1992

Maastricht, teledemocracia e operação mãos limpas

Cosmopolis

© José Adelino Maltez, História do Presente, 2006

Maastricht, teledemocracia e operações mãos limpas – Clinton é eleito presidente norte-americano (Novembro), surge a NAFTA (17 de Dezembro) e, na Europa, com os jogos Olímpicos, decorrendo em Barcelona, é assinado o Tratado de Maastricht, instituindo-se a União Europeia (Fevereiro). Tanto começa a guerra na Bósnia (Abril) como se dá a intervenção internacional na Somália (Dezembro). É através do novo governo de maioria absoluta de Cavaco Silva que Portugal inicia a primeira presidência portuguesa da Comunidade Europeia. Dá-se, entretanto, uma profunda alteração na liderança dos partidos da oposição. No Partido Socialista, é eleito António Guterres; no CDS, surge Manuel Monteiro; antigos membros do PCP, constituem a Plataforma de Esquerda; finalmente, surge um novo secretário-geral no PCP, Carlos Carvalhas. O governo sofre, entretanto, os primeiros sinais de contestação social, com manifestações de estudantes contra o proposto regime das propinas e vagas de contestação de agricultores, descontentes com o processo de aplicação da Política Agrícola Comum. Em Julho é conhecido o desfalque do maior corretor português, Pedro Caldeira, enquanto Maria José Nogueira Pinto se demite do governo (19 de Agosto). Pela Lei Constitucional nº 1/92, de 25 de Novembro, ocorre a terceira revisão constitucional, visando a adequação ao Tratado de Maastricht. Para além da recepção do conceito de cidadão europeu e da alteração do estatuto do Banco de Portugal, o texto constitucional passa a defender a construção da união europeia... com respeito pelo princípio da subsidiariedade, tendo em vista a realização da coesão económica e social. No fim do ano iniciam-se as emissões da primeira televisão privada portuguesa, a SIC, liderada por Pinto Balsemão. Entra-se numa era nova, próxima da teledemocracia. A direita personificada pelo jovem líder Manuel Monteiro, recebe os impulsos de um discurso concebido pela geração do Independente, principalmente através do colunista Paulo Portas. No PSD pontifica a actuação mediática do antigo marxista-leninista maoísta, José Pacheco Pereira. No ano em que a Renamo assina com a Frelimo o acordo geral de paz para Moçambique, pondo fim a dezasseis anos de guerra civil, esta volta a Angola, depois da revolta de Luanda onde a Unita foi decapitada num só dia, com mil mortos, entre os quais os líderes do movimento Salupeto Pena e Jeremias Chitundo.

Do futuro federalista da Europa à nova ordem ecológica – No plano das ideias, no ano da morte de Hayek, quando Dusan Sidjanski reflecte sobre L'Avenir Fédéraliste de l'Europe e Nicholas Tenzer nos questiona sobre se as elites estão a levar ao fim a democracia, Francis Fukuyama transforma um artiguinho publicado três anos antes num pretensioso tratado The End of History and the Last Man, um best seller que a prática desmente. Luc Férry reflecte sobre a Nouvelle Ordre Écologique, prossegue a saga dos comunitaristas, questiona-se o fim da soberania (Joseph Camilleri). São muitas as pesquisas teóricas sobre a nova ordem mundial (Robert Tucker) e a nova geopolítica (Michael Ward). C. Colliot-Thélène fala sobre a história do desencanto do Estado, de Hegel a Weber, e Chantal Millon-Delsol reflecte sobre o Estado Subsidiário e o princípio da subsidiariedade. Teoriza-se o fanatismo (Dominique Colas), a predatory rule do político em África (Robert Fatton), a cultura do consentimento (John Kenneth Galbraith), os fundamentos morais das instituições do mercado (John Gray), a tribalização do mundo (Michel Maffesoli) e a corrupção da república (Yves Mény), num tempo de estranho pós-comunismo (G. Mink).

Do erro de Descartes à nova história de Portugal – Entre nós, no ano da morte da pintora Maria Helena Vieira da Silva (n. 1908), quando se conhece o desfalque do corretor Pedro Caldeira (23 de Julho), o Prémio Camões é atribuído a Vergílio Ferreira, enquanto o Prémio Pessoa vai caber a António e Hannah Damásio que, com a divulgação das respectivas pesquisas científicas, demonstram o erro de Descartes, dado ter-se desvalorizado a inteligência emocional e aquilo que Max Weber qualificou como a racionalidade valorativa ou axiológica. Já o historiador José Mattoso inicia a publicação de uma monumental História de Portugal que, de certa maneira, vai ocupar o lugar da que havia sido desencadeada por Damião Peres. Francisco Lucas Pires interroga-se sobre O Que é a Europa?, Luís de Sá reflecte sobre Eleições e Igualdade de Oportunidades e destaca-se a publicação das Memórias de Luís Cabral de Moncada, enquanto Paulo Ferreira da Cunha se doutora em Paris, com Mythe et Constitutionnalisme au Portugal (1778-1826) e começa a destacar-se o popperiano João Carlos Espada com Dez Anos que mudaram o Mundo. Crónicas sobre o Renascimento da Ideia Liberal, enquanto Franco Nogueira escreve Juízo Final.

 

 

 

 

©  José Adelino Maltez, História do Presente (2006)

© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: 23-04-2009