Delgado, Humberto da Silva (1916-1965)

Militar. General. Director-geral da aeronáutica civil, a partir de 1944.
Candidato pela oposição à presidência da república em 1958. Dito, desde então, o general sem medo. Nessa candidatura oposicionista, integram-se, para além dos tradicionais grupos antifascistas do chamado reviralho, católicos e monárquicos anti-salazaristas. Entre os monárquicos, tanto há uma geração provinda do nacional-sindicalismo, como do próprio Integralismo Lusitano.
O general começou a respectiva carreira como aderente ao 28 de Maio e, depois, como um exaltado salazarista, publicando, nessa fase, vários folhetos contra a oposição, onde se destaca Da Pulhice do Homo Sapiens.
Activista da Legião Portuguesa, é também autor do Guia do Oficial da Legião.
Durante a Segunda Guerra Mundial, colabora com os aliados na instalação de uma base nos Açores. A partir de então, começa a admirar os modelos democráticos, consolidando tal perspectiva quando vai para os Estados Unidos da América como chefe da missão militar portuguesa na NATO.
Afastado do serviço militar activo em 1959, pede asilo na embaixada do Brasil em Lisboa, sendo, depois autorizado a partir para o exílio. Demitido da força aérea logo em 1960, é assassinado pela PIDE em 1965.
Ver MemóriasLisboa, Delfos, 1974 (há uma segunda edição coordenada por Iva Delgado e António Figueiredo, Memórias de Humberto Delgado, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1991)
Tradição e Revolução, vol. II
1957
●O general Humberto Delgado abandona o posto de adido militar em Washington, onde estava colocado desde Outubro de 1952 (8 de Agosto). Retoma o lugar de Director-Geral da Aviação Civil, tomando posse no dia 1 de Outubro. Visita Henrique Galvão na cadeia e este propõe-lhe que assuma a candidatura à presidência. Poucos dias depois, aceita, mas a comunicação não chega aos líderes da oposição (25 de Outubro). É contactado por António Sérgio que, entretanto, o sonda no sentido da candidatura (14 de Novembro).
1958
●A campanha de Delgado – Sessão no Café Chave de Ouro, onde o candidato declara: obviamente demiti-lo-ei (referindo-se ao seu procedimento relativamente ao presidente do Conselho, no caso de uma vitória eleitoral). Mobiliza, no Porto, cerca de 200 000 pessoas na Praça Carlos Alberto (14 de Maio). Regressa a Lisboa, depois de visitar a Póvoa do Varzim, e na capital, a polícia dispara sobre a multidão (16 de Maio), seguindo-se comício no Liceu Camões (18 de Maio).
●Sou liberal – Sou liberal e como liberal me dirijo a todos os portugueses que desejem a sua pátria libertada (Humberto Delgado).
●Retirada de Cunha Leal e Arlindo Vicente – Cunha Leal comunica nos microfones do Rádio Clube Português que retira o seu projecto de candidatura, apoiando Humberto Delgado. Anunciada também a retirada de Arlindo Vicente, depois do acordo feito em Cacilhas com Delgado (noite de 29 para 30 de Maio). Cunha Leal havia sido proposto pelos membros da comissão informal que liderara o processo da campanha eleitoral da oposição do ano anterior, com destaque para Cruz Ferreira, Manuel Sertório, Manuel João da Palma Carlo e Constantino Fernandes. A proposta tem o imediato apoio dos comunistas bem como de Nuno Rodrigues dos Santos que, por esta razão, entra em conflito como o Directório Democrato-Social.
●Os verdadeiros nacionalistas – Um governo autoritário, que vive à custa do silêncio dos adversários e nega os direitos do cidadão, pelo que pode impor-se num país de escravos, nunca a um povo que teve de lutar com extremos de bravura para fundar a sua independência e expandir-se no mundo. Nada de um português do velho cerne pode perdoar do que reduzirem-nos à condição de menor. É deste fundo de oito séculos de Nação que os portugueses aclamam o candidato independente. E por uma razão apenas: porque ele lhes prometeu, por forma heróica, as liberdades a que tem direito. Os verdadeiros nacionalistas são os partidários do general Humberto Delgado (Jaime Cortesão)
●Eleições (8 de Junho). A oposição é impedida de fiscalizar as mesas de voto. O Supremo Tribunal de Justiça proclama os resultados do sufrágio: 75% para Tomás, 23% para Delgado... Salazar desabafa para colaboradores: se a campanha de Delgado se tivesse prolongado por mais um ou dois meses, ele tinha ganho as eleições (Setembro)
●Um processo subversivo – A campanha das oposições não foi propriamente de propaganda do candidato à Presidência da República, mas o desenvolvimento de um processo subversivo (Salazar).
●Os inimigos da inteligência – O regime do Estado Novo é um permanente inimigo da inteligência nacional... as ditaduras, por muito que durem, são um regime sem futuro, defendendo um regime de pão e liberdade para todos (Ferreira de Castro).
●Protestos contra
a burla – Humberto Delgado decide criar o Movimento Nacional
Independente (18 de Junho). A
reunião decorre na casa de António Sérgio, participando os representantes
nacionais e locais da candidatura. O movimento assume-se como organização
civil de indivíduos e não de grupos, repetindo
programa da candidatura de Delgado e declarando opor-se a todas as
concepções totalitárias e à inclusão na sua organização de qualquer grupo, seita
ou partido. Greve de protesto contra
a chamada burla eleitoral iniciada no Couço e mobilizando rurais (23 de
Junho). Dura cerca de 8 dias. A GNR cerca a vila e leva a cabo várias detenções.
●Católicos em
rebeldia – Carta do Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes a António de
Oliveira Salazar, onde se tecem duras críticas à falta de autenticidade
corporativista e social-cristã do regime (13 de Junho). A missiva levará,
depois, o prelado ao exílio, donde só regressa com Marcello Caetano. O Bispo da
Beira, D. Sebastião Soares de Resende, entra em conflito directo com Salazar e
chama-lhe chefe manhoso e terrível (Setembro). Também em Maio, há uma
carta dirigida por um grupo de católicos ao jornal Novidades, onde se
critica o apoio dado por este órgão oficioso da Igreja Católica ao Estado Novo.
Subscrita por personalidades que depois se vão destacar como militantes do PS
(João Gomes, Manuel Serra, Nuno Portas), do MDP (Mário Murteira e Francisco
Pereira de Moura) e do MES (Nuno Teotónio Pereira)
●Incidentes, prisões e intentonas – Agitação em Beja, com a morte de um operário (30 de Julho). Em 26 de Setembro é preso o escriturário dos Hospitais Civis de Lisboa Carlos Paredes (1925-2004), o genial guitarrista, condenado e libertado em 1959, activista do PCP. Incidentes em Lisboa junto à estátua de António José de Almeida: polícia ataca manifestantes com gás lacrimogéneo. Delgado participa na manifestação com Arlindo Vicente, António Sérgio, Jaime Cortesão e Mário de Azevedo Gomes (5 de Outubro). Nota oficiosa do Governo anuncia que não autoriza o deputado trabalhista britânico Aneurin Bevan a visitar Portugal, a fim de realizar uma conferência, para que teria sido convidado pela oposição (11 de Novembro). A comissão de recepção, constituída por Humberto Delgado, Francisco Vieira de Almeida, Jaime Cortesão, Mário de Azevedo Gomes e António Sérgio, depois de protestar formalmente, acaba toda ela detida (22 de Novembro). Também Henrique Galvão se encontra preso no Hospital Santa Maria (Setembro). Chega a ser planeada uma intentona delgadista, com Manuel Serra e o capitão Almeida Santos, sendo marcada para o efeito a data de 28 de Dezembro. Prisão de dirigentes comunistas como Jaime Serra e Pedro Soares. Refira-se que em 1958 e 1959 são presos 40 funcionários deste partido e assaltadas vinte casas clandestinas, com destruição de tipografias.
1961
●Incidentes, prisões e intentonas – Agitação em Beja, com a morte de um operário (30 de Julho). Em 26 de Setembro é preso o escriturário dos Hospitais Civis de Lisboa Carlos Paredes (1925-2004), o genial guitarrista, condenado e libertado em 1959, activista do PCP. Incidentes em Lisboa junto à estátua de António José de Almeida: polícia ataca manifestantes com gás lacrimogéneo. Delgado participa na manifestação com Arlindo Vicente, António Sérgio, Jaime Cortesão e Mário de Azevedo Gomes (5 de Outubro). Nota oficiosa do Governo anuncia que não autoriza o deputado trabalhista britânico Aneurin Bevan a visitar Portugal, a fim de realizar uma conferência, para que teria sido convidado pela oposição (11 de Novembro). A comissão de recepção, constituída por Humberto Delgado, Francisco Vieira de Almeida, Jaime Cortesão, Mário de Azevedo Gomes e António Sérgio, depois de protestar formalmente, acaba toda ela detida (22 de Novembro). Também Henrique Galvão se encontra preso no Hospital Santa Maria (Setembro). Chega a ser planeada uma intentona delgadista, com Manuel Serra e o capitão Almeida Santos, sendo marcada para o efeito a data de 28 de Dezembro. Prisão de dirigentes comunistas como Jaime Serra e Pedro Soares. Refira-se que em 1958 e 1959 são presos 40 funcionários deste partido e assaltadas vinte casas clandestinas, com destruição de tipografias.
1962
●De Beja à FPLN – Delgado sai de Portugal, depois da revolta de Beja, onde a oposição, pela primeira vez desde 1931, dispara um tiro, o que, segundo as palavras do general, representou o fim do planeamento e da acção simbólica, em prol da acção directa (11 de Janeiro). Mário Soares volta a ser detido, acusado de participar nas movimentações (15 de Fevereiro). Será posto em liberdade no dia 8 de Março. Manifestação oposicionista no Porto (8 de Março).
●Conferência da oposição em Praga (19 a 21 de Dezembro) dá origem à Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN), onde se integram as Juntas de Acção Patriótica, criadas pelo PCP em 1959.
1964
●A cisão delgadista contra o PCP – Em Abril, é aprovado no PCP o relatório de Álvaro Cunhal Rumo à Vitória. As Tarefas do Partido na Revolução Democrática e Nacional. Terceira Terceira Conferência da Frente Patriótica de Libertação Nacional, reunindo o PCP, a Resistência Republicana e o MAR, onde Humberto Delgado é afastado da organização. Delgado chega a Argel (27 de Junho) ainda convalescente, de uma intervenção cirúrgica a que é submetido em Praga (27 de Maio) e, pouco depois, cria uma Frente Portuguesa de Libertação Nacional, entrando em ruptura com as estruturas integrantes da FPLN, principalmente o PCP. É então que passa a ser apoiado por Henrique Cerqueira, a partir de Rabat. Acusa os membros do grupo de Argel de politiqueiros palavrosos. O delírio conspirativo de Delgado leva-o a conceber vários planos para o derrube do regime, nomeadamente uma chamada operação laranjas, com a instalação de um governo provisório em Macau, para o que pensa contar com o apoio da China. O isolamento do general propicia que este caia numa cilada armada pela polícia política que o atrai a Espanha em Fevereiro de 1965, onde viria a ser assassinado.
1965
●Assassinato de Humberto Delgado (13 de Fevereiro). Bando da PIDE assassina o general. O tiro fatal é disparado pelo agente Casimiro Monteiro. A brigada é chefiada por Rosa Casaco. Henrique Cerqueira, em Rabat, dá alarme. Os cadáveres do general e da secretária apenas são descobertos no dia 24 de Abril. Prisão de Mário Soares, Raúl Rego, Pires de Lima e Catanho de Meneses, quando se dirigiam para Espanha a fim de acompanharem inquérito sobre a morte de Delgado, em 9 de Setembro. São libertados no dia 21.
Bibliografia de "Estudos sobre o Comunismo" (José Pacheco Pereira):
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António Abreu, “Humberto Delgado e as eleições presidenciais de 1958”, O Militante, 236, Setembro / Outubro, 1998
Nair Alexandra, As Eleições de 1958 e a Imprensa Portuguesa, Lisboa, Biblioteca-Museu República e Resistência, 1998
Jorge F. Alves, O Furacão «Delgado» - e a Ressaca Eleitoral de 1958 no Porto, Porto, Centro Leonardo Coimbra - Faculdade de Letras da UP, 1998.
Artur Andrade, “Tinha que se meter com os touros porque senão não era toureiro…”, Jornal de Notícias, 27/9/1988
[Entrevista sobre Humberto Delgado.]
Emílio Atienza Rivero, Emilio-Herrera Y Humberto Delgado - Ideales de Libertad en Tiempos de Oscuridad,Granada, Ayuntamiento de Granada, 1993
O Berço da Memória, Torres Novas, Câmara Municipal de Torres Novas, 1996
Arajaryr Campos, Uma Brasileira Contra Salazar, Lisboa, Livros Horizonte, 2006
[Evocação da secretária e companheira de Humberto Delgado.]
Catálogo da Exposição - 30 Anos da Morte de Humberto Delgado, Biblioteca-Museu da República e da Resistência
Humberto Delgado. Memórias, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1991
Humberto Delgado, A Tirania Portuguesa, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1995
Iva Delgado, O General, S.l., Círculo de Leitores, 1985
Iva Delgado, “O Brasil e a saga de Humberto Delgado”, em Oswaldo Coggiola (Org.), Espanha e Portugal. O fim das ditaduras , São Paulo, FFLCH História USP, 1995
Iva Delgado(coord.), Impunidad y Derecho a la Memoria - De Pinochet a Timor, Madrid, Ediciones Sequitur, 2000
[Edição portuguesa: De Pinochet a Timor Lorosae Impunidade e Direito à Memória, Lisboa, FHD/Cosmos, 2000.]
Iva Delgado / Carlos Pacheco / Telmo Faria (coord.), Humberto Delgado: as eleições de 58, S.l. , Vega , [1998]
[Contém separata com o discurso de Humberto Delgado em Chaves, 22 de Maio de 1958.]
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Humberto Delgado (1906-1965) - Memória,Lisboa, Panteão Nacional - IPPC, 1990
Humberto Delgado e as eleições de 1958, Lisboa, Comissão Nacional do 40º Ano das Eleições de 1958, 1998
“Humberto Delgado e as Eleições de 1958″, números especiais de Nova Renascença, 1997-8
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António Melo, “Delgado refugiou-se há 40 anos na Embaixada do Brasil”, Publico , 12/1/1999
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Paula Cristina Ucha, Inventário do Espólio Humberto Delgado, Lisboa Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1998
Projecto
CRiPE- Centro de Estudos em Relações Internacionais, Ciência Política e Estratégia.
© José Adelino
Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em:
22-04-2007 ![]()