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  Anuário de 1983

1983

A emergência do Bloco Central

Da guerra das estrelas ao vírus da SIDA  Terrorismo em França  Vaga pacifista na Europa Ocidental  Reagan lança o SDI  Surge o alerta da SIDA  Morte de Raymond Aron  Lech Walesa, Nobel da Paz

( Tradição e Revolução, vol. II)

Cosmopolis

 

 

Procura da boa sociedade

Anatomia do poder

            e68 (25 Abril)

g 118º M. Soares

Novas lideranças do pós-AD. V Congresso do CDS (20 de Fevereiro). Lucas Pires novo Presidente do partido num Congresso realizado em Lisboa no Teatro Maria Matos. X Congresso do PSD em Montechoro (dias 25 a 27 de Fevereiro). Balsemão é substituído por uma direcção colegial. Nuno Rodrigues dos Santos torna-se presidente e uma troika, constituída por Nascimento Rodrigues, Eurico de Melo e Mota Pinto, dá assessoria à veneranda liderança moral do velho maçon liberal. Sinais doutrinários do eanismo: Emitido o manifesto Para um aprofundamento da democracia (15 de Março). Subscrevem-no Henrique de Barros, Medeiros Ferreira, Manuela Silva e Maria de Lurdes Pintasilgo.

O Semanário – Surge um novo semanário concorrente do Expresso, com o dissidente Marcelo Rebelo de Sousa a aliar-se a Vítor da Cunha Rego, José Miguel Júdice e Paulo Portas, desenvolvendo-se uma estratégia que dará origem ao cavaquismo. Lançada a secção Mão Invisível, onde se lança uma opinião neo-liberal com os professores de economia Diogo Lucena, Miguel Beleza, Luís Campos e Cunha e Jorge Braga de Macedo.

Greves e tumultos. Confrontos em Valongo entre a GNR e trabalhadores com salários em atraso. Um morto (27 de Janeiro). Greves da CP, Carris e Metro (8 de Fevereiro). Começam onze dias de greve dos maquinistas da CP, liderados por Jorge Godinho, próximo do PSD, que não acatam a requisição civil decretada pelo governo (29 de Março). Incidentes no estaleiro da Lisnave: polícia tem de intervir para libertar um navio grego que os trabalhadores retêm, protestando contra salários em atraso (15 de Julho). Agitação em Canas de Senhorim depois de manifestação de populares que defendem a elevação a concelho (18 de Julho).

Terrorismo – Durante o XVI Congresso da Internacional Socialista em Montechoro, é abatido, por um comando da organização Abu Nidal, um observador da OLP, Issam Sartawi (7 de Abril).

 

Eleição nº 68 Eleição da Assembleia da República (25 de Abril). 250 deputados. 7 337 064 eleitores. 5 707 695 votantes. Assiste-se a uma espécie de empate técnico entre as principais forças concorrentes. O PS de Mário Soares sai vencedor com 36,1%, mas o PSD, com 27,2%, não soçobra. E se os comunistas podem ficar satisfeitos com os 18,1% alcançados pela APU, eis que o CDS da jovem liderança de Lucas Pires, ao obter 12,6%, alimenta algumas esperanças. O eleitorado, se pune a Aliança Democrática, não volta a dar autonomia liderante ao Partido Socialista, pelo que, à maneira da fusão de 1865, os candidatos ao modelo rotativista fazem um acordo de irmãos-inimigos, nascendo o chamado Bloco Central, um acordo entre o PS e o PSD visando um governo comum (4 de Junho de 1983).

Maçonaria – Instituti-se uma loja de maçonaria feminina, a Unidade e Mátria, com Maria Belo, Júlia Maranha, Manuela Cruzeiro e Maria Helena Carvalho Santos, a que também irá aderir a jornalista Helena Sanches Osório..

Governo nº 118 de Mário Soares. IX Governo Constitucional dito do Bloco Central, (9 de Junho) com o líder do PSD, Mota Pinto, como vice-presidente, desde 9 de Junho. O novo gabinete é marcado tanto pela política de austeridade, imposta pelo FMI, e que impõe um corte ao subsídio estadual aos bens essenciais, como pelo processo de formal integração na CEE (9 de Junho). Na oposição parlamentar destaca-se o novo presidente do CDS, Francisco Lucas Pires, anterior ministro da cultura e coordenação científica do último governo da AD. A nova política fiscal é alvo de fortes contestações tanto à direita como à esquerda. Surge, entretanto uma revisão da lei de delimitação dos sectores da actividade económica, em 19 de Novembro, permitindo a abertura da área nacionalizada à iniciativa privada.

Outros ministros são: António de Almeida Santos (ministro de Estado), Rui Macheteö (defesa nacional), Eduardo Pereira (administração interna), Jaime Gama (negócios estrangeiros), Mário Raposo (justiça), Ernâni Lopes (finanças e plano), João de Deus Pinheiro (educação), Amândio de Azevedo (trabalho e segurança social), Maldonado Gonelha (saúde), Álvaro Barreto (agricultura), José Veiga Simão (indústria e energia), Joaquim Ferreira do Amaral (comércio e turismo), Coimbra Martins (cultura), Carlos Melancia (equipamento social) e José de Almeida Serra (mar).

Austeridade e privatizações – Escudo é desvalorizado em 12%. Mantém-se o regime de desvalorização deslizante mensal de 1%. Mário Soares propõe uma trégua política e social (21 de Junho). Ernâni Lopes, Ministro das Finanças, anuncia corte dos subsídios aos bens essenciais, começando a chamada política de austeridade. Aprovada moção de confiança (24 de Junho). Aumento do preço dos combustíveis (2 de Julho). Revogado o tecto salarial (3 de Julho). Assembleia da República autoriza o governo a legislar sobre a privatização dos sectores bancário, segurador, cimenteiro e adubeiro (5 de Julho). Aprovadas alterações à lei de delimitação dos sectores económicos, no sentido liberalizante (6 de Julho). Anuncia-se que a inflação é de 23%. Governo diz optar pelo modelo de fusão das agências de notícias públicas (13 de Julho). Chega a Lisboa uma delegação do FMI, tendo em vista a concessão de um empréstimo a Portugal (19 de Julho). Mário Soares declara que as reservas de ouro não estão à venda (25 de Julho). Instituída Alta Autoridade para o combate à corrupção (5 de Agosto). Assinada carta de intenções do governo face ao FMI, depois de, no dia anterior, Mário Soares consultar os partidos (10 de Agosto). Ferraz da Costa, da CIP, declara que o Governo perderá credibilidade se não pagar indemnizações (30 de Agosto). Aumentam preços dos transportes e da água (1 de Setembro). Soares declara que está afastado o espectro da fome e do racionamento. Aprovado o novo pacote fiscal no parlamento (13 de Setembro). CIP fala em rapina fiscal (24 de Setembro). Conselho de Ministros aprova o modelo de lay off (7 de Outubro). Publicado o pacote fiscal (23 de Outubro). Confederação do Comércio considera que o governo está a matar a iniciativa privada (24 de Outubro). Lucas Pires fala em estado de sítio fiscal (26 de Outubro). Intersindical comunica que há 117 000 trabalhadores com salários em atraso (30 de Outubro). Torres Couto da UGT considera que o governo pode ser o coveiro da democracia (31 de Outubro). Revisão da lei da delimitação dos sectores, permitindo a abertura da área nacionalizada à iniciativa privada, nos sectores do cimento, da banca e dos seguros (19 de Novembro). Cavaco Silva declara que o imposto de 2,8% deve ser o imposto mais inequitativo que foi lançado em Portugal nos últimos 50 anos (21 de Dezembro).

Mais tumultos – Polícia de Intervenção ocupa a Marinha Grande, a fim de impedir uma manifestação dos operários vidreiros (8 de Setembro). Há confrontos na Marinha Grande entre a GNR e operários vidreiros (22 de Outubro) que isolam a localidade (10 de Novembro).

Mais terrorismo – Uma carrinha de transporte de valores é assaltada à mão armada (23 de Junho), sendo desviados cerca de 5 000 contos. Comando arménio ataca embaixada turca em Lisboa, com sete mortos (28 de Julho). Atentado das FP 25 contra viatura de gestores da COMETNA (15 de Novembro). Novo atentado do grupo terrorista na Cruz de Pau (26 de Novembro). Petardos espalham propaganda de tal entidade (6 de Dezembro).

Questiúnculas político-militares – Governo pede ao Presidente da República a exoneração de Garcia dos Santos de CEME, por falta de confiança política (26 de Julho). Apenas se concretiza em 22 de Novembro, sucedendo-lhe Salazar Braga (17 de Dezembro).

Tempos de interregno – Criação da Associação Nacional de Municípios num encontro que decorre em Alcobaça (17 de Setembro). Conselho Nacional do PSD reúne no Porto: necessidade de reafirmação da identidade própria do PSD na coligação, a qual pode e deve ser feita com maior ênfase, implicando a defesa de uma candidatura presidencial própria (18 de Setembro). Grandes inundações nos distritos de Lisboa e Setúbal. Dez mortos (19 de Setembro). Conferência de imprensa do CDS sobre os tristes cem dias do Governo PS/PSD (20 de Setembro). Lançado o Movimento Nova Monarquia em conferência de imprensa (7 de Outubro)

Aventais e sacristias – RTP transmite saudação do Grão-mestre da Maçonaria, Adão e Silva e Bernardino Machado é reintegrado a título póstumo na Universidade de Coimbra (5 de Outubro). D. António Ribeiro denuncia a corrupção moral expressa pelos projectos de liberalização do aborto e de legalização dos campos de nudismo (13 de Outubro).

Norte-americanos – Assinado acordo com os norte-americanos para a utilização da base das Lajes e criada a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, uma forma de institucionalização do sistema de ajudas norte-americanas a Portugal. O novo organismo há-de vir a ser presidido por Rui Machete (13 de Dezembro), sendo um sustentáculo do chamado Bloco Central dos interesses, onde a distribuição de subsídios e o convite para viagens e bolsas de estudo transatlânticas acirra o pró-americanismo da classe política dominante. Não é por acaso que ilustres ministros, deputados e até chefes do governo acabem desempenhando funções de docentes convidados em universidades norte-americanas, antes de serem chamados como estadistas portugueses.

Soviéticos – Gorbatchev participa no Porto no X Congresso do PCP. Excluído o apoio do partido a uma eventual candidatura de Mário Soares à presidência da República (18 de Dezembro).