Respublica Repertório Português de Ciência Política Edição electrónica 2004 |
Culto da Personalidade
Exaltação
sistemática de um dirigente máximo de um país, principalmente pela acção da
propaganda. A expressão foi usada
pela primeira vez em 1956 pelo PCUS, para caracterizar o modelo de personalização
do poder de Estaline, entre 1924 e 1953. O modelo foi particularmente
desenvolvido pelos totalitarismos contemporâneos. No fascismo italiano, surgiu
o Duce, Benito Mussolini. No nazismo,
o Fuhrer. No comunismo soviético, o
estalinismo foi marcante, exportando-se o modelo para Dimitrov, Enver Hodja,
Kim-il-sung e Mao Tse Tung. Muitos autoritarismos adoptaram a perspectiva. Em
Espanha, surge o caudillo. No Egipto
de Nasser, o Rais. O culto transforma
ao chefe numa espécie de pai da pátria que, ao contrário do
paternalismo monárquico, parece dotado de poderes de um super-homem,
principalmente no tocante à coragem e onde se exaltam as qualidades que, em
lugar do amor filial, são sobretudo as da compaixão. Só os processos de
propaganda política deste século, desde a fotografia ao poster
gigantesco, passando pelo próprio cinema, permitiram tal modelo que,
paradoxalmente, afectou em particular os partidos comunistas. Com efeito, quanto
mais formatada pela legitimidade racional é uma ideologia, mais ela precisa de
ser compensada pelos recursos à legitimidade carismática artificiosa, onde a
magia do chefe inventado também apela para as memórias da legitimidade
tradicional. Também entre nós se deu o culto da personalidade de Salazar
durante o Estado Novo, vestindo-o da coraça de D. Afonso Henriques em luta
contra a moirama do reviralho e comunista ou fazendo coincidir o respectivo
perfil com o mapa do Portugal europeu. Não faltou sequer a própria
instrumentalização de uma das figuras do
painel de Nuno Gonçalves, de tal maneira que o oposicionista monárquico
Hipólito Raposo chegou a caracterizar o regime do Estado Novo como uma salazarquia.