Defender a ideia de Europa no contexto de um processo de intervenção radical, nesta véspera do século XXI, implica reconhecer, na senda de Daniel Bell que o Estado a que chegámos é, ao mesmo tempo, pequeno demais para os grandes problemas da vida e grande demais para os pequenos problemas da vida. Ele é pequeno demais para resolver os grandes problemas do nosso tempo (a economia, a segurança, o ambiente, a tecnologia, a saúde) e, para o efeito, sob o alento da aldeia global, vamos tentando projectar e construir, por todo o lado, grandes espaços. Mas também é grande demais, pelo menos quanto à participação política e à humanização do poder, e muitos vão exigindo desconcentração, desregulamentação, descentralização e regionalização.
Implica também assinalar que acabou certa era das ideologias da guerra fria quando se transformaram questões concretas em questões ideológicas, colorindo-as com uma tensão ética e uma linguagem emocional. Porque, aqui e agora, nós, os herdeiros da liberdade europeia, marcados tanto pelas tradições do humanismo laico como do humanismo cristão, estamos cansados das artificiais divisões entre a direita e a esquerda e dos consequentes combates entre reaccionários e progressistas ou entre liberais e socialistas, e talvez tenhamos de aceitar que só podemos superar as encruzilhadas da história se admitirmos o essencial da perspectiva da pluralidade de pertenças e da consequente disjuntion of realms, da existência de princípios axiais diferentes nos campos da economia, da política e dos valores culturais. Já Emmanuel Mounier, nos anos trinta e quarenta se dizia, ao mesmo tempo, radical nos objectivos económico-sociais, reformista nas metodologias políticas e conservador no tocante aos valores. Como recentemente, o citado Daniel Bell, admitiu uma aproximação ao socialismo nos domínios da economia, mas com uma profissão de fé liberal em política e uma atitude conservadora quanto ao valores culturais. Talvez seja esta pluralidade de pertenças, contrária aos reaccionários preconceitos de esquerda e de direita que nos leve de volta a certa memória liberdadeira e radical, em nome dos princípios, necessariamente reformista no tocante às atitudes políticas e defensora dos grandes princípios do regresso à política. Esse horizonte, onde necessariamente se insere a ideia de Europa que sufragamos.
O regresso à política, a retomada da res publica, a reinvenção da cidadania, são a única forma de superarmos as actuais doenças dos sistemas políticos, sitiados pela corrupção e pelo clientelismo. As causas que têm gerado as actuais vagas populistas, xenófobas e racistas que ameaçam a Europa. Sintomas que só podem ser removidos se à terapêutica acrescer a profiláctica de uma educação cívica, capaz de retomar uma perspectiva liberdadeira de pessoa, uma perspectiva comunitária de sociedade e uma visão do Estado como um Estado-Razão e um Estado de Justiça.
Tópicos:
1. A Europa connosco
3.O acquis de um pronto-a-vestir
15. O pragmatismo da Realpolitik salazarista
20.O complexo alves dos reis
26.Portugal na balança da Europa
34.A ideia de Europa de Monnet
67. 1992: Maastricht
70.Os efeitos do fim da guerra fria
95.O sim através do não
96.Retomar o sonho dos pais-fundadores
101.Pela res publica dos portugueses
102.Contra a Europa das duas velocidades
103.Um tempo de interregno
113. O fim do fim da história
114. O fim do fim do comunismo
129.Algumas propostas de reforma
136.Por uma política-antipolítica
152. Um novo modelo de Justiça
153. Um Estado de Liberdades
154. A Sociedade no Estado e o Estado com a Sociedade
155. Democracia
156. Repúdio do imperialismo
157. Europa dos povos e Europa dos cidadãos
158. Reinterpretar o princípio da subsidiariedade
159. Um humanismo activista
160. Um grande espaço de liberdade
163. Misturar a hegemonia dos mais fortes com o consentimento real dos menos fortes
1.A Europa connosco
Foi em 12 de Junho de 1985, nos claustros dos simbólicos Jerónimos, que os gestores do aparelho de poder português subscreveram o tratado de adesão às comunidades europeias - a CECA, a CEE e a CEEA que já então se assumiam como Comunidade Europeia -, algumas horas antes de idêntica atitude ser assumida, em Madrid, pelo Estado espanhol. Para alguns observadores de mais estreitas vistas, a atrelagem dos dois Estados ibéricos ao carro europeu não passava de mero prémio pela conquista da democracia por duas entidades que tinham tido das mais longas ditaduras do Ocidente no pós-guerra. Para outros, algo de mais: a abertura da Europa àquele pedaço de si mesma que se desencontrara do ritmo das grandes questões europeias nos anos trinta deste século, não faltando até quem proclamasse, com alguma justeza, que não éramos nós a aderir à Europa, mas, pelo contrário, a Europa a aderir a si mesma.
A adesão vai concretizar-se no dia 1 de Janeiro de 1986, depois de, uma década antes a havermos formalmente solicitado. Não tarda que os nossos governantes qualifiquem a Europa das Comunidades como a prioridade das prioridades e que a nossa classe política pós-revolucionária trate de invocar uma Europa connosco, transformada no elemento mítico de uma ideologia europeísta à portuguesa que nos prometia amanhãs que cantam, bacalhau a pataco, peixe à vista de costa e supremas produtividades por hectare.
3.O acquis de um pronto-a-vestir
Acontece que a nossa integração foi mesmo um típico contrato de adesão, com cláusulas préfixadas pelo acquis communautaire e com um pronto-a-vestir doutrinário. Um pega ou larga, inelástico, especialmente marcado pela recém subida à presidência da Comissão de Jacques Delors, para quem a máxima expectativa era podermos ser bons alunos. Assim, estávamos condenados a marchar correctamente segundo o conceito de desenvolvimento que outros pensaram para nós.
Tudo acontecia quando a Europa vivia a ambivalência da desintegração de um mundo bipolar e se difundia aquela inversão de valores marcada pelo primado da economia sobre a política, pelo que a nossa entrada se fez, sobretudo, pela porta da despensa e com uma redutora mentalidade de intendência, passando a imperar aqueles tecnocratas especialistas na mercearia macro-económica. Isto é, quase meio século depois, chegavam-nos os ventos do meter as ideologias na gaveta e a ilusão de que se abriam as portas da era dos organizadores.
Na altura, não havia discurso oficial que se prezasse que não invocasse a adesão às Comunidades Europeias como a nova Idade do Ouro da nossa história colectiva, a qual até serviria para encerrar o negregado ciclo do império. Certa leitura das teses do Infante D. Pedro, Duque de Coimbra, bem como algumas glosas às lamúrias do Velho do Restelo transformavam-se assim numa espécie de sucedâneo sebastianista, mas retoricamente anti-sebastianista, onde o mito da integração aparecia como a milagrosa panaceia que nos viria trazer a reforma e a modernização.
Poucos tinham consciência que a integração portuguesa num espaço político-económico de mais de trezentos milhões de pessoas, porque nos transformava numa gota de água no oceano, iria obrigar ao redimensionamento estrutural do Estado-aparelho de poder, bem como à viragem psicológica do próprio Estado-comunidade. Com efeito, estávamos condenados a estabelecer uma nova agilidade estadual e a viver nos quadros de uma sociedade aberta e de uma internacionalização da economia, pelo que se iam colocando novos desafios quanto aos processos de defesa da nossa independência nacional e de redefinição das nossas fronteiras. A nação portuguesa, sem a rectaguarda do Império, para poder sobreviver face ao novo ritmo da balança da Europa, tinha não apenas de reafirmar a coesão dos factores internos, como também de assumir, face a terceiros, a respectiva personalidade. Se, até então, os portugueses sempre haviam conseguido manter laços de solidariedade falando uns com os outros, dentro da mesma família nacional, bem como pelo recurso, em momentos de crise, ao isolacionismo e ao proteccionismo, eis que, por efeito dos ventos eurocráticos, passávamos a ser obrigados a afirmar a nossa personalidade perante os outros e a afirmá-la, como se diz em linguagem empresarial, de forma agressivamente concorrencial. Desaparecia, em definitivo, aquela visão quase paroquial da identificação nacional feita em nome da ameaça de um vizinho meio-irmão, esse jogo do Freund e do Feind que, apesar de provado pela história, já não constituía um futuro presente.
E aqui talvez importe recordar que o segredo da nossa secular resistência nacional, se assentou em factores internos, também se deveu à forma como conseguimos situar-nos internacionalmente. O ser com outros na comunidade internacional sempre potenciou o nosso eu; sempre soubemos gerir interdependências para garantirmos a independência nacional; por outras palavras, sempre soubemos submeter-nos para sobreviver, ao mesmo tempo que procurávamos lutar para continuar a viver. Com efeito, o jogo das alianças externas sempre potenciou a nossa vontade interna. A independência afonsina, por exemplo, afirmou-se tanto na luta contra o Islão, em aliança com os cruzados do norte da Europa, como também na resistência ao projecto de Imperium então assumido pelos reis de Leão e Castela, ao mesmo tempo que se procurava o reconhecimento internacional da Santa Sé. Isto é, Portugal surgiu no contexto de um espaço supra-estatal e não apenas como resultado de um diálogo bilateral. Também em posteriores crises de independência nacional recorremos a aliados da balança da Europa, com especial destaque para a Inglaterra, particularmente nos finais do século XIV, e para a França, no século XVII. Do mesmo modo, para utilizarmos as palavras do Infante D. João, citadas por Gomes Eanes de Zurara, sempre procurámos ganhar o d’além para não perdermos o d’aquém. Assim, conscientes do facto de estarmos contidos pelo muro de Castela, tratámos de obter, na conquista e na expansão para além do mar, a garantia da autonomia da rectaguarda. Assim, conquistámos Ceuta cerca de um século antes da consolidação do Estado espanhol e aquando das invasões francesas, até chegámos a mudar a capital para outro continente. Este velho instinto de sobrevivência levou também a que, depois do traumatismo da perda do Brasil e quando nos embrenhávamos internamente numa espiral decadentista, procurássemos a construção do derradeiro império português, a partir das quase abandonadas feitorias da costa africana. De tal maneira que, em menos de um século, o primeiro império ultramarino europeu passou a viver a aventura do último império colonial, através de um notável esforço de ocupação militar, de mobilização científica e de organização política.
A nova dimensão internacional do Estado português levou assim a que, a partir de 1986, o processo de defesa da nossa independência nacional tivesse de efectivar-se no quadro de dois espaços supranacionais, em grande parte coincidentes: o da Aliança Atlântica e o das Comunidades Europeias. A ilusão de um nacionalismo autárcico, temperalmente isolacionista e tendencialmente auto-suficiente, foi, deste modo, claramente substituída pela realidade da soberania autocondicionada de Portugal, a partir de então, integrado em dois ordenamentos supra-estaduais. Voltámos, de certa maneira, às nossas origens medievais, quando conquistámos a independência e construímos o político no seio da respublica christiana, jogando com a tensão entre dois pólos hegemónicos desse espaço: o imperium e o papado. A independência nacional passou assim a ter de afirmar-se num quadro multinacional através de uma adequada gestão das interdependências, pelo que a afirmação da nossa personalidade nacional teve de desdobrar-se nos vários diálogos intra-europeus, intra-ocidentais e face ao resto do mundo, muito especialmente face ao mundo que o português criou.
9.O hibridismo do Estado Novo e o europeísmo dos anos sessenta
Importa também reconhecer que a fase crepuscular do regime português derrubado em 1974 foi marcada por um hibridismo estratégico no plano da política internacional, onde era marcante a contradição entre a aposta ultramarinista e a condescendência europeísta. No mesmo ano de 1960, depois do Estado português subscrevia a Convenção de Estocolmo instituidora da EFTA, que participava na fundação da OCDE e em que aderia ao FMI e ao BIRD, promovia também o processo das comemorações henriquinas que, de certo modo, procuravam justificar miticamente a defesa do Império. No ano seguinte começava a guerra em Angola, ao mesmo tempo que o regime se abria ao investimento estrangeiro e redobrava a aposta na industrialização. Isto é, o crescente empenhamento militar nas campanhas de África foi paralelo ao desenvolvimento de uma aproximação económica à Europa, tanto da EFTA como da própria CEE, estabelecendo-se ritmos de agricultura de exportação (v.g. a produção de tomate) e de indústrias de nível europeu (v.g. o incremento dos têxteis, da construção naval, da metalurgia e do material eléctrico). A política económica do antigo regime, com efeito, sempre procurou uma espécie de resguardo europeísta, levando ao incremento de uma nova classe de gestores e quadros técnicos que vão destacar-se durante o consulado marcelista sob a designação de tecnocratas. Alguns vão ocupar importantes funções nas pastas económicas do novo governo pós-salazarista, com destaque para Rogério Martins, Xavier Pintado e João Salgueiro, ao mesmo tempo que nas eleições de 1969 emergia a chamada ala liberal da Assembleia Nacional, liderada pelo malogrado José Pedro Pinto Leite que, curiosamente, era o presidente da Câmara de Comércio Luso-Germânica.
A aposta ultramarinista, que teve o seu clímax no integracionismo político-económico do espaço português euro-africano, passou a ser preterida pela duplicidade tecnocrático-europeísta da chamada autonomia progressiva, ainda sem a coragem de ser federalista, que, no fundo, admitia o abandono a prazo. Os ultramarinistas, mais natistas que a própria NATO e mais ocidentalistas que os próprios Estados Unidos da América, cederam lugar à dúvida metódica de um regime que jogava num pé cá, um pé lá e que, de hesitação em hesitação, acabou por levar à descolonização, onde o mais rapidamente foi directamente proporcional à nova força. No entanto, Portugal europeu, que ainda continuava um país essencialmente agrícola, vai aderir aos vícios e às virtudes das sociedades de consumo e das sociedades em vias de industrialização o que, contudo, criou algumas condições para podermos dialogar com a maior parte dos parceiros europeus, maioritariamente dominados por sociedades industriais avançadas, estando algumas delas prestes a enfileirar nas sociedades pós-industriais, como os Estados Unidos, o Japão e a Suécia.
11. O ceeísmo pós-revolucionário
As contradições da nossa primeira aproximação europeísta da década de sessenta, continuaram na pós-revolução da Europa connosco. Emergiu, entretanto, uma espécie de de ceeísmo, marcada por um certo provincianismo caricaturalmente estrangeirado, para quem o ser europeu parecia equivaler à média geral dos valores da pequena Europa Continental. Foi assim que certo europeísmo à portuguesa dos anos sessenta não entendeu que o nosso lusotropicalismo era essencialmente ocidentalista, constituindo uma das últimas emanações do espírito de fronteira do chamado Euromundo que, não tendo sofrido o directo impacto do complexo de derrota do pós-guerra, ainda tinha a ilusão de poder aguentar os ventos da história (não nos esqueçamos que entre os quinze actuais Estados membros da CEE se encontram quase todas as potências coloniais europeias). Tal caricatura não reparou que a Europa do último quartel do século XX, depois de vencer a tentação neutralista, que a guerra fria podia ter acirrado, sofria, para além do desafio americano e da concorrência japonesa, um claro desafio mundial. Levando a que o processo de construção da unidade europeia, ultrapassada a fase inicial de garantia da paz, constituísse uma necessária legítima defesa de quem, tendo gerado um mundo à sua imagem e semelhança, tinha deixado de ser protagonista nos principais conflitos extra-europeus, a partir da crise do Suez de 1956.
Com efeito, o projecto europeu não teve para nós, portugueses a que chegámos, ou portugueses que restamos, a dimensão heróica do europeísmo da resistência, típico dos países participantes na Segunda Guerra Mundial, nem o mínimo de radicação popular. Todo ele parecia caber num qualquer relatório tecnocrático de um gabinete de estudos de um banco ou num memorando de um dos muitos gabinetes de planeamento dos anos setenta, aceitando aquelas bases teoréticas que tratam das pessoas como meros factores de produção e reduzem as pátrias a unidades estatísticas, ambas marcadas pela fungibilidade e pelo abstraccionismo geométrico. Este primitivo ceeísmo reduzia a Europa a uma das muitas formas possíveis de integração económica internacional, de um simples mercado comum com algum parentesco com uma zona de comércio livre, considerados como meros pontos de aplicação das teorias desenvolvimentistas que os teóricos do planeamento e da macro-economia glosavam com a higiene científica dos manuais de economia internacional. Aliás, os mesmos tópicos da integração económica tanto serviam para tratar da unidade económica nacional que ia Minho a Timor, como da integração europeia.
Era uma espécie de Europa de engenheiros sem sonho, tão higienicamente assexuada que o mesmo técnico de integração depressa poderia reconverter-se em mais um dos executores de um plano quinquenal de qualquer big brother, programado que estava para aceitar o inevitável fim das pátrias. O próprio salazarismo não teve pejo em subscrever o acto fundador da EFTA, em finais de 1959, e, durante sucessivos conselhos de ministros, o regime do Estado Novo chegou a pôr a hipótese de, em vez disso, pedir, desde logo, a própria adesão ao mercado comum, como era a posição do Ministro da Economia Ferreira Dias, apoiado por certas forças vivas, o qual, muito friamente, considerava que os grandes investimentos e a grande teconologia viriam mais da CEE que da EFTA. Vejam-se, por exemplo, os pareceres dados pela Câmara Corporativa a propósito tanto da fundação da EFTA, em 1960, como do acordo de associação com a CEE, em 1972. O primeiro, Parecer nº 30/VII, de 12 de Abril de 1960, teve, aliás, como relator, o professor de economia Pereira de Moura, onde se criticava a CEE por ter nascido sob o signo da profunda integração política, mas com uma enganadora aparência de arranjo de política económica e comercial. Isto é, o salazarismo fazia suas as palavras de quem virá a ser um dos mais irrequietos responsáveis pela leveza das ideias do PREC, quanto à pesada herança económica do regime do Estado Novo.
E é partir de então que o europeísmo dos anos sessenta se transforma numa espécie de alternativa à questão ultramarina. Coisa que, aliás, contraditava a posição inicial dos pais fundadores da CECA, como pode ler-se numas notas de reflexão de Jean Monnet, de 1943, onde expressamente se previa que a Europa poderá, com meios acrescidos, prosseguir a realizar de uma das suas tarefas essenciais: o desenvolvimento do continente africano. A opção europeia de alguns portugueses dos anos sessenta não surgia assim por vontade reflectida de um pensamento estratégico, mas por exclusão de partes, onde o modelo para que se tendia se assumia como mero fatalismo de uma sebenta de economia, qualificando-se o projecto como mera integração ou cooperação económica, sem alma, sem esperança e sem política. Do mesmo teor veio, aliás, a ser o Parecer da mesma Câmara Corporativa de 4 de Dezembro de 1972, onde foi relator o embaixador Henrique Martins de Carvalho, onde se aceitava a perspectiva de Portugal como um povo geograficamente periférico e se falava na contraposição entre europeus e tradicionais, entre as aspirações revolucionárias e as tendências conservadoras da manutenção, insistindo-se que a vocação histórica do país tradicionalmente nos mantém afastados dos problemas do continente, pelo que voltá-lo para a Europa significa inverter-lhe as linhas normais de convívio, com benefícios dificilmente previsíveis nos esquemas clássicos da economia. Acrescentava-se que pôr o problema em torno de uma opção entre a Europa e o ultramar seria sempre "um equívoco susceptível de criar um falso dilema" como disse o Sr. Presidente do Conselho na alocução de 14 de Novembro último, nem algo foi estabelecido ou solicitado nesse sentido, em virtude das negociações com o Mercado Comum. Neste sentido, o IV Plano de Fomento para 1974-1979, cuja responsabilidade coube ao ministro João Mota de Campos, falava na adaptação da economia metropolitana aos condicionalismos decorrentes do processo de integração económica europeia é imperativo que decorre da ligação, decidida e negociada pelo Governo, da nossa economia à dos mais evoluídos países europeus, no seguimento de uma política de aproximação que deu abundantes frutos no seio da EFTA. Tal ligação exprime uma decisão política - e de política económica - do maior alcance, consagradora de uma clara intenção de conviver cada vez mais estreitamente com países a que nos ligam fortes laços do ponto de vista geográfico, cultural e económico - reforçados pela presença, em alguns deles, de fortes contingentes de trabalhadores portugueses.
15. O pragmatismo da Realpolitik salazarista
No fundo, mantinha-se o pragmatismo da política externa salazarista do pós-guerra, onde o chamado orgulhosamente sós do salazarismo estava bastante próximo de algumas posições do governo britânico. Também Winston Churchill, no começo dos anos trinta, em resposta ao desafio de Aristide Briand, proclamava que mesmo sem o Império Britânico e a Rússia, a massa europeia, uma vez unida, uma vez federada ou parcialmente federada, uma vez consciente do seu continentalismo, constituirá um organismo sem igual. No que diz respeito à Inglaterra, nós estamos com a Europa, mas não somos da Europa. Estamos ligados, mas não estamos incluídos. Mesmo quando passou a apelar à unidade do Continente, Churchill continuou a ver a Europa de fora, dado considerar o Reino Unido como o centro de uma série de círculos, onde o mais íntimo seria o da Commonwealth, o segundo, o da ligação anglo-americana, vindo a unidade europeia apenas em terceiro lugar. Posição que, depois, vai ser repetida pelo governo conservador do mesmo Churchill, regressado ao poder depois da vitória nas eleições de 25 de Outubro de 1951, através do ministro dos estrangeiros, Anthony Eden, que, num discurso proferido nos Estados Unidos, em 12 de Fevereiro de 1952, considerava que a Grã-Bretanha nunca poderia aderir a uma federação europeia: trata-se de algo que nós sentimos não poder aceitar até à medula dos ossos. Se o fizéssemos, prejudicaríamos a força da nossa acção em prol da paz e da união atlântica que é a expressão dessa causa. É que a Grã-Bretanha e os seus interesses estendem-se para além do Continente europeu. O nosso pensamento vai para além dos mares. Sem isto, que é a essência da nossa vida, não seríamos mais do que alguns milhões de pessoas vivendo numa ilha da costa europeia.
Diga-se, aliás, que em Portugal, nos primeiros textos doutrinários elaborados pelos principais partidos políticos, logo após 25 de Abril de 1974, ainda se mantinha o mesmo tipo de linguagem tecnocrática sobre a opção europeia, que continuava a ser qualificada com o neutral qualificativo de Mercado Comum. No programa do PPD, aprovado em Novembro de 1974, referia-se a adesão progressiva de Portugal aos movimentos de cooperação e de integração europeia, de forma a poder negociar de mercados mais vastos, tecnologias modernas e disponibilidades financeiras. Do mesmo modo, na Declaração de Princípios do CDS, de 1974, defendia-se que Portugal se organize de forma acelerada com vista à integração no Mercado Comum.
Um qualquer estudioso português de matérias de relações internacionais que, daqui a cinquenta anos - se ainda houver portugueses e se ainda houver relações internacionais no tempo dos meus netos …. -, um curioso destas matérias que, dentro de meio século, tentar investigar as causas que levaram à adesão de Portugal à CEE em 1985, pesquisando a literatura portuguesa sobre as matérias da integração europeia, ficará certamente intrigado pelo facto de, nos anos setenta e oitenta, encontrar apenas duas ou três monografias, meia dúzia de artigos e outras tantas obras de vulgarização sobre o tema. Com efeito, a Europa à portuguesa dos homens da pré-revolução começou por ser uma simples sebenta de economia que, depois, se volveu numas lições jurídicas de direito comunitário, curricularmente consideradas como mero anexo ao direito internacional. Mesmo no começo da década de oitenta, a Europa continuava a ser apenas um dos possíveis sítios para onde poderíamos ir, alguma coisa que estava fora de nós mesmos e com a qual iam negociando os restritos gabinetes de integração europeia, herdeiros dos gabinetes de planeamento, que recrutavam de forma avulsa alguns elementos das auditorias jurídicas. A Europa não passava de uma série de dossiers feitos com muitas resmas de papel fotocopiado por tecnocratas estaduais e por quadros de algumas associações económicas que visitavam esporadicamente Bruxelas.
Enquanto isto, os nossos jovens e democráticos partidos, subsidiados pelas fundações alemãs, faziam excursões pela província, promovendo seminários sobre a integração europeia, onde o mesmo formador tanto anunciava os benefícios da política agrícola comum, como perorava sobre a estratégia da guerra fria, a união económica e monetária e a defesa do consumidor. E em nome das estatísticas e dos gráficos coloridos dos outros, lá se ia pregando a boa nova de uma caminhada rápida e irreversível para um desenvolvimento capaz de tornear o atraso do orgulhosamente sós, em nome de uma Europa connosco, capaz de fechar num ápice o ciclo do Império. Todos os grandes partidos teciam loas ao sistema, à excepção evidentemente do PCP. Todos se ilusionavam com as irmandades de uma Europa que teria remoído o salazarismo e que acreditava nos cravos da revolução de abril que, em paz, haviam liquidado a mais antiga ditadura da Europa e aberto saldos no mais antigo dos impérios coloniais europeus.
Foi todo este ambiente de vazio de sonho europeu que marcou os primeiros anos da adesão, quando os governos invocavam de forma utilitarista a bandeira dos milhões da CEE, num tempo de filosofia dos homens de sucesso e de dominância do utilitarismo. Aliás, esses tais milhões de contos dos pacotes comunitários chegavam a um Portugal que vivia estremunhado pelo chamado escândalo de Dona Branca. E entre os dois fenómenos, se havia alguns zeros de diferença, notavam-se também muitos fundos perdidos de coincidências. No primeiro caso, aquela mentalidade portuguesa que considerava a CEE como a nova árvore das patacas que servia de sucedâneo às índias e aos brasis perdidos, de onde outrora afluíam especiarias, ouro e pedras preciosas.
20.O complexo alves dos reis
Nos finais dos anos vinte deste século, o mesmo tipo de mentalidade chamou-se alves dos reis que, ludibriando ilustres banqueiros, iluminados catedráticos e circunspectos financeiros, antecipou, na prática, muitas das teses da escola monetarista. Só que, com o salazarismo, voltámos ao viver habitualmente, do produzir e poupar, redescobrimos o pé-de-meia e instaurámos o regime de caderneta da Caixa, da Caixa Geral de Depósitos, Crédito e Previdência, antiga secção de um dos serviços do ministério da fazenda que até o prego controlava. Os que não eram pobrezinhos nem honrados ficaram-se pelo literal conto do vigário e a maioria da população, antes de rir com os parodiantes de Lisboa, ouvia as transmissões em directo pela Emissora, então Nacional, dos sorteios da Lotaria, também Nacional, que continua a ser um dos principais serviços da Santa Casa da Misericórdia. Aliás, comprar uma cautela passou a fazer parte da rotina de todos os alves dos reis frustrados deste país. Nos anos sessenta, chegou o Totobola, onde, à velha sorte dos jogos de fortuna e azar, se fez acrescer a ilusão da futebolítica. Vieram também as slotmachines que democratizaram as zonas de jogo, até então reservadas aos turistas e a certas classes sociais. Com o marcelismo, foi o tempo das vacas gordas da sociedade de consumo, surgiram em força os patos bravos e viveu-se a grande euforia do jogo da Bolsa.
Depois, veio a revolução que começou por ser um simples socialismo de consumo, uma vingança populista contra as vacas magras do crepúsculo marcelista. Ainda se pensava que, congelando os preços dos bens essenciais e aumentando os salários, através de meios administrativos, se conseguia que a dona inflação se submetesse às ordens do senhor Estado. Os primeiros tempos pós-revolucionários foram a era dos depósitos a prazo e dos juros bonificados que, durante uns tempos, nos deram a ilusão de que a banca nacionalizada era mesmo nossa. Só que havia o reverso da medalha, desde os cada vez mais estreitos cabazes de compra aos cada vez mais fundos buracos orçamentais, sempre com os espectros da bancarrota e do racionamento a ameaçarem.
Entretanto, surgiu o totoloto e o próprio futebolismo também se envolveu na tentação do bingo. O país, a certa altura parecia, todo ele, um casino clandestino, com alguma coisa de manicómio em autogestão.. Depois, com a primeira fase da governação de Cavaco Silva, renasceu a febre bolsista, antes do krach de Outubro 1987, que constituiu nova pedrada no charco do nosso reincidente sonhar é fácil. E lá tivemos que regressar aos clássicos jogos da Santa Casa e a um sem número de rifas clandestinas.
A era dos milhões da CEE começou efectivamente por confundir-se com mais um novo jogo da mesma sociedade de casino, onde se misturava o risco com a batota e o ganho justo com a especulação fraudulenta. Com efeito, depois dos frades do regime anterior a 1820, dos barões do liberalismo, do senhor dr. da República e do Estado Novo, dos patos bravos do marcelismo e do intermediário especulador da pós-revolução, parecia implantar-se uma nomenclatura atípica de novos ricos. Eram mais barões do que frades, mais senhores drs. do que patos bravos e preferiam o cosmopolitismo de alves dos reis ao alfacinhismo de Dona Branca. Tinham a ciência dos fundos estruturais, o sentido de risco dos jogadores na Bolsa e a persistência dos formigueiros. Eram eles os principais responsáveis pelo efectivo aumento do investimento na agricultura, com a chegada de nova gente a um pretenso empresariado agrícola com jipes consumindo gasolina verde no asfalto das discotecas da linha de Cascais. Coube-lhes a principal quota-parte na explosão de uma falsa formação profissional que se reproduziu como cogumelos intoxicantes e causou inveja ao ministério de uma educação que já não se qualificava como nacional. Não tardaria que enveredassem pela moda da terceira vaga e inundassem a indústria de novas tecnologias de duvidosa eficácia. Eles descobriram que o sistema regulamentarista vigente, misturando as circulares da jurisprudência burocrática dos mangas de alpaca portugueses com a avalanche das iluminadas directivas bruxelenses, tinha mais buracos do que o crivo de um regador.
O novo rico nascente não era contudo um franco-atirador. Grupusculizava-se numa constelação de empresas, mais ou menos fictícias, especializadas em assuntos gerais, mas que tinha apenas como objecto a cinegética do subsídio e a maximalização do proteccionismo dos amigos influentes. O respectivo modelo empresarial estava simplificado: alguns militantes dos partidos governamentais, de preferência, experimentados em gabinetes ministeriais, um técnico de marketing reformado, com boas ligações a almoços com gerentes bancários, um informático e alguns técnicos do Estado ligados a dossiers de fundos estruturais, em regime de part-time. Depois, visitavam-se as fidelidades partidárias, cobravam-se contrapartidas sobre antigas cunhas, fugia-se ao imposto e fazia-se de tudo, à sombra da designação de consultadoria. Para aguentar a rotina, bastavam duas ou três avenças fixas. Podia ser montar o departamento informático do instituto nacional dos alhos ou formar chefes de repartição na direcção geral dos bugalhos e afins. De caminho, promovia-se a cultura nos buracos da rua do progresso e executava-se um projecto sobre energia das ondas no mar da palha. Este novo-rico tinha aversão aos grandes lobbies e não andava nas bocas do mundo. Tinha percebido que a nossa economia estava insanavelmente viciada pelo negocismo e que quem não arriscava não petiscava. Ele sabia que a reconstrução do capitalismo em Portugal pouco tinha a ver com a moral do burguês histórico, que sempre detestara a de casino. A principal regra do novo jogo era não haver fair play. Daí que se rissem de Dona Branca, a última representante do furavidismo de um Portugal Velho que não sabia o que eram os pedidpes, pedapes, federes, feogas, fses e muitas outras regras, regulamentos, despachos, circulares, favores e tantas outras coisas mais que continuam a garantir que todos somos iguais, mas que há alguns que sempre são mais iguais do que outros.
Sobre a matéria, apenas direi que quem percorrer as histórias da ideia de Europa com mais autoridade, não detecta personalidades portuguesas, na habitual lista que vai de Pierre Dubois a Jean Monnet e que passa por franceses como Sully, Crucé, Abade de Saint-Pierre, Saint-Simon, Victor Hugo, Herriot e Briand, por alemães como Leibniz e Kant, por ingleses como Penn, Bentham e Churchill ou por checos, como Podiebrad ou Comenius. Aliás, nesse mesmo conjunto, também não se vislumbra rasto de espanhóis e de outros sulistas ou mediterrânicos, à excepção de um outro poeta e de alguns intelectuais do exílio, interno ou externo. Nenhum português também aparece no originário movimento pan-europeu, na resistência europeísta anti-hitleriana, ou nos congressos federalistas ou unionistas do pós-guerra, sementes donde brotaram os chamados pioneiros da Europa comunitária. Mas, se formos um pouco mais longe, também poucas vezes encontraremos portugueses como actores, mesmo que secundários, nos esforços de estabelecimento do equilíbrio europeu, paralelos às guerras iluministas, a não ser nos bastidores dos congressos de Vestefália e de Utreque. Apenas no Congresso de Viena de 1815 e nas negociações da Paz de Versalhes, posteriores a 1918, detectamos uma tímida participação portuguesa, pouco proporcional às invasões de Godoy e Napoleão ou ao nosso esforço no atoleiro da Flandres, durante a Grande Guerra.
26.Portugal na balança da Europa
Se, em termos de participação criativa, como protagonistas ou actores secundários, não estivemos no centro das modernidades da Europa, eis que os efeitos expansivos das mesmas sempre se fizeram sentir cá dentro, tanto no plano das coisas materiais, desde a tutela económica à invasão militar, como no plano das realidades espirituais, com os estrangeirados, progressistas ou contra-revolucionários, maçónicos ou antimaçónicos, todos eles prenhes de um maniqueísmo decretador do bem e do mal, conforme as luzes exógenas provenientes dos sítios considerados polidos, civilizados, desenvolvidos, modernizados ou progressistas. Foi assim nalgumas vagas do século XVIII, num crescendo que culminou no drama das invasões francesas; não deixou de o ser entre 1820 e 1834, quando nos transformámos em mero reflexo da longa manus da Santa Aliança ou dos que se lhe opunham. E voltou-se ao mesmo ritmo, quando a generosidade justiceira da Maria da Fonte e da Patuleia foi jugulada pela intervenção estrangeira imposta na Convenção do Gramido e continuada ao longo de todo o nosso Portugal Contemporâneo, ao estilo da questão do mapa cor de rosa.
Com efeito, um dos esforços mais consequentes do nosso tempo para a procura de uma entidade política maior que os Estados Modernos, desencadeou-se a partir de 9 de Maio de 1950, quando a plurissecular a ideia de Europa passou do círculo mais ou menos esotérico dos projectistas da paz e se transformou num ideal histórico concreto, entrando na zona da realpolitik, tanto a nível das relações internacionais como das políticas domésticas. Só a partir de então é que se procurou a efectiva constituição de uma entidade europeia, através de concretas medidas políticas. Só a partir de então é que a Europa tentou passar da unidade negativa à unidade positiva, procurando transformar-se numa espécie de organismo vivo. Só a partir de então é que começámos a superar o traumatismo das guerras iluministas onde, perante a emergência de uma potência hegemónica, sempre se formaram grandes coligações unitárias visando impedir os objectivos daquela. Só a partir de então é que tentou passar-se da efemeridade à estabilidade de uma coligação permanente, unindo vencidos e vencedores, em nome da paz pelo direito, sem reduzir-se a paz à continuação da guerra por outros meios. A Europa deixou assim de ser mera abstracção, como o ainda era no discurso dos projectistas da paz, ou como ainda o continua a ser naqueles saudosismos historicistas, geradores da frustração ou da catástrofe, que persistem em louvar um modelo fictício que não parece assentar na realidade do aqui e agora.
Talvez importe recordar que se o nazi-fascismo invocou o europeísmo, eis que os movimentos de resistência não deixaram também de manifestar uma forte corrente de unidade europeia de cariz federalista, principalmente na França, na Bélgica e na Holanda. Os precursores do movimento foram os antifascistas italianos Altiero Spinelli (1907-1986) e Ernesto Rossi, que, presos em Ventotene, nas ilhas Lipari, haviam fundado clandestinamente, em Junho de 1941, um movimento europeísta, autor do chamado Manifesto de Ventotene que reclamava uma constituição europeia elaborada por uma assembleia europeia a ser ratificada pelos parlamentos nacionais. Este grupo, já depois da queda de Mussolini, vai criar em Milão, em Agosto de 1943, o Movimento Federalista Europeo, cujo programa propõe a criação de uma Federação europeia para a qual sejam transferidos poderes soberanos que digam respeito aos interesses comuns de todos os Europeus, salientando também que os habitantes dos diferentes Estados devem possuir a cidadania europeia, devem, portanto, ter o direito de escolher e de controlar os governantes federais e de controlar os governos federais e de ser submetidos directamente às leis federais.
A resistência francesa advogava também o europeísmo, chegando mesmo a reclamar uns Estados Unidos da Europa, ideia que era partilhada por vários jornais, dos quaisa se destaca Combat, fundado em 1941, onde vão colaborar vários europeístas, como Henri Frenay, Georges Bidault, Albert Camus, Pierre-Henri Teitgen, Edmond Michelet e François de Menthon. É este jornal que vem proclamar que os Estados Unidos da Europa serão em breve uma realidade viva, pela qual combatemos (Setembro de 1942), considerando a resistência, como a esperança da Europa, o cimento das uniões de amanhã (editorial de Dezembro de 1943). Depois de várias reuniões de resistentes ocorridas desde Março de 1944, eis que em Julho desse mesmo ano surgia, a partir de Genebra, a Declaração das Resistências Europeias, sob o título A Europa de Amanhã, subscrita por delegados vindos da França, da Itália, da Alemanha, da Holanda, da Dinamarca, da Noruega, da Polónia e da Checoslováquia, onde se adoptavam os princípios da Carta do Atlântico. Aí se observava que os fins morais, sociais, económicos e políticos que os uniam na resistência ao nazismo não podem ser atingidos salvo se os diversos países do mundo aceitarem ultrapassar o dogma da soberania absoluta dos Estados integrando-se numa única organização federal. A paz europeia é a pedra angular da paz do mundo. Com efeito, no espaço de uma só geração, a Europa foi o epicentro de dois conflitos mundiais que tiveram, antes de mais, por origem a existência sobre este Continente de trinta Estados soberanos. É necessário remediar esta anarquia pela criação de uma União Federal entre os povos europeus. Os signatários acrescentavam que a vida dos povos que representam deve ser fundada no respeito pela pessoa, a segurança, a justiça social, a utilização integral dos recursos económicos em benefício da colectividade globalmente considerada e no desabrochar autónomo da vida nacional. Estes fins não podem ser atingidos a não cerque os diversos países do mundo aceitem ultrapassar o dogma da soberania absoluta dos Estados, integrando-se numa única organização federal.
Dentro da própria Alemanha, a resistência ao nazismo também se alimentava do europeísmo. Carl Friedrich Gördeler, numa memória secreta, de Março de 1943, considerava: Unificação da Europa com base em Estados europeus independentes; esta unificação efectuar-se-á por etapas! Uma união económica europeia, com um conselho económico com sede permanente, será imediatamente criada. A unificação política não precederá, mas seguir-se-á à união económica. Também na universidade de Munique, sob o impulso do Professor Huber, surgia o movimento Rosa Branca, que propunha a estruturação federal da Alemanha e da Europa. Em Fevereiro de 1943 este movimento chegou a promover uma manifestação de estudantes. Serão executados os líderes desse movimento, os irmãos Hans e Sophie Scholl
31. A procura da integração política
Mas é só depois da segunda guerra mundial, só depois do holocausto e da liquidação do nazi-fascismo, que surgiu um projecto europeu consequente, visando a integração política da Europa. Um projecto alicerçado na integração económica, tendo como horizonte uma comunhão cultural, um projecto que sempre disse renunciar aos anteriores métodos de unificação pela hegemonia. Só depois da era do nada, só depois dos homens concretos terem sofrido o mal absoluto, aquele choque existencial que ataca os próprios corpos pela tortura. pela guerra, pela peste e pela fome, é que se reconstruiu a alma e a esperança na sua pureza. Do existencialismo veio a esperança dos desesperados, no auge da força é que emerge a não violência. Um projecto que, desde então, procurou construir uma nova entidade política, dotada de instituições e de um novo centro político. Uma nova entidade, em processo de integração política e, portanto, dotada de um centro para o qual se vão transferindo lealdades, expectativas e interesses, embora mantendo-se em simultâneo, os velhos centros estaduais de poder político. Um novo centro que bem pode acumular-se ou acrescentar-se aos anteriores, sem os substituir, desde que se pratique o princípio da subsidariedade e que se elimine o princípio da indivisibilidade da soberania. Até porque a transferência é aleatória, dado ter como autores e destinatários todos e cada um dos cidadãos europeus. Um projecto que, aliás, não pode reduzir-se àqueles anteriores impérios europeus que, conforme Almada Negreiros, estabeleceram de facto na Europa uma unidade política, mas não precisamente a unidade política da Europa.
Já não é uma união da Europa pela força nem apenas pelo equilíbrio. É mais a unidade segundo um princípio e segundo o consentimento das partes que o compõem. Uma unidade que precisa de identidade. Porque a história da balança da Europa sempre foi marcada pela vontade de poder de Impérios que tiveram como principal força de atracção fazer o pleno da própria Europa, sempre poderíamos dizer, como Fernando Pessoa, que, neste sentido, A Europa está farta de não existir ainda! Está farta de ser um arrabalde de si própria. Ideia que, depois, Jean Monnet vai repetir quando salientava que a Europa nunca existiu. Não é a acumulação de soberanias nacionais num conclave que a cria uma entidade. A Europa deve ser genuinamente criada.
É esta nova maneira de fazer a Europa que tem vindo a desabrochar. Utilizando palavras-chaves de alguns dos títulos das obras europeístas da nossa contemporaneidade, poderemos dizer que a ideia de Europa converteu-se na Europa em formação, que o espírito europeu volveu-se na Europe en devenir, que o mito passou a realidade, que a Europa depois de despertar, com os seus pioneiros, passou a ter pais fundadores, passou à fase de obras, à construção, onde há um projecto, um desafio. Deixou de ser uma utopia, transformou-se numa realidade, passou a ter um futuro, apesar de viver uma metamorfose inacabada. Nada de repetição de velhos esquemas, como os da federação ou da confederação, que geraram aquilo que hoje são alguns Estados Nações. A Europa como realidade nova, agora sem Papa nem Imperador, dotada de uma ordem que não é imperial nem totalitária, fundando-se antes numa mistura da hegemonia do mais forte e de um consentimento real dos menos fortes, para utilizarmos palavras de Raymond Aron. A nova Europa persiste porque ousou consagrar o realismo da desigualdade natural, onde o predomínio dos mais forte recebe o consentimento real dos menos fortes. Um equilíbrio naturalmente instável, um risco permanente, dado que a tentação da pentarquia continua a ameaçar e com o consequente regresso aos Estados Directores é permanente. O projecto europeu é esse quid, esse qualquer coisa que, por vezes, só esotericamente consegue traduzir-se. Como a imagem utilizada pelo antigo presidente da Comissão Europeia, o belga Jean Rey, para quem a Europa se ia construindo como uma catedral gótica, onde a primeira geração dos construtores até sabe que não viverá para ver a sua obra acabada, mas que, mesmo assim, continua a trabalhar. Ou então, como referia se um antecessor, Walter Hallstein, os tratados são como um quadro dos velhos mestres holandeses, onde há porções pintadas com grande pormenor e outras apenas esboçadas.
34.A ideia de Europa de Monnet
Seguindo as palavras do próprio Jean Monnet, importa sublinhar que o projecto de 9 de Maio de 1950, não era uma mera escolha técnica, mas antes um processo de inventar formas políticas novas, pelo que inserir a perspectiva num modelo de soluções tacanhamente tecnocráticas talvez padeça de algum erro de análise. Basta recordar um pequeno escrito de Jean Monnet, intitulado Note de Refléxion, maturado em Argel, no dia 5 de Agosto de 1943, onde, bem antes da euforia federalista, considerava: Não haverá paz na Europa se os Estados se reconstruírem na base da soberania nacional, com o que ela traz de política de prestígio e de protecção económica. Se os países da Europa se protegerem de novo uns contra os outros, a constituição de vastas forças armadas será de novo necessária. Certos países, de par o tratado de paz futuro, o poderão; a outros isso será interdito. Fizemos a experiência deste método em 1919 e conhecemo-lhe as consequências. Alianças europeias serão concluídas; conhecem-lhe o valor. As reformas sociais serão impedidas ou retardadas pelo peso dos orçamentos militares. A Europa não se recriará uma vez mais no receio. Os países da Europa são muito estreitos para assegurar aos seus povos a prosperidade que as condições modernas tornaram possível e por conseguinte necessário. Faltam-lhe mercados mais extensos. Também é possível que eles não utilizem uma parte importante dos respectivos recursos para a manutenção de indústrias ditas chave necessárias para a defesa nacional, tornadas necessárias pela forma dos Estados "com soberania nacional" e proteccionistas, tal como os conhecemos antes de 1939. A sua prosperidade e os desenvolvimentos sociais são impossíveis, a menos que os Estados da Europa não se formem numa Federação ou numa "entidade europeia" que disso faça uma unidade económica comum. E é da solução do problema europeu que se trata. Os outros, ingleses, americanos, russos, têm mundos para eles para os quais podem retirar-se temporariamente. Da solução do problema europeu depende a vida da França - porque nenhum acordo para o qual a França pode ser arrastada com a Inglaterra, a América ou a Rússia não poderá dissociá-la da Europa com a qual está ligada intelectualmente, materialmente, militarmente. Como ele mesmo vem, depois a referir nas suas memórias, a minha preocupação era fazer menos uma escolha técnica e mais inventar formas políticas novas e encontrar o momento útil para mudar o curso dos espíritos.
35.A União Europeia dos Federalistas
A ideia de Europa que está na base do discurso de 9 de Maio de 1950 é a que fora manifestada pela vaga de fundo federalista que, a partir de 1946, levou à União Europeia dos Federalistas, mobilizadora das reuniões de Amsterdão e Montreux, de 1947. Foi em Dezembro de 1946 que, em Paris, se constituiu a União Europeia dos Federalistas que adoptava o lema Europa una num mundo único. O novo grupo congregava cerca de meia centena de movimentos ocidentais de carácter nacional e, indirectamente, cerca de 100 000 membros individuais, entre os quais se moviam vários emigrados políticos do leste. Entre os mais entusiastas da ideia, destacavam-se nomes como de Henri Frenay, Alexandre Marc, Altiero Spinelli e Henry Brugmans. Surgia assim a primeira semente de um partido europeu que transcendia as fronteiras existentes. Em 12 de Abril de 1947, reuniam em Amsterdão, delegados dos vários movimentos federalistas europeus, já existentes ou em formação, preparando o Congresso da União Europeia dos Federalistas que terá lugar em Montreux, entre 27 e 31 de Agosto de 1947, e que teve como principal animador o polaco Joseph Retinger. Na moção política aqui aprovada, proclamava-se: pela primeira vez na história, todos os movimentos federalistas europeus agruparam-se numa só associação, para fazer ouvir a sua voz, a voz da própria Europa ... Apenas existe uma solução: a união dos povos em torno de um poder federal eficaz. Estava lançada a ideia de uns Estados Gerais da Europa.... Visava-se sobretudo a constituição de um governo europeu responsável perante os indivíduos e os grupos e não perante os Estados federados, com a consequente transferência de soberania dos Estados para um organismo superior. O discurso inaugural é de Churchill e começa evidentemente pela questão alemã: a Europa necessita de todos estes franceses, de todos estes alemães, de tudo o que cada um de nós pode prestar. Por isso, saúdo aqui a delegação alemã que convidamos para que tome assente entre nós. Para nós, a questão alemã consiste em restaurar a vida económica da Alemanha e fazer honrar de novo a antiga boa reputação do povo alemão, sem que os vizinhos da Alemanha e nós mesmos fiquemos expostos mais uma vez o novo fortalecimento do seu poder militar. Ele queria acentuar a tarefa orgulhosa das potências vitoriosas, de pegar pela mão os alemães e de reconduzi-los à família europeia . Já Albert Camus, nos começos de 1947, em artigo publicado em Combat, reconhecia que qualquer que seja a nossa paixão interior e a memória das nossas revoltas, sabemos bem que a paz do mundo tem necessidade de uma Alemanha pacífica, e que um país não pode ser pacificado quando é excluído para sempre do concerto das nações. Se o diálogo com a Alemanha ainda é possível, a razão obriga que o aceitemos.
Neste congresso são apresentados dois importantes relatórios, o de Denis Rougemont, L'Attitude Fédéraliste e o do futuro prémio Nobel da economia, Maurice Allais, Aspects Économiques du Fédéralisme. Rougemont propõe então uma nova tese federalista, que visava uma construção europeia feita, menos pelos Estados e mais pelas regiões: -renúncia a qualquer ideia de hegemonia e a qualquer espírito de sistema, isto é, a consideração de que a federação, como arrange ensemble, teria de compor as realidades concretas e heteróclitas, que são as nações, as regiões económicas e as tradições políticas); - a superação do problema das minorias (considerava-se que o federalismo seria capaz de resolver o problema dos pequenos Estados, como os suíços haviam resolvido o problema dos suíços italianos que, apesar de restritos, tinham lugar no Conselho de Estado); - a ideia de que o federalismo deveria salvaguardar as qualidades próprias de cada grupo, não pretendendo apagar as diversidades, antes exigindo o amor pela complexidade, dado partir de baixo para cima, e não a partir do vértice de um centro político, mas sim a partir das pessoas e dos grupos.
Ao mesmo tempo, a Europa unida era invocada por toda a uma série de outros movimentos políticos, desde os de cariz conservador e unionista, aos de marca democrata-cristã ou socialista. Na mesma vaga, inseriam-se os movimentos sindicais e patronais, sem excluirmos o próprio renascimento do próprio movimento pan-europeu. Em 14 de Maio de 1947 era criado em Londres, no Albert Hall, o United Europe Comittee, sob a presidência de Winston Churchill, marcado por uma perspectiva unionista da Europa, que defendia o modelo confederacionista de commonwealth. De cariz também confederativo era criado em França, em Junho desse mesmo ano de 1947, o Comité Français pour l'Europe Unie, com Édouard Herriot, André Siegfried, Paul Bastid, Paul Ramadier, Paul Reynaud e René Courtin. Também na Alemanha ocidental surgia o Deutsch Rat der Europaeischen Bewegung
Em Junho de 1947, democratas-cristãos de dez países da Europa lançavam em Chaudfontaine as Novas Equipas Internacionais (NEI) que, em 1965, se transformam na União Europeia dos Democratas-Cristãos (UEDC). As NEI baseavam-se em equipas nacionais, constituindo uma rede de comunicação e de influência, onde participavam vários governantes da altura. Não nos esqueçamos que três dos mais importantes pais-fundadores da Europa, Robert Schuman, Konrad Adenauer e Alcide de Gasperi, fazia parte da então chamada Europa carolíngia, Europa católica ou Europa vaticana
Mas o repto dos conservadores constituía um desafio a que não ficavam alheios os próprios socialistas. No início mesmo ano, também em Londres, vários políticos e sindicalistas de cariz socialista e social-democrata, sob o impulso de Bob Edwards, criavam um Comité Internacional de Estudos e de Acção para os Estados Unidos Socialistas da Europa que, em Junho de 1947, num congresso ocorrido em Montrouge, lançavam as bases daquilo que, em Novembro de 1948, passaria a ser o Movimento Socialista para os Estados Unidos da Europa (MSEUE), dirigido por Paul-Henri Spaak, movimento que mais tarde, em 1959, passa a ser designado por Esquerda Socialista, já sob a direcção de André Philip. Entre os movimentos sindicalistas internacionais surgiam grupos europeus, como na Confederação Internacional dos Sindicatos Livres e na Confederação Internacional dos Sindicatos Cristãos.
Os empresários e homens de negócios não ficavam alheios ao processo e em 1947 fundava-se uma Ligue Indépendante de Cooperation Économique, dirigida pelo antigo primeiro-ministro belga Paul van Zeeland e com a participação do liberal francês Jacques Rueff. Em 1945 já tinha surgido a Confederação Europeia da Agricultura. Em 1949 Georges Villiers criava a o Conselho das Federações Industriais da Europa. Também em 1947, os restos da União Pan-Europeia, sob o impulso de Coudenhove-Kalergi, voltavam a fazer renascer a ideia da unidade, a partir dos vários parlamentos, reorganizando-se a União Parlamentar Europeia que convoca um 1º Congresso Parlamentar Europeu, que teve lugar em Gstaadt, Interlaken, entre 2 e 6 de Setembro de 1948. O V Congresso decorre em Nova Iorque, no ano de 1943. Aí é lida uma mensagem de Churchill propondo a criação de um Conselho da Europa. Coudenhove-Kalergi é então professor na New York University, onde dirige um seminário sobre A Europa Federal Depois da Guerra. Anima a instituição de um Comité Americano para uma Europa Unida e Livre.
Face a toda esta espontânea dispersão, eis que em Dezembro de 1947, a União Europeia dos Feeralistas desencadeava a constituição de um Comité Internacional de Coordenação dos Movimentos para a Unidade Europeia. É este comité que promove a realização em Haia, entre 7 e 10 de Maio de 1948, o Congresso para a Europa Unida, onde oitocentas personalidades de várias tendências se reúnem sob a presidência de Winston Churchill. O próprio papa Pio XII lá envia um representante pessoal especial, demonstrando a solicitude da Santa Sé pela união dos povos, como Roma, mais tarde reconhecerá . Entre as 800 personalidades, há 200 parlamentares, 60 ministros e 12 antigos primeiros-ministros, surgindo uma espécie de manifestação de massas das elites europeias, como lhe vai chamar Dusan Sidjanski. Se a comissão política do Congresso, presidida pelo socialista francês Paul Ramadier, apenas propôs a constituição de uma assembleia parlamentar europeia composta por representantes dos vários parlamentos nacionais, já os federalistas, como Paul Raynaud, assumiam a necessidade de um parlamento europeu a ser eleito por sufrágio directo e universal, parlamento que se assumiria como assembleia constituinte europeia, à razão de um deputado por um milhão de habitantes. Moderada foi também a proposta do comité económico e social, que teve como relator o antigo primeiro-ministro belga Paul van Zeeland, de cariz liberal.
Finalmente, o comité cultural era presidido pelo espanhol Salvador Madariaga, tendo como relator o suíço Denis de Rougemont. Com este último sintetiza, o congresso apresentou três grandes objectivos: no plano político, a necessidade da paz pela ultrapassagem da anarquia dos Estados soberanos; no plano económico, a necessidade de uma prosperidade; no plano cultural, a ultrapassagem do nacionalismo, pelo apelo a uma comunidade espiritual.
No plano político, segundo os termos da resolução adoptada, a Europa unida não deveria ser um sistema de gravitação onde os Estados europeus seriam chamados a agrupar-se como satélites em torno de um qualquer entre eles. Contudo, sobre a natureza do laço jurídico a adoptar pela unidade europeia, eis que no texto final, também redigido por Rougemont, se procurou prudentemente conciliar o unionismo com o federalismo, isto é, não marginalizar os britânicos, apenas se pedindo que os diversos parlamentos nacionais elegessem uma assembleia europeia capaz de examinar os problemas jurídicos e constitucionais postos pela criação de uma União ou de uma Federação, bem como as consequências económicas e sociais. Deste modo também não se ofendiam os federalistas integrais que, tal como os unionistas, não concordavam com a eleição por sufrágio directo de uma assembleia europeia, dado que o processo revestiria um carácter individualista que não atribuía importância aos grupos naturais.
No plano das propostas concretas, foi dessa reunião que resultou a proposta de instituição de um Conselho da Europa, dotado de um tribunal dos direitos do homem e de uma assembleia europeia. No plano económico, as propostas foram mais vagas, dado que apenas falaram na necessidade de instituições comuns para a fusão de interesses ligados à produção industria, à legislação social, às taxas aduaneiras e à liberdade de trocas. Recomendou-se a abolição progressiva dos contingentes e das restrições à importação e à exportação, a abolição dos direitos alfandegários, a estabilização das moedas, o estabelecimentos de clearings multilaterais, de programas concertados de mobilização dos recursos agrícolas e de desenvolvimento das indústrias de base, a racionalização das políticas de emigração de mão de obra. No plano cultural propôs-se um Centro Europeu da Cultura, que começou a funcionar em Genebra logo em 1949, sob a direcção de Rougemont.