1994

Guerra das portagens, soarismo no bloqueio e tabu de Cavaco

Cosmopolis

© José Adelino Maltez, História do Presente, 2006

A mentalidade do hipermercado – Com a versão cavaquista da integração na Europa, o país passa a ser uma espécie de grande hipermercado, dado que, para o homem comum, o europeísmo quase significa andar com um carrinho de compras numa grande superfície dos arredores suburbanos, adquirindo produtos de todas as partes do mundo. Assim nos vamos modernizando pelo consumo de produtos made in China e, deixando de produzir, quase ficámos traficantes de serviços, mas sem adquirirmos a autonomia dos analistas de símbolos. No plano cultural a modernização transforma a rebeldia no mais seguidistas dos estilos e o Portugal Novo, cada vez mais bicha de para uma caixa registadora e mão estendida ao fundo estrutural europeu, nos anos áureos do cavaquismo e da era Delors, vê Guterres propor uns estados gerais para uma nova maioria que, contudo, não pretendem gerar uma frente popular, mas, antes, alargar-se ao centro-direita, sem a confusão do Bloco Central.

 

Da guerra das portagens à degenerescência cavaquista. Inicia-se o processo contra o pagamento das portagens na ponte sobre o Tejo (de 20 a 25 de Junho). Recomeça a campanha de luta na ponte sobre o Tejo (1 de Setembro). Ladeiro Monteiro, obediente a Fernando Nogueira, abandona o SIS, em conflito com o ministro Dias Loureiro (23 de Maio). Surge o escândalo Duarte Lima, no mesmo dia em que José Augusto Seabra se demite do PSD (9 de Dezembro). Leonor Beleza é acusada pelo Ministério Público no processo da importação de sangue contaminado pelo vírus da SIDA (15 de Dezembro). O processo apenas terminará em 2002. Pedro Santana Lopesö demite-se de Secretário de Estado da Cultura, ao que parece em conflito com o estilo de austeridade imposto por Cavaco Silva e rigorosamente vigiado pela esposa do primeiro-ministro. Conseguira resistir à demissão de dois dos respectivos sub-secretários, como António Sousa Lara, depois de uma tentativa de não apoio à candidatura de José Saramago a um prémio literário internacional, certamente do conhecimento do respectivo superior governamental, e, depois, Maria José Nogueira Pinto, em conflito com um presidente do Sporting Clube de Portugal, lugar que o demitido secretário de Estado exercerá depois de sair do governo (21 de Dezembro).

 

Adriano Correia de Oliveiraö a apelar para a resistência e ouvem-se até à exaustão as baladas de Zeca Afonso, onde apenas falta a Pasionaria e os acordes da Internacional. De certo que ouvirão um discurso retro desses deputados que justificam o situacionismo com o terem sido antifascistas de garganta há trinta anos atrás. Soares diz que, no seu tempo, também havia sido contestatário. Pacheco Pereira que levou bastonadas da polícia, etc. Todos choram muito freudianamente pelas trancadas que eventualmente levaram e nenhum repara que esta linguagem quarentona, cinquentona e sessentona, está a produzir-se de cima para baixo, dos microfones do poder para a audiência dos súbditos intelectuais em que nos querem transformar. Isto é, todos falam encavalitados no establishment, todos são o poder a ensaiar linguagens do contra-poder. Por outras palavras, é o poder, a querer ser mais poder ainda, secando o discurso do contra-poder. E os pobres manipulados lá vão fingindo rebeldia, neste mimético de fantasmas situacionistas, antes de serem nomeados adjuntos de um qualquer novo ministro, invocando a respectiva militância numa qualquer jota.

PS e Plataforma de Esquerda chegam a um acordo para as eleições europeias (10 de Janeiro). Guterres lança Estados Gerais para uma Nova Maioria, contra um país bloqueado (11 de Outubro). Soaristas contra Cavaco no congresso Portugal que Futuro, com críticas de Soares a Cavaco Silva (de 8 a 10 de Maio)

Congresso do PP em Setúbal, com o reforço da liderança de Manuel Monteiro (20 de Fevereiro).

Tribunal Constitucional indefere pedido da Procuradoria Geral da República sobre o Movimento de Acção Nacional, considerando que essa organização já está extinta (18 de Janeiro).

Abertura oficial de Lisboa 94- Capital Europeia da Cultura. O modelo que havia sido desencadeado por Francisco Lucas Pires, enquanto ministro da cultura da AD, representa uma conciliação entre o PS e o PSD, dado que a presidência da comissão cabe a Vítor Constâncio (26 de Fevereiro). O país dos intelectuais é uma balança sem fiel, onde todos os pesos pendem para o lado canhoto e querem transformar o que resta do Portugal que pensa numa simples colónia cultural da estupidez de uma sub-Europa exportadora de excedentes intelectualóides para as bolsas terceiro-mundistas das respectivas periferias. Domina assim o balsemismo que constitui uma das primeiras cabeças do chamado quarto poder, procurando constituir uma nova espécie de catedratismo, como o que outrora foi representado pelas universidades. É a chamada cultura empresarial, medida pelos padrões da compra, esse parecer a que falta o ser e que acaba por medir-se pelo ter. Surge deste modo o que de mais vácuo há nessa ponte do tédio que vai do poder para a cultura, a tal forma suave e gaguejante do que pior têm os Maxwell, os Murdoch e os Berlusconi, esses que vendendo pornografia e análises de política internacional, conseguem marcar o ritmo dos que pensam pensar. Emerge, deste modo, um pensamento em Portugal que nada tem de português, constituindo a principal via da nossa nova forma de colonização cultural

Eleição para o Parlamento Europeu (12 de Junho) 8 565 822 eleitores. 3 044 001 votantes. PS: 10 deputados, 34,87%. PPD/PSD: 9 deputados, 34, 39%. CDS/PP: 3 deputados, 12, 45%. CDU: 3 deputados, 11,19%. Uma abstenção recorde de 64 %. A partir de Março, depois do Congresso do CDS, a temperatura política começa a subir, quando Manuel Monteiro, invocando pátria, nação e família e criticando os deputados sanguessugas, vinte anos depois do 25 de Abril, provoca nos concorrentes um regime de histeria discursiva, onde os fantasmas de direita e de esquerda explodem de forma ridícula. Assumindo o euro-pessimismo soberanista, estruturado pelas crónicas de Paulo Portas, desfaz o quase unanimismo euro-fatalista do discurso dominante na classe política, obrigando a profundas turbulências nas mensagens típicas do PS e do PSD, com Eurico de Melo em cabeça de lista e José Pacheco Pereira a querer ser a voz ideológica no deserto doutrinário do cavaquismo que apenas diz que se distingue do conservadorismo e do revolucionarismo

Cavaco Silva anuncia que o PSD irá propor a eliminação da regionalização da Constituição (28 de Julho).

Depois do jornal Expresso revelar que Cavaco Silva pode abandonar a liderança do PSD, o Primeiro-Ministro declara que esse é um assunto tabu (29 de Outubro).

 

Gravuras de Foz Côa – Anunciada oficialmente a descoberta de pinturas rupestres na zona do vale do Côa, quando está prestes a concluir-se uma barragem que virá a ser suspensa, depois de longa polémica (19 de Novembro).

António Champalimaud regressa à liderança accionista do Banco Pinto & Sotto Maior, depois de pagar ao Estado cerca de 37 milhões de contos, uma quantia, em grande parte recuperada depois de ser indemnizado pelas nacionalizações revolucionárias de 11 de Março de 1975 (16 de Novembro).

Entre Barreto e Proença – A direita política que está ou esteve no governo e que produziu, como principais aproveitadores do impasse, personalidades como Daniel Proença de Carvalho e Álvaro Barreto, os chamados "liberais" do PSD, prefere continuar a cumprir uma espécie de pacto de não agressão com a extrema-esquerda cultural. Barreto é a memória da CUF e da Lisnave e Proença, a junção de Champalimaud e da Torralta com os lobbies jus-negocistas da pós-revolução, ambos tendo aderido às altas esferas da democracia no interregno dos governos presidenciais. Esta direita dos interesses parece, aliás, tentada a posicionar-se na corrida pós-cavaquista que se anuncia, visando beneficiar com os despojos do processo. Por outras palavras, a parte dinâmica da burguesia lusitana continua a seguir as pisadas dos herdeiros da direita palmelista que comprou a pataco os bens da coroa.

O poder judicial e os políticos – O Tribunal da Boa Hora condena Costa Freire e Zézé Beleza a prisão efectiva (17 de Janeiro), depois de, na semana anterior, ter sido punida gente do grupo Emaudio, como Rui Mateus e Tito de Morais. Os primeiros, próximos do cavaquismo, por burla; os segundos, ligados ao soarismo, por corrupção. O Estado de Direito dá tímidos passos junto dos colarinhos brancos, apesar da nossa legislação não permitir o lançamento de uma operação do tipo mãos limpas, à italiana.

A estátua de Duarte Pacheco – Um dos grandes actos culturais do cavaquismo ocorre com a inauguração da estátua ao ex-ministro das obras públicas de Salazar, Duarte Pacheco, considerado o ministro bom do fascismo mau. Por acaso, o militante do partido da União Liberal Republicana, a chamada ala civil do 28 de Maio de 1926, que foi a Coimbra chamar Salazar para a pasta das finanças. Enquanto a face direitista do cavaquismo, representada por Ferreira do Amaral, parente directo de um governador assassinado em Macau, de um primeiro-ministro da monarquia que se passou para a república e de um dos polícias políticos da mesma república que se fez salazarista, inaugura, eis que a esquerda pietista do mesmo sistema, simbolizada em Laborinho Lúcio, vai perorando sobre as prisões, dizendo que não gosta daquelas que vamos tendo, como se não fosse por elas responsável.

Em 3 de Abril morre Agostinho da Silva. Morre um pouco do mais português de Portugal, mestre de um tempo que já não há. Valeu a pena, Mestre. O sonho de um respublica que tem de ser, o sonho de um Portugal à solta, a memória de um tempo que há-de ser. Morreste naturalmente. No fim do teu próprio tempo. Morreu o Mestre, mas a sua semente fica. Morreu um português inteiro, que também era grego, romano, lusitano, medieval. O profeta, o brincalhão, o poeta, o visionário com os pés no céu e a cabeça na terra. Vão tecer-te loas. Olhando-se ao espelho, dirão, de ti, os adjectivos que os sirvam e engrandeçam, usurpando teu nome. Tentarão prender-te postumamente na teia de chatas biografias e no círculo estreito das pequenas capelinhas. Mas tu foste dos poucos que não seguiram as bandeiras da guerra civil. Pairaste, como poucos, acima da direita e da esquerda. Querias um Portugal mais que Portugal. Um Portugal à solta, universal, um Portugal herdeiro de todos os impérios universais, de Alexandre, dos estóicos, do catolicismo ecuménico, franciscano, herético. Tinhas em mente o sonho medieval de um reino republicano, onde uma coroa aberta cumulasse uma federação de repúblicas. Saudavas D. Dinis, o rei poeta, o rei lavrador, o rei do telúrico pinhal que nos deu naus. Sonhavas e partiste por não compreenderem o que sonhavas. E partindo sempre terás de regressar. Portugal não morreu ainda, mestre das antigas ordens, professor de portas abertas. Português de um Portugal maior do que as necessárias partes em que nos vamos dividindo, para podermos participar politicamente. Português de um Portugal que foi além de si mesmo. Andavas sempre de partida. Semeaste, semeaste…

 

& Ortigão, Ramalho (As Farpas, IV): 41. Neste ano, publicámos Sobre a Ciência Política, Lisboa, Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas,1994. Proferimos também várias conferências: A Questão da Igualdade de Oportunidades e o Direito ao Ensino um colóquio promovido pela Fundação Konrad Adenauer, em 22 de Janeiro de 1994; Portus-Cale, Portus Garbe, comunicação ao Colóquio Judeus e Árabes na Península Ibérica, promovida pela Comissão Nacional da UNESCO, Convento da Orada, 23 de Janeiro de 1994; Da Libertação à Igualdade. As Exigências do Humanismo Europeu quanto ao Sub-sistema Educativo, intervenção no Congresso da Associação Nacional dos Professores, Braga, 1 de Fevereiro de 1994; O Estado de Direito e a Transição para a Democracia, colóquio na Associação Internacional para a Liberdade e o Desenvolvimento, Arrábida, 5 de Março de 1994; Europa, Cidadania e Participação, colóquio do Conselho Nacional da Juventude, Tróia, 16 de Abril de 1994; A Nova Rússia e o Homem de Sempre, conferência proferida na Universidade Católica, em 8 de Junho de 1994 (publicada no boletim Gepolis da mesma instituição); Sobre a Revolução Global, comunicação apresentada à Academia da Força Aérea, 19 de Julho de 1994.

© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: 23-04-2009