Respublica     Repertório Português de Ciência Política         Edição electrónica 2004


Pacifismo filantrópico e cosmopolita

Depois deste projecto de Saint-Simon, eis que o pacifismo filantrópico e cosmopolita, de matriz quaker, também grassa na Europa, promovendo uma série de congressos de sociedades de paz, entre 1843 e 1851.

 

O movimento de constituição das sociedades de paz, apoiado pelos quakers, foi inspirado por um escrito de 1814, do norte-americano Noah Worcester, Revisão Solene da Prática da Guerra. Em 1816, depois de William Allen ter fundado o jornal pacifista The Herald of Peace, o movimento propaga-se à Grã-Bretanha, Alemanha, Holanda e Suíça, onde era mais fácil a ligação a movimentos protestantes. Cinco anos depois, as sociedades de paz chegam a França e, na década de trinta, já se espalham por quase toda a Europa.

Em 1843, em Londres, já surge o I Congresso internacional das sociedades de paz, presidido pelo deputado britânico Charles Hindley, tendo como co-organizadores uma sociedade americana e uma sociedade britânica da paz. Nele se propõe a solução dos conflitos internacionais por meio da arbitragem e a renúncia à guerra como meio político.

Em 1848 é a vez do II Congresso, realizado em Bruxelas, onde o tema forte já é o desarmamento.

O III Congresso realiza-se em Paris, em Agosto de 1849, sob a presidência de Victor Hugo. Aqui, o movimento já perde o carácter confessional dos primeiros tempos, apesar da iniciativa continuar a pertencer dominantemente a protestantes ingleses, dos quais se destaca Elihu Burrit. O IV ocorreu em Francoforte, em 1850, e o V e último, em Londres, no ano de 1851.

Segundo as conclusões deste último congresso, defende-se, em primeiro lugar, uma propaganda pacifista para dessarreigar do coração dos homens os ódios hereditários, os ciúmes políticos e comerciais, que têm sido causa de tantas guerras desastrosas; propõe-se o estabelecimento da arbitragem, como forma de superação de diferendos; insiste-se num processo de desarmamento pela liquidação dos exércitos permanentes; criticam-se os empréstimos para a compra de armas; defende-se o princípio segundo o qual os povos devem ter a liberdade de regular os seus interesses próprios, condenando-se toda e qualquer intervenção armada, ou ameaçadora dos governos nos negócios internos dos Estados estrangeiros; reprova-se o sistema de agressões e violências utlizado pelos povos civilizados para com as tribos semi-selvagens; e termina-se mostrando simpatia pela grande ideia que originou a exposição universal dos produtos industriais .

Este misto de liberalismo, pacifismo e filantropia continua a influenciar vários autores, desde o austríaco A. H. Fried (1864-1921), autor de Handbuch der Friedensbewegung, de 1905, ao alemão Walter Schucking (1875-1935), autor de Die Organisation der Welt, de 1909.

Do mesmo teor é a proposta do sueco A. B. Nobel (1833-1896) que está na origem do prémio universal para a paz que tem o nome do instituidor e que, ainda hoje, é o mais prestigiado. Por seu lado, o milionário Andrew Carnegie (1835-1919), cognominado com o epíteto de rei do aço, cria a Fundação Carnegie para a Paz Internacional, em 1910, e a Church Peace Union, em Fevereiro de 1914. Esta última instituição, destinada a procurar saber como a religião pode assegurar a paz, origina depois uma Conferência Mundial das Igrejas, em 1 de Agosto de 1914 .


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