1975
 

Novembro
Da morte de Franco à entronização de Juan Carlos

 

 

Reúnem em Rambouillet os seis grandes do Ocidente, por iniciativa da França, o que contribuiu para uma melhoria de relações com os EUA (Novembro)

ONU adopta, em 10 de Novembro, a resolução nº 379, considerando que o sionismo é uma forma de racismo e de discriminação racial, reafirmando o direito inalienável do posse palestiniano a possuir um território. A Resolução será apenas revogada em 16 de Dezembro de 1991

Surge o Surinam, com a independência da antiga Guiana Holandesa. Mas um terço da população prefere conservar a nacionalidade dos Países Baixos e o direito de emigrar para a antiga metrópole

Falecimento de Franco*; Juan Carlos presta juramento perante as Cortes franquistas (20 de Novembro)

Entronização de Juan Carlos (27 de Novembro)

A vertigem – No mês de Novembro, a sucessão de acontecimentos atinge a vertigem. No dia 6, num frente-a-frente transmitido em directo pela televisão, Mário Soares assume-se, em debate com Álvaro Cunhal como o principal líder anticomunista. Três dias depois o país anticomunista revê-se numa grande manifestação de apoio ao governo no Terreiro do Paço, também transmitida em directo pela televisão. No dia 12, a Assembleia Constituinte é sequestrada, na sequência de uma manifestação de operários da construção civil. Fala-se numa eventual invasão do MDLP para 1 de Dezembro.

Reunião conjunta do governo com o Conselho da Revolução (6 de Novembro).

O embaixador norte-americano Carluci decide visitar a cidade de Braga, então considerada o coração da contra-revolução (6 de Novembro).

Polícia desfaz piquete de trabalhadores que impedem o acesso de Ferreira da Cunha, Secretário de Estado da Informação e antigo colaborador de Costa Gomes, ao respectivo gabinete. Acusado de ter feito parte do CDI (Centro de Documentação Internacional), antes de 1974 (10 de Novembro), organismoconsiderado como elemento fundamental da chamada reacção internacional, onde também colaboraria o ex-ministro de Salazar, Adriano Moreira.

Incidentes em Santarém entre militares da EPC e assalariados agrícolas. Dois mortos e 25 feridos (6 de Novembro).

Bomba contra militante comunista em Valpaços (6 de Novembro).

Um manicómio em auto-gestão – Paraquedistas do AMI rebentam à bomba emissor da Buraca da Rádio Renascença, de acordo com ordens de Pinheiro de Azevedo (7 de Novembro). Petardo contra sede do PS em Lisboa (7 de Novembro). Manifestação contra o rebentamento (8 de Novembro). PRP em comunicado faz apelo directo à revolução armada (8 de Novembro). Esquadras da PSP em Lisboa são atacadas à granada (8 de Novembro). Conferência de imprensa na sede da ADFA de uma Associação Revolucionária dos Militares na Disponibilidade que se propõe preencher o vácuo deixado pelo afastamento dos militares revolucionários (8 de Novembro).

Brejnev e Ford encontram-se em Vladivostoque e subscrevem uma espécie de Tordesilhas sobre o que resta de Portugal. Os soviéticos são autorizados a avançar em Angola, mas o PCP desiste de tomar o poder em Lisboa. Coincidentemente, muda a atitude de Costa Gomes e Álvaro Cunhal começa a desmobilizar o apoio dado à nebulosa do chamado poder popular.

Grande manifestação de apoio ao VI Governo Provisório no Terreiro do Paço com transmissão em directo pela RTP. Ataque às aventuras de esquerda e ao golpismo do PCP. Rebentam granadas de gás lacrimogéneo lançadas pela Polícia Militar e petardos do PRP contra os manifestantes. Pinheiro de Azevedo clama o povo é sereno e que é só fumaça (9 de Novembro).

Plenários – Plenário na BETP onde se repudia operação contra o emissor da Buraca. 123 oficiais abandonam a unidade contra degradação das instituições militares. Dias antes os dois mil paraquedistas pedem passagem para a directa dependência do COPCON (10 de Novembro). Plenário da EPAM reconhece que crescem as possibilidades de um golpe fascista (10 de Novembro). Otelo diz que não volta a reuniões do Conselho da Revolução (10 de Novembro). Para-quedistas tomam conta da base de Tancos e colocam-se na dependência do COPCON. Otelo promete-lhes armamento pesado (11 de Novembro).

Independência de Angola (11 de Novembro). É declarada com o jovem Estado fragmentado por movimentos político-militares em guerra civil, que constitui uma espécie de guerra de procuração, com o bloco soviético a apoiar o MPLA e o chamado Ocidente a hesitar entre a enfraquecida FNLA, a animada UNITA e outros agentes, nomeadamente os sul-africanos e alguns mercenários.

Cerco à constituinte Declarada greve da construção civil (10 de Novembro). Operários grevistas da construção civil sequestram a Assembleia Constituinte. Cerca de 100 000 em greve (12 de Novembro). Continua cerco a S. Bento. Deputados apenas podem sair às 12 horas e 30 minutos. Cerco apoiado por trabalhadores agrícolas do sul (13 de Novembro).

Diário de Lisboa em primeira página anuncia que oficiais reaccionários do Porto ameaçam marchar sobre Lisboa (12 de Novembro). Otelo em Beja defende revolução proletária e poder popular. Rompe definitivamente com Pinheiro de Azevedo (13 de Novembro).

Manifestação em Viseu de apoio ao VI Governo Provisório com ocupação Emissor Regional (13 de Novembro). Entrevista de Alpoim Calvão ao jornal Comércio do Porto (13 de Novembro). Sá Carneiro é entrevistado pela BBC e pelo Jornal de Notícias (13 de Novembro).

Diploma nacionaliza a Companhia das Lezírias (13 de Novembro).

Manifestação do PCP e da FUR no Terreiro do Paço também é transmitida em directo pela RTP, com Otelo a apoiar o evento (16 de Novembro). Há tractores e atrelados, neste fim de Verão de S. Martinho. O PS fala em insurreição, o PCP (ml) diz que a manifestação até deveria ter sido proibida. Afinal a insurreição manifesta não passa de uma manifestação insurrecta e Álvaro Cunhal até decide dar uma volta pelos países de Leste. Fica uma espécie de triunfalismo balofo, com o actor José Viana a fazer teatro e com o capitão Costa Martins a aparecer inesperadamente. Gritam todos por Vasco, chamam-lhe a muralha de aço, repetindo uns versos do crítico televisivo Mário Castrim, mas Vasco não é Lenine. Clamam por Otelo, mas o comandante do Copcon também não é Trotsky nem sequer Fidel de Castro, apesar de recente estágio triunfal nessa pátria da revolução barbudamente açucarada. O PCP parece não ter suficiente força para saltar para o cavalo do poder.

Filme do golpe final do PREC – Pinheiro de Azevedo declara o governo em greve: estou farto de brincadeiras, já fui sequestrado duas vezes. Já chega! Não gosto de ser sequestrado, é uma coisa que me chateia. Apenas não cumpre a ordem o ministro comunista Veiga de Oliveira (18 de Novembro). Nesse dia é encerrada a Academia Militar e Vasco Lourenço na RTP confirma a existência de escutas telefónicas manipuladas pelo bloco dos comunistas e da extrema-esquerda. Há também uma reunião em Belém dos chefes dos três ramos das forças armadas com elementos do grupo dos Nove a criticar Otelo. O Século e o Diário de Notícias anunciam para o dia seguinte um golpe da direita.

Na RTP, um programa do CEMGFA transmite uma reportagem sobre as comemorações da revolução soviética em Moscovo, e oficiais que abandonaram Tancos encontram-se na base aérea da Cortegaça. Morais e Silva determina a passagem à reserva de 1200 para-quedistas (19 de Novembro). Incendiada sede do PS em Ermidas/Sado.

Um Secretariado Provisório da Cintura Industrial de Lisboa manifesta-se em Belém exigindo a demissão do VI Governo Provisório (dia 20). Capitão Cabral e Silva do Regimento de Polícia Militar defende então o poder popular armado. Vasco Lourenço é nomeado Comandante da Região Militar de Lisboa. COPCON apoia paraquedistas de Tancos. Cunhal regressa da URSS.

No dia 21, Jaime Neves no plenário do Regimento de Comandos promete defender a vontade da maioria e oficiais da Região Militar de Lisboa recusam obedecer a Vasco Lourenço, enquanto 170 recrutas juram bandeira no RALIS de punho erguido, perante Carlos Fabião.

No dia 22, manifestação do PS no Porto, com o jornal A Luta a alertar para um golpe militar que estaria a ser preparado pela FUR.

No dia 23, Sá Carneiro em Bona com Willy Brandt e Helmut Schmidt. Há um comício do PS na Alameda apoiando Vasco Lourenço e Otelo entrevistado na RTP, para criticar Jaime Neves, o VI governo provisório e Vasco Lourenço, enquanto regressam de Angola por mar as últimas tropas portuguesas.

No dia 24, CAP corta estradas em Rio Maior. Linha férrea do Oeste e Linha do Norte também são cortadas na região.

No dia 25, paraquedistas de Tancos ocupam bases aéreas de Monte Real, Ota e Montijo, Polícia Militar ocupa a Emissora Nacional e EPAM ocupa a RTP. É declarado o estado de sítio em Lisboa na Região Militar de Lisboa, que dura até 2 de Dezembro.

No dia 26, Comandos da Amadora controlam Regimento da Polícia Militar na Ajuda e triunfa o contra-golpe dos moderados. Melo Antunes declara que o PCP é necessário à democracia.

No dia 27, Ramalho Eanes é indicado para CEME e dissolvido o COPCON. Jornal Novo publica edição especial impressa nas oficinas do Diário de Coimbra. Há bombas em Braga, Viana do Castelo e no Porto.

No dia 28 já Pinheiro de Azevedo, na RTP, declara que chegou a hora dos partidos políticos. A base de Tancos volta à normalidade, enquanto Zeca Afonso, fardado de paraquedista, é aí detido, numa patética cena de mitificada resistência, digna de um filme surrealista. Suspensa a publicação dos jornais estatizados. Emitidos mandatos de captura contra Duran Clemente e Varela Gomes

 

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©  José Adelino Maltez, História do Presente (2006)

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