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  Anuário 1942

 

Conspiração da Shell, ocupação de Timor e publicação das obras de Fernando Pessoa

Aniki Bóbó e Welfare State

Brasil entra na guerra

Apreendido livro de Hipólito Raposo
Assassinato de militante comunista  
Prisão de dirigentes comunistas  (Outono)
Greve de Outubro-Novembro
Conspiração da Shell

 ep 4 e55 (Novembro) 668 785 votos

 

Guerra – No ano em que o Brasil entra na guerra, Humberto Delgado parte para Londres para missão secreta junto do Quartel-General da RAF (29 de Janeiro). Encontro entre Salazar e Franco, em Sevilha (12 de Fevereiro). Japoneses ocupam Timor (20 de Fevereiro). Discurso de Salazar na Assembleia Nacional sobre a matéria (21 de Fevereiro). Governo português protesta em Londres contra a severidade com que os Aliados mantêm o bloqueio económico a Portugal, invocando a circunstância de se manterem relações com ambos os lados do conflito (31 de Marco). Elementos da oposição apoiam a posição de Salazar quanto à guerra. Norton de Matos intervém sobre a questão ultramarina e Armando Marques Guedes defende a cooperação entre patrões e operários em nome da devoção patriótica (Março). Salazar discursa, na Emissora Nacional, sobre a política de defesa: defesa económica, defesa moral, defesa política (25 de Junho). Critica ambos os lados no conflito, nomeadamente os regimes demo-liberais, por se terem aliado com a URSS. Brasil entra na guerra ao lado dos Aliados (22 de Agosto).

Eleições presidenciais (8 de Fevereiro). Reeleito Carmona, sem candidato alternativo. Na véspera, através da Emissora Nacional, Salazar faz uma comunicação ao país apelando ao voto no candidato único. 90,7% dos votantes.

Conspiração da Shell. Em Março é desmantelada uma organização secreta de inspiração britânica, que pretende a criação de um rede de anglófilos, ligada a quadros da companhia Shell e aos serviços ingleses de propaganda. Visa enfrentar uma eventual invasão alemã (Março). Entre os detidos, Cândido de Oliveira, fundador de A Bola, e o médico oposicionista de Coimbra, Ferreira da Costa, que serão presos no Tarrafal. Salazar protesta junto do embaixador britânico que considera a estrutura limitada e modesta. A embaixada alemã espalha um boato segundo o qual a mesma visar derrubar Salazar facilitando o desembarque dos aliados nos Açores. Entre os elementos mobilizados pelos serviços secretos britânicos, há um jovem engraxador no Terreiro do Paço que se há-de tornar, depois da guerra, um dos maiores contrabandistas de tabaco na Europa e um dos principais apoiantes de certas actividades do reviralho em Portugal nos anos cinquenta, recuperando alguma da memória carbonária.

Comunistas – O médico comunista Ferreira Soares é assassinado em sua casa por tiros de metralhadora (4 de Julho). A PVDE é acusada de tal acção. No Tarrafal, morre Bento Gonçalves, de biliose, em Setembro. São, entretanto, presos os dirigentes comunistas Militão Ribeiro, Pires Jorge e Pedro Soares. Segundo Mário Soares, caloiro de Letras, que, então, se iniciar no partido, dependente hierarquicamente de Jorge Borges de Macedo, 1942 foi o ano heróico em que a União Soviética, à custa de prodígios de tenacidade e valentia, suportava quase só o peso da ofensiva nazi. O momento era de euforia, da grande aliança das forças do progresso, com Staline transformado, graças à confiança de Roosevelt, no "unbcle Joe" de patriarcal bonomia – o popular "Zé dos bigodes". Era para mim um mundo harmonioso de fraternidade democrática e antifascista que todos apontávamos.

 

Greves – Em Outubro, greve trabalhadores da Carris, da construção naval (Companhia Nacional de Navegação) e dos estivadores, numa acção que se estende até ao mês de Novembro e alastra a outros sectores, nomeadamente à CUF do Barreiro. Terão participado cerca de 20 000 trabalhadores. Protestos contra a carestia de vida e a falta de liberdade sindical, bem como contra a corrupção dos organismos corporativos. Reunião do Conselho de Ministros sobre a agitação grevista em 3 de Novembro. Emitida nota oficiosa onde se invoca a necessidade de uma vida ordeira e da disciplina social, criticando-se os agitadores profissionais a soldo de Moscovo. Realiza-se no Coliseu dos Recreios uma sessão dos sindicatos nacionais. Salazar discursa sobre o corporativismo e os trabalhadores (23 de Julho).

Eleição nº 55 da Assembleia Nacional. 90 deputados. 772 578 eleitores. 668 785 votantes. 86,6% dos votantes a favor da lista única (Novembro).

Núcleo de Acção e Doutrinação Socialista Surge em Lisboa, visando a divulgação dos ideais do socialismo (Dezembro). Trata-se de um grupo de estudantes universitários que, em 1944, há-de integrar-se na União Socialista. Entre os fundadores de 1942, José Magalhães Godinho, Vitorino Magalhães Godinho, Afonso Costa Filho, Mário de Castro, Gustavo Soromenho, António Macedo, Mário Cal Brandão, Artur Santos Silva, Paulo Quintela, José Joaquim Teixeira Ribeiro e Fernandes Martins. De assinalar que parte desse grupo é filho de anteriores dirigentes da esquerda republicana.

Católicos – António Sousa Gomes, na revista Estudos do CADC, invoca as perspectivas do personalismo de Emmanuel Mounier, Étienne Borne e Jean Lacroix e começa a citar François Perroux e maritainistas.

Monárquicos – A Nação é diversa, diversos corpos a formam; o Estado é uno, e a sua função máxima consiste em unificar os vários corpos de que a Nação se compõe. E não seria nunca o Estado esse necessário unificante se também ele fosse colectivo, quer dizer, se também ele se encontrasse repartido, em si mesmo acalentando um constante princípio de divisão. A Nação corporativa não é o Estado... Confundindo corporativamente a Nação e o Estado, o interesse nacional pronto se verá sacrificado à voracidade dos egoísmos profissionais. As Corporações serão então o Estado. E ao abandonarem assim as suas funções naturais de produtores da riqueza para exercer as de administradores políticos da Cidade, esses Corpos ordenados lançam-se me preservante guerra uns com os outros, na insofrida concorrência a que, à custa da Nação, todos se entregam para a conquista dos maiores lucros (Luís de Almeida Braga).