptista e Clemente Rogeiro. O slogan de campanha da União
Nacional é Tenha confiança no futuro, enquanto a CDE opta por Na tua
voz, a força do povo e a CEUD prefere ser Por um Portugal livre e melhor.
CDE – Comissão Democrática Eleitoral, criada por
ocasião da campanha eleitoral de 1969, por influência do PCP. Tem papel activo
nos Congressos de Aveiro. Depois de 1974 transforma-se em Movimento Democrático
Português, admitindo como participantes o PCP, o MES, o PS e, de forma efémera,
o próprio PPD. Entre os militantes de Lisboa mais conhecidos, destacam-se
Francisco Pereira de Moura, José Manuel Tengarrinha e Urbano Tavares Rodrigues.
Elege deputados para a Assembleia Constituinte, em1975, mas perde a função
quando se transforma na correia de transmissão dos comunistas, tendo em
vista a instrumentalização do frentismo antifascista.
CEUD. Comissões eleitorais ligadas à Acção Socialista
e a católicos amigos de Mário Soares, que apresentam listas em Lisboa, Porto e
Braga, em disputa com a CDE, influenciada pelos comunistas. No restante país, há
listas unitárias e mesmo Maria Barroso, esposa de Mário Soares, nelas se
candidata por Santarém. O monárquico
Gonçalo Ribeiro Teles e o ex-Opus Dei, Ruy Belo são também candidatos pela CEUD,
enquanto o futuro socialista Mário Sottomayor Cardia
aparece em Lisboa, como candidato pela CDE.
CEM Lista da oposição monárquica, liderada por
Henrique Barrilaro Ruas. Distingue-se da restante oposição pela perspectiva assumida quanto à
questão ultramarina, dado que se afirma pela tese do
ser contra as perspectivas do abandono, defendidas por socialistas e
comunistas, e as do ter ou
estar que seriam típicas da história do regime, do Acto Colonial ao
marcelismo. Entre os candidatos, Francisco Rolão Preto.
Terceira força. Na sequência da esboçada União
Patriótica de 1961, chegam a ser emitidos comunicados de certas facções
republicanas, oposicionistas, mas adeptas da defesa do Ultramar, que se
identificam como a Terceira Força, onde pontificam os maçons Nuno Simões,
Acácio Gouveia e Mário de Azevedo Gomes.
Já a Acção Democrato-Social, então presidida por
Francisco da Cunha Leal propõe a abstenção, numa declaração emitida em 27 de
Setembro. Subscrevem-na, entre outros, Luís Dias Amado, Acácio Gouveia, Nuno
Rodrigues dos Santos, Carlos Sá Cardoso, Mário Silva e Fernando Lopes.
Almoços marcelistas à procura de aliados – Em Novembro e
Dezembro de 1969, Marcello Caetano reúne, na Messe da Força Aérea, em Monsanto,
em dez almoços, cerca de cem personalidades sobre o futuro do regime,
nomeadamente sobre a criação de associações políticas. Diogo Freitas do Amaral,
Miguel Galvão Teles e João Salgueiro, minoritários, aconselham quanto à criação
de partidos políticos.
Extrema esquerda em revistas – Quando Portugal é
afectado pela epidemia da chamada gripe de Hong Kong, surge o Estrela
Vermelha a partir de Paris. Considera-se o órgão teórico do CMLP. Ainda se publica em Março de 1972.
Em Fevereiro, surgem os Cadernos
GEDOC, Grupo de Estudos e Intercâmbio de Documentos, em Fevereiro, dirigidos por
Nuno Teotónio Pereira, com Mendes Mourão, José Felicidade Alves, José Manuel
Galvão Teles, Padre Fernando Melro, Eduardo Veloso e Padre Francisco Fanhais.
Mário Soares vai a Coimbra participar num colóquio promovido pela República dos
Kágados.
Em Março começa a emitir-se o Unidade Popular a
partir de Paris, órgão do Comité Marxista-Leninista
Português. Em Agosto de 1971 passa a ser órgão do Partido Comunista de Portugal Marxista-Leninista.
Em Dezembro editam-se no Porto os
Cadernos Necessários, liderados por Mário Brochado Coelho.
Funda-se também a editora Afrontamento, onde participa César Oliveira, e que
publicará as obras do Padre Mário Oliveira bem como o processo do julgamento do
padre Joaquim de Andrade que, então, se encontra com
residência fixa em Vila Nova de Gaia (Dezembro).
E, a partir de então, quem não esteja nesta extrema-esquerda não estará no mundo
da inteligência lusitana. Apesar de muitos deles se dispersarem, desde a direita
mais radical à esquerda mais suave, todos conservam a metodologia totalitária do
sindicato das citações mútuas e o provincianismo de reduzirem o mundo à
respectiva província mental.
Oposição à procura de unitarismo antifascista –
Encontro da oposição em Alcobaça (13 de Abril). Para além de socialistas e
comunistas, participa Arnaldo de Matos, que faz uma intervenção bastante crítica
para com o PCP, o que terá deixado Mário
Soares bastante entusiasmado.
O II Congresso Republicano de Aveiro,
visando a preparação das eleições, reflecte o momento de primavera
política, sendo as respectivas sessões relatadas pelos jornais (15 de Maio).
Estão presentes cerca de 1 500 delegados. Preside à sessão inaugural Hélder
Ribeiro. As sessões são dirigidas por Rodrigues Lapa e Orlando de Carvalho. As
teses serão publicadas integralmente pela Seara Nova. Segue-se reunião
da oposição em S. Pedro de Muel aprova Plataforma de Acção Comum (15 de
Junho). Nova reunião da oposição no Palácio Fronteira, promovida por
Francisco Sousa Tavares (1920-1993), Arlindo Vicente e Francisco Pereira de
Moura, onde se nota uma tensão dos comunistas com o grupo de Mário Soares (13 de
Julho). Em Argel, a FPLN afasta o representante do PCP, Pedro Soares, e
afirma-se revolucionária (9 de Novembro). J. A. Silva Marques formaliza
o processo de ruptura face ao PCP, em 15 de Dezembro, escrevendo uma carta
aberta a todos os militantes e amigos do Partido Comunista Português.
Os amigos de Mário Soares – Nota da DGS informa ter
sido aberto procedimento criminal contra Mário Soares (3 de Maio). Palma Inácio
evade-se da cadeia onde está detido, no Porto (8 de Maio), passando para Madrid,
onde fica retido durante seis meses. Convenção dos socialistas no Porto (31 de
Maio). Surge um comunicado subscrito por António Macedo, Salgado Zenha, Mário
Soares, Raúl Rego, Teófilo Carvalho dos Santos e Vasco da Gama Fernandes. ASP é
convidada para o Congresso da Internacional Socialista em Inglaterra. (de 16 a
20 de Junho). Participam Francisco Ramos da Costa e Manuel Tito de Morais.
Delegação da Internacional Socialista é expulsa de Portugal (31 de Outubro)
Bispo do Porto – Marcello Caetano dirige uma carta ao
Bispo do Porto, autorizando-o a regressar a Portugal (31 de Maio), o que se
concretiza no dia 18 de Junho. Vai a Fátima e a notícia é divulgada pelo
vespertino A Capital (19 de Junho). No dia seguinte, a notícia é
desenvolvida no Diário de Lisboa. Concede uma entrevista ao jornalista
Mário Ventura Henriques que é publicada no jornal Diário Popular (21 de
Junho). Dá uma entrevista ao Jornal de Notícias, onde defende a
necessidade de uma imprensa livre: o povo português precisa de uma imprensa
livre, porque é mais importante que uma imprensa católica... a imprensa não
precisa de ser católica para ser séria (6 de Julho). No dia 8, o
jornal A Voz critica esta entrevista falando em tristes sinais dos
tempos em Portugal. Bispo do Porto instala-se finalmente no Paço Episcopal
do Porto no dia 5 de Julho, tendo como auxiliar D. Alberto Cosme de Amaral e
como vigário-geral D. Manuel Martins.
As fronteiras do marcelismo – Em 28 de Setembro
começa a campanha eleitoral com três listas da oposição: comunistas e aliados na
CDE; socialistas na CEUD e monárquicos na CEM. A UN renova dois terços das
listas. Regressam marcelistas de 1961, como Camilo de Mendonça e Manuel José
Homem de Melo. Quatro candidatos do Porto apresentam manifesto autónomo
(Francisco Sá Carneiro, Joaquim Macedo, Joaquim Pinto Machado e José da Silva).
O contacto entre Melo e Castro, então apoiado pelo jovem Basílio Horta, e estes
candidatos é feito através de Mário Pinto que, então, vive no Porto, onde também
será o principal coordenador da SEDES.
Salazar sai do Hospital da Cruz Vermelha,
instalando-se na residência oficial na Rua da Imprensa, junto ao palácio de S.
Bento, onde tem a ilusão de continuar a ser presidente do conselho (5 de
Fevereiro). Faz oitenta anos, em 27 de Abril, e tem uma patética intervenção na
RTP. Concede entrevista a Roland Faure do jornal L’Aurore, em 6 de Setembro,
onde ainda julga, ou finge, ser Presidente
do Conselho, achando que Marcello Caetano está a dar aulas
na Faculdade de Direito de Lisboa: gosta do poder, não para obter benefícios
pessoais, pois é muito honesto, mas gosta do poder pelo poder. Segundo
Marcelo Rebelo de Sousa, preferia, talvez, fingir e deixar os interlocutores
fingirem também.
Tierno Galván vem a Lisboa em Setembro, firmando acordo
com Mário Soares. Formalmente, é convidado pela Ordem dos Advogados, sendo alvo
dos protestos do jornal A Voz. Raul Morodó, em nome do Partido Socialista
Popular, participa no próprio Congresso Republicano de Aveiro.
Mais turbulências – Greve na Lisnave (11 de Novembro),
havendo intervenção da GNR e da polícia de choque. Se os grevistas conseguem um
aumento de 8%, há, contudo, centenas d despedimentos. Constituído o Conselho
Nacional de Socorro aos Presos Políticos em Dezembro. Em Janeiro de 1970 já
divulga um manifesto ao país.
A primavera política – No plano meramente doméstico,
o Portugal político do último quartel do século XX tem o seu marco genético nas
eleições para a Assembleia Nacional de 26 de Outubro de 1969, não tanto pelos
resultados quanto pela campanha eleitoral e pelo conjunto de pessoas mobilizadas
pelas listas da situação e da oposição. Marcello Caetano, tentando
imitar o empirismo organizador do salazarismo inicial, trata, então, de
alargar a respectiva base de apoio, procurando o colaboracionismo de quem duvida
em ser hostil ao regime. Assim, nas listas da União Nacional, integram-se os
futuros membros daquilo que será qualificado como ala liberal. Outra
novidade está no modelo da oposição que, abandonando o esquema da unidade
antifascista e da frente popular, aparece dividida entre a
Comissão Democrática Eleitoral (CDE), liderada pelos comunistas, e a
Comissão Eleitoral de Unidade Democrática (CEUD), apenas concorrente em
Lisboa e Braga, afecta ao grupo de amigos de Mário Soares e Salgado Zenha, para
além de uma simbólica Comissão Eleitoral Monárquica (CEM), reunindo
monárquicos oposicionistas não afectos à Causa Monárquica que, apesar de
defenderem a democracia pluralista, advogam uma solução integracionista para a
questão ultramarina. Embora os resultados levem as listas do regime à ocupação
da totalidade dos lugares postos a sufrágio, alguma coisa muda, porque a
campanha, embora curta, é relativamente livre, com largos reflexos na imprensa
não afecta ao regime, nomeadamente em A Capital, República e
Diário de Lisboa. Emerge também, à esquerda, uma nova geração universitária,
nascida dos movimentos estudantis marcados pelo Maio de 68. Mesmo à
direita surge uma nova sensibilidade que recebe acolhimento nas páginas do
periódico Política, aparecido em 22 de Novembro, sob a direcção de Jaime
Nogueira Pinto e onde chegam a colaborar Francisco Lucas Pires e José Miguel
Júdice. Esboça-se assim uma linha de direita quase oposicionista, que uns acusam
de ultra e de extrema-direita e que os próprios qualificam como
via nacional-revolucionária, com o discreto apoio de Franco Nogueira,
Adriano Moreira e Francisco Casal Ribeiro, uma coligação negativa de quem
queria aparentar estar pela revolução nacional contra a traição
marcelista, infestada de tecnocratas, dúbios, cobardes e traidores. A
primavera política em breve vai murchar, apesar de, em Fevereiro de
1970, o partido único do regime passar a designar-se Acção Nacional Popular,
alguns meses antes do falecimento de Oliveira Salazar (27 de Julho). Entretanto,
dá-se o assassinato de Eduardo Mondlane (3 de Fevereiro) e o escritor Luandino
Vieira é libertado do Tarrafal (Agosto).
& Alves, José Felicidade: 245 ss.; Avilez, Maria João: 51; Oliveira, César: 97, 98, 99; Pinto, Jaime Nogueira (I,1976): 151 ss., 189 ss., 265; Rego, Raul: 13, 17, 29, 123; Sousa, Marcelo Rebelo de: 267, 270, 283; Soares, Mário (1972/1974): 423; Sousa, Marcelo Rebelo de (1999): 206, 224 ss.; Tomás, Américo (IV): 65, 68.
© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: