Respublica Repertório Português de Ciência Política
Edição electrónica 2004
Ciência
Do latim scientia, tradução do nome
grego mathêma. Esta, segundo
Pinharanda Gomes, corresponde a um triângulo cujos lados equivalem à dianóia (as ciências preparatórias da mathêma), a epistêmé (a
teoria das ciências) e a téknê (ciências
práticas ou aplicadas, tendo em vista fins concretos, que se subordinam a uma
pragmática). Trata-se de um conceito anterior à noção platónica de epistêmé,
conceito integrado, envolvendo a teoria e a prática das ciências.
Aquela intenção de rigor e de objectividade que implica um esforço
racional para substituir a opinião (dóxa) pelo conhecimento (episteme).
Essa perspectiva que pretende libertar-se do contingente da opinião, procurando
o verdadeiro, através da elaboração de um relato (logos) que, neste sentido, contrasta como o mítico (mythos).
Um esforço que, contudo, não parte de uns quaisquer primeiros princípios,
para atingir a conclusão. Bem pelo contrário, a investigação deve partir da
opinião, pesquisando os topoi, os
lugares comuns, a partir da linguagem e das opiniões dos homens comuns. Deve
partir da realidade, das circunstâncias históricas, do contingente. Assim se
simbolizava o ritmo da ciência que, conforme Leo Strauss, é a
tentativa de substituir a opinião sobre todas as coisas pelo conhecimento de
todas as coisas, a passagem do exotérico,
do socialmente útil, daquilo que é compreensível por qualquer leitor, ao esotérico,
isto é, aquilo que só se revela depois de um estudo demorado e concentrado.
Porque a ciência, para utilizarmos as palavras de Eric Voegelin, não
é apenas a emissão de uma opinião qualquer a respeito da existência humana
em sociedade é uma tentativa de
formular o sentido da existência, definindo o conteúdo de um género definido
de experiências. Acresce que, neste nosso tempo de aldeia global da comunicação, onde o de quod libet se processa
através da recepção quase
passiva dos mass media, a universidade
tem de assumir tanto a função de ensinar a dar voz activa ao auditório como
também a de ajudar a transformar as opiniões dispersas num conhecimento científico,
desse que, segundo Jürgen Habermas, é capaz de ajustar a alma ao movimento ordenado do cosmos à s proporções
do universo, através daquilo que Ortega y Gasset referia como o ensimesmamento.
Esforço racional para substituir a opinião (doxa) pelo conhecimento (episteme).
Impõe: distância e objectividade observação e experimentação; formalização
e sistematização.
Ciência, cristianismo, democracia, 1967 Golbery
do Couto e Silva, em Geopolítica do
Brasil, 1967, considerando que os objectivos
nacionais do Brasil são integração
nacional, autodeterminação, ou soberania, bem-estar, progresso, salienta
que os mesmos se integram naquilo que qualifica como essência
do Ocidente, a tríade ciência,
cristianismo, democracia.