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  Anuário de 1924

1924

 

Do governo da Seara Nova aos Canhotos, com golpes radicais e um partido do patronato

Surrealismo e Escola de Frankfurt

pormenores em anuário CEPP)

Revolta dos aviadores da Amadora (Junho)

 

  Governo nº 90 (Julho) Rodrigues Gaspar (139 dias)

Golpe radical frustrado (13 de Agosto)

Novo golpe radical frustrado (12 de Setembro)

Criada a União dos Interesses Económicos (28 de Setembro)

 

Governo nº 91 (22 de Novembro) José Domingues dos Santos

(84 dias). Governo canhoto.

●Começa greve dos funcionários das finanças, numa altura em que prossegue a actividade bombista, fomentada pela Legião Vermelha (Janeiro). Manifestação contra a carestia de vida, reúne cerca de cem mil pessoas em Lisboa (22 de Fevereiro). Dois dias depois, o governo proíbe manifestação convocada pela USOL, contra a opressão capitalista e política.

Gaioleiros – Abate em Campolide de um prédio de quatro andares, ainda em fase de construção (20 de Março). Há doze mortes, o que provoca manifestações sindicalistas contra os então chamados gaioleiros, nome dado aos empreiteiros especuladores que não garantem condições mínimas quanto à segurança dos edifícios que construíam.

Greve dos funcionários públicos (18 de Abril).

●Congresso do partido democrático, sem críticas ao governo (25 de Abril). Contra a direcção, aparece a contestação de Vitorino Guimarães. Afonso Costa, que tinha vindo a Lisboa, solicita ao partido que dê apoio ao gabinete de Álvaro de Castro, o qual convida Costa para embaixador em Londres, mas recusa, acabando por substitui-lo outro vulto eminente dos democráticos, Norton de Matos

Anarco-sindicalistas – CGT promove vários comícios comemorativos, protestando contra as perseguições aos avançados (1 de Maio). Greve dos transportes no Porto (15 de Maio), com a cidade chega a ser cercada por forças militarizadas. Polícia dissolve comício da USOL contra as manobras da direita (29 de Junho), numa altura em que são marcantes as divergências entre os próprios sindicalistas, com muitos dirigentes da CGT a quererem alinhar com a Associação Internacional dos Trabalhadores, fundada em Berlim em 1919, e outros a optarem pelos comunistas da Internacional Sindical Vermelha, fundada por Lenine em 1923. Aliás, se os socialistas elogiam o governo de Álvaro de Castro, já a CGT saúda a queda do gabinete.

Confrontos nos Olivais. Morte de três operários e de um polícia. A operação resulta de uma cilada montada pela polícia aos terroristas, mas não surte efeito. A CGT vai falar no fuzilamento dos Olivais (28 de Maio).

●Sublevação dos aviadores na Amadora de 3 para 4 de Junho, depois da demissão do respectivo comandante, em conflito com próprio Álvaro de Castro (3 de Junho). Termina com tropas de Queluz a cercarem o campo. O presidente do governo chega a aceitar entrar em duelo com o aviador Ribeiro da Fonseca no dia 2, com a imprensa a mostrar as fotos do recontro. Álvaro de Castro, que considera inevitável a queda do gabinete, telegrafa a Afonso Costa, solicitando que o mesmo chefie o próximo executivo.

Congresso do Partido Socialista – No XI Congresso, realizado no Porto, em Junho de 1924, o partido passa a ser dominado por Ramada Curto e Amâncio Alpoim. Tinham então, no Porto, o jornal República Social e em Lisboa O Protesto.

Medo de um golpe à Primo de Rivera – Começa a falar-se numa hipótese de golpe à espanhola. No dia 24, o deputado monárquico Cancela de Abreu, chega a declarar, em plena Câmara dos Deputados, que o país está entregue a uma quadrilha de ladrões. Tudo se agrava quando o governo não consegue apoio da oposição para a operação do empréstimo externo e o escândalo rebenta quando se anuncia que 49 toneladas de moeda de prata estão quase a partir para Londres, a fim de se garantir o empréstimo externo. Há uma tumultuosa sessão parlamentar sobre a questão no dia 27 de Junho e, no dia seguinte, é aprovada uma moção de desconfiança, apresentada pelo democrático Vitorino Guimarães. No dia 30 já é suspenso o embarque das coroas.

Não há Exército nacional – Não há Exército Nacional. Há a guarda pretoriana da República burguesa carregando o orçamento com cifras monumentais, roubando ao País os homens bons que trazem da aldeia para na cidade se indisciplinarem, para se desmoralizarem, para se sifilizarem (Sarmento Pimentel, num artigo publicado na Seara Nova)

Governo nº 90 (6 de Julho) Rodrigues Gaspar (139 dias, quase cinco meses). O vigésimo governo pós-sidonista, com predominância democrática (Cunha Leal), contando com a colaboração dos alvaristas e de outros republicanos independentes. Afonso Costa, convidado pelo próprio presidente Teixeira Gomes, continua a recusar o regresso à política activa, enquanto os católicos assumem a neutralidade.

●Na agricultura, Rodrigues Gaspar (interino) e, depois, António Alberto Torres Garcia, desde 22 de Julho. Na justiça, João Catanho de Meneses. Na finanças, Daniel José Rodrigues (1877-1951). Na guerra, general Ernesto Maria Vieira da Rocha. Na marinha, o independente Fernando Augusto Pereira da Silva. Nos negócios estrangeiros, Vitorino Henriques Godinho. No comércio, Henrique Sátiro Lopes Pires Monteiro. Nas colónias, Álvaro António Bulhão Pato. Na instrução pública, o independente António Abranches Ferrão. No trabalho, o alvarista Rodolfo Xavier da Silva.

Bonzos, canhotos e centristas – Sem Afonso Costa, com o partido democrático dividido entre o grupo maioritário de António Maria da Silva, os chamados bonzos, o grupo esquerdista dos chamados canhotos, liderado por José Domingues dos Santos, e o grupo centrista, de Vitorino Guimarães, surgem três experiências governamentais falhadas, entre Julho de 1924 e Agosto de 1925. Primeiro, tenta-se a ala bonza com Rodrigues Gaspar, até Novembro de 1924, ainda com o apoio dos alvaristas. Segue-se a ala canhota, com José Domingues dos Santos, até Fevereiro de 1925, ainda com o apoio dos alvaristas e com mais um recurso aos seareiros. Finalmente, a ala centrista, com Vitorino Guimarães, até Julho de 1925, de novo com os alvaristas, mas já sem os seareiros. Três governos, onde funciona como força apoiante, o bloco de democráticos e alvaristas, com forte oposição de nacionalistas, até que, de Julho a Agosto de 1925, se experimenta a solução de António Maria da Silva, já sem o apoio dos alvaristas e com a rebeldia frontal dos bonzos que acabam por ser irradiados do partido.

A falta de unidade dos democráticos – O primeiro modelo, o de Rodrigues Gaspar, entre o Verão e o Outono, continua a ser, segundo a típica expressão de Cunha Leal, um cacharolete político com vincante predominância do PRP. Colaboram os membros da Acção Republicana e são mobilizados alguns republicanos independentes. O governo, marcado pelo vazio de Afonso Costa, o messias que recusou responder ao apelo de Teixeira Gomes e de Álvaro de Castro, depois de receber uma moção de confiança (45- 24), não consegue, contudo, garantir a unidade dos democráticos, apesar dos apelos de Afonso Costa, começando a concretizar-se a futura dissidência esquerdista. Chega mesmo a organizar-se um encontro para a pacificação dos marechais democráticos, em 26 de Agosto, com a participação de Afonso Costa e a presença de Álvaro de Castro.

As finanças – Em primeiro lugar, saliente-se o modelo de política financeira, nomeadamente pela valorização do escudo, que visa dar continuidade aos esforços reformistas do anterior gabinete de Álvaro de Castro e que tem alguns frutos no começo do Verão, com a descida do custo de vida, sofrendo, contudo, um refluxo, a partir de Outubro.

O patronato – Em segundo lugar, é durante este governo que, com o apoio das principais associações patronais, se instituiu a União dos Interesses Económicos, estabelecendo-se uma aliança entre os agraristas, os comercialistas e os industrialistas. Aliás, o grupo logo trata de comprar às Moagens o jornal de maior circulação no país, O Século. E nesta onda, o governo ensaia uma política de liberalização do comércio, traduzida pela extinção do Comissariado Geral dos Abastecimentos, medida que o governo seguinte, do esquerdista José Domingues dos Santos, logo iria revogar.

A ordem pública – Em terceiro lugar, o gabinete de Rodrigues Gaspar não consegue encontrar forma de garantir a ordem pública, havendo várias tentativas de revolta. São forças do exército e da GNR que entram em refrega, com cerca de uma dezena de mortos, havendo, então, uma sucessão de atentados bombistas. É o chefe da Legião Vermelha a evadir-se da cadeia do Limoeiro. E são duas revoltas radicais abortadas em 28 de Agosto e 12 de Setembro, já com a participação dos comunistas. Não admira, pois, que comece a falar-se num salvacionismo fascista, à maneira italiana, como propõe o periódico a Ditadura, dirigido por Raúl de Carvalho, apoiado por antigos sidonistas, ou num autoritarismo, à espanhola, segundo o estilo de Primo de Rivera.

●Aliás, as forças marginais do regime também vivem em turbulência. Os católicos continuam agitados pelas polémicas travadas entre os defensores do Centro Católico e os críticos do jornal A Época e, entre os sindicalistas, agrava-se a ruptura dos anarco-sindicalistas com os comunistas, seguidores da Internacional Sindical Vermelha. Em Novembro, o gabinete já cai, por desinteligências dentro dos democráticos, com José Domingues dos Santos a aliar-se à oposição, dando-lhe a vitória, na votação de uma moção de confiança ao governo apresentada por António Maria da Silva.

Católicos contra o golpismo – A minoria católica condena e reprova, por fundamentalmente prejudicial ao povo, qualquer facto revolucionário, venha ele dos governantes com o nome de "golpe de Estado", venha dos governados com o nome de "jornada gloriosa". Rejeita todas as ditaduras sejam as de um regime, como a de Mouzinho da Silveira, as de um partido, como a de João Franco, ou as de um homem, como a de Sidónio Pais. Alerta contra os messias porque a solução da crise nacional está em cada um de nós, cumprindo simplesmente, mas inteiramente o nosso dever (António Lino Neto).

Agitações – Confrontos entre exército e GNR, com refrega no Parque Eduardo VII (14 de Julho). Evasão do chefe da Legião Vermelha (24 de Julho)

Movimentações fascistas. Anuncia-se a criação de um movimento destinado a salvar a pátria, com Tamagnini Barbosa, Teófilo Duarte, Eurico Cameira e Raúl de Carvalho, antigos sidonistas, numa altura em que o líder do CCP, Lino Neto, critica frontalmente Mussolini, pelo oportunismo e falta de preparação intelectual (24 de Julho).

●O jornal A Época anuncia o falhanço de uma tentativa golpista de assalto ao forte da Ameixoeira que teria sido preparada por Martins Júnior, que deseja como chefe Gomes da Costa. Insinua-se que o golpe visa colocar o partido radical no poder e que o futuro ministro do trabalho seria Carlos Rates, secretário-geral do PCP (13 de Agosto).

Revolta abortada do castelo de S. Jorge. Presos 8 comunistas e um radical (28 de Agosto).

Nova revolta radical (12 de Setembro). Combinada numa leitaria, em frente ao Teatro Apolo, tendo como objectivo assaltar o ministério da guerra e a central dos telégrafos. Mas apenas chega a ser ocupado o edifício da Alfândega, pelo major Pires Falcão. Paradoxalmente, enquanto decorrem estes golpes radicais, a imprensa democrática e anarco-sindicalista continua a alertar para o perigo de um golpe fascista.

●Comício da Federação Nacional das Cooperativas contra a ditadura das forças vivas (25 de Setembro).

●Criada a União dos Interesses Económicos, financiada pela CUF e pelos latifundiários, com o apoio expresso da Associação Comercial de Lisboa, Associação Comercial do Porto, Associação Industrial Portuguesa e Associação Central da Agricultura Portuguesa (28 de Setembro). Entre os subscritores, Martinho Nobre de Melo, Pereira da Rosa, Pequito Rebelo, Nunes Mexia e Filomeno da Câmara. A nova organização vai promover operações de lock out, a que a CGT responde com greves e comícios. Comprarão o jornal O Século, no dia 24 de Outubro.

Agitação – Tumultos no Porto e em Espinho, face ao movimento de lock out, promovido pelo patronato (14 de Outubro). Greve geral em Guimarães contra o aumento do custo de vida (28 de Outubro). Governo proíbe comício que pretende comemorar o aniversário da revolução bolchevique (7 de Novembro).

 

Governo nº 91 (22 de Novembro) José Domingues dos Santos ö (85 dias, quase três meses). Durante cerca de dois meses e meio, vai tentar-se uma experiência de um governo canhoto, o vigésimo primeiro pós-sidonista. A chefia do novo gabinete resulta de uma indicação formal do directório do partido democrático, mas nasce de uma reunião a que intencionalmente faltam os membros do grupo bonzo, como António Maria da Silva, Manuel Pinto de Azevedo e Catanho de Meneses. O governo, com cinco canhotos mobiliza também seareiros e alvaristas, reunindo pessoas categorizadas. Tem o apoio parlamentar dos alvaristas e dos democráticos, mas com vários deputados deste partido a saírem da sala, como António Maria da Silva, Rodrigues Gaspar e Vitorino Guimarães.

 

comunicações, o canhoto Plínio Octávio Sant’ana e Silva, engenheiro militar, capaz de fazer obra avançada, mas decerto tolhido de escrúpulos. Nas colónias, o cabo-verdiano Carlos Eugénio de Vasconcelos, chegado de chofre à política. Na instrução pública, o canhoto António Joaquim de Sousa Júnior (1871-1954), lente da Escola Médica do Porto. No trabalho, João de Deus Ramos (1878-1953), filho do poeta João de Deus. Na agricultura, o então seareiro Ezequiel de Campos, que tem como chefe de gabinete João Sarmento Pimentel (1888-1987). Engenheiro, professor da faculdade de engenharia do Porto e do instituto superior de comércio.

Liberdade, pão e instrução – O lema do ministério é Liberdade, Pão, Instrução. Invocando a justiça social, constitui uma tímida tentativa de um cartel das esquerdas à portuguesa, sem mobilizar socialistas e não tendo sequer a base doutrinária do radicalismo francês. José Domingues dos Santos fala na necessidade de um saneamento moral, reconhecendo que os governos da república se colocam abertamente ao lado dos exploradores contra os explorados.

 

 

& Caetano, Marcello (A Depreciação...): 346; Cardia (II): 39, 66, 67; Costa, Carlos Gomes da (II): 178; Cruz, Manuel Braga: 118, 258, 301, 310, 319, 320, 349; Gouveia, Rosa: 57, 58; Leal, Francisco da Cunha (1966, II): 384, 405ss., 406, 412ss., 419; Marques, Oliveira (As Estruturas...): 264, 295, 409, 410; (Nova História...): 232, 233, 264, 295; Martins, F. Rocha (A Europa em Guerra, II): 406, 407, 430; Nunes, Leopoldo: 84; Pabón, Jesus: 547, 548 ss.; Pereira, José Pacheco: 64, 65; Peres, Damião: 371, 373, 376, 377, 378, 379, 380, 381, 382, 390, 519; Rodrigues, Edgar: 225, 353; Ruivo: 53, 62 ss., 69; Serrão, Joaquim Veríssimo (XI): 290 ss.; Telo, António José (I): 276, 277, 279, 280, 281, 306, 309; Xavier, Alberto: 82, 83, 87, 99, 104, 111, 112, 123, 126, 131, 133, 139-144.