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1972 |
Da tecnocracia marcelista à Capela do Rato |
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Cosmopolis |
© José Adelino Maltez, História do Presente, 2006 |
Luta armada comunista – Atentado da ARA (Acção
Revolucionária Armada) no cais de Alcântara (17 de Janeiro). Criação da UEC.
ARA promove o corte de energia eléctrica em Belas, Vialonga e Caneças (9 de
Agosto).
A LUAR assalta uma carrinha do Banco de Agricultura
em Paris (9 de Abril).
As Brigadas Revolucionárias tentam cortar energia
eléctrica no país (1 de Maio), assaltam o paiol de uma pedreira no Algarve (11
de Junho), distribuem petardos contra a eleição presidencial (Julho), sabotam
instalações da Marconi em Palmela e Sesimbra (25 de Setembro), assaltam agência
do Banco Português do Atlântico em Alhos Vedros (6 de Novembro), assaltam
Serviços Cartográficos do Exército, donde retiram mapas para os movimentos
independentistas africanos (Dezembro) e fazem explodir engenhos no Distrito de
Recrutamento e Mobilização, no Quartel-Mestre General e nos Serviços
Mecanográficos do Exército, com dois mortos e uma dezena de feridos (10 de
Dezembro).
Socialistas – Adesão da ASP à Internacional
Socialista. Mário Soares discursa em Viena no XII Congresso da Internacional
Socialista. Calmann Lévy edita-lhe Le Portugal Bailloné (28 de Junho).
António Alçada Baptista conclui as Conversas com Marcello
Caetano, editadas em Outubro.
O estudante de direito José António Ribeiro dos Santos,
ligado ao MRPP, é morto a tiro por agentes da DGS no decorrer de um comício no
ISCEF (12 de Outubro). Transforma-se numa espécie de Catarina Eufémia do MRPP,
elevando o grupo às alturas do martírio e da santificação. Nas comemorações do
1º de Maio, as Brigadas Revolucionárias tentam um corte de energia eléctrica
para paralisar a actividade fabril, mas falha a operação de sabotagem.
Ala Liberal – Sai entrevista de Francisco Sá Carneiro
a Jaime Gama (15 de Abril), o jovem jornalista de República e futuro
fundador do Partido Socialista, concedida em 15 de Dezembro de 1971: se
amanhã me pudesse enquadrar em qualquer partido, estou convencido que dentro dos
quadros da Europa Ocidental comummente aceites, iria para um partido
social-democrata. Dá também entrevista à revista Flama,
confessando-se desiludido, mas não vencido (Fevereiro).
Sá Carneiro entra para o Conselho Coordenador da SEDES,
enquanto Magalhães Mota é eleito presidente do mesmo órgão (24 de Abril).
Colóquio da desta associação sobre Portugal e a Europa, moderado por
João Salgueiro, com José Manuel de Melo, Eugénio Mota e José da Silva Lopes.
Presentes cerca de 400 pessoas (25 de Julho).
Começa nova sessão legislativa da Assembleia Nacional (15 de
Novembro). Francisco Sá Carneiro envereda por uma atitude quase provocatória,
apresentando uma série de projectos de lei sobre liberdade de reunião, de
associação, bem como de alteração ao Código Civil e da organização judiciária.
Manifesto da SEDES Portugal: o país que somos, o país que queremos ser
(6 de Agosto).
Remodelação governamental. Cota Diasö
substitui Dias Rosas como ministro da economia e finanças. Rogério Martins e
Xavier Pintado saem do governo (9 de Agosto).
ANP – Elmano Alves sucede a Cota Dias na presidência da
comissão executiva da ANP, tendo como vogais, António Castelino e Alvim,
Clemente Rogeiroe Vasco Costa Ramos.
Renovações da continuidade – Decreto-Lei nº 150/72
extingue a censura prévia, criando o regime do exame
prévio (5 de Maio). Lei do fomento industrial de Rogério Martins, alarga o
processo de liberalização, alterando o regime do condicionamento industrial (27
de Maio). Giscard d’Estaing, então ministro francês das finanças, visita Lisboa
(dias 10 e 11 de Julho). Acordo de Portugal com a CEE (22 de Julho). Conselho de
Ministros aprova o plano geral do Complexo de Sines (30 de Novembro). Veiga
Simão anuncia na RTP a criação de novas universidades (19 de Dezembro)
A guerra continua – Costa Gomes sucede a Venâncio
Deslandes como CEMGFA (15de Setembro). Spínola encontra-se com Senghor no
Senegal, em Cabo Skirine (18 de Maio). Caetano reúne com Silva Cunha e ordena a
não continuação destas conversações (26 de Maio). Santos e Castro passa de
presidente da Câmara Municipal de Lisboa para governador-geral de Angola
(Outubro). Marcello Caetano, numa conversa em família, nega a
possibilidade de negociações com os movimentos de libertação africanos (14 de
Novembro). Massacre de Wiryamu, em Moçambique (16 de Dezembro). Amílcar Cabral
discursa perante o Conselho de Segurança da ONU reunido em Adis Abeba (1 de
Fevereiro). Missão da ONU desloca-se às chamadas zonas libertadas do PAIGC
na Guiné (de 2 a 8 de Abril). OIT condena a política colonial portuguesa (27 de
Junho). FRELIMO realiza o seu I Congresso em Dar-es-Salam na Tanzânia
(Setembro). Amílcar Cabral propõe a Spínola encontro em território português
(Outubro). A título de curiosa nota, saliente-se que o deputado Pinto Machado
foi mobilizado para Angola como major-médico, tal como antes seguir para Timor o
parlamentar Chorão de Carvalho, repetindo o gesto dos deputados da I República
que não invocaram as imunidades parlamentares.
Cristãos progressistas e guerra colonial – Surge o
Boletim Anti-Colonial emitido por cristãos, então adeptos da revolução
e do socialismo, com grande influência do Partido Revolucionário do
Proletariado, como Gabriela Ferreira, Luís Moita, Maria de Fátima Ribeiro, Maria
Luíza Sarsfield Cabral, Maria do Rosário Moita e Pedro Soares Onofre (Outubro).
Um grupo de activistas desse sector ocupa a Capela do Rato, organizando uma
vigília contra a guerra colonial (30 de Dezembro). Visa-se o Dia Mundial da Paz
e invoca-se o lema A Paz é Possível. Na acção destacam-se Luís Moita e
Nuno Teotónio Pereira. As boas relações do PRP com este sector lisboeta de
católicos, onde Carlos Antunes desempenha papel semelhante ao de Manuel Serra no
começo dos anos sessenta, graças ao magistério do escritor Nuno Bragança, quase
propiciam a hipótese de ser organizado um plano operacional, onde freiras
poderiam ser incluídas em grupos de assalto a bancos. De qualquer maneira, é a
primeira vez que o altar santifica o processo da esquerda revolucionariamente
armada, deixando de ser um dos sustentáculos do trono situacionista, onde
parecem pontificar jovens tecnocratas bonzos, modernizados por duas ou três
viagens ao estrangeiro donde trazem muitas fotocópias e óculos ray ban
com que se pavoneiam nas festas da linha de Cascais ou nos novos snacks
das velhas avenidas novas, onde fazem as suas conquistas.
Grupo da Luz – Outros cristão, liderados pelo padre
Vítor Milícias, constituem o chamado Grupo da Luz, juntando António
Guterres, Marcelo Rebelo de Sousa, Miguel Beleza, Diogo de Lucena, Virgílio
Meira Soares e Carlos Santos Ferreira, emergindo no dia do casamento de António
Guterres em 21 de Dezembro.
Reeleição de Tomás – Caetano formaliza por escrito
junto de Tomás a disponibilidade deste para a reeleição (23 de Junho). Na
altura, Francisco Sá Carneiro tenta encontrar um candidato alternativo, chegando
a contactar, por carta, António de Spínola, em 15 de Junho. Através de Francisco
Balsemão, procuram-se, aliás, outras alternativas, desde Venâncio Deslandes a
Kaúlza de Arriaga. Sá Carneiro contacta Spínola indirectamente, através de
Carlos Azeredo e chega a falar no Porto com Almeida Bruno e Dias Lima,
colaboradores do general. Entretanto, António de Spínola chega a Lisboa (24 de
Junho), antes da reunião da comissão central da ANP, onde se decide propor a
Américo Tomás a recandidatura, depois deste responder por escrito no sentido da
aceitação (30 de Junho). Finalmente, reúne o colégio eleitoral que reelege
Tomás. Há 29 listas nulas e 616 votos a favor. No mesmo dia, Mário Soares dá
conferência de imprensa na Casa dos Comuns, promovida pelos trabalhistas (25 de
Julho).
Associação com a CEE – Parecer da Câmara Corporativa
de 4 de Dezembro de 1972, sobre o acordo de Associação com a CEE, onde é relator
o embaixador Henrique Martins de Carvalhoö .
Aceita-se a perspectiva de Portugal como um povo geograficamente periférico
e fala-se na contraposição entre europeus e tradicionais, entre as
aspirações revolucionárias e as tendências conservadoras da manutenção,
insistindo-se que a vocação histórica do país tradicionalmente nos mantém
afastados dos problemas do continente, pelo que voltá-lo para a Europa
significa inverter-lhe as linhas normais de convívio, com benefícios
dificilmente previsíveis nos esquemas clássicos da economia. Acrescenta-se
que pôr o problema em torno de uma opção entre a Europa e o ultramar seria
sempre "um equívoco susceptível de criar um falso dilema" como disse o Sr.
Presidente do Conselho na alocução de 14 de Novembro último, nem algo foi
estabelecido ou solicitado nesse sentido, em virtude das negociações com o
Mercado Comum.
& Avilez, Maria João: 66, 67, 68, 70; Caetano, Marcello (Depoimento...): 27; Carneiro, Francisco Sá (I): 391; Ferreira, F. A. Gonçalves: 154; Pinto, Jaime Nogueira (II,1976): 105 ss; Soares, Mário (Escritos de Exílio...): 159; Tomás, Américo (IV): 229, 237, 251, 263.
© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: