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A revelação do terceiro segredo de Fátima
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A pacatez lusitana – Portugal continua a
viver num pacato espaço fechado, onde qualquer intelectual ainda tem que parecer
amigo desse Alex lusitano, nutrido pelas ideias dos revolucionários
frustrados do Maio 68, os tais que nunca tinham digerido suficientemente
as anteriores vitórias eleitorais da Aliança Democrática e de Cavaco Silva. Do
mesmo modo, os grandes ausentes-presentes, como Mário Soares, Diogo
Freitas do Amaral, Álvaro Cunhal ou Adriano Moreira, parecem entretidos nas suas
tarefas de revisionismo memorialista, como se o país pudesse confundir-se com um
epitáfio conjunto, organizado pela jornalista Maria João Avilez. Todos estes
marechais, solidamente afundacionados ou prebendados em jobs, sempre
poderiam sentenciar sobre o dever-ser das instituições que outrora
geriram, esquecendo que ser senador não é o mesmo que ser gerontocrata. Quase
todos padecem daquele mal dos sábios positivistas que, desordenando as
ideias dos outros, esquematizam as suas paixões para as definirem depois como
conceitos, para utilizarmos as palavras de António Sardinha sobre o magistério
de Teófilo Braga. Mesmo as águas da opinião crítica dos opinion makers
parecem plácidas para os próximos séculos. Qualquer director de jornal sabe que
basta repartir os artigos conforme a percentagem eleitoral e o peso dos
accionistas, com dois terços para os socialistas democráticos e um terço para os
sociais-democratas, ou vice-versa, desde que os mesmos sejam condimentados com
certas margens da direita e alguns ex-radicais de esquerda. Porque no meio
circulam as famílias do costume. O clã Portas, com um filho na direita, radical,
e outro na esquerda, também radical, rivaliza com a família Soares/Barroso,
todos sentenciando sobre tudo, do futebol à gastronomia, da crítica musical à
paz universal, do catolicismo militante à mais histórica das maçonarias. Os
outros clãs apenas têm inveja do senatorialismo militante de Marcelo Rebelo de
Sousa, capaz de sitiar o parlamento e de arreliar a presidência. Mas o estilo
Zip Zip parece perder a capacidade de manobra, dado que Carlos Cruz e Herman
José se assumem cada vez mais como uma espécie de Eusébios eleitorais e símbolos
da nossa identidade ameaçada.
Lisboa volta a
ser capital da Europa – Portugal, durante seis meses, volta a ser presidente
da União Europeia durante seis meses. Mas já não se utiliza o Centro Cultural de
Belém, construído pelo cavaquismo para tal efeito.
Segunda visita de
João Paulo II a Portugal, para a beatificação dos pastorinhos de Fátima (13
de Maio). No dia 26 o Vaticano revela o chamado terceiro segredo de Fátima.
Debates
de Julho – No mês de Julho há intensos debates sobre o estado da nação,
discute-se uma moção de censura apresentada pela oposição e analisa-se o
desempenho da presidência portuguesa da União Europeia, a que acresceu a
apressada aprovação de algumas emblemáticas leis, desde a conservadora reforma
da segurança social à não plebiscitada descriminalização do consumo de drogas.
A
esquerda e a direita do novo milénio – A esquerda e a direita não passam de
posições relativas que variam conforme as circunstâncias e que só desabrocham
numa democracia pluralista e competitiva, pelo que ligá-las a situações
autoritárias ou totalitárias do passado apenas interessa a quem não sabe que,
num sistema político aberto, qualquer partido é sempre uma parte em competição
com outra parte, onde só há esquerda porque há direita e vice-versa. Só os
utopistas do passado, isto é, os reciclados de extrema direita e de extrema
esquerda, é que conseguem fazer uma distinção substancial e ontológica entre a
direita e a esquerda, não percebendo que tanto uma como outra são meras posições
relativas que têm como pressuposto uma democracia pluralista e competitiva.
Servem para qualificar meros partidos ou grupos de partidos, isto é, partes em
competição com outras partes, onde qualquer esquerda para o poder ser precisa
sempre de uma direita e vice-versa. Aliás, a direita e a esquerda variam
conforme as circunstâncias, não sendo raro que muitas esquerdas sejam antigas
direitas e que haja governos de direita com programas de esquerda e governos de
esquerda com mentalidade de direita. Por isso, as analogias com modelos
antidemocráticos são sempre falaciosas, dado que todas as situações autoritárias
e totalitárias sempre disseram que estavam acima da direita e da esquerda porque
todos nunca eram demais para servir o país. Basta recordar que, à semelhança da
terminologia de Estaline, também o partido único do nosso regime derrubado em
1974, no seu último congresso chegou a assumir a designação de centro, quando já
não podia esconder que havia partes em Portugal. Felizmente que o nosso regime
político, desde abandonou as tentações vanguardistas, assistiu a uma sucessão de
governos de esquerda e de direita, com eleitores geneticamente de esquerda a
votarem em partidos de direita e o inverso. Foi assim com a Aliança Democrática,
apoiada pelos Reformadores. Voltou tal a acontecer com a vitória relativa do PS
de Mário Soares que deu origem ao Bloco Central. Repetiu-se a dose com Cavaco
Silva que chegou a roubar eleitorado ao próprio PCP e da mesma maneira funcionou
a ascensão ao poder de e,
de certa maneira, repetem coisas boas e coisas más
praticadas pelos cabralismo, pelo Guterres, com muita direita anticavaquista a
dar-lhe direito a situar-se no extremo-centro.
O
centrão – Com efeito, as secções portuguesas do Partido Popular Europeu e da
Internacional Socialista que, hoje, coincidem com os antigos partidos do Bloco
Central, porque se enfrentam em idênticos terrenos valorativos e sociológicos,
estão pouco interessadas no desenvolvimento de uma dialéctica esquerda/ direita.
Ambos os partidos sabem que todos os inquéritos feitos ao eleitorado português
demonstram a existência de um vale sociológico de cerca de oitenta por cento de
cidadãos, com duas margens de dez por cento, à direita e à esquerda, mais ou
menos rígidas.
As
margens – Só os representantes institucionais e parlamentares dos dois
bloquinhos dos dez por cento é que estão interessados numa distinção substancial
entre a direita e a esquerda, baseada em âncoras ideológicas, dado que ao PSD e
o PS convém uma distinção meramente táctica ou processual, baseada em tópicos
mais ou menos flutuantes.
A
margem direita – O discurso estratégico de Paulo Portas é, aliás, eloquente,
quando, em coincidência com o “Movimento 10 de Junho”, de Jaime Nogueira Pinto,
e os antigos militantes do “Nação Una”, com Manuel Monteiro e Paulo Teixeira
Pinto, acirra a ideia eurocéptica e recorda as lutas contra a despenalização do
aborto e a regionalização, propondo um referendo contra a descriminalização das
drogas, tentando lançar um conglomerado de ideias ditas de direita, em torno da
soberania nacional e dos “bons costumes” vitorianos.
A
margem esquerda – Do mesmo modo, os esquerdistas ontológicos, da esquerda
comunista ou revolucionária, mas com a boa educação dos filhos da grande
burguesia instalada, aproveitam todas as ocasiões para serem os campeões do
anti-proibicionismo, do ecologismo, do laicismo e de certas memórias
internacionalistas do “Maio 68”.
O
hibridismo centrista – Pelo contrário, tanto ao PS como ao PSD interessa o
hibridismo que lhes permita continuar a navegar no mar sociológico dos oitenta
por cento de centristas, onde só as pessoas com mais de vinte e cinco anos
nasceram antes do 25 de Abril de 1974 e onde só as pessoas com mais de quarenta
e cinco anos podiam votar antes da data referida.
Guterres
e Cavaco – O êxito do Engenheiro Guterres foi directamente proporcional ao
do Professor Cavaco Silva. Os dois falaram para o país do novo eleitorado,
porque ambos, apesar da idade, nunca tinham sido “fascistas” nem
“antifascistas”. Ambos são europeístas q.b., patriotas “malgré tout” e invocam
convicções católicas. O professor de economia tende a parecer mais tecnocrata, o
engenheiro a mostrar-se mais sensível às misérias sociais. Mesmo que não sejam
especialistas em história política portuguesa, eles têm a intuição de quem teve
êxito político no Portugal Contemporâneo fontismo e pelo salazarismo, esses
modelos de empirismo organizador na conquista e manutenção do poder, onde nunca
interessaram doutrinarismos, mas o “attrappe tout” da personalização do poder,
em nome de moderados “amanhãs que cantam”. É impressionante verificarmos como há
uma identidade fundamental dos políticos profissionais portugueses nestes quase
duzentos anos de sociedade demo-liberal, onde domina a mentalidade do “Portugal
dos pequenitos” com a “mania das grandezas”. Um exemplar laboratório de
sociologia política, onde há a permanente lei da “queda do anjo”, conforme a
sátira de Camilo Castelo Branco, com fundas raízes nesse magnífico tratado da
“Arte de Furtar”. Na verdade, os políticos profissionais deste país, esses que
seguem o “cursus honorum” dos deputáveis, ministeriáveis, presidenciáveis, são
hoje dominados por uma geração cinquentona, ou quase, marcada por uma traumática
saída da adolescência nos anos sessenta, do crepúsculo do Estado Novo. Todos
eles dependem muito das más leituras que fizeram entre os dezoito e os vinte
anos de idade. É de alguns desses anjinhos decaídos que apetece falar. Se o
Engenheiro Guterres precisa do antifascismo choramingas do Presidente Sampaio,
cujas memórias de líder de RGA, dão utopia de esquerda passadista ao
situacionismo, já o PSD tem um caminho bem mais difícil a percorrer, porque
algumas incógnitas têm de ser resolvidas antes da clarificação estratégica. O
problema talvez não esteja na presença de Cavaco Silva nem na liderança de Durão
Barroso, mas na equipa que o partido tem disponível para uma oposição global com
credibilidade de alternância.
Nas eleições regionais de 15 de Outubro,
vitória do PS nos Açores, sob a liderança de Carlos César que volta a vencer,
agora com maioria absoluta. Alberto João Jardim e o PSD continuam a imperar na
Madeira. As autonomias regionais, uma das mais belas realizações do nosso
regime, apesar de não serem enfatizadas pelo programa do MFA, demonstram como a
liberdade sempre foi mais um produto da acção dos homens do que o resultado das
intenções de certos programas vanguardistas.
No último ano do milénio, quando se divulgam os resultados da descoberta
do genoma humano, poucas são as notícias políticas lusitanas. Em Março, no
Congresso do PP em Viseu, que reforça as posições de Paulo Portas, dá-se o
regresso de alguns históricos, com Basílio Horta a refiliar-se no partido,
enquanto no final do ano, no congresso do PCP, se retomam as teses clássicas da
fidelidade cunhalista, sem cedência aos chamados renovadores. As notícias
desportivas parecem mais mobilizadoras, com duas medalhas de bronze nos Jogos
Olímpicos de Sydney, em Setembro (Nuno Delgado no judo e Fernanda Ribeiro no
atletismo) e o Sporting Clube de Portugal a voltar a ser campeão nacional de
futebol, ao fim de dezoito anos de espera (Maio), para além de a selecção
portuguesa de futebol ter atingido as meias finais no Campeonato Europeu de
Futebol. Já o Presidente Sampaio visita oficialmente Timor-Leste (Fevereiro) e
o Conselho de Ministros, devido à teimosia de José Sócrates aprova que, nas
cimenteiras do Outão e de Souselas, se utilize o processo de co-incineração de
resíduos tóxicos (Junho), o que leva a acalorados debates com ambientalistas e
esquerdistas, nomeadamente em Coimbra, com os contestadores da atitude
governamental a serem liderados por Boaventura Sousa Santos. E no ano em que
George W. Bush é declarado eleito presidente dos Estados Unidos da América,
assinale-se que, entre nós, o mero consumo de drogas deixa de ser crime e de,
consequentemente, ser punido com prisão (6 de Julho). O nosso verbalismo fácil
da inveja igualitária alimenta altas expectativas que, quando confrontadas com
as realizações, acabam por gerar a frustração, pelo que, muito
esquizofrenicamente, passamos de bestiais a bestas, dos melhores do mundo a
arrastados acompanhantes da cauda do pelotão. E quando o desencanto se apodera
de nós, logo surgem brilhantes raciocínios que levam a culpa a morrer solteira,
com muitos discursos de justificação e outras tantas desculpas, onde o
presidente da federação acusa o atleta, onde o atleta acusa o treinador e onde o
treinador diz que a culpa é do sistema. Mais do que viragens à esquerda e à
direita, o actual ciclo guterrista aproxima-se crescentemente do modelo
decadentista do crepúsculo do tabu cavaquista, de tal maneira que o próprio
Primeiro-Ministro trata de se defender em São Bento dos ataques do PSD, lendo
anteriores discursos do próprio Cavaco Silva, ao mesmo tempo que este se vai
transformando em mais um dos nossos falsos D. Sebastião, capaz de mudar os
resultados anti-europeístas do referendo dinamarquês, de levar à baixa dos
preços do petróleo ou de garantir a estabilidade do euro. Julgo que o único
comentário que se adequa ao actual estado de coisas é bem simples: temos o
governo que merecemos. Bojudo, verborreico, incompetente, sem ideias. Um governo
de meia-esquerda que bem podia ser de meia-direita e que, para se aguentar, faz
um leilão de apoios orçamentais, prometendo benêsses a quem quiser
negociar dois ou tês votos. Pede aos verdes, para estes pedirem
autorização a Carvalhas; pede aos deputados da Madeira, para estes tramarem
Barroso; tenta fraccionar os jotas com o referendo da droga; não fecha a
porta a Portas e até continua a namorar com os trotskistas. Todos nunca são
demais para que poucos continuem o ritmo do comer à mesa do orçamento,
dieta que, desde o raposa Rodrigo da Fonseca, transforma exaltados
revolucionários em venerandas figuras de muito estadão, sejam ministros de
Estado ou para a reforma do Estado. A barganha vai assim embrulhando a crise,
com esperança de vencer os sinais de ruptura. Porque o governo há-de continuar
de vitória em vitória, até a uma derrota final. A governação do estado a que
chegámos é mero produto do reino da quantidade massificadora, onde os instintos
superam a inteligência e onde esta continua a não querer casar-se com a honra. O
actual estilo do Engenheiro Guterres está em plena sintonia com a ditadura de
um proletariado do mau-gosto, como transparece do Big Brother, e dos
muitos concursos televisivos da sociedade de casino, onde a roleta das perguntas
de algibeira até dá a ilusão que é para isso que serve o sistema de ensino.
Quando há expectativas que não assentam em reais capacidades, o desencanto é
inevitável e a revolta ameaça. As grandes potencialidades, apregoadas na feira
das vaidades, são também as grandes vulnerabilidades do quotidiano vivido. Os
maiores inimigos da democracia são os que gastam, pelo mau uso, a palavra
democracia. Os tais reincidentes da falta de autenticidade que, pregando como
Frei Tomás, acabam por prostituir a mesma democracia pelo abuso discursivo da
palavra que aprenderam na respectiva juventude totalitária. O crescendo do
indiferentismo e da apatia, bem como o assustador desenvolvimento da corrupção e
do clientelismo, se não forem tomadas corajosas no sentido da moralização da
política, fazem que, no dobrar da esquina, apareça um qualquer Vale e Azevedo, o
qual, vendendo a ilusão de podermos voltar a jogar à Benfica, nos levará
a ainda mais derrotas, pelo que, depois de perdermos o ouro e a prata, nem
sequer com migalhas de bronze seremos ornados...
Decadentismo – No último trimestre do século XX, o chamado sector
intelectual do Partido da Pátria Portuguesa vive uma curioso decadentismo
fin de siècle, onde os principais teóricos do situacionismo, isto é, os
canalizadores da opinião pública instalada nos grandes meios de comunicação
oficiosos, começam já a falar em crise de regime. Tentando arriscar uma
explicação sarcástica para o presente deserto de ideias, direi que, depois dessa
mistura de cabralismo e de fontismo chamada Cavaco Silva ter tirado à direita a
vertigem do risco sá-carneirista, eis que idêntico utilitarismo acabou por
marcar a esquerda soft que, por enquanto, nos governa. O guterrismo dos
Estados Gerais, tentando dar aos restos de marxismo e jacobinismo da
esquerda pós-cavaquista o sentido pietista do pintasilguismo e do melicianismo,
acabou por gerar uma sincrética mistura de contrários, onde o fantasma de
António Maria, com betão em vez de macadame, apenas foi substituído pelas
jogatanas politiqueiras de José Luciano Corte Real, com algumas inaugurações de
fontanários. Denunciemos algumas dessas ridículas misturas. Na primeira, incluo
a tentativa de conúbio de certos aventais com certo sacristanismo. Na segunda,
refiro a conseguida junção do estadualismo de ex-salazaristas com o colectivismo
de ex-militantes do marxismo-leninismo, maoísta ou cunhalista. Na terceira, a
concretização de uma terceira via à portuguesa, com a nova esquerda
moderna plataformista a ser apoiada pela velha direita dos interesses, no tal
pior governo de Portugal desde a Senhora D. Maria II, para citar um dito do
Professor Sousa Franco. Essas misturas, que nem sequer a síntese conseguiram,
ficaram-se pelo sincrético gaguejante de uma indecisão, onde, face ao vazio de
racionalidade ética, não se conseguiu a harmonia conciliadora da arte política
democrática. Não direi, como o rei D. Carlos, que isto é um país de bananas
governado por sacanas. Prefiro reconhecer que o actual situacionismo segue a
máxima do empirismo organizador de Salazar, segundo o qual o essencial do
poder é procurar manter-se. O chamado coração à esquerda com a
razão à direita corre o risco de ficar-se pela mera vontade de poder do
aparelhismo partidocrático, com os voos de Narciso Miranda e as poses
ministerialíssimas de Jorge Coelho a terem como heterónimas marionetas um
António Guterres ou um Jorge Sampaio, onde, em vez dos job for the boys,
há boys for the jobs..
Nem maçons, nem católicos – O decadentismo é crescente. Em primeiro
lugar, a tensão entre maçons e católicos, em vez de se assumir como uma mais
valia no sentido da conciliação do humanismo laico com o humanismo cristão,
acaba por ceder ao pequeno fundamentalismo cartesiano-marxista de certa esquerda
coimbrã com saudades do pombalismo. Em segundo lugar, o socialismo guterrista,
copiando o pior da democrazia cristiana ultramontana e o menos bom do
socialismo de nuestros hermanos, continua a dar tacho e a ter a
consequente complacência colaboracionista de certas figuras do Ancien Régime,
bem acobertadas pelo lobby soarista. Uma Santa Aliança Laica com uma
retroactiva e parcelar ideologia republicanista, dado que se esquece de Basílio
Teles, Leonardo Coimbra, António Granjo ou Teixeira de Pascoaes. Com franqueza,
entrarmos no século XXI retomando a frustração do 5 de Outubro de 1910, com uma
Nova República Velha tão do agrado de Nuno Severiano Teixeira, até me obriga a
proclamar que sinto nostalgia pela legitimidade liberal do azul e branco,
saindo em defesa da memória de D. Pedro IV, D. Maria II, Almeida Garrett, Passos
Manuel, Alexandre Herculano, D. Pedro V e de tantos outros pais-fundadores que
geraram quase oitenta anos de liberdade e quase setenta de armístico
contitucional. Aliás, o melhor da I República, que os também republicanos do 28
de Maio liquidaram, apenas foi mera continuidade dessa tradição do trono
cercado por instituições republicanas, aquele estado de espírito que
permitiu a abolição da pena de morte ou a promulgação do Código de Seabra e que
lançou as sementes de democracia da sociedade civil, essa plurissecular
infra-estrutura em assenta o actual regime de pluralismo e Estado de Direito, da
Constituição de 1976. Quanto à terceira mistura referida, apenas saliento que os
actuais membros do governo que, ainda há pouco, eram ajudantes de Álvaro Cunhal
sabem mais de transicionologia que os colaboradores de Milosevic. Apesar de
estarem para a direita dos interesses como o socialismo de características
chinesas está para a globalização do capitalismo internacional, sempre são mais
eficazes que os Miguel Portas e os Garcia Pereira, esses amuletos mordedores que
a grande burguesia tanto apaparica. Por causa dos plataformistas terem
abandonado o PCP é que este permanece algemado na sua ilusão de ordem
religioso-militar, com inquisitoriais ortodoxos que até postumamente esconjuram
aqueles companheiros pós-tarrafalistas que procuraram integrar o partido na vida
comum da cidade.