1988

Da geração Constâncio ao regresso de Freitas ao CDS

Cosmopolis

© José Adelino Maltez, História do Presente, 2006

Novas lideranças políticas: uns saem, outros regressam – Congresso do CDS na Póvoa do Varzim (31 de Janeiro), com o regresso de Diogo Freitas do Amaral à presidência e a negociada saída de Adriano Moreira, que, em contactos com a CIP, ainda tenta mobilizar Daniel Proença de Carvalho para gerir o alvará do partido. Convenção do PRD, com a demissão de Eanes e a eleição de Hermínio Martinho para a presidência (29 de Maio). Vítor Constâncio demite-se da liderança do PS (27 de Outubro).

Turbulências – Fracassa greve geral convocada pela CGTP e pela UGT (28 de Março). O pretexto é o combate ao pacote laboral que pretende introduzir alguma flexibilidade na rigidez do contrato de trabalho. Aparece morto na Malveira da Serra o líder da RENAMO, Evo Fernandes (21 de Abril). Um soldado da GNR faz uma chacina na parada do quartel da Ajuda (23 de Novembro). Quatro mortos e quinze feridos. São silenciadas as rádios locais que emitiam sem autorização, de acordo com a nova lei da rádio (24 de Dezembro).

 

Jornais e política – Novo semanário. Iniciada a publicação de O Independente, dirigido por Miguel Esteves Cardosoö e Paulo Portas, com a administração de Luís Nobre Guedes e os fundos financeiros mobilizados por Miguel Pais do Amaral (20 de Maio). Privatização de A Capital, com a compra do jornal por Pinto Balsemão (7 de Setembro). Surge o jornal Europeu, ligado ao eanismo (10 de Novembro). Uma década e meia volvida, as sementes lançadas pelos descendentes dos viscondes da Anadia e de Balsemão, os mesmos que já mandavam nos tempos do príncipe regente, levam a que os representantes das duas tradicionais famílias se transformem nos principais donos do poder na comunicação social portuguesa, comandando as televisões privadas e podendo controlar decisivamente a opinião pública e a luta política, ao escolherem os comentadores que hão-de interpretar aquilo que os mesmos decretam como a direita e a esquerda da democracia. Quase se estabelece uma espécie de condomínio entre estes fidalgos de sempre e a nascente burguesia dos novos ricos da província, a quem é deixado o controlo dos clubes de futebol e do dirigismo federativo, duas das principais redes, em torno das quais se feudalizam os novos dirigentes políticos, onde se recrutam governantes e deputados. Não é por acaso que, no Norte, são importantes o chamado grupo da sueca, na zona do PSD e do CDS, e que o comendador Gomes, um dos principais amigos do general Eanes, está intimamente ligado a Pinto da Costa que, por sua vez, aposta nas boas relações com dirigentes do PS.

Comunistas – Vital Moreira critica a direcção do PCP (16 de Janeiro). Zita Seabra é afastada da comissão política do PCP (6 de Maio). XII Congresso do PCP, sob o lema uma democracia avançada no limiar do século XXI (4 de Dezembro).

Incêndio no Chiado reduz a cinzas prédios e espaços comerciais da Baixa lisboeta. A zona levará cerca de 10 anos a ser reabilitada (25 de Agosto).

Eleições regionais. PSD mantém a maioria absoluta (9 de Outubro).

 

 

& Ortigão, Ramalho (Farpas, VI): 123, 124.

O PSD como federação de interesses – Já o PSD corre o risco de ser o partido do sistema, para o sistema e pelo sistema, dado que se acentua a tendência do mesmo partido do governo deixar de ser um partido, isto é, uma simples parte da opinião pública, para procurar assumir-se como o todo, congregando tudo e mobilizando todos. Ora, como já observava José da Silva Carvalho, em 1834, a tal opinião pública é um nome que muita gente costuma usurpar em favor da sua opinião particular. Nasce das circunstâncias, é móvel como elas e toma a cor dos partidos; é tão susceptível de erro como de verdade. Muitas vezes esclarece, muitas vezes necessita de ser esclarecida e sobretudo amadurecida pelo exame e pelo tempo que é o cadinho onde ela se apura. É natural que, nestas circunstâncias, se descaracterize, convertendo-se numa simples manifestação da média contabilística do eleitorado. Pragmaticamente, procura apenas exprimir os apetites do homem comum, e também corre o risco de passar a ter como objectivos as naturais flutuações desse mesmo tipo mediocrático. Sem construtivismo doutrinário e sem uma liderança de ideias, pode assim transformar-se numa simples federação de interesses, onde os programas vão a reboque das circunstâncias.

O deserto de ideias – É difícil encontrar noutras épocas da nossa história contemporânea um tal deserto de ideias a nível do poder central. Os líderes da I República, apesar da fome, da peste e da guerra, tinham um projecto a construir. Salazar tinha, também, uma certa ideia de Portugal. Marcello Caetano, apesar de fazer apelo ao homem comum da sociedade de consumo, enquanto havia vacas gordas, nunca deixou de ser um homem de pensamento, embora com constantes crises de fé, especialmente no tempo das vacas magras da crise petrolífera. Vasco Gonçalves, apesar de todo o delírio revolucionário, sabia o que queria e para onde ia, mas para onde, felizmente, não fomos. Com a maioria absoluta de Cavaco Silva, talvez falte um sentido regulativo a todo este ciclo de transição, o que explica o tabu que faz com que o gigante da maioria absoluta se afunde nos pés de barro de simples questiúnculas sobre portagens. Enquanto durarem os anos de ouro, o situacionismo está protegido pelo escudo invisível de uma certa mediocracia, onde domina a inversão de valores, típica do capitalismo selvagem, onde as regras do jogo não obedeciam à lei moral, ao sentimento da honra e ao direito à esperança.

© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: