Respublica Repertório Português de Ciência Política Edição electrónica 2004 |
Bem-viver
Eu Zein Aristóteles considera que o fim da polis tanto é a
autarquia como o bem viver (eu zein). Não
visa apenas as necessidades vitais, não segue apenas a linha do parentesco,
procurando um fim bem diverso, o bem viver. Não
tem apenas em vista a existência material, mas também uma vida feliz, ao
contrário do que sucede com uma colectividade de animais.
Não é também e apenas um conjunto maior que a aldeia, já que a
genos, apesar de poder ser maior, não é uma entidade política,
mas uma entidade étnica. Só a polis é, neste sentido, uma
associação completa e perfeita. A polis é a comunidade do bem viver para as
famílias e os agrupamentos de famílias, tendo em vista uma vida perfeita e
independente.
O
modelo clássico da polis sempre foi
marcado pela ambivalência. Se, por um lado, ela visa atingir a autarquia, aquele espaço de auto-suficiência que lhe permite
satisfazer as necessidades vitais dos respectivos membros, ela também existe
para bem viver. Segundo as próprias
palavras de Aristóteles, a polis, formada de início para satisfazer apenas as necessidades
vitais, ela existe para permitir bem viver (eu
Zein) ou viver segundo o bem. É esta dupla exigência que transforma a polis numa sociedade perfeita. Não apenas porque visa a autarquia, o viver,
mas porque, além do viver, exige o bem viver. E esta exigência de bem viver que
faz da polis uma forma de associação humana totalmente
diferente das associações infrapolíticas. Porque se todas as formas de
associação humana visam um determinado bem (agathon), aquela que visa um
bem maior tem de ser superior à que visa um bem menor. Haverá assim uma
comunidade que é a mais alta de todas e a que engloba todas as outras. Esta
comunidade é a aquela a que se chama polis, é a comunidade política.
Bem-viver. São Tomás Assinala
que a civitas não reduz a perfeição
à mera auto-suficiência de bens materiais, considerada como condição secundária
e quase instrumental do bem viver. Este consistiria num viver segundo a virtude,
considerada como condição primária, onde a virtude é entendida como aquilo por que se vive. no bem viver do homem são
necessárias duas condições : a principal é viver segundo a virtude, entendendo por virtude aquilo por que se vive bem (qua bene vivitur); a segunda secundária e quase
instrumental, é a suficiência dos bens corporais, cujo uso é necessário aos
actos da virtude. Se esta unidade no homem é
produzida a causa pela natureza, já a unidade de um povo, que é chamada
paz, deve procurar-se por industria.
Assim, para
criar o bem viver de uma multidão são necessária três condições: que ela
seja constituída numa unidade de paz; que seja dirigida para o bem; que por acção do governante, sejam suficientemente
providas as coisas necessárias ao bom viver. A civitas é perspectivada como uma unidade
auto-suficiente (perfecta communitas) porque se basta a si mesma, como uma entidade
suprema que engloba todas as outras comunidades, desde a família à aldeia.
Como uma entidade que está acima da família, mas que não que, nem por isso,
deixa de estar dependente do bem comum do universo, que está acima da civitas ou regnum.