Respublica     Repertório Português de Ciência Política         Edição electrónica 2004


O europeísmo do internacionalismo liberal

Depois da Grande Guerra de 1914-1918, emerge o europeísmo do internacionalismo liberal, ainda marcado pelas ilusões da belle époque dos anos vinte, destacando-se os movimentos livre-cambistas visando uma união económica e aduaneira da Europa, os ensaios de alianças políticas promovidos por Luigi Einaudi (1874-1961) , Édouard Herriot (1872-1957) ou Aristide Briand (1862-1932), bem como o movimento pan-europeu de Richard Coudenhove-Kalergi.

 

Em 1926, junto dos economistas e meios de negócios, surgiam movimentos livre-cambistas que visavam criar um grande mercado europeu, para se permitir um desenvolvimento da produção industrial e um abaixamento dos preços. Foi disso exemplo o movimento para uma União Económica e Aduaneira Europeia, presidido pelo economista Charles Gide e depois, continuado por Yves le Trocquer.

Aliás, entre 1924 e 1929, viveu-se uma época de grande optimismo económico, surgindo grandes cartéis internacionais, nomeadamente o da metalurgia e o da potassa. Logo em 1924 foi estabelecido um acordo entre os produtores de aço franceses e alemães tendo como fim a limitação da produção, formando-se um cartel internacional em 1926, renovado em 1933, mas que nunca incluiu a Grã-Bretanha, os Estados Unidos e a URSS.

Outro dos cartéis internacionais, com relativo êxito, foi os dos metais não ferrosos. O do alumínio, que agrupou todos os produtores europeus, não só repartia mercados como até procedia à fixação dos preços. Também os do cobre e do estanho foram abrangidos. No domínio dos produtos químicos, importa salientar o da potassa, organizado em Dezembro de 1926, entre alemães, franceses e polacos. Do mesmo modo se procedeu quanto aos corantes e ao azoto. E o modelo foi estendido, embora limitadamente, aos transportes marítimos e a certas indústrias transformadoras, nomeadamente no domínio das lâmpadas eléctricas, do cimento e do linóleo.

Todo este movimento exercitou os processos de cooperação económica europeia, mas ficou quase sempre limitado a certos sectores da economia onde, em termos nacionais, existia uma forte concentração de empresas.

É neste ambiente que Édouard Herriot, enquanto presidente do Conselho francês, declarou na Assembleia Nacional de Paris, em discurso de 29 de Janeiro de 1925: mon plus grand désir est de voir un jour apparaître les États Unis d'Europe. Era a primeira vez que tal expressão era utilizada por um homem de Estado em exercício de funções .

Também o ministro francês Louis Loucheur, dois anos depois, propõe a criação de cartéis europeus do carvão, do aço e dos cereais, organizados pelos Governos no interesse geral e não apenas para a satisfação do egoísmo dos produtores .

Nos anos vinte, destaca-se, contudo, a acção do movimento pan-europeu. Foi em 21 de Julho de 1922 que o jovem Conde Richard Coudenhove-Kalergi, de cidadania austríaca antes da Grande Guerra e, depois de 1919, checoslovaco, antes de, em 1939, se naturalizar francês, nascido em Tóquio havia 27 anos, de pai austríaco, de origem holandesa e grega, e de mãe japonesa, apresenta o apelo para a unidade europeia, intitulado A Questão Europeia, publicado no Neue Freie Press de Viena.

No ano seguinte, já publica a obra Paneuropa, onde defende a necessidade de liderança da Europa no mundo, considerando que a mesma estava ameaçada tanto pelo bolchevismo russo como pela dominação económica norte-americana. Neste sentido, propõe a criação de uns Estados Unidos da Europa, sem a Rússia e sem a Grã-Bretanha.

A forma de união europeia que propõe, procurando respeitar as soberanias nacionais, assentava num Conselho composto por delegados dos Estados e numa Assembleia, com delegados dos parlamentos nacionais, sendo influenciada pelo modelo de pan-americanismo que, entretanto, fôra lançado pela Conferência de Santiago do Chile de 1922. A Paneuropa era perspectivada, aliás, como mera organização regional da Sociedade das Nações, ao lado de outros blocos, como a América do Norte, a América do Sul, a Commonwealth, a União Soviética e o Extremo-Oriente, devendo assentar na consolidação das finanças e da indústria europeia, para se enfrentar a concorrência dos Estados Unidos.

Consciente da vaga nacionalista, Kalergi considerava tammbém que importava começar por converter a classe política, dos governantes aos parlamentares, e os homens de negócios, não acreditando na possibilidade de acção directa sobre as massas e a opinião pública em geral. É a partir de então que promove a criação de uma União Pan-Europeia, com sede em Viena e secções nacionais em todos os países europeus, inspirando-se em Giuseppe Mazzini e Cavour, considerando que não são os povos que são atingidos pela senilidade, é o respectivo sistema político. A transformação radical deste sistema pode e deve levar à regeneração deste continente .

No ano seguinte, com o secretariado-geral do movimento já instalado no antigo palácio imperial de Viena, edita-se a revista Paneuropa, desencadeando-se a convocação de um I Congresso Paneuropeu, que tem lugar na capital austríaca, entre 3 a 6 de Outubro de 1926. O desfil de notáveis é impressionante: do austríaco Seipel ao o checoslovaco Eduard Benès, do francês Joseph Caillaux ao alemão Paul Loebe, do italiano Francesco Nitti ao grego Nicolau Politis, enquanto Aristide Briand se tornava o presidente de honra da União Paneuropeia, que integrava nomes como Konrad Adenauer, Thomas Mann, Guglielmo Ferrero, Édouard Herriot, Paul Valéry, Paul Claudel, Ortega y Gasset, Miguel de Unamuno, Salvador Madariaga, Winston Churchill e George Bernard Shaw.

Daí surge um manifesto onde se lê: A questão europeia é esta: é concebível que, sobre a pequena quase-ilha europeia, vinte e cinco Estados vivam lado a lado em anarquia internacional sem que tal estado de coisas conduza à mais terrível catástrofe política, económica e cultural? O futuro da Europa depende da resposta que seja dada a esta questão. Ele está, pois, entre as mãos dos europeus. Vivendo em Estados democráticos, somos todos co-responsáveis pela política dos nossos governos. Não temos, pois, o direito de nos limitar à crítica; temos o dever de contribuir para a realização do nosso destino político .


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