PELA PORTUGALIZAÇÃO DA ESPANHA!

 

Em Portugal, há alguns portugueses que se definem fundamentalmente olhando para o continentalismo que está a Nascente e visionando o respectivo patriotismo como directamente proporcional ao “anticastelhanismo”. Sobre a matéria, apenas direi que definir a defesa em função da ameaça é como pensar a vida em função da morte, ou perspectivar a autonomia apenas temendo as eventuais agressões que podem vir dos vizinhos.

A este respeito, talvez importe recordar o que disse Chesterton: “muitas vezes os patriotas resultam pateticamente atrasados com respeito ao seu tempo, porque a circunstância de se preocuparem com os inimigos tradicionais não consentem que eles atentem nos novos inimigos”.

Neste sentido, queremos dizer que repudiamos aquela quase fantasmagórica visão de Portugal como eternamente ameaçado pelo “mau vento” e pelo “mau casamento” que podem vir de Espanha. Uma percepção que nos tem impedido de olhar para outras reais ameaças que podem vir tanto de além dos Pirinéus, como através do mar e do ar, neste nosso tempo de guerra universal ou regional, potencialmente instantânea.

E aqui devo confessar que tenho face à Hispânia aquela ambivalência de certo nacionalismo português, expresso por mestres como Almeida Garrett, Antero de Quental, Oliveira Martins, António Sardinha, Fernando Pessoa, Jaime Cortesão e Agostinho da Silva e não rejeito a possibilidade de uma mais íntima ligação das várias pátrias peninsulares - de Castela a Portugal, do País Basco à Catalunha, da Andaluzia  à Galiza -, desde que se respeitem as conquistas da história da nação portuguesa e do Estado Espanhol e se rejeitem os projectos do bloco de Carlos V.

Se considero, como espiritualmente prioritária, a construção da Comunidade Lusíada, não deixo de acreditar que a nossa procura da Republica Universal passa pelo não repúdio de uma aliança peninsular, quando os governos de Madrid derem inequívocos sinais que abandonaram o projecto de uma Espanha una e grande, de mar a mar sem Portugal nem Gibraltar.

Sei que a pretensão unificacionista de Madrid ainda se expressava  na década de trinta deste século quando o rei Alfonso XIII, em entrevista ao nosso Diário de Notícias, considerava Lisboa como o porto natural de Madrid, ou quando José António Primo de Rivera exortava os portugueses a seguirem o exemplo de Fernão de Magalhães. Passa ainda pela incompreensão do grande historiador espanhol Cláudio Sanchez Albornoz que, em “España, un Enigma Histórico”, de 1957, ainda considera Portugal “azar histórico”, retomando a senda de Américo Castro que, em “España en su Historia, Cristianos, Moros y Judios”, de 1948, proclama que, a Portugal, outros, “lo hacen independiente”.

Mas prefiro repetir Almada Negreiros e dizer que “se houve Aljubarrota e Toro, se há Espanha e Portugal, a verdade histórica é esta, única, é único o atestado dos factos”. Ou como o mesmo autor proclama em Sudoeste, de 1935: “Civilização ibérica, sim. Sempre. União ibérica, não. Nunca”. Porque Portugal e Espanha “são dois opostos e não dois rivais. Os opostos são complementos iguais de um todo. Este todo está representado geograficamente pela península ibérica e em espírito pela civilização ibérica”, pelo que “pesam sobre as actuais gerações portuguesa e espanhola, as respectivas e comum responsabilidades de criarem os novos colaboradores peninsulares do conjunto europeu e do universal”.

Por seu lado, Jaime Cortesão, salienta que “assim como o território português se entronca no da Espanha e se lhe assemelha sob vários aspectos, assim o carácter da Grei e a evolução histórica nas duas nações se apresentam e seguem trajectórias paralelas. Na fisionomia espiritual de cada um dos povos, divisam-se traços que, ainda quando diferentes, espelham a mesma alma mater. Sem deixar de ser portugueses, permanecemos peninsulares: somos como irmãos, que alcançada a maioridade, partiram separadamente ao seu destino, mas guardando na memória as recordações comuns do velho lar da Hispânia, onde nos criámos”.

O mesmo autor refere que se ambos, pela escola da cavalaria andante, somos capazes de empunhar a lança de D. Quixote “para lutar e perder-se por um ideal”, eis que “enquanto o Espanhol, por uma tendência inata à transcendentalização do real estará sempre pronto a atacar os gigantes que visiona por detrás das velas do moinho”, já o Português, por influência do franciscanismo, “mais humana e humildemente, ao passar, com frequência encosta a lança à porta para aproveitar o ensejo feliz de moer o seu grão”.

Consideramos, com efeito, que a Comunidade Lusíada é apenas um passo para a recriação do espaço maior da respublica christiana com a Ibéria, a América de Língua Portuguesa, a América de Língua Castelhana e a África dos PALOP e, portanto, pela criação de uma comunidade onde a “união ibérica” se extinguirá como fantasma, porque é muito mais aquilo que, pelo futuro, nos une, do que aquilo que, no passado, nos dividiu.

De 1640, retiramos mais a revolta da soberania popular contra o concentracionarismo absolutista de Olivares do que a defenestração dos espanhóis; tal como em 1385 buscamos mais a vitória dos princípios pós-feudais da lealdade nacional que venceram os da fidelidade feudal, do que o caceteirismo anticastelhano da padeira de Aljubarrota.

A vantagem de Portugal se ter separado do centralismo madrileno foi a de ter construído novas nações, principalmente o Brasil. A circunstância de termos resistido perifericamente, com as dimensões do reino medieval, deve ensinar o governo de Madrid a não retomar a senda de Olivares e de Franco, optando pelo caminho da unidade do Estado Espanhol na diversidade das suas nacionalidades, mas de uma unidade que não seja fim de si mesma, permitindo a participação em unidades maiores.

Talvez haja necessidade de se “portugalizar” o Estado Espanhol, conforme propunha Miguel de Unamuno, “no sentido de que as várias nacionalidades espanholas deviam tirar exemplo de Portugal quanto ao centralismo castelhano”.

Consideramos, com efeito, que Lisboa, Madrid, Santiago de Compostela, Sevilha, Barcelona, Bilbau não podem viver de costas voltadas. Até porque não podemos esquecer que o diálogo entre as várias parcelas peninsulares não só é vital no contexto da União Europeia, como também face aos nossos parceiros magrebinos das Portas do Mediterrâneo, principalmente quando renascem as fogueiras do orgulho islâmico e de certa xenofobia centro-europeia.

Contudo, tanto a nossa participação na Europa não pode reduzir-se à criação de uma frente ibérica face a Bruxelas, como a nossa relação com o Sul não pode esgotar-se em qualquer tipo de ibero-americanismo, que saúde Cristóvão Colombo e esqueça Pedro Alvares Cabral. O melhor é recordarmos que Portugal e Espanha se podem orgulhar de serem dos poucos vizinhos europeus que há mais de cento e oitenta anos não têm entre si qualquer conflito armado e tratarmos de, em conjunto, fazer a circum-navegação, com Fernão de Magalhães, com a lusofonia e a castelhanofonia a juntarem-se numa mais ampla iberofonia.