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  Miguelistas


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1834
D. Miguel no exílio emite logo em 20 de Junho, a partir de Génova, um vigoroso protesto, dando por nula a capitulação de 26 de Maio, como qualifica a convenção de Évora-Monte.

●O miguelistas do interior são pura e simplesmente objecto de caça, sendo inúmeros os assassinatos e os roubos: o vencedor punha-lhe o joelho no ventre e o punhal sobre a garganta. Caçavam-se como se caçam lobos, e cada ofensa anterior, cada crime, era punido com uma morte sem processo, os vencedores, supondo-se árbitros de uma soberania absoluta, retribuíam a cem por cento o que antes tinham recebido...De facto, não terminara a guerra: continuava sob a forma de caçada (Oliveira Martins).

 

Miguelistas 1842. D. Miguel, ainda em Roma, nomeia António Ribeiro Saraiva como seu agente e representante, a partir de Londres, até 1851 (2 de Junho). Até então era tratado como infiel e traidor pela camarilha que circulava em torno no monarca destituído, com destque para António Bartolomeu Pires, barão de Queluz, que vai, depois ser o líder dos chamados lisboetados.  No mês seguinte nomeia António de Sousa Pereira Coutinho (1805-1847), 9º morgado de Vilar de Perdizes, como seu agente no interior do país. Este será o primeiro membro de uma Junta Central Promotora da Restauração Constitucional da Monarquia, sedeada em Lisboa, onde também surgem D. José de Lencastre (1819-1870) e D. João de Castelo Branco. Outros miguelistas activos são António Bartolomeu Pires, 1º visconde de Queluz (1795-1876), o conde de Barbacena e o conde de Santa Marta, José de Sousa Sampaio Vaia (1790-1847), um antigo vintista.

Tudo está safado e desacreditado – Segundo uma carta do chefe miguelista, António Ribeiro Saraiva, de 10 de Julho, dirigida a José Estêvão: em nossa casa hoje, Cartismo, Setembrismo, Miguelismo, Realismo, Constitucionalismo, Liberalismo, no sentido vulgar, tudo está safado e desacreditado pelas muitas loucuras e despropósitos que, em nome disso se têm feito desde 1820. Que se carece procurar coisa nova e contudo conhecida e definida, para no Reino se fazer obra política de proveito. Essa coisa nova só pode ser utilmente, um verdadeiro e sensato "Portuguezismo", ou a minha "Legitimidade nas Coisas", e suas bem entendidas consequências, como base do novo sistema.

Miguelistas em 1843 . D. Miguel nomeia Reginald Macdonell como organizador militar da Restauração, intitulando-o General em Chefe e Director Militar no Reino (26 de Maio) e este logo indica João Ferreira Pinto Rangel como seu agente no Minho. Enquanto isto, Vilar de Perdizes negoceia acordo com os setembristas, através de Francisco António de Campos. Há uma tensão entre a linha representada por António Ribeiro Saraiva, defensora do constitucionalismo realista, e a linha dita urneira, representada por Caetano Beirão, mais disposta a assumir-se como miguelista, a fim de utilizar a imagem do rei derrubado para fins eleitorais. Os realistas, ligados ao jornal O Povo, onde escreve José Martiniano Vieira, defende a necessidade de criação de um partido constitucional velho português, independente da pessoa do príncipe, salientando-se que todo o realista era verdadeiramente constitucional. Preferindo a designação de legitimistas estes adeptos dos princípios constitucionais da antiga monarquia até proclamam que o nome miguelista inculca idolatria e em Portugal não há idólatras (José Martiniano Vieira)
 

1846

Maria da Fonte. A sublevação anti-situacionista terá começado em Santo André de Frades, concelho da Póvoa do Lanhoso, em 19 de Março, com a populaça a revoltar-se contra o governo dos Cabrais por causa da Junta de Saúde e das bilhetas. Prendem-se algumas mulheres e logo ajuntamentos vão soltá-las, arrombando as cadeias, protestando contra o despotismo dos administradores e empregados e enfrentando os soldados, que se apresentam como a mão longa da capital. A populaça assalta as repartições queimando os papéis das finanças, com muita gente armada de roçadora. Depressa se propaga ao Minho, sob a liderança de padres como Casimiro José Vieira, João do Cano, Manuel das Agras e José da Laje. A própria cidade de Braga chega a estar ameaçada pelos populares dos arredores e até há um ataque a Guimarães (14 de Abril).

Todo um povo em massa  –  – A contribuição de repartição, e o imposto sobre os mortos foi o rastilho...o cálice das amarguras estava cheio, e a bolsa dos povos inteiramente vazia... era todo um povo em massa, todas as Cidades, Vilas e Aldeias de um reino a exprimirem o mesmo pensamento com a mesma energia e pela mesma forma. Foi um facto grandioso e virgem (palavras do miguelista João de Lemos, em 18 de Março de 1847, em carta a D. Miguel).

As fogueiras da revolta – Pedi um palito de fogo, que apareceu de pronto e aceso, disse alto que eram aqueles os papéis da nossa desgraça, cheguei-lhes o fogo e mandei-o chegar também a todos os papéis que estão no chão, porque entendi que já se lhes não podia valer. Com isto ficou o povo mui contente, a olhar para mim com agrado, por ver que eu estava do seu partido, por ser padre, o único dessa classe que ali aparece, e por andar mais limpo do que os que estão presentes. Começou logo o povo a respeitar-me e a sacudir-me a gola de veludo da capa as cinzas dos papéis que vinham pelo ar, e nela me caíam (Padre Casimiro). E eis o guerrilheiro a achar-se metido na revolução sem o procurar nem querer, sem nada saber de guerra e até sem nada saber de política, nem dela me importar em tempo algum, apesar de considerar-se realista, ou legitimista, que pugnava pela Religião Católica, acreditando num plano da Providência, porque vejo marchar todo o povo unânime e com o mesmo entusiasmo para um ponto, sem ser chamado por alguém, fez-se chefe, sem autorização alguma, mas recebendo-a do mesmo povo, porque, para vencer seria necessário que a força de todos os indivíduos se tornasse numa só pela união, e que isto só se conseguiria pela obediência a um chefe, e que eu, comprometido como me achava, me ofereci para o comando geral; mas que a minha autorização só do povo me podia provir, para eu poder castigar com penas severas os delinquentes e os desobedientes.

 

Uma revolução diferente – Em discurso na Câmara dos Deputados, António Bernardo da Costa Cabral, depois de reconhecer que há uma conspiração permanente contra as instituições actuais, contra a ordem estabelecida, e mãos ocultas que manejam estas conspirações, reconhece que a revolução do Minho é uma revolução diferente de todas as outras, que até hoje têm aparecido, porque todas as outras revoluções têm tido por bandeira um princípio político, mais ou menos, mas esta revolução é feita por homens de saco ao ombro, e de foice roçadora na mão, para destruir fazendas, assassinar, incendiar a propriedade, roubar os habitantes das terras que percorrem, e lançar fogo aos cartórios, reduzindo a cinzas os arquivos!. Que é levada a cabo sem chefe pela mais ínfima classe da sociedade, havendo um bando de duas mil e quatrocentas, a três mil pessoas armadas, com fouces roçadoras, alavancas, chuços, espingardas, com tudo quanto eles podem apanhar, impondo-se tomar medidas enérgicas e fortes, para a espada da lei cair sobre as suas cabeças (20 de Abril).

A primeira queda dos Cabrais – José Bernardo é enviado para o Porto, com plenos poderes para dominar as revoltas (21 de Abril). Entretanto, em 7 de Maio, uma série de deputados pede a demissão do governo. Costa Cabral ainda começa por desdenhar da movimentação, mas em 17 de Maio já o governo é obrigado a apresentar a respectiva demissão.

Pés fresco e pata ao léu. O ódio ao novo Estado é tal ordem que os revoltosos começavam quase sempre incendiando as delegações locais da fazenda, eliminando os registos e supondo que assim deixariam de pagar contribuições. Em breve este grupo de pata ao léu passa a ter a colaboração e o enquadramento dos pés frescos do setembrismo, formando-se, por todo o reino, juntas revolucionárias a partir dos gabinetes locais da coalizão oposicionista. A primeira surge em Vila Real, presidida pelo morgado de Mateus. Estudantes de Coimbra deslocam-se à Figueira da Foz e assaltam o forte de Santa Catarina. Passos Manuel preside à junta de Santarém. Em Braga é o visconde do Valongo.

Intervenção dos miguelistas – O movimento das guerrilhas, a partir de Maio, é politizado, quando vários miguelistas passam a apoiar as juntas, com Francisco de Lemos Ramalho Azevedo Coutinho em Coimbra, Povoas na Guarda e Visconde da Azenha em Guimarães. Entretanto, D. Miguel é aclamado rei em Valpaços e Montalegre, nos dias 14 e 16 de Junho. Em Trás-os-Montes, os miguelistas passam a ser comandados militarmente por Bento Gonçalves de Moura e Paulo Mauriti. Em Julho e Agosto, há levantamentos do mesmo teor no Minho, sob o comando de Francisco de Abreu Coutinho e do irmão, José Maria Coutinho de Abreu, principalmente na zona Norte. Na zona de Braga destaca-se Aboim da Nóbrega. Há também levantamentos na Beira Litoral, na Beira Baixa e nos arredores de Lisboa.

Setembristas contra miguelistas – O governo de Palmela nomeia o conde das Antas para enfrentar as revoltas miguelistas em 24 de Agosto, mobilizando-se os setembristas contra os miguelistas. Usam-se também alguns padres liberais e criam-se batalhões de forças populares, nomeadamente os comandados pelo cónego Francisco de Montalverne.

Pelas leis fundamentais! O comum dos homens, se conduz melhor pelos seus hábitos, que pelo juízo, pelo que a regra vulgar da política, e recebida em todas as Nações, e em todos os séculos, que as Leis fundamentais , e Políticas (dos) Estados, se não devem alterar, sem uma absoluta necessidade, que he só quando elas são contrárias à recta razão, e opostas ao bem público; e que neste caso único, ainda a alteração, e mudança se deve operar muito lenta, e imperceptivelmente aos homens, porque a antiguidade de qualquer estabelecimento, e Leis, sempre foi tido por coisa Santa e venerável. E isto porque os costumes dos Povos necessitam do socorro das Leis para serem mantidos; e as Leis tem precisão dos costumes dos Povos, para serem observadas. Palavras de Cândido Figueiredo e Lima (1782‑1851), lente saneado e conspirador miguelista, defendendo o modelo constitucional britânico.

O programa do miguelismo populista – O novo governo é uma farsa e combinação das seitas para tudo ficar como até ali, com a mudança apenas de pessoas . Fala de opressões injustas que têm feito ao povo, tratando-o até agora como se fossem negros e escravos. Pede à Rainha que nomeie para toda a parte homens da maior integridade e desinteresse (... ) homens escolhidos à vontade do povo; que se baixem os impostos; nomeadamente a abolição das portagens; que as magistraturas locais possam ser exercidas gratuitamente; que aos deputados se lhes façam os gastos da comida e transportes à custa do povo, mas que não embolsem dinheiro nenhum, para que depois não haja nas eleições tanto suborno, e o povo atine com a boa escolha. Propõe mesmo a constituição de um exército popular: quer também o povo...que nas guardas nacionais entre todo o homem voluntariamente...e que os oficiais sejam escolhidos por votação de todos os militares da guarda nacional. E não deixa de defender a instituição do sufrágio universal: as eleições para toda a espécie de justiça e autoridade sejam de todo populares sem excepção de pessoa, a não ser as que não lêem, nem escrevem, para evitar enganos e despertar a instrução, porque só assim se pode exprimir a vontade geral dos povos, que é a verdadeira lei (Padre Casimiro José Vieira, numa carta escrita a D. Maria II em 6 de Julho de 1846, depois de lida ao povo para saber se o que nela se dizia é a vontade de todos).

Ganhar o coração dos homens… A máxima vulgar da política, e adoptada na Arte de Reinar, pelos mais graves homens de Estado, que é preciso ganhar o coração dos homens, para se submeterem de vontade; e que, quanto for possível, se devem conduzir sem coacção pela boa ordem, e pela esperança das recompensas (Cândido Figueiredo e Lima).

Intervenção da hierarquia miguelista – Só em Novembro de 1846 é que o Padre Casimiro José Vieira passa a alinhar com a hierarquia miguelista, que apenas aproveita a chamada onda para tentar desencadear a catarata. A guerrilha, já integrada na rede que visava a restauração, tem extensões no Poto (Padre Luís Sousa Couto), Viana do Castelo (António Tavares), Trás-os-Montes (Cândido Figueiredo e Lima) e Lisboa (morgado de Vale de Perdizes). Macdonell começa a movimentação em 11 de Novembro em Castelo de Paiva.

 

1856 Partido legitimista – Miguelistas reúnem em 18 de Agosto no palácio dos viscondes de Manique em Lisboa. Decidem ir às urnas. Têm o apoio do jornal A Nação e são suportados pela Ordem de S. Miguel da Ala.