Luciano de Castro, José (1834-1914)

É um desses homens que têm um destino fadado lá em cima, uma missão arrojada a cumprir cá em baixo: um caminho de glória a seguir para a esquerda, um capitólio de mexilhões cristalizados a chamá-lo para a direita (Camilo Castelo-Branco, sobre José Luciano, em 1869)

José Luciano de Castro Pereira Corte-Real. Considerado a velha raposa.

Duas frases contribuem para o caracterizar: o meu Partido não é que me leva ao Poder, sou eu que levo o meu Partido ao Poder. Outra: se fôssemos a fazer política com gente honesta, ficaríamos só com meia dúzia de pessoas.

Matricula-se em direito em 1849-1850. Deputado desde 1853. Casa com uma filha do deputado Alexandre de Seabra, presidente da Câmara da Anadia e autor de um projecto de Código de Processo Civil em 1869. Passa a viver no Porto em 1858.

Ministro da justiça do governo de Loulé, o terceiro governo histórico, de 11 de Agosto de 1869 a 20 de Maio de 1870.

Em plena Câmara dos Deputados, respondendo a Fontes Pereira de Melo, declara: é necessário que se organizem dois partidos, somente; um – mais ou menos conservador, e outro – mais ou menos avançado (13 de Janeiro de 1871).

Ministro do reino de 1 de Junho de 1879 a 25 de Março de 1881, no primeiro governo progressista de Braamcamp. É então que apresenta em 4 de Fevereiro de 1880 uma proposta de lei sobre a responsabilidade ministerial que não chega a ser discutida na Câmara dos Pares, apesar de aprovada na Câmara dos Deputados.

Depois da morte de Anselmo Braamcamp, passa a chefiar os progressistas em 10 de Dezembro de 1885, com o apoio de Barros Gomes e Oliveira Martins e a oposição de Emídio Navarro e Mariano de Carvalho.

 Nos jacobinos prenhes de metafísica a sua extrema-esquerda é uma extrema-esquerda de pura fantasia, uma extrema-esquerda que já é centro e até direita ao tempo em que eles nasceram (Oliveira Martins)

Presidente do conselho de 20 de Fevereiro de 1886 a 14 de Janeiro de 1890, acumulando a pasta do reino. Vence as eleições de 6 de Março de 1887 (113 deputados) e de 20 de Outubro de 1889.

Chega às culminâncias do poder quem dava tudo o que se podia dar – e que não lhe pertencia – lugares, negócios e empregos. Talvez. Mas se não teve a grandeza de resistir aos homens, conteve os interesses fatais dentro de certos limites (Raul Brandão).

Em 1887 assume as funções de governador da Companhia Geral do Crédito Predial Português, sucedendo a Fontes, aí se mantendo até 4 de Junho de 1910. Há-de ter como vice-governador Hintze Ribeiro. Isto é, a almofada do Crédito Predial torna-se no símbolo do Bloco Central do rotativismo, face à ausência de adequadas fundações ou de um cómodo gabinete de estudos no Banco de Portugal.

Chega a proclamar que acima da monarquia está a liberdade (5 de Maio de 1895).

Segunda chefia do governo de 7 de Fevereiro de 1897 a 25 de Junho de 1900.

A minha superioridade consiste em ter apenas uma cara... Vossa Excelência, sendo um político, não tem apenas uma  (Joaquim Mouzinho de Albuquerque sobre José Luciano, em 1897).

O novo governo pretende assegurar a escrupulosa administração dos dinheiros públicos e impedir que as receitas do Estado sejam aplicadas, no todo ou em parte, por modo diverso do que determinam os preceitos legais (José Luciano, sobre as intenções do novo governo).

Em 1898  diz que pretende assegurar a escrupulosa administração dos dinheiros públicos e impedir que as receitas do Estado sejam aplicadas, no todo ou em parte, por modo diverso do que determinam os preceitos legais (José Luciano, sobre as intenções do novo governo). Na Câmara dos Pares, nesse mesmo ano, declara: não me preocupam os comícios, nem tomo como expressão da opinião pública o que neles se diz.  

Nos começos de 1900 continua o governo de José Luciano que praticamente fica paralisado em casa na Rua dos Navegantes, donde governa o país através de um novo instrumento tecnológico, o telefone. Havia grande corrupção, na verdade, mas muito menos devorismo do que cepticismo. A Monarquia estava, sim, à mercê de alguns bandos que exageravam tudo para bem ou para mal, segundo os interesses da patrulha, porque, a rigor, já não havia verdadeiros partidos (José Agostinho).

Veja-se o acordo estabelecido entre José Luciano e Hintze Ribeiro, em Junho de 1903, visando evitar que qualquer deles tivesse uma relação privilegiada com as dissidências do outro. Hintze teme que os progressistas se entendam com os franquistas e Luciano quer isolar José Maria de Alpoim. Mas esse acordo é rompido várias vezes. Primeiro, quando José Luciano se entende com João Franco. Depois, a partir da liderança de Júlio de Vilhena, nos regeneradores, quando José Luciano favorece a dissidência de Campos Henriques e Vilhena responde, fazendo um bloco com os dissidentes de José Maria de Alpoim. De qualquer maneira, tanto progressistas como regeneradores deixam de fazer entendimentos com os republicanos. Apenas os dissidentes progressistas prosseguem nessa via em Janeiro de 1908, com as trágicas consequências do regicídio. Do lado da maçonaria, a unidade mantém-se, permitindo a constituição de uma nova organização conspirativa, a Carbonária.

No Correio da Noite, de 14 de Maio de 1901, quando já está na oposição, salienta: há uma coisa que aos governos nunca deve esquecer, que a lição da história a cada instante repete: à revolução do alto pode muito bem suceder que responda a revolução de baixo.

 

 A que se deve atribuir esta situação? Digamos tudo ao País, para que ele possa julgar a todos: - vem dos desperdícios, da necessidade de se alimentarem as clientelas? Vem, em parte. Todos temos culpa nisso. A começar no País, a acabar nos homens públicos (José Luciano em 1902).

Terceira chefia do governo, entre 20 de Outubro de 1904 e 19 de Março de 1906, sem acumular qualquer pasta. Governador da Companhia Geral do Crédito Predial português de 31 de Março de 1887 a 4 de Junho de 1910, onde sucedeu a Fontes Pereira de Melo.

O grevista de 1907, Fernando Pessoa, há-de dizer dele:  bandalho máximo da política portuguesa, mas considera não ser possível a reacção forte, militar e indisciplinadora por faltarem homens. Havia bandalhos, débeis e palacianos, e, para a executar, eram essencialmente precisos caracteres essencialmente honestos, fortes e justos, até porque não há partidos, separados por ideologias diferentes, mas apenas grupos sem noção diferente das coisas, advogando para o ressurgimento qualquer coisa uma crise social que é simplesmente um meio violento e natural para eliminar os fracos e os inúteis.

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© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: 22-04-2007