Respublica Repertório Português de Ciência Política Edição electrónica 2004 |
| Sant'Anna Dionísio |
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Santanna Dionísio, em 1938, referia: verdadeiramente,
a Europa nunca constituiu um conjunto fraterno, uma aliança moral. A sua história, pode
dizer-se, só nos fala de mal-entendidos, de propósitos, de destruição, de
brutalidades. E no entanto, na sua mais íntima estrutura espiritual, nos povos que ela
abrange (mas não abraça), há, indubitavelmente, alguma coisa de comum, alguma coisa com
um lusco-fusco de consciência (análogo ao das cidades gregas que se digladiaram até se
perderem) de que o destino de cada um depende do destino de todos .
Esse alguma coisa de comum não provém, parece-nos, pelo menos essencialmente, nem da verificação, tantas vezes feita, nas guerras políticas e aduaneiras, de que a economia europeia é solidária, nem do instinto gregário que o choque com outros continentes poderia suscitar. A proveniência, parece-nos, dever ser procurada algures, sem ser nas vísceras empenhadas no sustento e na ânsia de domínio. Queremos dizer: o que nos permite ainda usar a palavra Europa como exprimindo alguma coisa de efectivamente concreto, real, é o sentimento obscuro, mas entranhado, em todos os povos do velho continente, de que eles criaram uma civilização espiritual sui generis, que eles têm uma maneira sua, metafísica, de encarar a vida, a pessoa humana, as relações sociais, e dum modo geral todos os problemas fundamentais que constituem o que hoje se diz por uma só palavra: cultura. Só isso (e nenhuma razão poderia ser mais forte) não consente que se diga que a "ideia" de Europa é um simples "flatus vocis" . |
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