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  Anuário 1934

Salazar vence a revolta dos generais do 28 de Maio e elege Assembleia Nacional – Surge a política do espírito

Le Siècle du Corporatisme Da Longa Marcha de Mao ao assassinato de Dolfuss Liga Portuguesa contra a Guerra e o Fascimo Jornal O Trabalhador do Padre Abel Varzim Acção Escolar de Vanguarda I Congresso da União Nacional. Greve Geral e soviete da Marinha Grande Revolta de Setúbal 18 de Fevereiro Revolta dos generais do 28 de Maio  (Abril) Remodelações em 29 de Junho e 23 de Outubro  Eleição da Assembleia Nacional (Dezembro)

 

Greve revolucionária e soviete na Marinha Grande (18 de Janeiro). Greve geral contra a criação de sindicatos nacionais, que tem especial incidência na Marinha Grande, onde se instala um soviete que dura, aliás, poucas horas, mas que também se manifesta em Almada, Barreiro e Silves. No Poço do Bispo em Lisboa, há rebentamento de bombas. Corte de circulação de comboios em Xabregas. A central eléctrica de Coimbra é ocupada. Tentativa de invasão por operários do Consórcio Português de Pesca em Setúbal.

 

Da falhada insurreição militar ao degredo – Estava para ser conjugada com uma insurreição militar, organizada por um comité revolucionário político, liderado por Sarmento Beires. Notas oficiosas falam em tentativas comunistas frustradas e em ideias dissolventes e atentatórias da moral pública e da ordem social (19 de Janeiro). Os líderes da revolta são conduzidos para um campo de concentração criado na foz do Cunene, no Sul de Angola, logo no dia 20.

O fim do anarco-sindicalismo – A revolta marca o fim da influência dominante do anarco-sindicalismo nas movimentações operárias portuguesas que, a partir de então, passam a receber a coordenação revolucionária do PCP. Com efeito, o remanescente aparelho da CGT vai ser desmantelado pela polícia política do Estado Novo, constituindo a turbulência o último estertor do ancien régime sindical.

A Liga Portuguesa contra a Guerra e o Fascismo é criada em Agosto de 1934 pelos comunistas, sob a direcção de Bento de Jesus Caraça (1901-1948), na sequência da fundação de uma liga internacional com o mesmo nome lançada em 1932 pela Internacional Comunista. Assume um carácter frentista, um programa de democracia popular e, a partir de 1935, tenta a criação em Portugal de uma Frente Popular.

Pavel, líder das Juventudes Comunistas, instala-se na URSS, como representante do PCP junto da Internacional Comunista (Março).
 

Acção Escolar de Vanguarda Surge em 23 de Janeiro uma organização dirigida pelo estudante Ernesto de Oliveira e Silva e por António Eça de Queiroz, onde expressamente se defende uma ordem nova e um Estado Totalitário. No dia da fundação, há uma sessão no Teatro São Carlos de apresentação do movimento, promovida por João Ameal e Manuel Múrias. Preside Carmona.

Manifestações no Terreiro do Paço de apoio a Salazar. Surgem os camisas verdes da Acção Escolar de Vanguarda. (27 de Abril). Salazar procura assim destruir por dentro a deriva nacional-sindicalista. De qualquer maneira aquilo que pretendia ser um mero autoritarismo conservador, à maneira de Dolfuss ou do que virá a ser Pátain, é obrigado a ceder a certa retórica e a alguns dos rituais do fascismo revolucionário, bem como a certos espectáculos da nova estética política, com camisas coloridas, saudações romanas, comícios e acampamentos.

Lançado o jornal Revolução Nacional, dirigido por Manuel Múrias, de acordo com Salazar. Rolão Preto e os que restam do nacional-sindicalismo entram em quase clandestinidade (1 de Março).
 

Estatismo nacionalista – Manuel Rodrigues, numa conferência proferida em Coimbra em 6 de Maio considera que não há um poder transcendente, o poder pertence à Nação organizada...o Estado é a fonte de toda a regra normativa...O cidadão não pode recorrer a um princípio estranho ao seu país, nem mesmo invocar regras de humanidade. Só é humano o que é nacional.

Remodelação – Em 29 de Junho: Manuel Rodrigues passa a acumular a instrução, com a saída de Sousa Pinto.

O Trabalhador Surge como quinzenário do operariado católico, em 1 de Maio. Inspirado pelo Padre Abel Varzim (1902-1964) o seu principal editorialista, mas onde também colaboram Artur Bívar e António Sousa Gomes.

 

Turbulências dentro do regime – Reunião do Conselho de Ministros em Belém sob a presidência de Carmona (10 de Janeiro). Analisado o momento político, face ao crescendo do nacional-sindicalismo e dos boatos sobre nova revolta da ala militar republicana do 28 de Maio, aqueles a quem Salazar chama os homens da espada. Protestos de católicos contra o ministro Manuel Rodrigues que, a propósito de uma conferência feita em Coimbra, é acusado de estatismo por ter defendido que a soberania é a fonte da regra superior do homem social (6 de Maio). O jornal Novidades acusa-o de defender o socialismo de Estado e o estatismo, adverso ao conceito cristão de autoridade. Pereira da Rosa inicia n’ O Século campanha anticomunista.
 

Militares desafiam Salazar (15 de Abril). Ministro da Guerra, Luís Alberto de Oliveira, numa festa realizada no Regimento dos Caçadores 5, discursa perante Carmona, declarando que o presidente da república é a única fonte do poder, com a confiança do Exército: se sou Ministro da Guerra, sou-o pela mão de V. Exª, a quem sirvo, porque só com V. Exª o Exército serve bem a Nação (15 de Abril). Também Farinha Beirão, então comandante da GNR, João de Almeida, Vicente de Freitas e Schiappa de Azevedo pressionam Carmona no sentido da demissão de Salazar que pede a demissão em Conselho de Ministros. Carmona concede-lhe audiência à tarde (16 de Abril).
 

O fim da autonomia de Carmona – Segundo Franco Nogueira, colocou-se numa posição de quase impossibilidade política de afastar alguma vez o chefe do governo, embora legalmente o pudesse fazer em qualquer ocasião. A partir daí o presidente não pssa de um simples manequim fardado, desaparecendo o formal bipresidencialismo, dado ter-se consagrado o presidencialismo do chefe do governo.
 

Nova pressão da ala militar – Carmona recebe José Vicente de Freitas em audiência em Belém (24 de Setembro). Tem como pretexto a entrega de uma mensagem de vários militares solicitando-lhe que dê autorização para se promover nova candidatura à presidência da república. Salazar insiste com Carmona, no sentido da demissão do ministro da guerra Luís Alberto de Oliveira (12 de Outubro). Reunião do Conselho de Ministros. Todos os ministros apresentam a demissão. Salazar anuncia a recandidatura de Carmona a Presidente da República (22 de Outubro).
 

Remodelação – Em 23 de Outubro de 1934: Abílio Augusto Valdez Passos e Sousa substitui Luís Alberto de Oliveira na Guerra; Rafael Silva Neves Duque substitui Franco de Sousa na agricultura; Eusébio Tamagnini de Matos Encarnação na Instrução, em lugar de Manuel Rodrigues; Henrique Linhares de Lima substitui Gomes Pereira no Interior; João Pinto da Costa Leiteö (1905-1975) novo subsecretário de Estado das finanças. Passos e Sousa ainda provém da ala republicana do 28 de Maio, mas o novo gabinete já é retintamente salazarista.

António Lino Neto abandona a presidência do Centro Católico (Fevereiro).

Monárquicos protestam contra a criação da Fundação da Casa de Bragança, com José Vaz Pinto, Domingos Pinto Coelho, Luís de Almeida Braga e Simeão Pinto Mesquita a protestarem, contra a aliança que Salazar fez com Fernando Martins de Carvalho e Eduardo Fernandes de Oliveira, representantes de D. Amélia de Bragança (Fevereiro).

I Congresso da União Nacional na Sociedade de Geografia (dias 26 a 28 de Maio). Salazar discursa sobre O Estado Novo Português na evolução política europeia: a economia liberal que nos deu o super-capitalismo, a concorrência desenfreada, a amoralidade económica, o trabalho mercadoria, o desemprego de milhões de homens, morreu já. Receio apenas que, em violenta reacção contra os seus excessos, vamos cair noutros que não seriam socialmente melhores. No encerramento do Congresso, Lopes Mateus proclama: quem não é por Salazar é contra Salazar. Mais poeticamente, António Correia de Oliveira recita: Patria Nostra: O Sereno Escultor/ da Imagem Nova sobre a Velha Traça...

Rolão Preto envia exposição a Carmona, protestando contra o governo, sendo imediatamente preso (20 de Junho). Já detido, envia reclamação a Salazar (10 de Julho). Exilado no dia 14, com Alberto Monsaraz. Nota oficiosa de Salazar comunica a extinção do nacional-sindicalismo por ser inspirado em certos modelos estrangeiros (29 de Julho). Salazar dá uma entrevista ao jornal de Manuel Múrias, Revolução Nacional, pedindo aos nacionais-sindicalistas para ingressarem na União Nacional, acrescentando que muito é de esperar da sua devoção nacionalista.

O reviralho – Em Julho, Afonso Costa é elevado ao grau 33, dentro da maçonaria, enquanto no Rio de Janeiro o jornalista José Jobim publica A Verdade sobre Salazar, um conjunto de entrevistas com tal político, concedidas em Paris, no ano de 1933. Prisão de Maia Pinto em Espanha. Jaime Cortesão e Jaime de Morais passam para Argélia (Setembro). Tudo por causa de um desembarque de material de guerra não autorizado na Galiza.

O viracasacas – O antigo ministro da I República, Vasco Borges (1882-1942), profere aos microfones da Emissora Nacional uma alocução onde adere ao salazarismo (Novembro). Passa a ser conhecido como o viracasacas e até é ridicularizado com um anúncio anónimo publicado num jornal diário de Lisboa, onde dando-se as coordenadas domiciliares do ex-ministro, se anunciava casaca virada estado novo, vende-se..., marcando-se o ritmo do novo adesivismo, que já fora da direita para a esquerda, em 1910, e que, agora, tinha movimento inverso, até que, em 1974, dava nova guinada, com antigos governantes de Salazar e de Caetano a flutuarem como rolhas  nas novas vagas da moda revolucionária ou pós-revolucionária. O mesmo deputado ficará célebre em 1938, quando, criticando o facto das mulheres fumarem cigarro, considera tal como uma invenção comunista.

Eleição nº 53 (Dezembro) da Assembleia Nacional. Inauguração oficial do Rádio Clube Português, com a presença de Óscar Carmona (1 de Dezembro). Discurso radiofónico de Salazar sobre A constituição das Câmaras na evolução política portuguesa (9 de Dezembro). Linhares de Lima proclama: quem votar, vota pela Nação; quem não votar, vota contra a nação (15 de Dezembro). 90 deputados. Inscritos nos cadernos 478 121 eleitores; votantes 377 792 (16 de Dezembro). Entram os republicanos Vasco Borges e Camarate de Campos, bem como Henrique Galvão, Araújo Correia, Domitila de Carvalho, Maria Guardiola, Luís da Cunha Gonçalves, Ulisses Cortês e Pedro Teotónio Pereira. Dos antigos militantes do Centro Católico: Diogo Pacheco de Amorim, Alberto Pinheiro Torres, José Maria Braga da Cruz, Joaquim Dinis da Fonseca, Juvenal de Araújo, Mário de Figueiredo, António de Sousa Gomes, que passa a director do Diário da Manhã, e o cónego Correia Pinto.