Respublica Repertório Português de Ciência Política
Edição electrónica 2004
Modernidade
O conceito de moderno é bastante antigo. Já Santo Agostinho utilizava a
expressão para falar na nova ordem cristã, face à antiga ordem pagã.
Contudo, é com o Iluminismo que se atinge o actual entendimento do vocábulo.
Moderno passou a ser o aqui e agora. O aqui, isto é, as sociedades
ocidentais; o agora, isto é, aquilo que se faz contra o passado das
sociedades anteriores, dado que estas não nos podem dar lições. Modernizar
passou a ser ocidentalizar e continuou como tal pelos séculos seguintes.
Com o industrialismo, o cientificismo, o modelo de Estado-Nação, os princípios
da soberania popular e o caldo racionalista e positivista do progresso.
Os chamados temps modernes que se sucederam à introdução do
racionalismo cartesiano no pensamento ocidental.
Um dos últimos representantes dessa modernidade são os politólogos
ditos desenvolvimentistas, para os quais a modernidade é o conjunto das
características próprias da sociedade industrial ocidental europeia,
perspectivadas como exigências da modernização de todas as outras sociedades.
As sociedades não modernas são as sociedades tradicionais, rurais, atrasadas
ou subdesenvolvidas, porque a sociedade moderna é urbana, desenvolvida e
industrial, onde a passagem para esta segue um caminho histórico padronizável,
de acordo com a teoria ferroviária da história, expressa por Bertrand de
Jouvenel, a modernização. Esse padrão deu origem à sociedade da abundância
e à quilo que em anglo-saxónico se qualificou como o establishment,
caricaturizado pelo domínio do modelo WASP, triunfante no pós-segunda guerra
mundial, tempo áureo das ideias de cristianismo, ciência e democracia,
dominadas pela ética protestante nos valores do trabalho e do auto-aperfeiçoamento,
bem como pela fé nas ideias iluministas de razão, positivistas de ciência e
comportamentalistas de tecnologia. Foi contra essse situacionismo que se
revoltou a contra-cultura norte-americana e se desenharam os sinais da pós-modernidade.