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  Anuário de 1888

1888

 

Da publicação de Os Maias à emergência dos Vencidos da Vida

Do Anticristo à extinção da escravatura no Brasil

(Ver Arquivo antigo do anuário CEPP

Eleição dos pares Nas eleições para vagas, em Fevereiro de 1888, mais um deputado republicano (Teófilo Braga).

Surge o grupo dos vencidos da vida que dura até 1893

Teófilo Braga – Em eleição suplementar, surge em Lisboa um terceiro deputado republicano (25 de Fevereiro).

Oliveira Martins, instalado em Lisboa, depois de aceitar, de Mariano de Carvalho, um tacho na administração dos Tabacos, passa a dirigir O Repórter, onde escreve diariamente, um comentário doutrinal (21 de Janeiro). Apresenta um projecto de lei do fomento rural em 27 de Abril que, depois, editará autonomamente, constituindo uma espécie de programa do frustrado ministério da agricultura que Emídio Navarro bloqueara e que será mais um projecto por cumprir, para usarmos o título do prefácio à reedição do mesmo, A Política Agrícola de Oliveira Martins, Lisboa, Secretaria-Geral do Ministério da Agricultura, Pescas e Alimentação, 1987, mas que não consta do que saiu dos prelos, porque um hierarca, adjunto do ministro Álvaro Barreto, decidiu excluir o texto da nossa autoria, talvez porque, pouco antes, tínhamos sido candidato a deputado contra o mesmo ministro pelo círculo de Beja. Na altura, comemorando o centenário do evento, procurávamos levar o ministério a compensar a fúria tecnocrática que marcava a provinciana integração na CEE, com a instauração de um museu agrícola.

Uma nova Idade Média – Parece que estamos num período análogo ao da dissolução do mundo romano, ao qual se deve seguir uma nova Idade Média. Quem sabe o que sairá dela, quando lhe soar a hora da sua Renascença? E talvez que só então valham e tenham utilidade de aplicação as doutrinas dos filósofos e publicistas de hoje. Foi assim que muitas ideias de Aristóteles e dos Estóicos só se vieram a realizar e a adquirir valor social no século XV e XVII! (Antero de Quental, em carta dirigida a Fernando Leal)

Portaria proíbe todas as associações secretas. Nunca será aplicada e servirá para os católicos a invocarem, sempre que os governos liberais vierem a insistir na faceta anti-congreganista de outras leis (27 de Fevereiro).

Reformas e oposições – Em Janeiro, o governo apresenta proposta para a resolução da questão dos tabacos e para a reforma da Carta Constitucional. Esta última é fortemente contestada, surgindo vários tumultos, com 16 mortos e 50 feridos, o que leva o governo a recuar. Em Junho, há um acordo entre o governo e os regeneradores, depois de alguns deputados desta força, agora oposicionista, terem promovido sucessivas arruaças parlamentares contra José Luciano, com destaque para João Franco, José de Azevedo Castelo Branco e João Arroio.

Arroio revoga decisão irevogável – Assume particular virulência a sessão de 15 de Maio, numa cena onde João Arroio é o figurante principal, com várias carteiras partidas, dentro do habitual batuque. No dia seguinte, o líder parlamentar regenerador, Lopo Vaz, chega a acordo com os lucianistas, desautorizando Arroio, que sai do parlamento a chorar. No dia 18, pede a demissão do partido, considerando tal decisão irrevogável. Menos de uma semana depois volta atrás, sendo alvo de chacota generalizada.

Caudilhos a mais – Temos o sr. Serpa e o sr. Lopo Vaz mikado e taikum do Japão regenerador; temos o sr. Hintze Ribeiro mais ou menos rebelde, insurgindo-se contra o poder usurpado pelo shogun; temos o sr. Barjona que forma um bando àparte, namorando com um sorriso búdico os diversos lamas que pisam o templo sagrado: o sr. Manuel Vaz, o sr. Marçal Pacheco, o sr. Tomás Ribeiro, no porto-franco, e o sr. Dias Ferreira no seu voluntário isolamento. São pelo menos oito caudilhos, com ou sem milícia mais ou menos japonesa (Oliveira Martins, em 21 de Março).

Futebol – Realiza-se a primeira experiência de foot ball em Cascais (Outubro).

Remodelações – Em 13 de Julho: Barros Gomes na marinha.

Em 15 de Novembro: José Joaquim Gomes de Castro na guerra, em lugar do visconde de S. Januário.

Oportunismo político – Hoje a política é essencialmente oportunista; há "questões", não há "programas"; e portanto os indivíduos agregam-se e desagregam-se, para se agregarem e desagregarem (Oliveira Martins, em 7 de Março).

O descrédito da política: a vitória completa da democracia que, ampliando o exercício do governo ao comum dos cidadãos, fez baixar necessariamente o nível individual dos governantes. Assim, não há nas democracias homem menos respeitado, nem mais influente, do que o político (19 de Janeiro).

Evolução do Parlamento. De Sala a Café: com o sufrágio universal e o rebaixamento constante do nível político, os parlamentos perderam o carácter se salas ou câmaras, onde se discute cortesmente, embora violentamente por vezes, para tomarem o carácter de clubes ou cafés onde se injuria e se troça (24 de Janeiro).

Partidos: os partidos nascem espontaneamente das convicções dos povos: não se inventam (26 de Janeiro).

Intervenção da Coroa em nome da salvação pública: quando os partidos constituídos se mostram impotentes, por vezes o chefe de Estado cria um simulacro de partido, nomeando um governo eclético. E não é raro também que esse governo, radicando-se, se torne a origem de um verdadeiro partido. Mas este processo, para ser eficaz, requer duas condições difíceis: uma é o acerto da escolha, outra que os escolhidos dêem, ou possam dar, boa conta de si. Não correspondendo à expectativa, legítima ou infundada, é indiferente para o caso, o povo lança a responsabilidade sobre a coroa. Aí está o perigo (27 de Janeiro).

Ler nas entrelinhas: a manifestação política mais compungente e desanimadoramente sintomática desta monção achavascada em que há muito navegamos, é o prurido de encontrar em tudo quanto se diz uma segunda intenção. Tanto queremos ler entre linhas, que treslemos. Perdeu-se a noção comezinha de que também se pode falar para se dizer o que se pensa, pacatamente, sinceramente, à boa-razão? (29 de Janeiro).

O Parlamentarismo é Aristocrático e não convém à Democracia: desde que a democratização de um povo se democratiza, ao parlamentarismo há-de suceder um tipo diverso de governo, tipo de que os Estados-Unidos e a Alemanha propõem duas espécies de rudimentos (2 de Março).

O incidente, o precedente e o chinfrim: amanhã haverá novos chinfrins, e de arruaça em arruaça, de degrau em degrau, ir-se-á rolando, ir-se-á descendo, se porventura é possível descer mais baixo ainda no conceito do país que não é político (16 de Março). No dia seguinte proclama que a oposição desespera-se, o ministerialismo esfrega as mãos de contente; mas o verdadeiro patriotismo lamenta.

Contra a verborreia parlamentar: a palavra só é um instrumento abençoado quando esclarece. Quando chicaneia é nefasta. Quando arrebata, domina. Reclama o fim deste sonolento reinado da frase tão rotunda como vazia (2 de Maio). Porque o parlamentarismo principiou por ser uma invenção de letrados, passou a ser uma mistificação de políticos, e hoje é o que se vê (18 de Julho).

Da fraqueza à violência – No dia 19, analisando em novo artigo A abstenção forçada dos melhores, fala na caducidade as formas vigentes do governo representativo, concluindo: Deus queira que por este caminho da fraqueza não tenhamos de chegar à solução fatal da violência, ou à solução mais triste ainda do estiolamento.

Reformas necessárias: De 25 a 28, uma série de artigos sobre a Reforma das instituições representativas, onde considera que chegando-se pelo cansaço a um verdadeiro beco sem saída, o governo vê-se forçado a transformar-se também numa ditadura em que o artifício substitui a franqueza; e desta dupla mistificação do legislativo e do executivo resulta o descrédito universal das instituições. E isto porque a nossa constituição é inglesa (de ponderação de interesses e classes sociais), e todo o mal está em lhe termos introduzido cunhas sobre cunhas de francesismo.

 

& Leite, José Guilherme Reis Leite (1995); Martins, Joaquim Pedro d'Oliveira Dispersos I (1924): 13, 24, 35, 39, 47, 69, 72, 73, 80, 81, 91, 93, 98, 137, 138, 148; Paixão, Braga (II, 1968): 89, 95; Quental, Antero de (Textos Doutrinários...): 319; Rego, Silva (1966): 280, 320, 346.