Cidade, Hernâni António (1887-1975)

O romantismo
nacionalista
Analisando o processo de passagem do individualismo romântico ao
nacionalismo, salienta que a exaltação do indivíduo dentro da sociedade
amplia-se à exaltação da nação no conjunto dos Estados. Luta-se por sua
autonomia quando um Estado estranho a domina, oprimindo-a; empenha-se
diligências no sentido de reconstituir a sua personalidade autêntica, quando
uma cultura alheia espiritualmente a deforma. Eis o significado das colheitas
folclóricas, do relevo do herói nacional, do quadro histórico e etnográfico,
moral e social que pela ficção nos restitua à vida nacional. Assim,
também às chamadas personalidades colectivas chamadas nações a mesma chama as
agitava; as oprimidas, para reivindicar a própria autonomia, mais uma vez
heroicamente lutando por ela; as independentes esforçando-se, em luta contra os
representantes das formas consideradas inautênticas, para avivar os vincos da
própria fisionomia espiritual colectiva. A Idade Média, durante a qual, em
geral, as nações se haviam formado, fornecia a historiadores e novelistas,
dramaturgos e poetas, filólogos e etnografos, os costumes e tradições, a
literatura e a arte, de anónima espontaneidade - ou como tal julgada - e, de
tudo isto, o que se preferia era o que tivesse carácter popular. E esta
tendência não é pura determinação do espírito, senão caloroso impulso da alma.
Daí os excessos da ideia absorvente e do dinamismo irradiante. O homem
preferia a realidade ou a fantasia que dessem comoções à sensibilidade, àquela
que apenas suscitasse análise à inteligência
Definição de nação
Define a
nação como algo que tanto é um corpo geográfico como uma alma espiritual. Porque
os agrupamentos sociais, já unidos ou em processo de se unir pela comunidade
do sangue e da língua, vivem durante transcursos, que podem ser de séculos ou
de milénios, sob idênticas forças de modelação física e espiritual - o mesmo
ambiente geográfico, o mesmo clima, a mesma alimentação, as mesmas condições de
actividade, os mesmos estímulos de pensamento e de imaginação. A esta
situação chama o autor vago e instintivo impulso de convergência a que se
pode seguir um intencional esforço de concórdia de vontades lúcidas, o
que acontece sob o incitamento de um chefe e na oposição a outro grupo.
Corpo
geográfico e alma espiritual
E a Nação forma-se com o seu
corpo geográfico e a sua alma espiritual, quando às colectivas
determinações do presente começam a dar apoio as memórias colectivas do passado,
começam a determinar objectivo as aspirações colectivas do futuro.
Noção de
pátria
Por seu lado, a Pátria é algo de dferente: da Nação emerge a
Pátria, quando, à luz da cultura clássica, que ensina a palavra e aviva o
orgulho que ela suscita, se exalta o sentimento de suas singularidades reais e
supostas, de seus triunfos no esforço por que as vai afirmando. E estamos em
face duma nova realidade espiritual, duma nova personalidade colectiva
[1929] Ensaio sobre a Crise Mental do Século XVIII, Coimbra, Imprensa da Universidade.
[1929] A Marquesa de Alorna. Sua Vida e Obra com Algumas Cartas Inéditas, Porto, Companhia Portuguesa Editora.
[1933] Lições de Cultura e Literatura Portuguesas, Coimbra, Coimbra Editora.
[1948] A Literatura Autonomista sob os Filipes, Lisboa, Livraria Sá da Costa.
Projecto
CRiPE- Centro de Estudos em Relações Internacionais, Ciência Política e Estratégia.
© José Adelino
Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: ![]()