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Breves notas autobiográficas

Apesar da alentejanidade do patronímico e do feitio telúrico-panteísta, tenho todas as probabilidades genealógicas de ser um campónio moçárabe da Beira Litoral, sem qualquer impureza de sangue fidalgo, não excluindo, evidentemente, as eventuais mestiçagens cristãs-novas que, por ali, se aportuguesaram.

 

Segundo consta na minha cédula, ainda carimbada pelas senhas de racionamento do pós-guerra, nasci em Coimbra, mesmo à beira da Sé Velha, uma semana antes do Natal de 1951.

 

Mas, com poucos dias de vida, fui levado da maternidade, onde me cortaram o cordão umbilical, para a terra em que residiam e nasceram os seus pais. avós, bisavós e tetravós e mais ascendentes conhecidos e registados: a ruralíssima vila de Cernache dos campos do Mondego e afluentes, que foi sede de concelho desde que teve foral, com D. Manuel I, até ao momento em que os politiqueiros do liberalismo decidiram reduzi-la a mera freguesia.

Agora, esquecida da sua história e dos seus desígnios, parece ter-se transformado em mero dormitório da cidade que a protege e destribaliza.

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Depois de ter vivido a primeira infância, entre Cernache e o burgo do Porto, eis que, com sete anos de idade, passei a residir na cidade natal. Aí fui escolarmente formado pelos professores primários da Escola do Arco de Almedina, pelos padres capuchinhos da Igreja de Santa Justa e pelos muitos e bons professores do Liceu Normal de D. João III.

A
cabei por licenciar-me em direito pela Universidade da minha patria chica, entre 1969 e 1974.
 

Sou, assim, no plano escolar, um típico produto do sistema de ensino público do Estado Novo e da secção portuguesa da Igreja de Roma.

Obrigado, por razões políticas, a emigrar para a capital da República, em 1976. nesta nova cidade e seus arredores - com destaque para São Julião da Ericeira e Paço d'Arcos, sobre a barra do Tejo, sítios onde, agora, moro - vim reencontrar a liberdade de uma sociedade aberta. Aqui me nasceram três filhos e fui publicando uns livritos, incluindo quatro de poesia. Já integro, portanto, a parcela não alfacinha de Lisboa, esta cidade feita por subscrição nacional.

 

Não me sinto agnóstico nem céptico. Não estou filiado em qualquer maçonaria, seita, igreja ou religião secular. Já fui católico, não fiquei anticatólico e até não consigo prometer que dessa fé não me voltarei a imbuir. Porque, por mais força que pense ter, não tenho forças para vencer forças maiores, como são as que vêm do transcendente para o interior.

 

Estou nessa espera-esphera, que é esperança, espicaçado pelo esprit de finesse pascaliano, que não aceita o gnosticismo do esprit geométrique, a tal soberania do método empírico-analítico que nos deu o jacobinismo, o postivismo, o cientificismo, o marxismo e estes herdeiros actuais ditos laicistas.

 

Sou assim duplamente suspeito para facciosos católicos e anticatólicos. Tive uma infância de educação franciscana e uma adolescência de formação jesuítica, tudo metodicamente implantado sobre uma educação rural dos meus avós campónios e analfabetos, mas sabedores dos sinais das águas, das aves, das nuvens, das árvores e dos torrões dos campos. Isto é, em cima de uma religiosidade popular, com memórias de lobisomens e relatos de planetas, recebi uma polida e civilizada teologia urbana e vaticana, fiel aos textos da congregação romana, herdeira da santa inquisição.

 

Mas caí na tentação já referida por Lutero: um bom jurista, um mau cristão. Pior ainda: virei politólogo, ou repúblico. Deste modo, feito engenheiro de conceitos com o fogo do logicismo kantiano, fiquei uma mistura do humanismo cristão e do humanismo laico, com a mania existencialista de procurar o transcendente situado, onde a autenticidade tende a substituir a ideia de salvação.

 

E foi com esta pós-deformação que mergulhei nas confissões de um homem religioso de José Régio. Ainda tentei resistir com a peregrinação interior de alçada baptista, mas, misturando Albert Camus com Saint-Exupéry, acabei por ficar nesse espaço do tradicional herético lusitano que vive entre a profecia do quinto império e o panteísmo dos estóicos, de Espinosa, de Teixeira de Pascoaes, de Fernando Pessoa  e de Agostinho da Silva.

 

Refinei-me, depois, com o reflexionismo dos herdeiros de Montaigne, mas, a partir dessa procura do complexo, pela compreensão das coisas simples, nunca mais consegui libertar-me de certas cordas românticas que me aproximam de algum inquieto desencanto: da maçonaria que já não há, dos judaizantes que também se foram, dos protestantes que podíamos ter sido e daquela procura da raiz do além que me ensinou o bom padre Teilhard de Chardin  ou o dissidente Soljenitsine.

 

É a partir desta base secular, mas quase confessional, que passei a desconfiar de todos os que têm provocado o avivar dessa brasa não apagada da questão político-religiosa em Portugal. Esses pirómamos laicistas que, depois da questão do aborto e da autonomia da universidade católica, são agora obrigados a enfrentar a lei da liberdade religiosa.

 

Os que se entusiasmam com facciosismo de certos articulistas binários, entre os modelos de Vital Moreira  e de João César das Neves, talvez hoje sejam uma minoria na sociedade portuguesa. Eu, que tenho a ilusão de ser herdeiro do conservadorismo liberal, azul e branco, à maneira de Alexandre Herculano, de nada me incomoda que a igreja católica mantenha e reforce alguns privilégios contratualmente reconhecidos pelo estado, porque assim o exige, por um lado, a tradição e, por outro, os bons serviços que a instituição continua a prestar à comunidade.

 

Só a cretinice geométrica dos que foram formatados por categorias abstractas pode reduzir os católicos portugueses a uma religião entre muitas outras. Por isso, urge uma nova concordata que reforce, às claras, o peso do humanismo cristão, evitando que ele caia na tentação da clandestinidade congreganista ou das pressões de sacristia.

 

De idêntica forma, bem gostaria que a tradicional ordem maçónica, reunida em torno do Grande Oriente Lusitano, perdesse os receios a que, injustamente, foi condenada pela lei de José Santos Cabral de 1935, e também saísse de certa clandestinidade, porque o país bem precisa do reforço do humanismo laico, em nome da mesma tradição e dos mesmos bons serviços que esta instituição sempre prestou à comunidade.

 

Os católicos e maçons, que são homens de boa vontade, e que, durante um quarto de século, estiveram tacitamente concertados para a construção deste nosso regime, não podem ser agora instrumentalizados pelos que só recentemente abandonaram as hostes de Estaline, de Mao e de Pol Pot. Os católicos e maçons, que estiveram juntos no CDS, no PSD, no PRD e no PS, não têm que receber lições, de Estado de Direito, liberdade vivida e pluralismo praticado, dos que, traumatizados, sublimam o anterior totalitarismo em anticatolicismo.

 

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Copyright © 1998 por José Adelino Maltez. Todos os direitos reservados.
Página revista em: 16-01-2009.