Volta Monteiro, Estás Perdoado
Por LUÍS COSTA in O Público
Quinta-feira, 06 de Novembro de 2003

As andorinhas não costumam arribar por estas alturas do ano. Muito menos o fazem por Famalicão.

Já andava com saudades do estilo e da palavra de Manuel Monteiro. E, sobretudo, sentia-me órfão das grandes tiradas ideológicas com as quais procurava, ainda líder do CDS-PP, marcar o rumo da política portuguesa. Nele apreciava, em especial, a reciclagem pós-moderna de determinados "slogans" do passado: Deus, Pátria, Autoridade... Deus, Pátria, Família... lembram-se? Felizmente para a democracia portuguesa (ou felizmente para a Nova Democracia portuguesa, que é mais apropriado dizê-lo), Manuel Monteiro está de volta. E está perdoado - embora a orfandade prolongada a que obrigou muitos dos seus concidadãos e seguidores, nos quais me incluo, seja mais ou menos imperdoável. Mas está bem, a gente perdoa.

Sou daqueles, por isso, que aguardo com enorme expectativa o próximo fim-de-semana, embora esteja impedido por razões de ordem pessoal e profissional de rumar a Vila Nova de Famalicão, onde se realiza o congresso fundador do PND, o Partido da Nova Democracia de Manuel Monteiro e seus pares - um congresso que promete ficar inscrito na história recente da vida política portuguesa e que vem abrir as portas (com minúsculas, evidentemente) a todos os portugueses desencantados com o célebre pântano em que Guterres se deixou atolar.

O meu impedimento não me tem impedido - passe o pleonasmo - de acompanhar de perto, via Internet, todas as novidades do período pré-congresso do PND. E não imaginam a felicidade imensa que senti ao verificar que a coordenação geral do futuro departamento eleitoral da Nova Democracia será entregue a José Adelino Maltez, professor catedrático da Universidade Técnica e da Faculdade de Direito de Lisboa.

Há longos anos que acompanho a prolixa actividade político-académico-jornalístico-poética de José Adelino Maltez. E só lamento que o espaço mediático mais nobre se mantenha hermeticamente fechado à prosa deliciosa, enriquecedora e cativante do professor catedrático.

Por isso, há já muito tempo desconfiava que Adelino Maltez seria uma espécie de guru ideológico de Manuel Monteiro - um espaço que tinha ficado vazio depois de Paulo Portas ter feito ao seu antecessor na liderança do CDS-PP o que Brutus não seria capaz de fazer a César, apesar da sua inata capacidade para transformar os actos de traição em patriotismo.

Lê-se Adelino Maltez e parece estar a ouvir-se Manuel Monteiro: "Ao largar a vida político-partidária, nos finais da década de oitenta, declarei-me conservador nos princípios, reformista nas metodologias e radical nos objectivos." Muito antes disso, já o professor catedrático havia abalado os alicerces do "politicamente correcto", quando defendeu que o ditador Salazar teve razão, mas fora do tempo, e que - ao contrário do que pensarão os antifascistas - o professor de Finanças de Santa Comba Dão era, afinal de contas, "mais paternalista do que totalitarista".

Cito aleatoriamente Adelino Maltez para verem como tenho razão nas afinidades que estabeleço entre ele e Manuel Monteiro: "Julgo que chegou a hora de acordarem todos os radicais do centro, todos os que, muito excentricamente, sendo de direita ou de esquerda, não querem estar, nem votar, nesta direita e nesta esquerda, rejeitam o centrismo e repudiam a mentalidade de Bloco Central, mesmo a que se disfarça nas peles dos independentes." Será que falta alguém?

Mudando ligeiramente de trajectória: a Nova Democracia tem um símbolo, uma andorinha estilizada. Ora, é consabido que uma andorinha não faz a Primavera. Além de que as andorinhas não costumam arribar por estas alturas do ano. Muito menos o fazem por Famalicão - é suposto virem de sul, entrando no país algures pela costa algarvia. No entanto, tamanhas dificuldades não devem fazer esmorecer Manuel Monteiro, a quem dou um conselho amigo, se ele mo permite: que nunca menospreze as palavras sábias do seu coordenador geral do departamento eleitoral. E, com especial recomendação, não deixe de ler esta avisada quadra de Adelino Maltez: "Portugal que partiu, já não pode regressar. Quem foi além de si mesmo, nunca mais pode voltar." Topo de Página

Este artigo causou alguma polémica, por exemplo, no blogue "Último Reduto"

 

Sexta-feira, Novembro 07, 2003
  IMPRENSA DE REFERÊNCIA :: Que o Público é uma referência já todos sabemos. Ainda assim, consegue sempre surpreender por baixo. Eu, que leio aquilo sempre na net e à borlex, por me recusar a gastar um tostão que seja que alimente aquela camarilha, vejo hoje com um dia de atraso um artigo de opinião (?) escrito por um tal Luís Costa, supostamente versando a Nova Democracia, agremiação política que, ao que parece, se encontra este fim de semana em congresso. Ora, sucede que o notável e prolixo articulista aproveita a tal agremiação para cascar forte e feio no Prof. José Adelino Maltez, dirigente da ND e um dos académicos portugueses que efectivamente se podem gabar de o ser, de facto, que não "honoris causa", e isto independentemente de com ele estarmos ou não de acordo. O Prof. Adelino Maltez tem obra produzida e mais outra tanta cuja produção lhe dificultam.
O citado textículo do Público remata com parte de um poema do Prof. José Adelino Maltez, muito devidamente cortado pelo jornaleiro em causa. Aqui vos deixo então o poema completo - "Portugal Que Partiu":

Portugal que partiu
já não pode regressar.
Quem foi além de si mesmo
nunca mais pode voltar.
Pátria antiga, permanecente,
desde sempre prometida.
Irmã de todas as pátrias
que hão-de ser o poder ser.
Não há mundo que nos chegue
nem índia que tenha sítio
na nossa esfera armilar.
Portugal sempre foi
mais do que o seu próprio lugar. 
¶ publicado por pg @ 23:56

Agradecendo a referência, apenas quero dizer que o Luís Costa brincou, fazendo-me aparentes elogios, para gozar com Manuel Monteiro. Mera liberdade de opinião, que não acertou no alvo. Isto é, irritar-me e irritar Monteiro.