Respublica     Repertório Português de Ciência Política         Edição electrónica 2004

ANO:1825


SUMÁRIO:
Destaques Cronologia Acontecimentos Bibliografia Personalidades Livros do Ano Falecimentos e Nascimentos

I – DESTAQUES

PORTUGALMUNDO

Política

· Governo de Lacerda/ Barradas (Janeiro)

· Carta-patente sobre o Brasil (Maio)

· Assinado tratado do Rio de Janeiro (Agosto)

· D. João VI ratifica o tratado do Rio de Janeiro (Novembro)

· Morte de Alexandre I (Dezembro)

·

·

Ideias

·

·

·

·

 

II – CRONOLOGIA

NACIONAL

· Janeiro

15 surge um novo governo, liderado por Correia de Lacerda, no reino, e Sousa Barradas, na justiça, isto é, sem Palmela e sem Subserra. Os britânicos pressionaram D. João VI no sentido da demissão de Subserra e o rei, cedendo, demitiu também Palmela. Pensou em nomear Silvestre Pinheiro Ferreira para os estrangeiros, mas este partiu para Paris nos finais de 1825. Entre os governantes, são maçons Lacerda e Barradas. Barbacena dava-se bem com A’Court. O barão de Rendufe volta ao cargo de intendente da polícia. Um dos mais destacados membros do partido apostólicos é o cardeal-patriarca de Lisboa, D. Carlos da Cunha e Meneses, a partir do palácio do patriarcado à Rua da Junqueira (o futuro palácio dito de Burnay, onde está instalado o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas).

· Maio

13 Preparada a carta-patente sobre a independência do Brasil. A influência inglesa é indisfarçável, com o governo obrigado a reconhecer Charles Stuart como plenipotenciário da parte portuguesa nas negociações com o Rio de Janeiro. Segundo Trigoso, o caso é que os ingleses, isto é, o Ministério de Mr. Canning, depois de terem conseguido de El-rei D. João VI a demissão dos seus ministros e de terem extorquido d’Elle os poderes para Sir Charles Stuart … negociar o Trtado que declarou a independência do Brasil, tomou a peito um novo projecto, que era o de fazer que El-Reii desse uma nova Carta. O procurador deste negócio em Lisboa era Sir William A’Court … Os nossos liberais não ignoravam este projecto e faziam o que podiam para ele ir avante.

· Agosto

29 Assinado tratado do Rio de Janeiro

· Novembro

15 D. João VI ratifica o tratado do Rio de Janeiro

INTERNACIONAL

· 1 de Dezembro Alexandre I vai morrer durante uma misteriosa viagem à Crimeia. Se alguns dizem que foi envenenado, outros falam numa morte simulada. Chega mesmo a circular uma lenda que o refere como um eremita uniata dito Fiodor Kuzmitch. E em 1926 quando foi aberto o respectivo sepulcro, verificou-se que o mesmo estava vazio

· Ainda em 1825...

 

III - ACONTECIMENTOS DO ANO

Revolta dezembrista (14 de Dezembro) Na sequência da morte de Alexandre I, eis que sucede a revolta militar e nobiliárquica de 14 de Dezembro de 1825, o acontecimento que talvez tenha sustado à rápida ocidentalização da Rússia, constituindo o marco a partir do qual pode detectar-se a revolta eslavófila e antiocidental. é que Alexandre havia dado à Finlândia em 1809 e à Polónia, em 1815, Constituições que não concedera à própria Rússia. A revolta, com efeito, vai tomar como pretexto a indefinição deixada quanto à sucessão do trono. Com efeito, segundo a lei da sucessão russa então vigente, não deixando o Imperador filhos do sexo masculino, porque as mulheres estavam excluídas da sucessão, devia suceder-lhe o irmão mais velho. No caso concreto, na primeira linha da sucessão estava o grão-duque Constantino, então vice-rei da Polónia. Contudo, Constantino havia há muito renunciado e o próprio testamento de Alexandre I apontava um outro sucessor, o irmão, Nicolau. Acontece apenas que estes factos eram mantidos secretos e o próprio Nicolau tratou de adoptar uma conduta cautelosa, pois, logo que soube da morte de Alexandre, tratou de reconhecer Constantino. Contudo este, em sucessivas missivas, manteve a disposição firme de não aceitar o trono. Entretanto, a Rússia, no meio destas hesitações, vai passar cerca de duas semanas sem saber quem seria o respectivo Imperador, circunstância que foi aproveitada pela sociedade secreta União do Bem Público, que havia sido fundada em 1818 e era dominada pelos oficiais Muraviev e Pestel, para ser desencadeada uma revolta. A Praça do Senado de São Petersburgo, para onde estava marcada a cerimónia de juramento de fidelidade ao novo Imperador, foi o palco dos acontecimentos, dado que os regimentos vão dar vivas a Constantino e à Constituição, chegando alguns soldados a considerar esta como a esposa do czar. Face à revolta, o comandante chefe general Miloradovitch compareceu perante os sediciosos acompanhado pelo próprio Nicolau I. O general foi assassinado com um tiro de revólver, mas no Romanov ninguém tocou. Contudo, o rastilho revoltoso não vai incendiar o povo e os sublevados acabam por ser severamente reprimidos. Um dos conspiradores, Pestel, propunha mesmo a instauração de uma república revolucionariamente nacionalista, visando nomeadamente a russificação intensa dos povos alógeneos e a expansão territorial à custa da China e da Turquia, com a própria deportação dos judeus. O programa de Pestel, constante de um projecto de constituição republicana, intitulada a Verdade Russa (Rousskaia Pravda), tem algo de semelhante ao processo napoleónico e àquilo que o próprio Estaline vai implementar: uma revolução ao serviço de uma ideia imperial. A este respeito, convém não esquecer que foi o revolucionarismo romântico do século XIX que instaurou o nacionalismo, produzindo essa explosão típica da nossa Idade Contemporânea que consistiu na inclusão das energias nacionais ou pan-nacionais nos quadros de um determinado signo ideológico. Entre nós, isso aconteceu com a Revolução Liberal de 1820, que foi nacionalista em princípio e liberal por conclusão, tendo voltado a suceder com o republicanismo que, depois do Ultimatum de 1891, soube instrumentalizar o sentimento de Pátria em perigo, contra a traição dos Braganças, acusados de manipulação por potências estrangeiras. A primeira vez que, entre nós, o nacionalismo foi revolucionariamente assumido pela direita, de forma consequente, apenas aconteceu na sequência do golpe de Estado de 28 de Maio de 1926, a matriz da chamada Revolução Nacional, que o salazarismo vai instrumentalizar.

 

 

 

 

 

 

IV – BIBLIOGRAFIA

AUTORES

OBRAS

COMTE, Auguste

- Considérations sur le Pouvoir Spirituel, 1825

Obra publicada em Le Producteur de Saint-Simon.

- Considérations Philosophiques sur les Sciences et les Savants, 1825; (Obra publicada em Le Producteur de Saint-Simon).

LAMENNAIS, Felicité Robert 1782-1854

La Réligion considerée dans ses rapports avec l'ordre politique et civil

1825.

SAIN-SIMON, Claude Henri De Rouvroy, conde de (1760-1825)

Le Nouveau Christianisme, 1825.

KRAUSE, Karl Christian Friedrich (1781-1832)

Abriss des Systemes der Rechtsphilosophie, oder Naturrechts, 1825

V - PERSONALIDADES DO ANO

Nicolau I (1825-1855) Na sequência da revolta dezembrista, o novo czar vai proclamar: serei um soberano ou um cadáver. E Pestel, dirigindo-se aos respectivos juízes, declara:nós quisemos colher, antes de semearmos. Depois da condenação, outro dezembrista escreverá da Sibéria: a centelha lançará uma conflagração. Nicolau I (1825-1855), todo feito à imagem e semelhança de um oficial prussiano, fazendo jus ao cognome de o Caceteiro (Palkine), vai efectivamente dar corpo a um governo de ferro, marcado pela tríade ortodoxia (pravoslavié), autocracia (samoderjavié) e nacionalidade, conforme o programa estabelecido em 1833 pelo respectivo ministro da educação, o conde Uvarov Não pensemos, no entanto, que esta forma de governo significava qualquer cedência ao despotismo oriental. Como, então, observava Alexandr Puchkine, o Estado era o único europeu da Rússia. E a sociedade civil, como glosa Besançon, porque foi uma criação do Estado devido à acção de Pedro o Grande, essa, então, pertence inteiramente à Europa. Importa, no entanto, salientar, continuando a seguir Besançon, que Nicolau I vai tentar transformar os temas eslavófilos numa apologia do subdesenvolvimento subsistente. Acontece apenas que os europeus ocidentais de então não consideravam que Nicolau I praticava qualquer espécie de europeização e até faziam dele um bode expiatório. Michelet, por exemplo, proclamava que a tendência de um tal Estado é tornar-se cada vez menos um Estado e cada vez mais uma religião. Por seu lado, Karl Marx considerava que o império russo, mesmo depois de realizações de envergadura mundial, não deixa de ser considerado como uma questão de crença e não de facto. A repressão levada a cabo contra os dezembristas ou decabristas reflecte, aliás, um modelo inquisitorialmente paternalista, dado que próprio czar procedeu directamente a interrogatórios. Mesmo as audiências de julgamento transformaram-se num espectáculo, onde os réus, perante o desespero da acusação, como que se volveram em acusadores, certos do martírio. A este respeito, importa assinalar que, em qualquer processo que julgue uma causa política, o réu que resiste é uma espécie de centelha que persiste, coisa que o totalitarismo de Estaline não vai admitir quando, nos célebres processos de Moscovo, procurando evitar este modelo do acusado mártir, sempre à espera que a história o venha absolver, decidiu que o próprio réu devia espectacularmente confessar, sacrificando-se pelo Partido. Adiantemos que o feitiço vai voltar-se contra os feiticeiros durante o período brejneviano, com a repressão dos dissidentes, onde o poder soviético acabou por criar mártires perante o tribunal da opinião pública internacional, quando a Guerra Fria, perante o ambiente equilíbrio pelo terror, assumia, cada vez mais, formas de guerra psicológica, sendo preponderante a arma da propaganda. Esquecidos da mestria dos métodos estalinistas, os novos senhores do Kremlin não foram, então, capazes de apagar a centelha dos dissidentes, apesar da respectiva estratégia indirecta ter procurado intensificar a utilização do pacifismo como quinta coluna. Refira-se que no processo dos dezembristas houve apenas cinco condenações à morte. E, por ironia do destino, no próprio acto de enforcamento, o instrumento material de execução da pena falhou de forma macabramente patética.

Adams, John Quincy (1767-1848) O sexto presidente dos Estados-Unidos (1825-1829). Filho de John Adams. Puritano da Nova Inglaterra. Foi embaixador na Europa, chegando a passar por Lisboa. Um dos inspiradores da chamada doutrina de Monroe, de quem foi secretário (1817-1825). Discípulo de Burke, de quem recebe a defesa do princípio da continuidade social e das normas consuetudinárias, também acredita na ideia de progresso e na perfectibilidade da natureza humana. Teme as maiorias absolutas, defende a necessidade de um federalismo centralizador. Considera, em 1842, que a democracia é a pedra angular da religião cristã. é o elemento primordial de todos os governos legais da terra. A democracai é o autogoverno da comunidade pela vontade conjunta da maioria dos seus membros.

Letters of Publicola

Memoir of the Life of John Quincy Adams

12 vols., 1874 - 1877

Caneca, Frei Joaquim do Amor Divino e (1774-1825) Natural do Recife. Ordenado sacerdote em 1796. Assumindo um republicanismo exacerbado, participa nas revoltas de 1817 e de 1824. Condenado, acaba enforcado em 1825. Reconhece que a ciência do governo sempre foi a mais difícil das empresas dos homens em tempos de tranquilidade e entre um povo de costumes fixos e virtuosos; em quadras porém de efervescência e quando os homens vacilantes em moral se não dirigem a norte nenhum certo, é sem dúvida acima das forças humanas. Ver Obras Políticas e Literárias, Recife, Tipografia Mercantil, 1875-1876.

VI - LIVROS DO ANO

VII - FALECIMENTOS E NASCIMENTOS

FALECIMENTOS

NASCIMENTOS

SAINT-SIMON, Claude Henri de Rouvroy, Conde de (1760-1825)

LASSALE, Ferdinand (1825-1864)

PIMENTEL, António de Serpa (1825- 1900)


 
© José Adelino Maltez
Todos os direitos reservados.
Cópias autorizadas, desde que indicada a proveniência:
Página profissional de José Adelino Maltez ( http://maltez.info)
Última revisão em: 01-05-2009