Almada Negreiros

Já para Almada Negreiros, terminado o Império Romano e emancipados os povos, formam-se depois as várias nacionalidades e substitui-se a unidade política da Europa da Roma dos Césares pela unidade política da Europa legítima.

Entregues os povos aos seus próprios governos, a unidade da Europa está na ligação de todos pela mesma fé geográfica e telúrica.

Trata-se de formar as várias civilizações particulares da civilização geral europeia. Trata-se de guardar no todo da Europa o perfil de cada um dos seus particulares.

Na Europa de hoje reproduz-se parecidamente o mesmo que na da Roma dos Césares. Não existe um poder central, como então, impondo com as suas legiões armadas a obediência ao César romano, mas há uma força que ultrapassa o poderio das nacionalidades europeias, uma força que não é localizadamente temporal em nenhuma parte da Europa, mas que existe, a mais forte de quantos impérios aqui se sucederam. É a própria força da Europa mais una afinal hoje do que nunca, entregue pela primeira vez à sua própria responsabilidade total, sem nenhum chefe único da Europa mas nas mãos de todos os chefes de todas as nacionalidades europeias. É a força espiritual da Europa que entra em sua própria consciência. É esta consciência da unidade espiritual da Europa que faz exigir de cada nacionalidade o superlativo da sua evidência telúrica, que faz ir cada povo até às profundezas místicas dos seu próprio barbarismo d'origem, como se o mais estranho poder e o mais sobrenatural intimasse cada nacionalidade a esclarecer toda a essência do seu próprio mistério, como se tratasse de uma questão a prazo, de vida ou de morte para cada nacionalidade.

A unidade espiritual da Europa entra hoje na sua maioridade. Os povos já não terão por inimigos o estrangeiro que lhes justifique as lutas pela independência. Hoje a independência dos povos assenta sobre si-mesmos, adentro das fronteiras, corre mais perigos e tem menos inimigos estranhos.

A unidade espiritual da Europa ao mesmo tempo que ilumina melhor também ameaça mais a independência de cada nacionalidade do que o estrangeiro à porta. Cada povo europeu actual há-de fazer ressuscitar do barbarismo da sua origem a mística colectiva da sua própria integração na terra-berço. Cada povo europeu actual há-de mergulhar-se de novo nos absurdos milagres que o fizeram na lenda melhor do que na historia. Cada povo europeu actual há-de crer novamente naqueles milagres que servem só para si e nos quais ele sabe acreditar.

Afinal, na Europa, não há senão casos particulares de europeus: o caso russo, o caso alemão, o caso inglês, o caso francês, o caso português, o caso espanhol, etc. Os diversos e determinados casos da Europa. Os diversos, determinados e legítimos casos da Europa .

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Página revista em: 05-01-1999.


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