Respublica     Repertório Português de Ciência Política         Edição electrónica 2004



Massa

Do lat. massa, a massa da farinha. A quantidade de matéria que um corpo contém; aglomeração de partes que formam um conjunto; a totalidade no sentido de coisa informe. Para Scheler, "unidade por contágio e imitação involuntária". Conforme as teses de Gabriel Tarde e Gustave Le Bon, as massas surgem quando os indivíduos perdem a individualidade e se aproximam do estado da pura quantidade. Podem ser galvanizadas por meio de mitos e de sugestões, despertando instintos elementares nos indivíduos que as compõem. Assim, os indivíduos deixam de ter raciocínios e passam apenas a funcionar pelos instintos. Neste sentido. os mass media, transformam o real em espectáculo, substituem os anteriores ritos, que esconjuravam os perigos, e os mitos, o que nos leva a tornar heróis e santos na intimidade. De certa maneira, substituem a Igreja, nas funções psico-terapêutica, de recreação e de ligação social. Surgem assim como um quarto poder.

Ferrero fala no medo das massas face aos chefes políticos.

Há certo consenso em torno da definição deste conceito enquanto conjunto indeterminado de indivíduos

Gramsci diz que "teoria penetra na massa, mas também emerge dela. Isto é, surge e afirma-se na interacção prática material que constituem as relações sociais que formam a massa" Os construtivistas (Hayek) concebem as sociedades humanas "mais como uma espécie de massa a modelar do que sistemas evolutivos nos quais a civilização é o resultado de um crescimento espontâneo e não de uma vontade". Estão marcados pela "ilusão do Homem à semelhança de Proteu".

Julius Evola fala, a este propósito, na nação como "unidade não natural, mas sim artificial e centralizadora", onde os indivíduos se vão "aproximando do estado de pura quantidade, de simples massa". Para ele, "é sobre esta massa que actua o nacionalismo, por meio de mitos e sugestões destinados a galvanizá-la, a despertar instintos elementares, a adulá-la com perspectivas quiméricas de primazia, de exclusivismo e de poder. Sejam quais forem os seus mitos, a substância do nacionalismo moderno não é um ethnos mas sim um demos, e o seu protótipo continua a ser o protótipo plebeu suscitado pela Revolução Francesa".

Hannah Arendt refere o nacionalismo tribal, um movimento nascido do desenraizamento, da destribalização, do facto dessas massas de povos não ter "a menor ideia dos significados de pátria e patriotismo, nem a mais vaga noção de responsabilidade comunitária limitada". O nacionalismo desses povos partiu de "uma infra-estrutura teológica" e gerou uma "nova teoria religiosa e um novo conceito de santidade"; transformou-se num "substituto emocional da religião". Porque "o indivíduo . . . só tem valor divino enquanto pertence ao povo escolhido cuja origem é divina. . " e essa "origem divina transforma o povo numa massa uniforme escolhida de robots arrogantes". Acresce que "o dessarreigamento metafísico . . . amoldava-se igualmente bem à s necessidades das massas flutuantes das cidades modernas".

Massas e Totalitarismo

"Um único partido de massas dirigido  tipicamente por um homem " e que é organizado hierarquicamente e de forma  oligárquica , acima ou totalmente ligado à organização burocrática do governo; em terceiro lugar, a existência  de um "sistema  de controlo policial terrorista", que é dirigido  não só contra  inimigos declarados, mas também arbitrariamente  para certas classes da população, com uma polícia secreta  que utiliza a  psicologia científica; em quarto lugar, o facto  dos "meios de comunicação  de massas" estarem "sob monopólio quase completo"; em quinto lugar, a existência  de situação idêntica  no que respeita aos "meios armados"; finalmente, o "controlo e direcção central de toda a economia".

A estatolatria no âmbito da relação entre o Estado e a actual "sociedade de massa", situação provocada pelo facto da "massa da população" , que estava excluída pelo fenómeno da democratização, ter sido "incorporada na sociedade" e encontrar-se, agora, numa "relação mais estreita com o centro", como assinala Edward Shills.

A este respeito Evola refere os "Estados-Multidão", considerando-os como "fenómenos completamente semelhantes à s antigas tiranias populares:personalidades que emergem fugazmente através da arte de despertar e arrastar as forças do demos, sem se apoiarem num princípio verdadeiramente superior, e dominando apenas ilusoriamente as forças que suscitam", sendo marcados por "um realismo plebeu" e por uma "existência inferior dessacralizada".

Outros assinalam uma "rebelião das massas"(Ortega y Gasset) e uma "multidão solitária" (David Riesman) . Mais do que o fenómeno da "exploração" viver-se-ia um sistema de alienação.

O fenómeno típico do nosso tempo é, sem dúvida, a erupção deste fenómeno da massificação, desta extensão quantitativa de modelos anteriores.

Pensamos , em primeiro lugar, no alargamento da percentagem de eleitores do Estado : o conceito de cidadão activo em termos eleitorais tende a coincidir com o de habitante adulto e , pouco a pouco, foram-se eliminando formas de sufrágio censitário e reconhecendo direito de voto à mulher e aos adultos jovens. Mas não podemos também deixar de referir a influência unidimensionalizante dos meios de comunicação de massa  nesta aldeia planetária, bem como o fenómeno da concentração do poder económico e da internacionalização das trocas comerciais.

Com efeito, como assinala Max Weber, "desde que apareceu o Estado Constitucional e , mais completamente, desde que foi instaurada a democracia, o demagogo é a figura típica do chefe político no Ocidente". Uma demagogia que, depois de se transmitir pela palavra impressa e através dos jornalistas, passou para a rádio  e para a televisão.

A sociedade transformou-se , assim, mais numa "reunião de instintos" do que num "concurso de inteligências" e chegou-se a um ponto onde "não são as ideias que regem as sociedades, mas sim a ausëncia de ideias", como caricaturalmente referia Fernando Pessoa. Até porque "para agir sobre os homens, os raciocínios têm necessidade de transformar-se em sentimentos", conforme a conhecida asserção de Vilfredo Pareto.

Isto é, neste Estado Espectáculo e nesta sociedade de massa, a "cultura assume a forma de mercadoria"  e os mass media acirraram a formação de uma cultura de massa filha de uma produção cultural também de massa.

Verificamos, aliás, que os mesmos mass media, ao transformarem o real em espectáculo,  substituiram os anteriores ritos (com que esconjurávamos os perigos), e os passados mitos (que nos levavam a ser heróis e santos na intimidade). Além disso, passaram também a assumir um papel que era anteriormente exercido pelas igrejas, exercendo funções de psico-terapêutica , de recreação e de religação social.

Compreende-se, pois, que a comunicação social assuma a dimensão de um quarto poder ou de um quarto estado nesta civilização comunicacional. Com efeito, os mass media têm assumido o papel de opinion makers, de animadores socio-culturais que, outrora, cabia ao clero, pelo que as relações entre estes e os poderes político e económico assumem sempre uma especial complexidade.

Sigmund Freud (1856-1939) teorizou a psicologia das massas, salientando que o condutor das multidões é sempre uma incarnação do pai primitivo, onde a multidão quer ser sempre dominada por um poder ilimitado, estando ávida de autoridade e com sede de submissão.

Ortega y Gasset (1883-1955), em A Rebelião das Massas, de 1930, vem dizer que o homem-massa como entidade anónima, alia-se ao intervencionismo do Estado, também entendido como poder anónimo. Julius Evola refere a existência de um Estado Multidão, semelhante à antiga tirania popular, com um realismo plebeu e uma existência inferior, dessacralizada.

Nesta senda, os aplicadores das teses de Freud à política, vêm teorizar uma degenerescência do poder equivalente à cupidez de reinar, de que falava Maquiavel, a libido dominandi.

Uma outra forma de degenerescência é a da multidão solitária, de acordo com as teses de David Riesman, The Lonely Crowd, de 1950.

Weber referia a democracia de massa, o aparecimento de um poder anónimo. Para ele a organização burocrática chegou habitualmente ao poder na base do nivelamento das diferenças económicas e sociais ... a burocracia acompanha inevitavelmente a moderna democracia de massa, em contraste com o Governo autónomo e democrático das pequenas unidades homogéneas.

Já para Gustave le Bon, as multidões são tão autoritárias como intolerantes.... sempre dispostas à revolta contra uma autoridade fraca, a multidão curva-se com servilismo diante de uma autoridade forte ... não é a necessidade de liberdade, mas a de servidão que domina sempre a alma das multidões. A sua sede de obediência fá-las submeter-se instintivamente a quem se declara seu senhor.

O concentracionarismo se tem como aliado o nivelamento atomicizador, que propicia a unidimensionalização, já teme qualquer forma de aristocracia, nomeadamente a do individualismo filosófico.

Há sempre um fenómeno de massificação e, consequentemente, de anonimização do poder, onde se dá a atomização dos indivíduos e a consequente homogeneização.

Durkheim considera também que "o Estado é o órgão do pensamento social. Não que todo o pensamento social emane do Estado. Mas está lá de duas formas. Uma vem da massa colectiva e é difusa:é feita destes sentimentos, destas aspirações, destas crenças que a sociedade elaborou colectivamente e que estão dispersas em todas as consciências. A outra é elaborada neste órgão especial que se chama Estado ou governo. . . Uma. . . permanece na penumbra do subconsciente. Mal nos damos conta de todos estes preconceitos colectivos. . . Toda esta vida tem qualquer coisa de espontâneo e de automático, de irreflectido. Pelo contrário, a deliberação, a reflexão é a característica de tudo o que se passa no órgão governamental. É verdadeiramente um órgão de reflexão".

Ropke critica particularmente o socialismo pelo facto deste levar "à identificação da massa com a nação e com o Estado" e de nos levar a viver no "século do homem da rua"

Alceu Amoroso Lima considerava que "tanto liberalismo como socialismo integral são uma tentativa de destruição, por parte de indivíduos, aquele, e este por parte das massas, da unidade, social e espiritual do homem moderno, herança do cristianismo", que é  "um teocentrismo constante". Referia também que "a massa procura vencer o indivíduo, como o indivíduo quisera vencer Deus. A burguesia pretendeu eliminar a parte de Deus no homem - a pessoa - e conservar apenas a parte do indivíduo, substituindo o teocentrismo pelo antropocentrismo. O proletariado revolucionário, depois de Marx, elimina pessoa e indivíduo, instaurando o direito das massas, a religião das massas, a política das massas, que se baseiam sempre sobre o postulado materialista fundamental da inexistência de qualquer ordem de valores que transcendam, de qualquer modo que seja, a ordem dos valores sensíveis".

Massas, Adulação das

Na crítica à democracia, Platão faz é uma crítica à classe política que a dominava, marcada pelo facciosismo. Uma classe política onde primava a ignorância e a incompetência e que vivia da adulação das massas. Porque os cavalos e burros andam pelas ruas, acostumados a uma liberdade completa e altiva, embatendo sempre contra quem vier em sentido contrário, a menos que saiam do caminho

Massas, Apatia das

A democracia impõe tanto uma liderança governativa como a participação dos cidadãos nas decisões, eis que essas duas exigências são sempre acompanhadas pelas degenerescências do elitismo, por um lado, e pela indiferença ou apatia das massas, por outro. A necessidade da participação pode levar a que uma massa ignorante seja manipulada por demagogos ou se mantenha em regime de indiferença face aos negócios públicos.