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“The Nerves of Government”, 1963
Para o professor
de Harvard, Karl Deutsch, em The
Nerves of Government. Models of Political Communication and Control, 1963, a
ideia de comunicação atinge a sua culminância utilizando duas metáforas
fundamentais. Por um lado, faz equivaler o sistema político a um sistema
nervoso, a um sistema de ligação de centros nervosos que são irrigados pela
informação, um sistema dotado de sensores
que captam a informação que, depois de transportada para os centros nevrálgicos
do sistema, é seleccionada e se transforma em decisões. Por outro lado,
compara-se o mesmo sistema político a um sistema de pilotagem, como um processo
que tem em vista a obtenção de determinados fins, a condução da nau
do Estado a um determinado porto, falando-se na política como um sistema de
pilotagem do futuro. O ponto inicial do processo está nos receptores de dados e
mensagens, nos centros de recepção de
informação, nos pontos de entrada da informação proveniente do ambiente
externo e interno, equivalentes ao que Easton
considerava como os porteiros (gate-keepers).
Os centros receptores comunicam a informação aos centros de processamento de dados, locais onde também se recebem os
inputs sobre o próprio funcionamento
do sistema. O centros de processamento de dados, em seguida, passam a informação
tanto aos centros de decisão como ao
centro de armazenamento, ao local do sistema onde funciona a
memória e os valores. A memória
é o sítio do sistema onde se armazena a informação e onde os valores
permitem confrontar as possibilidades de execução com as preferências. É
aqui que se confrontam as mensagens do presente com informações recuperadas do
passado. Surge, assim, como fonte da individualidade e da autonomia de um
determinado sistema, atribuindo-lhe identidade,
isto é, permitindo que surja um povo, entendido por Deutsch
como uma comunidade de significações
partilhadas, e gerando a autonomia,
isto é, permitindo que o sistema seja capaz de utilizar informações do
passado para poder decidir-se no presente. É a partir desta repartição e
exaltação de símbolos de uma comunidade que se teoriza a political
socialization e a educação política, fundamentais para a comunicação de
mensagens e para evitar o que Durkheim
qualificava como anomia, a situação
de um grande número de pessoas não saber que regras seguir no seu
comportamento social. Num terceiro momento do processo, temos o centro de decisão,
que tanto recebe informação do centro de processamento
de dados quanto do centro de memória
e valores. Surge, assim, a retroacção da informação (feedback), dado que as informações podem ser recordadas e
retroactivadas para decisões do presente. Deste modo, qualquer decisão é
sempre a soma do ambiente com a memória. Contudo, a decisão é preparada na
central da consciência do sistema, no
local onde ocorre o processamento de resumos altamente simplificados e
concentrados de mensagens de segundo grau, de mensagens já seleccionadas e
estudadas pelos centros de recepção de dados, o sítio onde se dá
simultaneamente a inspecção e a coordenação, preparando-se a decisão. Num
quarto momento, temos as implementation
orders, realizadas pelos effectors.
Isto é, depois de um centro de decisão surgem as estruturas que produzem ou
fabricam as decisões. Governar
transforma-se, assim, numa pilotagem do futuro, sendo equivalente à condução
de um navio, dado que também na governação se caminha para um determinado
objectivo, recebendo informação sobre a viagem já decorrida, sobre a posição
actual, e face ao objectivo programado. Deutsch
refere, no artigo Communications Models and Decision System, de 1967, que
o conceito subjacente a todas as operações
deste género pode ser designado por retroacção (feedback). As aplicações
deste princípio de retroacção às máquinas modernas cercam-nos por todos os
lados. Os termóstatos nas nossas casas, os ascensores automáticos dos edifícios
comerciais, os aparelhos de visor automático das baterias aéreas e os mísseis
teleguiados de hoje, todos representam aplicações deste princípio. O
mesmo autor, retomando São Tomás de
Aquino, considera que a nossa
palavra “governo” vem de uma raiz grega que se refere à arte de pilotar um
navio. O mesmo conceito subjacente reflecte-se no duplo sentido da expressão
inglesa “governor” que tanto quer dizer uma pessoa encarregada do controlo
administrativo de uma unidade política como o dispositivo mecânico que
controla a marcha de uma máquina a vapor ou de um automóvel. Ao olharmos estas
questões mais de perto, verificamos, com efeito, que existe uma certa
similitude subjacente entre a forma de “governar” um navio ou uma máquina (seja
pela mão do homem, seja pela pilotagem automática)
e a arte de governar as organizações humanas. Pilotar um navio consiste em
guiar o seu comportamento futuro, a partir de informações respeitantes, de um
lado, à sua marcha no passado e, por outro, à posição que ocupa no presente
relativamente a um certo número de elementos que lhe são exteriores, o fim.
Governar equivale a pilotar, a conduzir o navio para um determinado porto, para
um fim, um objectivo, um goal. Porque,
tal como pilotar um navio é confrontar constantemente a respectiva posição
com a prévia rota estabelecida, determinando-se a distância que o separa do
porto de chegada, assim governar é confrontar um fim, o programa de política
externa e de política interna, com o grau de execução do programa, com as
medidas tomadas. A situação é semelhante aos mísseis teleguiados, que dispõem
de um servomecanismo, de um sistema de correcção da rota que os aproximam do
objectivo, do alvo. Até os sistemas de voo com pilotagem automática dispõem
desse sistema de correcção da rota, tendo em vista a aproximação ao ponto de
chegada. Em qualquer dos casos, o elemento fundamental é aquilo que Deutsch
qualifica como o negative feedback, as
informações sobre o próprio estado do sistema que levam o mesmo a reagir às
suas próprias transformações. As informações sobre as consequências das
decisões e das acções voltam ao sistema, de maneira a surgir um controlo da
acção com base nos erros passados. Deutsch
faz aqui uma comparação com os termóstatos que reagem a uma elevação
anormal da temperatura cortando a energia ao próprio sistema, para, depois, a
retomarem quando se volta à normalidade. O negative
feedback leva, assim, a que um sistema disponha de dois tipos de informações:
- as
informações externas, as informações da relação do ambiente com o sistema;
- as
informações internas, as informações sobre o próprio estado do sistema.
Nestes termos, haveria que atender: - ao
load, ou carga, ao peso da informação recebida pelo sistema; - ao
lag, o atraso ou demora do sistema, ao
espaço de tempo que vai do momento da recepção da informação sobre a posição
à execução do momento de adaptação, ou, como diz Deutsch,
à fracção de tempo que vai entre a recepção da informação sobre a
posição de um avião inimigo e o momento em que os canhões anti-aéreos estão
realmente apontados para o local escolhido para a intercepção; - ao
gain, ao ganho, à soma das modificações
reais do comportamento que resultam das operações de correcção, à
velocidade e à importância da reacção do sistema político face aos novos
dados de que se teve conhecimento; - ao
lead, à décalage ou adiantamento, à
distância entre a posição correctamente prevista do alvo móvel e a posição
real donde os últimos sinais foram recebidos. É que as probabilidades de ê xito na procura de objectivos estão sempre
inversamente relacionadas com a quantidade de “load” e “lag”. Até certo
ponto podem relacionar-se positivamente com as quantidades de “gain”, mas em
elevados níveis de “gain”, esta relação pode inverter-se e sempre se
relacionam positivamente com a quantidade de “lead”.
© José Adelino Maltez.
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