1989

Cavaquismo: entre o preconceito da ordem e a personalização do poder

Cosmopolis

© José Adelino Maltez, História do Presente, 2006

 

Do IRS aos telemóveis. Entra em vigor a reforma fiscal que cria o IRS e o IRC (1 de Janeiro). Começam a funcionar os telemóveis em Lisboa e no Porto (5 de Janeiro). Atribuídos alvarás sobre as rádios locais (6 de Março). Governo aprova projecto de concurso para dois canais de televisão privada. Criada a Alta Autoridade para a Comunicação Social (15 de Dezembro). E tudo vai acontecendo quando o situacionismo insiste em balbuciar mecanicamente o balofo discurso da modernização, invocando constantemente o mito de 1992, a meta europeia de construção do mercado único.

Desastres e fenómenos. Acidente aéreo na ilha de Santa Maria nos Açores. 145 mortos (8 de Fevereiro). Desastre ecológico no rio Mondego, por descargas tóxicas (13 de Fevereiro). Vaga de frio em Portugal. Cai neve na serra do Algarve (3 de Abril). Queda de avião na Jamba, onde viajam João Soares, Nogueira de Brito e Rui Gomes da Silva (27 de Setembro).

 

Costa Freire demite-se de Secretário de Estado da Administração da Saúde (22 de Março)

Glórias e memórias. Portugal campeão mundial de juniores de futebol, em Riade (3 de Março). Anunciada a beatificação dos pastorinhos de Fátima (13 de Maio). Mário Soares visita Bissau, onde presta homenagem aos mortos da guerra colonial (21 de Novembro).

Confusões e turbulências. Congresso do PS; eleição de Jorge Sampaio (15 de Janeiro). Libertação de Otelo (17 de Maio). Confrontos em Barqueiros, na chamada guerra do caulino (26 de Junho). Grande incêndio, que dura três dias, devasta a serra da Arrábida (10 de Julho) Maré negra assola a costa alentejana (24 de Julho). Assassinado militante do PSR por skinheads (28 de Outubro).

Polícias contra polícias. Manifestação sindical da polícia no Terreiro do Paço. Polícia contra Polícia, ou o episódio dos secos e dos molhados, quando as forças da ordem se envolvem em autêntica desordem sem poderem invocar nem o tradicional aqui d'el rei nem o republicano ó da Guarda (21 de Abril). O Primeiro-Ministro logo declara que o sindicalismo policial está a ser instrumentalizado por forças extremistas, incluindo comunistas e alguns socialistas. Mas quando as instituições públicas caem na armadilha do anedótico é a própria confiança dos cidadãos nas suas instituições que fica seriamente abalada.

Segunda revisão constitucional, permitindo, nomeadamente, a total privatização do sector estadual da economia, uma das chamadas conquistas revolucionárias, resultantes do processo de nacionalizações do 11 de Março de 1975. Corporiza-se na Lei Constitucional nº 1/89, de 8 de Julho, sendo precedida por um Acordo entre o PSD e o PS celebrado em 14 de Outubro de 1988 com o objectivo de criar melhores condições para enfrentar os desafios da plena integração de Portugal nas Comunidades Europeias

Eleições europeias em Portugal: PSD, 32,7%; PS, 28,5%; CDU, 14,4%; CDS, 14,1% (15 de Junho).

Nas nossas primeiras eleições gerais exclusivamente europeias, o homem comum vê-se manipulado por uma clara massificação e não tem possibilidade de discutir os reais problemas de inserção de Portugal na construção da Europa, face ao abuso do propagandismo ridículo. Todos os partidos em confronto apresentam uma espécie de modelo pronto-a-vestir em regime de saldos que, depois de votado, não dá direito a reclamações. Com efeito, a adesão às Comunidades Europeias continua, nesse ambiente, uma espécie de facto consumado pelos novos ventos de uma história que tanto nos é servida à maneira do paraíso terrestre da árvore das patacas, como pelo inferno dantesco da nossa dependência, mas sempre como algo que nos é estranho.

Eleições autárquicas. Destaca-se a vitória de Jorge Sampaio em Lisboa, à frente de uma coligação do PS com o PCP. O PS é o partido que obtém o maior número de presidências de câmaras (17 de Dezembro).

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& Ferreira, Vergílio (1993, I): 95

÷ Da esquerda

Para a direita ø

Partido Social Democrata

Depois da morte de Sá Carneiro, Pinto Balsemão é eleito Presidente do PSD pelo Conselho Nacional. (13 de Dezembro de 1980).

No VIII Congresso do PSD, vitória de Francisco Pinto Balsemão (dias 20, 21 e 22 de Fevereiro de 1981), mas oposição interna consegue eleger um terço dos membros do Conselho Nacional (a lista é liderada por Eurico de Melo e Cavaco Silva; os balsemistas, por Leonardo Ribeiro de Almeida e Mota Amaral).

No IX Congresso do PSD no Porto, com reeleição de Pinto Balsemão (dias 5 e 6 de Dezembro de 1981). Mas a assembleia da área metropolitana de de Lisboa do PSD presidida por Cavaco Silva critica a liderança de Pinto Balsemão, considerando-a cinzenta e frouxa (11 de Junho de 1981).

Mota Pinto reinscreve-se no PSD, seis anos depois de ter abandonado o partido e depois de se assumir como mandatário da candidatura presidencial de Soares Carneiro (18 de Junho de 1981).

No X Congresso do PSD em Montechoro (dias 25 a 27 de Fevereiro de 1983). Balsemão é substituído por uma direcção colegial, com Nuno Rodrigues dos Santos, a presidente, e uma troika constituída por Nascimento Rodrigues, Eurico de Melo e Mota Pinto. Balsemão, segundo então se dizia, vai de vitória em vitória até à derrota final. Na votação para o Conselho nacional, espelha-se a divisão: lista de Mota Amaral, 11; a de Barbosa de Melo, 11; a de Helena Roseta, 44; a de Santana Lopes, 2; a de Menères Pimentel, 2.

Mota Pinto vence Congresso do PSD de Braga, em 25 de Março de 1984, reforçando as suas posições. Cresce a moção Nova Esperança, de Marcelo Rebelo de Sousa, José Miguel Júdice, Durão Barroso e Santana Lopes. Não se define o candidato presidencial do partido.

Mota Pinto demite-se do Governo e de Presidente do PSD (5 de Fevereiro de 1985), sendo substituído no dia 10 por Rui Machete.

No XII Congresso do PSD, em 19 de Maio de 1985, perante a candidatura de João Salgueiro, apoiada pelo situacionismo dos defensores do Bloco Central (nomeadamente Mota Amaral), aparece, de forma surpreendente, Aníbal Cavaco Silva.

O candidato de Boliqueime que, segundo as suas próprias palavras teria ido à Figueira para fazer a rodagem do automóvel, apresenta-se como intransigente oposicionista do Bloco Central.

Como factor surpresa adicional surge o facto de apoiar a candidatura presidencial de Diogo Freitas do Amaral que, entretanto, já havia sido desencadeada por figuras como Daniel Proença de Carvalho e Carlos Macedo.

Cavaco tem o apoio do grupo de Lisboa, com Marcelo Rebelo de Sousa, José Miguel Júdice, Pedro Santana Lopes e Durão Barroso e escolhe Fernando Nogueira como principal colaborador. Neste congresso é eleito presidente da comissão política, vencendo a lista de continuidade liderada por João Salgueiro.

PSD rompe a coligação governamental, em 4 de Junho de 1985, depois de reunião de Soares e Cavaco Silva, onde este se propõe avançar com os pacotes laboral e agrícola (12 de Junho de 1985).

Cavaco vai vencer sucessivas eleições, primeiro por mairia relativa e depois por mairia absoluta, criando aquilo que muitos qualificam como o Estado Laranja assente em várias zonas socialógicas, ditas do cavaquistão.

Acordo PS-PSD para a revisão constitucional, depois de negociações entre Fernando Nogueira e António Vitorino (14 de Outubro de 1988).

O cavaquismo foi conseguindo escrever direito por linhas tortas. Perante um partido que vivia em regime de dupla personalidade, com um pé no Bloco Central e outro na Aliança Democrática, Cavaco Silva descobriu o ovo de Colombo de desfraldar bandeiras contraditórias, conforme as circunstâncias. No Congresso da Figueira da Foz acenou com o fretismo e, logo a seguir, nas eleições legislativas de 1985, assumiu-se como verdadeiro herdeiro da AD, ungido pelo facto de ter sido o primeiro dos respectivos ministros das finanças, insinuamdo que o verdadeiro e bom CDS estava com ele e, de certa maneira, conseguiu transformar essas legislativas numa espécie de primeira volta das presidenciais.

Depois de chegar ao governo e a partir do momento em que Freitas perdeu as presidenciais, optou por uma estratégia isolacionista que, desvinculando-se da derrota presidencial, procurou crescer à esquerda, partindo do pressuposto que a direita era terra conquistada. Daí os apelos à esquerda moderna, os elogios de Eduardo Prado Coelho, os convites ao Clube da Esquerda Liberal, a rédea solta de Carlos Pimenta e certo folclore culturalista.

A estratégia compensou. A mistura de Nicolau Maquiavel com as novas tecnologias da informação teve como resultado uma maioria absoluta que misturou certa extrema-direita sociológica com algumas faixas do ex-eleitorado da APU. Muitos reaccionários da velha guarda enfeitaram-se de modernidade e antigos revolucionários acenderam velinhas ao sistema. Misturou-se o "tudo e o seu nada", desde o anarqueirismo do quanto pior melhor ao eterno conformista, marcado pela "doença da ordem".

Frente Republicana e Socialista

Coligação do PS, UEDS e ASDI instituída em 10 de Junho de 1980. Reclama-se do socialismo democrático e da social-democracia.

A ASDI tem, então, como figuras de proa Magalhães Mota, Sérvulo Correia e Guilhermo de Oliveira Martins.

A UEDS mobiliza o grupo de Maria de Lurdes Pintasilgo, nomeadamente Teresa Santa Clara Gomes.

Esquerda Liberal

Na Primavera de 1985, surge a revista Risco, dirigida por membros do clube da esquerda liberal, dominados por antigos militantes da extrema-esquerda, onde se destaca o ex-militante da UDP e futuro intelectual neo-conservador e neo-congreganista, João Carlos Espada. É então feroz popperiano, antes de se assumir como o novo guru de filosofia política da Universidade Católica, pela via da sua ascensão no grupo da revista Análise Social e graças a fortes financiamentos norte-americanos.

O grupo, onde também gravita José Pacheco Pereira, tratou de inventar uma direita liberal para polemizar e escolheu como representante desta alguém com quem os mesmos conviviam enquanto investigadores e colaboradores do Gabinete de Investigações Sociais e da revista Análise Social, uma espécie de estufa de desmarxização, onde outrora se transformara o corporativismo em progressismo cristão. Começava assim a desenhar-se mais uma das linhas da direita que convinha à esquerda e vice-versa, numa espécie de Bloco Central mental, onde o estilo de sacristia superava a resistência da maçonaria simbólica e da direita tradicional, onde Adérito Sedas Nunes vencia António Sérgio e a União de Interesses Económicos afastava em definitivo os irrequietos integralistas.

 

 

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