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  Anuário 1932

 

Morte de D. Manuel II, governo de Salazar e nacional-sindicalismo

O admirável mundo novo

Manifestações de Fevereiro

  Governo nº 102 (Julho) António de Oliveira Salazar (13 233 dias) Movimento Nacional Sindicalista
Frente Única da Oposição Proposta golpista de Pimenta de Castro  

 

Toma posse o Conselho Politico Nacional (13 de Janeiro).

Bissaia Barreto, membro influente da maçonaria, ex-deputado da Constituinte de 1911 e activista da União Liberal Republicana, adere à União Nacional (Janeiro).

Frente Única da Oposição. Surge uma proposta não concretizada, da iniciativa de Francisco da Cunha Leal e de Catanho de Meneses, elementos não integrados na Aliança Republicana e Socialista.

Comunistas – Francisco de Paula Oliveira Júnior, dito Pavel (1908-1993), destacado e mítico militante dos tempos heróicos do PCP, aparece como secretário da Federação da Juventude Comunista Portuguesa, depois da prisão do anterior líder do movimento Bernard Freund, dito René. Também neste ano desloca-se à URSS Miguel Russell para participar no I Congresso do Socorro Vermelho.

Movimento Nacional-Sindicalista – Surge o jornal Revolução (15 de Fevereiro), intitulado diário académico nacionalista da tarde que, a partir de 14 de Março, passa a ter Rolão Preto como director, transformando-se, desde Maio, no órgão do nacional-sindicalismo. Aí se publicam vários textos e poemas de Fernando Pessoa. O movimento, chefiado por Francisco Rolão Preto, atinge o seu auge em 1933, sendo proibido em Agosto de 1934, antes de tentar um golpe de Estado em Setembro de 1935. Conhecido como o movimento das camisas azuis, constitui a forma mais similar ao fascismo, ocorrida entre nós. Moncada, um aderente, reconhece que o movimento não passou de um epifenómeno de superfície como o da fosforescência de certas vagas no mar, marcado pelos ventos soprados da Itália e da Alemanha, com uma grande confusão de ideias e de sentimentos. Dominam-no jovens estudantes, quase todos provindos do integralismo e quase todos de direito. Entre os colaboradores, Amaral Pyrrait, António Lepierre Tinoco, Dutra Faria, António Pedro, Júlio de Castro Fernandes, Fernanda de Castro, Manuel Múrias, Garcia Domingues, João de Almeida, Barradas de Oliveira, Almada Negreirosö, Augusto Ferreira Gomes (1892-1953), João Ameal, Teófilo Duarte, Eduardo Frias. Publicam vários textos e poemas de Fernando Pessoa.

Jantar dos nacionais-sindicalistas no Parque Eduardo VII (18 de Fevereiro).

Costa Leite recusa fazer parte do Conselho Superior do Nacional-Sindicalismo por este tomar atitude hostil contra o Dr. Salazar (22 de Fevereiro)

Manifestações de sindicalistas contra o desemprego e a Ditadura (25 de Fevereiro). Em Lisboa, Marinha Grande, Setúbal, Silves e Olhão.

Greve geral falhada. Protesto contra a futura criação do imposto de desemprego comandada pelo PCP e pela sua correia de transmissão, a Comissão Intersindical (29 de Fevereiro).

São presos 11 militantes comunistas em Monsanto, enquanto a polícia começa a detectar a existência de um sistema de células (Abril).

Carmona, acompanhado por vários membros do governo visita as obras do Monumento ao Marquês de Pombal, na Rotunda (3 de Maio). Como observava Ramalho Ortigão, em 1882, assim se vê consignar a estima deste povo pelo charlatanismo dos seus tiranos. Criticava o projecto de estátua do marquês e propunha que se retirasse a de D. José no Terreiro do Paço, ficando apenas o cavalo: o único que merece continuar a contemplar Cacilhas...

Discurso de Mário Pais de Sousa (ministro do interior) em Leiria: a República será democrática e representativa. (15 de Maio).

Criada a Federação Nacional dos Produtores de Trigo (28 de Maio), por acção do ministro Linhares de Lima que, no decreto instituidor reconhece que a lavoura portuguesa vive em crise permanente. Porque os preços aviltam-se, na abundância por falta de procura e de crédito, na escassez, por crédito fácil, antecipado e solícito. E a causa fundamental da crise é apontada: na desordem, na desorganização, no isolamento em que a lavoura vive, e que o intermediário fomenta e aproveita, reside a principal causa da irregularidade nos preços e nas vendas.

Governo nº 102 de Salazar (13 233 dias, desde 5 de Julho). Nomeado presidente do ministério, Salazar será exonerado e nomeado presidente do conselho em 11 de Abril de 1933. Voltará a ser nomeado e exonerado presidente do conselho em 18 de Janeiro de 1936.

São ministros deste primeiro gabinete: Albino Soares Pinto dos Reis (n. 1888), Manuel Rodrigues (Zé povinho de capelo e borla), Daniel Rodrigues de Sousa (n. 1867), Aníbal de Mesquita Guimarãesö, Armindo Rodrigues Monteiro, César de Sousa Mendes do Amaral Abrantes, Duarte Pacheco, Sebastião Garcia Ramires (n. 1898) e Gustavo Cordeiro Ramos (1888-1974).

Os homens são outros – No discurso de posse, declara: os homens são outros, o Governo é o mesmo. Salienta, aliás, que nem todos os processos políticos servem para todos os tempos ou para todos os povos: os homens de governo têm, necessariamente, de actuar segundo o seu modo de ser e segundo as realidades do momento. Mantêm-se apenas Armindo Monteiro (colónias) e Cordeiro Ramos (justiça).

Misantropia – Salazar vive então na Rua do Funchal, nº 3, uma governanta idosa tomava conta da casa; adoptara uma pequenita, que lhe servia de companhia, e tratava da sua educação... Raramente saía sem fim oficial (Rocha Martins).

A personalização do poder – Salazar, a partir de então nunca mais será nomeado e exonerado, apesar das diversas remodelações, substituições de ministros e tomadas de posse de Presidentes da República, até ao decreto de 27 de Setembro de 1968, onde Américo Tomás o exonera da chefia do governo, por continuar muito gravemente doente e estarem perdidas todas as esperanças, mesmo que sobreviva, de poder voltar a exercer, em plenitude, as funções do seu alto cargo. Entre outras curtas interinidades, assinale-se que será ministro interino da guerra de 11 de Maio de 1936 a 6 de Setembro de 1944; ministro interino dos negócios estrangeiros de 6 de Novembro de 1936 a 4 de Fevereiro de 1947; ministro efectivo da defesa nacional, de 13 de Abril de 1961 até 4 de Dezembro de 1962.

Bernardino Machado instala-se na Galiza (30 de Maio), donde será afastado em 4 de Dezembro de 1934. Passa a residir em Madrid em 7 de Novembro de 1935 e vai para França em 30 de Outubro de 1936.

Criada uma União dos Combatentes Republicanos com um Comité Supremo Político, dirigido por Bernardino Machado, Afonso Costa, José Domingues dos Santos e Francisco da Cunha Leal.

Sessão nacional-sindicalista no São Carlos (16 de Junho). Começa a publicar-se em Faro o semanário O Nacional-Sindicalista, onde colaboram J. D. Garcia Domingues e Luís Forjaz Trigueiros.

Diário Liberal – Em 1 de Julho e até 31 de Dezembro, publica-se o Diário Liberal, dito jornal republicano da manhã, que tem por lema, pela liberdade, pela república, pelo povo, tendo como director Evaristo de Carvalho (1865-1938). Numa segunda série, vai de 1 de Janeiro a 29 de Dezembro de 1933. Fazem parte do conselho político do jornal, Mário de Azevedo Gomes, Hernâni Cidadeö e Joaquim de Carvalho, nele colaborando Brito Camacho, Henrique de Barros, Aquilino Ribeiro, António Sérgio e Armando Cortesão.

Morte de D. Manuel II, na sua residência de Fullwel-Park, Twickenham, nos arredores de Londres. (2 de Julho). Chegam a Lisboa os restos mortais do nosso último monarca, transportados pelo cruzador britânico Concord (2 de Agosto). A morte do rei, no exílio inglês, coincide com a ascensão de Salazar à chefia do governo, e no primeiro conselho de ministros do mais longo gabinete da história portuguesa, o novo chefe decidiu promover funerais nacionais ao falecido. Assim enterra a monarquia em Portugal, dado que D. Manuel II poderia ser o seu principal opositor, principalmente se estivesse vivo no dia seguinte ao fim da II Guerra Mundial, onde toda a oposição democrática, com o eventual apoio dos Aliados, poderia desencadear uma restauração tanto da monarquia como da democracia.

Entre integralistas e manuelinos – O lugar-tenente João de Azevedo Coutinho, logo favorece a ascensão de D. Duarte Nuno. Como vai dizer Luís de Magalhães: quer a Ditadura fazer uma República que os republicanos não querem e quer, por isso, fazê-la com os monárquicos, que não querem a República (2 de Julho). Rocha Martins, o jornalista monárquico que não apoia a chamada de D. Duarte Nuno, considera então que se encontra entalado entre os integralistas e os antigos monárquicos constitucionais, dizendo que estes estão, quase todos, dependentes do emprego público, da banca, dos Governos. A nobreza mantém-se no seu pedestal; alguém negociava, mas embrulhava-se nos pergaminhos. Para o povo, um duque ou conde não tinham significado.

Decreto nº 21 608 aprova os estatutos da União Nacional (20 de Agosto)

Anulada a autorização para a propaganda nacional-sindicalista e suspenso Revolução (Agosto)

PCP promove comício-relâmpago em Alcântara, no chamado Dia Internacional da Juventude, com discurso de Pavel. Há sangrentos incidentes, com mortes de um polícia e de um manifestante (4 de Setembro)

Cisão no congresso do nacional-sindicalismo. Supico Pinto e José Cabral são pela subordinação ao Estado Novo. (Novembro).

Católicos contra Rolão Preto – Há uma forte ofensiva do padre Abel Varzim, a partir do jornal Novidades, contra a doutrina do nacional-sindicalismo, nos meses de Outubro e Novembro, numa manobra de claro apoio a Salazar. No ano seguinte, destaca-se outro católico, António Sousa Gomes, então director do Diário da Manhã, numa ofensiva doutrinária contra os homens de Rolão Preto.

Temos uma doutrina, somos uma força – Discurso de Salazar na sala do Conselho de Estado por ocasião da posse dos corpos directivos da União Nacional (23 de Novembro). Considera que fora da União Nacional não reconhecemos partidos. Dentro dela não admitimos grupos… nós temos uma doutrina e somos uma força. Critica indirectamente os nacionais-sindicalistas, apela aos monárquicos e aos católicos. Mas considera que a União Nacional não é uma união de interesses, não é uma associação de influências, não é uma representação de forças eleitorais.

Sobre os monárquicos faz uma espécie de enterro dos mesmos, quando diz  que D. Manuel II quando se podia considerar preparado para ser rei levou-o a morte sem descendentes nem sucessor, salientando já não haver uma forte corrente doutrinária monárquicos, porque a essa mística da virtude expressiva da superioridade essencial da forma republicana, não está oposta uma forte corrente doutrinária. Rocha Martins, o jornalista monárquico que não apoia a chamada de D. Duarte Nuno, considera então que se encontra entalado entre os integralistas e os antigos monárquicos constitucionais, dizendo que estes estavam, quase todos, dependentes do emprego público, da banca, dos Governos. A nobreza mantinha-se no seu pedestal; alguém negociava, mas embrulhava-se nos pergaminhos. Para o povo, um duque ou conde não tinham significado. Hipólito Raposo e Luís de Almeida Braga declaram que não se mata uma causa por asfixia, nem se pode empreender a regeneração nacional com ambiciosos e com trânsfugas, gafaria moral de que são feitas, normalmente, as camarilhas dos aduladores.

O fim político da ditadura – Assim, Salazar podia anunciar o fim político da Ditadura e elogiar alguns homens públicos que tiveram a intuição do movimento e vieram colaborar com a Ditadura, inventariando-se então os nomes de Bissaia Barreto, Vasco Borges, coronel Vicente Ferreira, tenente-coronel Francisco Velhinho Correia, Alfredo Magalhães, Camarate de Campos e Guilhermino Nunes.

Revolução Nacional contra a Revolução Social – Já sobre os socialistas, Salazar assinala: os outros organismos operários de carácter revolucionário são hoje dominados pela ideologia bolchevista e trabalhados por agentes estrangeiros. Todos tendem por meio de luta de classes para a revolução social.

Emitido o decreto nº 21 949 com uma lista dos amnistiados (5 de Dezembro). Continuam ainda proscritos por dois anos, cinquenta nomes, onde constam os de Bernardino Machado, Afonso Costa, Sousa Dias, Alfredo António Chaves, António Augusto Dias Antunes, Armando Pereira de Castro Agatão Lança, Carlos Vilhena, Augusto Casimiro, Carlos Frazão Sardinha, Ernesto Pope, Jaime Alberto de Castro Morais, José Sarmento Beires, Pestana Júnior, António Luís, Prestes Salgueiro, Fernando Pais de Teles Utra Machado, Fernando Augusto Freiria, Filémon da Silva Duarte de Almeida, Francisco Alexandre Lobo Pimentel, Genipro da Cunha de Eça Costa Freitas e Almeida, Jaime Pereira Rodrigues Baptista, João Manuel de Carvalho, João Pereira de Carvalho, José Mendes dos Reis, Manuel Ferreira Camões, Manuel Gregório Pestana Júnior, Manuel Sílvio Pélico de Oliveira Neto e Sebastião José da Costa.

No mesmo dia, Decreto-Lei nº 21 942 cria Tribunais Militares Especiais em Lisboa e Porto, tendo em vista a punição dos crimes políticos.

Salazar passado a António Ferro. Começam a ser publicadas as entrevistas de Salazar a António Ferro, Salazar passado a ferro (de 18 a 24 de Dezembro).

Movimentação golpista. Pimenta de Castro propõe a Domingos Oliveira que este chefia um golpe de Estado de gente nova da situação contra o actual governo (21 de Dezembro). Segundo Assis Gonçalves esta gente nova seria constituída por vicentistas, descontentistas (nacionais sindicalistas) reviralhistas (carvalhistas, aragonistas, cunhistas) procuram dar-se as mãos para deitar ainda o seu barro à parede (21 de Dezembro). Ainda neste mês, Assis Gonçalves propõe a Salazar a constituição de uma forte polícia especial, enquanto o Notícias Ilustrado descobre que Salazar está representado nos chamados Painéis de Nuno Gonçalves. Começa a publicar-se em Faro o semanário O Nacional-Sindicalista, onde colaboram J. D. Garcia Domingues e Luís Forjaz Trigueiros.