Respublica Repertório Português de Ciência Política
Edição electrónica 2004
Teoria
Segundo a perspectiva neoclássica de
Hannah Arendt é um sistema de
verdades razoavelmente reunidas. Tem a ver com a
ideia de verdade, como a entendiam os escolásticos, no sentido de conformidade
ou adequação do pensamento a uma acção, tendo como linguagem a lógica e como estilo a dialéctica, como expressa
Cabral de Moncada. Assim, sendo um sistema de verdades, tem de obedecer à quele
mínimo epistemológico clássico que impõe a substituição das opiniões
à cerca de todas as coisas pelo conhecimento
de todas as coisas. Logo, como refere Jürgen Habermas, teorizar implica que se
assuma a necessária contemplação do
cosmos, da ordem imortal, onde
quem pensa tem de assemelhar-se à medida
do cosmos, de, em si mesmo, o reproduzir, pelo ajustamento
da alma ao movimento ordenado do cosmos, pelo ajustamento mimético da alma à s aparentemente contempladas proporções
do universo. Impõe assim o
conhecimento contemplativo da ordem essencial do mundo, impondo-se o estado do bios
theoretikos, do spoudaios, do
homem sério e maduro. O teórico, segundo a lição de Aristóteles, tem de
assumir aquele estado de espírito que apenas pode ser atingido pelos que tentam
pensar de modo racional e justo. Isto é, usando palavras de Eric Voegelin,
o teórico, deve ao menos ser capaz de
reproduzir imaginativamente as experiências que a sua teoria busca explicar.
Em segundo lugar, a teoria como explicação
só é inteligível para aqueles em que a explicação desperte experiências
paralelas como base empírica para testar a base da teoria. Porque uma
teoria não é apenas a emissão de uma opinião a respeito da existência
humana em sociedade é uma tentativa de formular o sentido da existência,
definindo o conteúdo de uma género definido de experiências.
Aliás, segundo Ortega y Gasset, o tal bios
theoretikos equivale à quilo que os romanos qualificaram como vita
contemplativa, a que corresponde o nosso peninsular ensimesmamento.
Uma fase que se sucede à quele momento em que o
homem sente-se perdido, naufragado nas coisas, pelo que, com
enérgico esforço, recolhe-se à sua intimidade para formar ideias sobre as
coisas e seu possível domínio. Só que não fica por aí, porque há
sempre um momento mais complexo e mais denso, quando o
homem torna a submergir no mundo para actuar nele conforme uma plano pré-concebido;
é a acção, a vida activa, a “praxis”. E não
se pode falar de acção senão na medida em que esteja regida por uma prévia
contemplação; e vice-versa, o ensimesmamento não é senão uma projectar a acção
futura, pelo que o destino do homem é,
portanto, primariamente a acção. Não vivemos para pensar, mas ao contrário:
pensamos para conseguir perviver. Com
efeito, entre a chamada teoria e a
chamada prática, cabe ao pensamento e
à vivência tornar tudo teoricamente prático
e praticamente teórico, nomeadamente
pelo sentido crítico daquela demonstração que leva a considerarmos que, na
prática, a teoria é outra, quando se dá a
falta de autenticidade, isto é, quando se nota uma distância entre aquilo
que se proclama e aquilo que se pratica, ou, por outras palavras, quando não se
vive como se pensa. Neste sentido, a teoria, enquanto contemplação,
não pode conduzir a um estar aqui de modo passivo e acrítico, à espera de
quem me teorize o onde estou. Há sempre que aperfeiçoar o que está em nome do que deve-ser.
Que pensar o que deve-ser tendo em
vista o que está. Procurar estar aqui
para poder seguir no sentido daquele mais
além que não só está mais acima
como mais por dentro, conforme o lema
de Teilhard de Chardin. Isto é, importa procurar o mais além dentro das próprias coisas, dentro de nós, e dentro do nós
que formamos com os outros. Mais: subjectivizarmos as normas, subjectivizarmos a
objectividade, dando dever-ser ao ser, libertando-nos da alienação e semeando autonomia na
heteronomia. Neste sentido, como salienta Moncada a ideia não é já senão o facto em gérmen, como este não é senão
a ideia coagulada. E não proclama Fernando Pessoa que toda a teoria deve ser feita para ser posta em prática, e toda a prática
deve obedecer a uma teoria. Só os espíritos superficiais desligam uma teoria
da prática, e a prática não é senão a prática de uma teoria? Aliás,
segundo o mesmo autor, o preceito moral,
para ser verdadeiramente preceito, nunca esquece um certo limite, e o
preceito prático, para ser verdadeiramente preceito, nunca esquece uma certa
regra.