Respublica Repertório Português de Ciência Política Edição electrónica 2004 |
O romantismo de Victor Hugo

É neste ambiente que desponta Victor Hugo (1802-1885), o turbilhão romântico, acirrado pela primavera dos povos de 1848, que fala tanto nos Estados Unidos da Europa como na Europa Nação, ao mesmo tempo que procura conciliar alemães e franceses.
Victor Hugo já em 1849, presidindo a um congresso da paz organizado por Mazzini, declarara: Virá um dia em que, tu França, tu Rússia, tu Itália, tu Inglaterra, tu Alemanha, todas vós, nações do continente, sem que se percam as vossas qualidades distintas, vos fundireis numa unidade superior e constituireis a fraternidade europeia, da mesma maneira que a Bretanha, a Borgonha, a Lorena, a Alsácia se fundiram com a França.
Virá um dia onde as balas e as bombas serão substituídas pelos votos, pelo sufrágio universal dos povos, pela venerável arbitragem de um grande Senado soberano que estará para a Europa, como o Parlamento está para a Inglaterra, como a Dieta está para a Alemanha, como a Assembleia Legislativa está para a França.
Dois anos depois, num discurso feito no parlamento francês, em 17 de Julho de 1851, quando, sob a Segunda República, presidida por Luís-Napoleão, se discutia a revisão constitucional, proclamava: Sim! Foi o povo francês que primeiro colocou num granito indestrutível e no meio do velho continente monárquico a pedra do grande edifício que um dia se há-de chamar Estados Unidos da Europa .
Num artigo, intitulado O Futuro, de 1867, vem, depois, dizer: No século XX existirá uma nação extraordinária. Esta nação será grande, o que a não impedirá de ser livre. Será ilustre, rica, pensadora, pacífica e cordial para o resto da humanidade (...) Esta nação terá Paris como capital e deixará de se chamar França para se chamar Europa. No século XX chamar-se-á Europa e, nos séculos seguintes, mais modificada ainda, chamar-se-á Humanidade.
Em 14 de Julho de 1870, três dias antes de se iniciar a guerra franco-prussiana, semeava em Haute-Ville o carvalho dos Estados Unidos da Europa.
Depois da derrota francesa, quando a assembleia nacional em Bordéus se reúnia, eis Victor Hugo propondo à Alemanha vitoriosa uma fusão: Não mais fronteiras! Que o Reno seja de todos! Sejamos a mesma república, sejamos os Estados Unidos da Europa, sejamos a federação continental, sejamos a liberdade europeia, sejamos a paz universal!
Na sua casa da Place des Vosges deixou mesmo uma nota escrita pelo seu próprio punho: eu represento um partido que não existe ainda. O partido da Revolução-Civilização. Este partido edificará o século XX. E fará nascer, primeiro, os Estados Unidos da Europa. Depois, os Estados Unidos do Mundo .
Victor Hugo, o europeísta, é o romântico apaixonado pela Alemanha, o mesmo que, em 1842, proclamava: se não fosse francês gostaria de ser alemão . Para ele, França e Alemanha são, de facto, a Europa. A Alemanha é o coração; a França, a cabeça. Alemanha e França são em essência a civilização; a Alemanha sente, a França pensa; coração e cérebro formaram o homem civilizado (...) Tiveram a mesma origem; lutaram juntas contra os romanos; foram irmãs em dias passados, são irmãs agora, serão irmãs nos tempos que virão. Sua formação, também, foi a mesma. Não são nações isoladas; não adquiriram as suas possessões por conquista; são filhas verdadeiras do solo europeu.
Hugo, com efeito, faz parte daquela corrente francesa que sofreu os efeitos de 1815 e que, mantendo o complexo de Waterloo, detestava os dois líderes da Europa anti-napoleónica, a Grã-Bretanha e a Rússia: Hoje, como há duzentos anos, há duas poderosas nações mirando a Europa com olhos cobiçosos. O espírito guerreiro, de violência e conquista, está ainda solto no Leste; o espírito de ganância, de astúcia e aventura continua solto no Oeste. Parecem os dois gigantes ter-se movido um pouco mis para norte, a fim de tentar pegar no continente um pouco mais acima. A Rússia tomou o lugar da Turquia e a Inglaterra substituiu a Espanha.
A Inglaterra é Cartago contra Roma, é o antigo espírito púnico que durante tanto tempo lutou contra a civilização na antiguidade. O espírito púnico é o espírito do comércio (...) o espírito da ganância, o espírito do egoísmo. A Inglaterra acabará sendo esmagada pela formidável oposição do universos, ou compreendendo que o reino de Cartago passou.
Desta geração, merece também destaque Charles Lemmonier que, em 1872, publica um livro intitulado Les États Unis de l'Europe, depressa traduzido para português por Magalhães Lima, em 1874 .
Marcado pelas ideias de Saint-Simon, de quem, em 1859, publicara umas obras escolhidas, aparece, em 1867, como um dos principais fundadores da Liga Internacional da Paz e da Liberdade. Em 1869 já publica uma memória intitulada Determinar as bases de uma organização federal da Europa.
Segundo Lemmonier, a ideia de Estados Unidos da Europa aparece como a continuação da revolução, não a francesa, mas a europeia de 1789 a 1791. Ele próprio a considera como uma profecia, transformada já, em programa e em fórmula .
Coloca o discurso de Victor Hugo de 17 de Julho de 1851 como o momento em que a fórmula entrou na língua política dos Estados , salientando que em três palavras Victor Hugo resumiu Kant .
Nestes termos, considera que o princípio sobre o qual se baseia a fundação dos Estados Unidos da Europa é o mesmo princípio da republica o qual não é outra coisa do que a aplicação da moral . Contra as dinastias que são por natureza odientas, egoístas, desconfiadas, hostis . Mas para a realização da nossa ideia não é mister destruir as nacionalidades, nem tão pouco enfraquecer o patriotismo. A concepção de uma federação supõe, por si, uma pluralidade de nações e uma diversidade entre os Estados .
No plano prático, propõe que se siga o modelo norte-americano como um governo geral europeu, ao qual seria confiada a administração dos interesses gerais e comuns da federação, com uma única organização militar e com uma perfeita união económica, social e política, com livre troca e absoluta liberdade comercial, sem direitos aduaneiros, a fim de se propiciar um campo vasto à oferta e à procura .
Mas, contrariando a Santa Aliança dos reis, que apenas pôde sustentar-se pela força e pela manha, defende que não basta a adesão dos governos. É mister que seja explícito e formal o voto dos cidadãos .
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