Respublica     Repertório Português de Ciência Política         Edição electrónica 2004


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Napoleão III

O europeísmo da segunda metade do século XIX constitui assim mero ponto de coincidência entre os mais contraditórios projectos e as mais diversas concepções do mundo e da vida.

Veja-se o caso de Napoleão III (1808-1873) que o mantém em nome do desejo de hegemonia francesa. O filho de Luís Bonaparte, antigo rei da Holanda, e sobrinho do Imperador Napoleão Bonaparte sobe ao poder em 10 de Dezembro de 1848, como o cidadão Luís Napoleão, eleito presidente da República francesa, nos quadros do sufrágio universal instituído pelo novo regime em 5 de Março anterior.

Invocando a memória do primeiro Bonaparte, nomeadamente a ideia do Império como a paz, e lançando o modelo do Estado-Providência, de acordo com os conselhos do próprio Proudhon que lhe propõe a instauração do socialismo pela via cesarista, não tarda que, em 2 de Dezembro de 1852, institua o Segundo Império, dele fazendo um attrape tout que congregou republicanos e monárquicos, liberais e socialistas, católicos e maçónicos, todos cansados dos sucessivos fracassos da Restauração, da monarquia burguesa e da segunda república. E essa mistura explosiva, tal como a que fora praticada pelo primeiro Napoleão, depois de unir os franceses, logo os lançou numa política intervencionista no contexto da balança da Europa.

 

No livro Les Idées Napoléoniennes, comentava assim as ideias do tio: A política do Imperador consistia em fundar uma associação europeia sólida fazendo repousar o respectivo sistema em nacionalidades completas e sobre interesses gerais satisfeitos. Para cimentar a associação europeia, o imperador, segundo as suas próprias palavras, fez adoptar um Código europeu, um Tribunal europeu (...) A uniformidade das moedas, dos pesos, das medidas, a uniformidade da legislação foram obtidas pelas sua poderosa intervenção .

Como então observava, ao estado mórbido da Europa remediará um congresso, onde os amores próprios e as resistências desapareçam perante uma arbitragem suprema; em vez de deveres sem norma, direitos sem título, pretensões sem limite, derivadas de infracções sucessivas no pacto fundamental do edifício político da Europa, que se alui por toda a parte, firme-se uma nova ordem de coisas fundada no interesse bem compreendido dos soberanos e dos povos .

Primeiro, pensa numa aliança daquilo que então se considerava a raça latina, com a França, a Espanha, Portugal, a Itália, a Roménia e o México. Depois, aposta numa federação europeia, em nome do livre-câmbio e com uma capital única, Paris, com as suas exposições universais , como a que promoveu em 1867 e a que assistiram cinquenta e oito testas coroadas, incluindo o imperador da Rússia e o sultão , e com um congresso europeu, para resolver divergências e promover o desarmamento.

Mas apostolando a paz, semeava a cizânia por toda a parte, assim foi amigo de todos e inimigo de todos . E confundindo essa nova ordem com os interesses franceses , logo se envolve no conflito da Crimeia, onde o Tratado de Paris, de 30 de Março de 1856 que lhe pôs cobro, se assume, no dizer de Lamartine, como uma declaração de guerra em forma de paz; o preparo do novo caos europeu; a morte do direito público da Europa .

 

No ano de 1867, quando surgia o Das Kapital de Karl Marx e o nosso Antero voltava de Paris, eis Alexandre Herculano a partir para Vale de Lobos, ao mesmo tempo que, em Portugal, se abolia a pena de morte e se promulgava um novo Código Civil.

Como então Eça de Queirós observava: o estado actual da Europa é de expectativa e de receio (...) Todos pressentem que grandes acontecimentos vão mudar a face das nacionalidades (...) Não se pode dar uma fórmula precisa do que seja a política da Europa de hoje. Quando se destrói um edifício, os trabalhadores, enquanto não começa o trabalho da nova construção, comem e descansam sobre as ruínas. A Europa está assim. Destruir muito: instituições, tronos, raças, castas, tudo foi revolvido, despedaçado e derrubado; agora é necessário construir; enquanto não chega esse dia, a Europa descansa, sonha, diverte-se e faz exposições, às vezes, dolorosamente, tem para se distrair tragédias como Sadowa .

Chega-se assim a 1870, ao conflito franco-prussiano, entre dois dos maiores Estados de então da Europa, ambos com cerca de quarenta milhões de habitantes. Na batalha de Sedan, de 1 de Setembro de 1870, que dura 15 horas, os prussianos movimentam 240 000 homens e, depois, penetram em território francês, cercando Paris, durante cinco meses, com 800 000. O movimento de massas militares, comparados com os 400 000 homens que alemães e russos tinham movimentado em 1813, assumia proporções inéditas.

Em estado de necessidade Napoleão III trata de invocar as ideias da Revolução: a gloriosa bandeira que desfraldamos de novo ante os nossos provocadores é a mesma que difundiu através da Europa as ideias civilizadoras da nossa grande revolução; representa os mesmos princípios, inspirará as mesmas simpatias... .

Vai, contudo, acontecer uma Valmy ao contrário, dado que a Prússia diz não guerrear a França, mas Napoleão e invoca a seu favor uma ideia que fora da França revolucionária de 1791-1792 e da primavera dos povos de 1848: a nação e o princípio das nacionalidades.

Como então proclamava Wagner: Nós combatemos pelo princípio da nacionalidade, o mais justo, o mais duradoiro, o mais proveitoso para a constituição dos Estados e delimitação do seu território .


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