Respublica Repertório Português de Ciência Política
Edição electrónica 2004
Obediência
Do latim obediscere, submeter-se à
vontade de outrem e executá-la. Acção de realizar a ordem dada por um
superior. Aquiescência, tácita ou expressa, face a um determinado comando. A
ideia foi particularmente acentuada pelo paternalismo e pelo absolutismo,
gerando o modelo do hábito de obediência dos súbditos face a uma entidade
superior, o soberano. Outra é a perspectiva da obediência pelo consentimento,
onde aquele que obedece apenas o faz relativamente
à quilo a que dá consentimento, pelo que, de certa maneira, obedece a si mesmo,
assumindo-se, ao mesmo tempo, como súbdito e soberano, isto é, como cidadão.
É esta a perspectiva do consensualismo. Do
mesmo modo se procura a autoridade, aquele quid que procura a obediência
espontânea. O normal numa comunidade política é a obediência espontânea
exigida pela sociabilidade, pelo sentimento comunitário, pelo interesse
individual de obedecer e só depois pela coacção, tanto a psicológica, como a
virtual ou em potência, dita coercibilidade, ou coacção potencial
Obediência e Coacção
Quando a coacção é entendida como
uma afirmação da liberdade. Porque, como refere Jacques Maritain, a
autoridade deve ser obedecida em consciência, isto é, da maneira como os
homens livres obedecem e no interesse do bem comum. O animal apenas tem obstáculos
naturais, não tem liberdade e não sente a coacção. E esta, como ensina
Castanheira Neves
, não
é mais que aquele instrumento de que as colectividades organizadas se servem
para impor ao arbítrio a vinculação jurídica válida... a coacção defende
a liberdade contra o arbítrio, mas a
coacção só será válida se for o instrumento da aplicação de um direito válido
e um direito válido é aquele que recebe o seu fundamento e encontra o
seu limite na consciência ética, será esta também o fundamento e o limite da
coacção aceitável.
Obediência pelo Consentimento
Doutrina, segundo a qual quem manda, manda, sobretudo, pelo reconhecimento
daqueles que estão sujeitos ao mando. Porque todo o poder tende a ser um ofício,
um simples poder-dever. Penetra-se assim na zona da autoridade, onde a obediência
pelo consentimento é bem
diferente da obediência pelo temor.
Utilizando palavras de Georges Burdeau, a
autoridade é assim a qualificação para
dar uma ordem, distinta do simples poder que é apenas a possibilidade
de ser obedecido. Já não se trata de um dominium
servile, produto do pecado, mas antes de um dominium
politicum, que já exige legitimidade. Como diz Rousseau, ainda
o mais poderoso de todos os homens não será suficientemente poderoso, se não
souber converter o seu poder em direito e a obediência dos outros em dever.
Porque a força é uma potência física, de cujas actuações não pode
resultar nenhuma moral. Também Schiller refere
que a única coisa que torna poderoso aquele que manda é a obediência
daquele que obedece.
Obediência faz o Imperante
A partir do absolutismo é a obediência que faz o imperante (oboedientia
facit imperantem). O soberano é absoluto porque não está limitado a não
ser pela sua própria vontade. O soberano não está limitado pelo direito,
porque é ele que cria o direito. O soberano nem sequer está dependente das próprias
leis que edita. Aquilo que o principe quer, aquilo que o principe diz, tem valor
de lei. O direito deixa de ser fundamento e limite do soberano. A soberania
enquanto circuito directo de comando é determinada pela adesão ou submissão
de um povo relativamente ao seu governo. A qualidade soberana, afinal, nasce de
um hábito de obediência de uma determinada sociedade face a um superior.
Obediência como Dever
Como dizia Schiller, a única coisa que
torna poderoso aquele que manda é a obediência daquele que obedece.
Porque, como dizia Rousseau, ainda o mais
poderoso de todos os homens não será suficientemente poderoso, se não souber
converter o seu poder em direito e a obediência dos outros em dever (le plus
fort n'est jamais assez fort pour être toujours le maître s'il ne transforme
sa force en droit et l'obéissance en devoir).
Também Espinosa observa que a
obediência não se refere tanto à acção externa quanto à acção anímica
interna. Donde resulta que quem está mais submetido a outro, é quem decide com
toda a sua alma obedecer- lhe em todos os seus preceitos; assim, quem tem a máxima
autoridade, é quem reina sobre os corações dos súbditos.
Obediência e Reconhecimento
Para Weber, se o poder enquanto Macht
é a mera possibilidade de alguém impor a
sua vontade a outrem, mesmo contra a vontade dele, já a segunda forma de
poder, Herrschaft, implica a probabilidade de se encontrar obediência, que haja
a presença efectiva de alguém mandando eficazmente em outros. Se no Macht
o comando não é necessariamente legítimo,
nem a submissão é obrigatóriamente um dever,
já no Herrschaft, a obediência
fundamenta-se no reconhecimento, pelos
que obedecem, das ordens que lhe são dadas, isto é, tem de haver consentimento.
Obediência e Resistência
Alain salientava que o cerne da política estava na relação entre a resistência e a obediência:
o cidadão pela obediência assegura a
ordem; pela resitência assegura a liberdade, dois termos que não seriam
opostos, mas sim correlativos, porque não
há liberdade sem ordem e a ordem de nada vale sem liberdade, pelo que
haveria que obedecer resistindo,
porque um homem livre contra um tirano,
tal é a célula da política, isto é, obedecer
em corpo; jamais obedecer em espírito; ceder absolutamente e, ao mesmo tempo,
resistir absolutamente.
&
Bibliografia
Milgram, Stanley, Obedience to Authority, Nova
York, Harper Colophon Books, 1974. Moore,
Barrington, Injustice. The Social Bases of
Obedience and Revolt, Basingstoke, Macmillan Press, 1969. Walzer,
Michael, Obligation. Essays on
Disobedience, War and Citizenship, Cambridge, Massachussetts, Harvard
University Press, 1970.