Respublica Repertório Português de Ciência Política Edição electrónica 2004 |
Comércio
(e Política)
Do lat. commercium, de cum mais merx, mercis,
mercadoria. A troca de mercadorias. Segundo Hegel
, a sociedade dos particulares ou sociedade
dos burgueses (bürgerlich),
apenas tem como objectivo a prossecução dos interesses dos mesmos particulares,
dedicando-se preferentemente a actividades económicas. Está, assim, marcada por
laços de profissão e comércio e tem apenas como objectivo a defesa comum dos
interesses
Constant vai preferir uma sociedade mais marcada pelo comércio do que pela guerra. Para ele, com efeito, "a guerra é anterior ao comércio; porque a guerra e o comércio não são senão dois meios diferentes de se atingir o mesmo fim: o de possuir o que se deseja. O comércio não é senão uma homenagem prestada à força do possuidor pelo que aspira à posse. É uma tentativa para se obter gradualmente o que já não se espera conquistar pela violência"( é, "a guerra é o impulso; o comércio é o cálculo".
Para ele "o comércio que foi um acidente feliz é hoje o estado ordinário, o fim único, a tendência universal, a verdadeira vida das nações"(
Esta ideia aparece também em Destutt de Tracy em A treatise on political economy, Georgetown, 1817, par quem "a sociedade é apenas uma contínua série de trocas" e "o comércio é o todo da sociedade".
Hayek: Esse liberalismo que teria nascido da "civilização individualista da Renascença" esteve estreitamente ligado à "expansão do comércio" e corresponde "a uma concepção da vida que surgiu nas cidades comerciais do norte de Itália", obtendo "pleno desenvolvimento" nos Países Baixos e na Grã Bretanha.
Smith considera que existiram quatro períodos na evolução humana: a caça, a pecuária, a agricultura e o comércio. E este último é que teria gerado uma sociedade civil ou comercial, produto de uma espécie de revolução silenciosa que teria ocorrido na Europa e que minou as anteriores instituições sociais.
Mill baliza a lei da troca internacional (o país mais pobre e menos industrializado beneficia sempre com a liberdade do comércio).
Proteccionismo
List: Esta nação normal "possui uma língua e uma literatura, um território provido de numerosos recursos, extenso, bem delimitado, uma população considerável. Possui forças da terra e mar suficientes para defender a sua independência e para proteger o seu comércio externo. adverso à escola Clássica. Para ele esta "admitiu como realizado um estado de coisas a existir. Pressupõe a existência da associação universal e da paz perpétua, e daí conclui grandes vantagens para a liberdade de comércio" confundindo "o efeito com a causa". Para ele, "no actual estado do mundo, a liberdade de comércio levaria, em lugar da república universal, à sujeição de todos os povos do mundo à supremacia da potência preponderante nas manufacturas, no comércio e na navegação"
Paul Ricoeur, que o Ocidente é um produto da Idade Média dos séculos XII e XIII, autêntico "lugar de criação", dado que "foi nesta época que nasceram todas as grandes instituições:a universidade, a moeda, o comércio, o Estado, a vida comercial". As posteriores crises, da Renascença, da Reforma, do Iluminismo e das grandes revoluções do século XIX não passariam, aliás, de meras "crises de crescimento".
Badie e Birbaum, afirmam que o Estado é o produto de uma história(a da Europa) e de uma época(a Renascença), constituindo um especial modo de centralização e uma especial estrutura política de coordenação. E a Europa dos séculos XVI e XVII queria o desenvolvimento do comércio, a uniformidade legal, o desaparecimento das barreiras legais.
O colbertismo, aliás, não passa da aplicação do "individualismo possessivo" à s relações entre os Estados. Para ele o comércio constitui uma espécie de guerra entre moedas, "uma guerra perpétua e e pacífica de espírito e de indústria entre todas as nações". Porque uma nação só se enriqueceria arruinando as outras nações, assegurando uma mais valia de exportações sobre as importações.