2002
 

Janeiro

Entre o euro e o eixo do mal

 

 

A Espanha assume a Presidência do Conselho da União Europeia. Começam a circular as moedas e notas de euro na Áustria, Bélgica, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Países Baixos, Portugal e Espanha (1 de Janeiro).

Pat Cox é eleito Presidente do Parlamento Europeu (15 de Janeiro).

Norte-americanos instalam prisioneiros das guerras do Iraque e do Afeganistão na base de Guantanamo, em Cuba (10 de Janeiro)

Bush considera que Irão, Iraque, e Coreia do Norte fazem parte de "an axis of evil" (29 de Janeiro).

Chegada do euro. No ano em que o euro passa a circular como moeda de troca (1 de Janeiro) e que é inaugurado o troço final da auto-estrada do Algarve (25 de Julho), Jonas Savimbi é abatido em Angola (22 de Fevereiro), a que se segue um memorando de entendimento entre o MPLA e a UNITA que põe efectivo fim à guerra civil angolana (4 de Abril), pouco antes de Xanana Gusmão ser eleito presidente de Timor-Leste (14 de Abril) e de ser proclamada a independência do território (20 de Maio). O PCP anuncia a expulsão dos militantes Edgar Correia e Carlos Luís Figueira (19 de Julho), a mediática magistrada Maria José Morgado pede a demissão da Polícia Judiciária, onde estava destacada (27 de Agosto) e descobre-se uma fissura de 150 metros no túnel em construção que serviria para a estação de Metro do Terreiro do Paço (24 de Setembro). Entretanto, em 6 de Outubro, o papa Paulo VI canoniza Escrivá de Balaguer, numa cerimónia a que assistem 300 000 pessoas, enquanto Mário Soares participa activamente na cimeira anti-globalização de Porto Alegre. No Grande Oriente Lusitano há uma disputada eleição do Grão-Mestre, com António Arnaud, tendo como adjunto Luís Fontoura, a vencer outra lista, com José Fava e João Soares Louro.

Eduardo Ferro Rodrigues assume a liderança do Partido Socialista (19 de Janeiro). Com efeito, o factor Bush e a consequente crise Iraque constituem, para o sistema político português, um verdadeiro cataclismo, demonstrando como os reizinhos do poder aparente iam efectivamente nus. O tal sistema, afinal, não passa de um desarticulado conjunto de cadáveres adiados que vão procriando manifestos, tal como os grandes líderes do situacionismo e do oposicionismo que, em "slogans" se pavoneiam, apenas são simples estátuas com pés de barro. Hão-de todos diluir-se no lodo que os sustenta. Só não sabemos quando. Nem eles. Que um quarto de hora antes de morrerem, parecem estar ainda vivos. Assim, aqueles que continuam a viver como pensam, tendo a lúcida ingenuidade de nem sequer pensarem como hão-de viver, devem assumir a autenticidade da resistência e, no seu íntimo, emitir um adequado manifesto anti-dantas contra os devoristas desta camarilha que nos comanda, entre jantaradas, negocismo e ocultos financiamentos partidários, conforme vão inventariando os vários serviços secretos de potências estranhas que sucessivamente os chantageiam. Já acabou o tempo das farpas da elite intelectual contra os duques de Ávila, a fim de que o bonacheirão do Zé Povinho permaneça céptico, para plagiar João Chagas. Outros valores mais altos se alevantam e, se já não há nenhum rei que possa ser assassinado pela acção espontânea de um qualquer buíça, permanece a mentalidade ridiculamente rotativa que, conservando-se, de vitória em vitória, está prestes a estatelar-se numa derrota final, para, de novo, tentar renascer através do adesivismo e do viracasaquismo. Não é por acaso que, de um lado da mesa do orçamento, se perfila o "pólo conservador" do Dr. Portas, com os seus naranas e cardonas, logo aplaudido pelo jet set que foi ao almoço de homenagem ao grande comunicador Carlos Cruz. Os mesmos que mandam chamar aos generais que resistem, generais sem vergonha, como se pudessem usar, sem corarem, a tal palavra vergonha. Não há meio de perceberem que, das muitas direitas e das muitas esquerdas que permanecem, há algumas que já não obedecem aos tradicionais marechais, da direita e da esquerda, a esses eucaliptos que gostam de estar com Deus e com o Diabo, comendo em todas as manjedouras, só porque pensam que, depois do respectivo epitáfio, virá o dilúvio. Dominam, com efeito, esses reformistas encartados, esses filhos da fusão e do Bloco Central que, alcandorados à categoria de reformadores do sistema político e de reformadores da educação, escrevem muitos livros subsidiados pelos entes que eles próprios geraram. Antes que o desastre sobreviva e porque não chega a lógica dos bons merceeiros orçamentais, importa preparar o terreno das ideias e dos valores. Portugal não cabe apenas entre dois MRPPs, mesmo que um se chame Durão Barroso e outro dê pelo nome de Ana Gomes. Portugal é maior do que o espaço que vai de Freitas do Amaral à senhora Odete Santos. A pátria não tem que ser comprimida entre Mário Soares e Rui Machete. A inteligência lusitana não vegeta apenas entre J. Carlos Espada/ Luís Delgado e Boaventura Sousa Santos/ Francisco Louçã. Há um espaço maior que tem de se libertar do medo. Há maçons que são maçons e católicos que são católicos, mas que, nem por isso, deixam de ser portugueses. Há liberais e socialistas que não leram pela cartilha de Salazar, Mao Tse Tung, Lenine ou Estaline. Há muitos homens livres que detestam a matriz de certos colectivismos inquisitoriais e estalinistas. Há um Portugal-Portugal e uma democracia-democrática que ainda têm companheiros na Europa. E muitos. O resto é fumaça...

 

 

 

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©  José Adelino Maltez, História do Presente (2006)

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