Em Memória do General Adalberto Gastão de
Sousa Dias
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Introdução
A figura do General Sousa Dias foi‑me revelada quando, logo após o «25
de Abril», servi no, então, Regimento de Infantaria nº 12, na cidade da
Guarda, em cujo cemitério se encontram os seus restos mortais. Comecei,
a partir de então, a aprofundar o conhecimento daquela personalidade
militar de que nunca antes ouvira falar, mas que depressa concluí gozar
de um enorme prestígio entre os democratas da cidade, junto de cuja urna
evocavam anualmente o «5 de Outubro», durante a longa noite da ditadura,
como hoje o continuam a fazer. Trazido em segredo de Cabo Verde, em
1936, dois anos depois de haver falecido deportado em S. Vicente, o seu
corpo foi depositado às escondidas, pela calada da noite, no cemitério
da Guarda, num jazigo cedido pela família de José Maria Proença, onde
permanece dentro do «caixotão» de madeira enegrecida e com os pregos
ferrugentos, à espera do funeral a que não teve direito e apenas
lembrado pela família e por alguns democratas.
Através do estudo da sua figura e da sua acção política e militar,
comecei a mergulhar na descoberta desses numerosos democratas
republicanos – um número elevado deles militares – que, embora sem
êxito, lutaram corajosamente pela reposição da legalidade
constitucional e das liberdades fundamentais dos portugueses,
violentamente interrompidas em 28 de Maio de 1926, mas cujo combate foi
decisivo para que a liberdade pudesse triunfar em 25 de Abril de 1974.
Entre essa plêiade de corajosos democratas ocupa lugar de destaque o
General Sousa Dias, pelo seu importante papel tanto na defesa da
República quando esta esteve em perigo, como na resistência à ditadura
que lhe pôs termo. A constância na fidelidade aos ideais republicanos,
civilistas, democráticos e constitucionais marca toda a sua vida, desde
a juventude à morte: apoiou o «5 de Outubro», recusou o «pimentismo» e o
«sidonismo», combateu Paiva Couceiro e a «Monarquia do Norte», resistiu
ao «28 de Maio» e chefiou as revoltas militares de 3 de Fevereiro de
1927 e de 4 de Abril de 1931, o “primeiro «25 de Abril» falhado” após o
28 de Maio de 1926, segundo José Freire Antunes (1), e o “grande e
derradeiro susto da ditadura” antes do advento do Estado Novo, na
perspectiva de Fernando Rosas (2). Ao Estado Novo sempre interessou o
silêncio sobre essa luta e os seus protagonistas, mas o regime
democrático ainda não fez tudo para recuperar, honrar e perpetuar essa
memória colectiva a que queremos continuar fiéis.
Sousa Dias: A coerência e a firmeza republicana
Adalberto Gastão de Sousa Dias, nasceu em Chaves, a 31 de Dezembro de
1865. Descendente de uma família de militares, era filho de José Maria
de Sousa Dias (Oficial do Exército) e de Ana Albina Sampaio de Sousa
Dias, sendo o pai natural de Lisboa e a mãe do concelho de Chaves. Dois
seus irmãos foram também militares. Entre 1875 e 1880 estudou no Liceu
de Vila Real, onde concluiu o ensino secundário, após o que se
matriculou na Universidade de Coimbra, frequentando os preparatórios
para admissão à Escola do Exército de 1881 a 1883. Simultaneamente,
assentou praça como voluntário em 13 de Janeiro de 1881. Em 1888
concluiu o Curso de Infantaria da Escola do Exército, com a melhor
classificação, sendo promovido a Aspirante‑a‑Oficial em Janeiro do ano
seguinte (3) e colocado no Regimento de Infantaria n º 12, na Guarda,
onde prestava serviço o seu pai. Casou na igreja paroquial da Sé desta
cidade, em 30 de Abril de 1891, com Ana Augusta Abrantes, natural de
Manteigas.
Como subalterno esteve ainda colocado nos Regimentos de Infantaria n º
21, na Covilhã, e no Regimento de Infantaria n º 34, em Pinhel, tendo
sido promovido a Capitão em 1902.
A juventude, a adolescência e os primeiros anos de carreira militar de
Sousa Dias coincidiram, pois, com a crise final da monarquia e com o
período de maior fervor revolucionário do republicanismo. Vivia‑se então
na Europa um período de crise do liberalismo. A livre concorrência
individualista cedia terreno perante a ofensiva do proteccionismo
imperialista, que levaria à corrida pela disputa dos territórios
coloniais africanos, à partilha da África, à constituição dos grandes
impérios coloniais e ao acentuar das rivalidades entre as principais
potências europeias. Neste contexto internacional e numa situação de
crise interna agravada, pela concorrência da crise final do essencial do
antigo regime económico com a crise da monarquia, Portugal sofreria
afrontas diplomáticas em série que culminariam no ultimato inglês de
1890 e no projecto de partilha das colónias portuguesas pelas potências
europeias. A fraqueza revelada pela monarquia perante as humilhantes
afrontas externas apressaria o seu fim e, por outro lado, impulsionaria
o movimento republicano que, desde então, assumiria o carácter de uma
tomada de consciência nacional da necessidade de modernizar o ideário
liberal. No plano militar as reformas no sentido da criação de um
exército nacional que traduzisse o conceito de «nação em armas», em voga
desde a Revolução Francesa, baseado no recrutamento obrigatório de todos
os cidadãos em igualdade de deveres, esbarrava com a oposição da
nobreza, receosa de perder as prerrogativas que gozava, perante a
oposição dos militares profissionais. Sem rumo certo em matéria de
reformas, envolvido, desde a Revolução Liberal, em guerras civis,
revoltas e conflitos entre liberais e absolutistas, constitucionalistas
e cartistas, o Exército encontrava‑se em acelerada decadência, remetido
para funções desprestigiantes de polícia e ordem pública e com os
soldados e sargentos vivendo miseravelmente da caridade pública.
Foi neste ambiente de crise geral do regime monárquico, da sociedade e
do exército, de constante instabilidade política e militar, que Sousa
Dias viveu os seus primeiros anos de carreira militar, como subalterno e
Capitão. Neste posto assistiria ao fim da monarquia. Na esteira de seu
pai, Sousa Dias era já um apoiante da causa republicana desde a revolta
militar de 31 de Janeiro de 1891 e, após a proclamação da República,
filiou‑se no Partido Democrático, a cujo ideário se manteria fiel até à
morte. O carácter nacional da aspiração republicana fizera convergir
nela, a partir de 1890, elementos de todas as classes da sociedade –
grandes proprietários agrícolas, professores universitários, advogados,
médicos, professores de todos os graus do ensino, altas patentes do
Exército e da Marinha, funcionários públicos, operários e outros.
A proclamação da República e a consequente mudança política acelerou a
viragem nas estruturas económicas, sociais e culturais para a plena
contemporaneidade, coincidindo, por outro lado com um momento culminante
da expansão ultramarina africana; no âmbito do Exército
institucionalizou‑se, de imediato, o serviço militar obrigatório, geral
e pessoal. Contudo, o optimismo inicial depressa deu lugar à desilusão,
perante as divisões no Partido Republicano, as divergências e a falta de
realizações em domínios fundamentais, o radicalismo ideológico e
religioso e a agitação social. As tentativas de incursão monárquica, as
campanhas africanas e a iminência da deflagração da Primeira Guerra
Mundial agravaram a situação, atrasando a implementação das reformas
militares aprovadas e favorecendo a manutenção de um corpo militar
permanente onde pontificavam numerosos Oficiais ideologicamente
monárquicos. O resultado foi um ambiente de constante instabilidade
política, de conflitualidade social e de revoltas militares.
Em 1912 Sousa Dias foi promovido a Major, participando em Julho desse
ano, com o seu Batalhão, no combate aos monárquicos em Chaves, durante a
segunda incursão de Paiva Couceiro. Colocado, posteriormente, no
Regimento de Infantaria 35, em Coimbra, durante uma grave insubordinação
ocorrida naquela Unidade, defendeu o Comandante, que os soldados
pretendiam alvejar, cobrindo‑o com o seu próprio corpo. Encontrava‑se a
prestar serviço ainda nesta unidade quando, em 21 de Janeiro de 1915,
ocorreu o chamado «movimento das espadas», que deu origem ao primeiro
Governo em ditadura durante a República, chefiado pelo Major de Pimenta
de Castro, movimento a que recusou colaboração. Foi promovido a
Tenente‑Coronel em 1 de Dezembro de 1915.
Entretanto, as potências europeias haviam‑se envolvido na I Grande
Guerra, e Portugal acabaria também por nela participar, a partir de
Janeiro de 1917. A guerra fez agravar as divisões políticas internas e a
agitação social que desde o 5 de Outubro minavam a estabilidade da
República, tornando irreconciliáveis os vários sectores da sociedade e
impedindo que ela funcionasse como um factor de reforço da coesão
nacional e de recomposição do sistema político, ao contrário do que
sucedeu com os outros países beligerantes. Uma ampla frente
reaccionária – monárquicos, nacionalistas, integralistas, católicos,
militaristas e outros desencantados da República – aproveitaram a
situação para conspirarem contra o regime constitucional, o que
culminaria no golpe militar de Sidónio Pais, em 5 de Dezembro desse ano.
Tendo‑se oposto a este pronunciamento, Sousa Dias foi preso e deixado
sem colocação durante algum tempo.
Promovido a Coronel em 1918, Sousa Dias comandava o Regimento de
Infantaria de Reserva n º 18, no Porto, quando da proclamação da
«Monarquia do Norte», em 19 Janeiro de 1919. Intimado a aderir ao
movimento revoltoso e a jurar fidelidade ao Rei pela então constituída
«Junta Governativa do Reino de Portugal», recusou‑se categoricamente a
fazê‑lo, declarando não lhe reconhecer poderes legítimos. Com o seu
Regimento colaborou activamente com as forças republicanas nos combates
que levariam à derrota daquela nova tentativa de restauração do regime
monárquico, em 13 de Fevereiro seguinte, assumindo, depois, o comando do
Regimento de Infantaria n º 6, no Porto. Em 1920 foi condecorado com o
grau de Grande Oficial da Ordem Militar de Avis, seguramente devido à
sua lealdade à República naquele e nos anteriores momentos em que ela
esteve em perigo.
Os acontecimentos relativos à fracassada tentativa de proclamação da
monarquia no Porto e em Lisboa, a 19 de Janeiro de 1919, haviam mostrado
existir um grupo militar representante da herança sidonista que, embora
minoritário, estava organizado para combater a República. A situação
acabou por ser controlada mas, a partir dos anos vinte, as sequelas do
desastre do Corpo Expedicionário Português na Flandres, a revolta contra
os partidos intervencionistas, o agravamento da crise social, económica
e financeira, o aumento da agitação social e a instabilidade
governativa, conduziram à decomposição partidária, à dissolução do poder
e ao reforço das tendências conservadoras, nacionalistas e
integralistas, com apoios crescentes no sector militar. O primeiro sinal
do perigo que começava a espreitar a República foi dado com a revolta
abortada de 19 de Outubro de 1921, o primeiro levantamento “radical” que
se saldou pelo assassinato de vários políticos e militares republicanos,
entre os quais o próprio presidente do ministério, António Granjo,
durante a designada «noite sangrenta».
Na década de vinte, os militares foram chamados cada vez mais
frequentemente a desempenhar cargos públicos, até porque vários
políticos que haviam estado à frente dos destinos da República, se
afastaram ou desinteressaram da política ou foram em missões oficiais
para o estrangeiro. E não foi por simples coincidência que, desde então,
se começou a falar do Exército como «mandatário nacional» e garante do
«interesse nacional», enquanto em sectores cada vez mais amplos da
opinião pública aumentava o apelo à intervenção política dos militares,
vistos como os «salvadores da Pátria».
Republicano e constitucionalista prestigiado, Sousa Dias, foi nesse
período, eleito Deputado pelo Círculo do Porto nas eleições de 1921
(Legislatura de 1921), tendo desenvolvido um notável actividade nas
comissões militares parlamentares, principalmente em estudos sobre a
reorganização do Exército. Oficial muito prestigiado e firme
republicano, foi por diversas vezes indigitado para o Governo, na
qualidade de Ministro da Guerra, cargo que sempre recusou ocupar porque,
como civilista convicto, rejeitava a participação dos militares na área
governativa. Em 1923 foi condecorado com o grau de Comendador da Ordem
Militar de Cristo e, no ano seguinte, com o grau de Comendador da Ordem
Militar de Sant’ Iago de Espada. Foram‑lhe também atribuídas as medalhas
militares de Ouro de Comportamento Exemplar, a medalha de Ouro de Bons
Serviços e a medalha da Cruz Vermelha. Em 1925 foi promovido a General e
nomeado comandante da 3 ª Divisão do Exército, no Porto.
No ano anterior, quatro tentativas limitadas de revolta militar haviam
testado, de novo, a solidez do regime. Antes de 28 de Maio de 1926,
quatro novas revoltas, mais amplas, prepararam o assalto final à
República, com os vários grupos conspirativos a disputar a liderança do
pronunciamento definitivo: primeiro as do grupo sidonista‑monárquico de
Sinel de Cordes, em 5 de Março e 18 de Abril de 1925; depois a do grupo
republicano conservador de Mendes Cabeçadas, em 19 de Julho seguinte; e,
em 2 de Fevereiro do ano seguinte, foi a vez do grupo radical de Martins
Júnior. Sentindo o poder cada vez mais ameaçado, o Governo de António
Maria da Silva fez várias tentativas, sem êxito, para chegar a um acordo
com o grupo de Mendes Cabeçadas e Cunha Leal. O golpe acabou finalmente
por eclodir em Braga, com a sublevação inicial do Regimento de
Infantaria 8, em nome de «um governo nacional militar, rodeado das
melhores competências para instituir, na administração do Estado a
disciplina e a honradez que há muito perdeu», de acordo com a
proclamação ao país assinada por Gomes da Costa. A partir de Braga, o
movimento estendeu‑se rapidamente às Divisões Militares de Vila Real,
Coimbra, Viseu, Tomar e Évora.
Firme republicano, o General Sousa Dias conseguiu manter a lealdade das
suas unidades ao Governo durante o conturbado ano de 1925. E, quando em
28 de Maio estalou a revolta, foi “um dos poucos oponentes militares ao
28 de Maio”, como escreve Fernando Rosas (4), recusando o convite que
lhe foi dirigido por Gomes da Costa. Os termos dos telegramas trocados
entre ambos são bem elucidativos a esse respeito (5):
– Telegrama dirigido ao General Sousa Dias (no Porto) pelo General
Gomes da Costa (Penafiel).
–
«Estou Penafiel. Toda a Guarnição Militar ao meu lado, como de resto
está quasi todo o exército.
Nestas condições eu peço a V. Excia sua leal cooperação comigo para
bem da patria e do exercito.
(a) Gomes da Costa»
– Telegrama de resposta do General Sousa Dias.
«V. Ex. ª quem sempre prestei sinceras homenagens pelos valiosos
serviços Pátria e Exercito, – que desempenhando cargos confiança honrou
compromissos tomados, compreende minha situação lugar ocupo.
Continuarei mantendo sempre atitude obediência devida Ministros da
Guerra em exercício que me distingam sua confiança.
(a) Sousa Dias Gen. al»
Sousa Dias assumiu, então, o comando das operações de resistência ao
levantamento militar, organizando um Grupo de Destacamentos para
contra‑atacar os revoltosos, que nesse mesmo dia marchou em direcção a
Braga, ocupando posições em Famalicão e Nine. Porém, dois dias depois,
confrontado com a extensão e clara superioridade da insurreição militar,
com a intercepção e neutralização dos reforços enviados de Lisboa pelo
Governo, a demissão posterior deste e do Presidente da República,
Bernardino Machado, e com a aderência à revolta de várias das unidades
sob o seu comando, Sousa Dias acabaria por, em nome da 3 ª Divisão do
Exército e após reunião no Quartel‑General com os comandantes dos corpos
militares aquartelados na cidade do Porto, dar adesão ao movimento
nacional e militar, pedindo ao mesmo tempo a exoneração do cargo que
exercia.
“Tenho a consciência tranquila – escreveria mais tarde – de
que nas conjunturas dadas, cumpri honestamente o meu dever, indo até
onde pude e como pude. E, mais, como reforço de ter ido até onde foi
possível ir: – a adesão da unidade do meu comando – «malgré tout» – só
foi um facto e «só a permiti» – quando o Ministério pediu a sua
demissão, que foi aceite, e a Presidência da Republica chamou à
Governação Publica, as individualidades da revolta!... Julgo que ninguém
podia ir mais longe do que eu fui!...” (6).
Uma longa noite de trevas caiu então sobre a República e a Liberdade.
Mas a maioria dos republicanos estavam ainda nessa altura muito longe de
o prever. Os sectores políticos republicanos da família liberal e
nacionalista e os militares republicanos moderados e conservadores
haviam mesmo apoiado o movimento militar, uns e outros acreditando que a
ditadura seria um regime transitório para regenerar a República. Não era
esse o caso do General Sousa Dias e não tardaria a demonstrá‑lo.
Sousa Dias: O resistente que fez tremer a
ditadura.
Exonerado de Comandante da 3 ª Divisão, Sousa Dias foi nomeado Director
da Arma de Infantaria, cargo do qual se demitiu dois meses depois,
passando a desempenhar as funções de Presidente do Júri de Exames para
General e, desde 28 de Janeiro de 1927, as de Vogal do Conselho Superior
de Promoções, todos cargos que a gíria militar designa por «lugares de
prateleira».
Suportada, fundamentalmente, pelos sectores monárquicos,
conservadores, integralistas e católicos, a ditadura tinha, contudo, à
sua esquerda, o esteio dos republicanos das famílias liberal e
nacionalista e, mesmo, de alguns democráticos que, equivocados quanto
aos seus reais propósitos do pronunciamento militar, haviam aberto a
porta à direita antidemocrática, convencidos, ingenuamente, dos
propósitos reformadores do movimento militar, no respeito pela natureza
republicana e constitucional do regime. Com excepção do Partido
Comunista, mesmo os outros partidos de esquerda mantiveram durante algum
tempo uma atitude despreocupada e de expectativa perante o golpe
militar. A ditadura era obviamente apoiada por uma grande parte da
população, pelo menos nos seus primeiros tempos, cansada da
instabilidade política, da agitação social e da crise económica e
financeira. O sector republicano‑conservador tinha uma larga e
predominante componente militar, sobretudo ao nível das chefias, mas
entre a oficialidade subalterna fazia‑se sentir a forte influência da
direita radical. Mas, após o golpe que afastou o Comandante Mendes
Cabeçadas, a 17 de Junho, e à medida que os elementos direitistas
começaram a prevalecer e as tendências monárquica e fascista a
afirmar‑se, um bloco claramente antiditatorial começou a constituir‑se
no país.
O General Sousa Dias encontrava‑se no Porto, sob prisão e com baixa no
Hospital Militar, quando eclodiu naquela cidade a revolta militar de 3
de Fevereiro de 1927, iniciada com a saída, pelas 04h30, do Regimento de
Caçadores 9, seguido por uma Companhia da Cavalaria 6 e outra de
Infantaria 18, por forças de Sapadores Mineiros e da GNR da Bela Vista,
parte da Polícia Civil do Porto e muitos civis armados. Não considerando
as prematuras e pontuais tentativas de revolta militar de 11 de
Setembro, em Chaves, e de 21 do mesmo mês, em Lisboa, pode considerar‑se
que o movimento de 3 de Fevereiro foi o primeiro, e o único, a
constituir uma verdadeira ameaça para o novo regime emergente. Sendo um
dos mais prestigiados generais opositores ao novo regime, Sousa Dias foi
convidado pelos revoltosos a assumir a chefia da revolta, comando que de
imediato aceitou.
O Comité Militar Revolucionário então formado integrava outras figuras
de republicanos ilustres, como o Coronel Fernando Freiria, José
Domingues dos Santos, o Comandante Jaime Morais, o Capitão‑médico Jaime
Cortesão e o Capitão Sarmento Pimentel. Os propósitos da revolta são
claramente expressos no manifesto «Ao Povo Português», assinado e
divulgado por aquele comité:
“Os oficiais revoltosos decidiram reintegrar o País dentro do regimen
democrático constitucional, com a formação de um Governo Nacional que
afirmasse a supremacia do poder civil, guardado e defendido pela força
armada, que assim teria restituído as funções de que a desviaram.”
(7)
Reforços de outras unidades militares ou da GNR, vindos de Amarante,
Valença, Lamego, Penafiel, Póvoa do Varzim, Famalicão, Vila Real, Régua,
Santo Tirso e Guimarães, juntaram‑se no Porto aos revoltosos. Aderindo à
sublevação, amotinaram‑se as guarnições de Viana do Castelo, da Figueira
da Foz, de Vila de Santo António, Tavira e Faro. Mas, apesar do volume
de forças do Exército e da Guarda Nacional Republicana que aderiram à
revolta e do apoio de centenas de civis armados, a revolta acabaria por
fracassar. Foi decisiva a não adesão dos Regimentos de Artilharia 5, da
Serra do Pilar, de Cavalaria 9 e Infantaria 18, do Porto, da GNR do
quartel do Carmo e de outras unidades do centro e norte do país. Mas o
golpe fatal na revolta foi o atraso no desencadeamento da insurreição em
Lisboa, iniciada apenas em 7 de Fevereiro, precisamente no dia da
rendição das forças revoltosas no Porto – a “revolução do remorso”,
como lhe chamaria ironicamente Sarmento Pimentel.
Entretanto, as centenas de baixas entre a população, causadas sobretudo
pela artilharia governamental, apesar dos protestos do General Sousa
Dias, que entendia ser “do mais elementar princípio do Direito
Internacional que se não fizesse fogo sobre uma cidade aberta sem que
fosse previamente prevenida a sua população”, e do próprio pedido do
Comandante da Região Militar para que se não bombardeassem as casas dos
habitantes, abalaram fortemente o moral dos revoltosos. O esgotamento
das munições ditou, por fim, a sorte daquela que foi a maior e mais
profunda entre as revoltas ocorridas desde a implantação da República,
na opinião de vários historiadores.
«Esperava‑se a revolta simultânea, em Lisboa e Porto. Mas não. Daí o
desastre. Não sai igualmente com toda a força de que dispunha ou que
estava comprometida. A organização poderia e deveria ter ido mais longe,
arrostando com as dificuldades dos ronceiros; mas o optimismo, contando
com adesões que não vieram e outras que demoraram, foi fatal» –
sintetizou Raúl Rego (8). Nas suas notas sobre o movimento
revolucionário do Porto, também Sousa Dias considerou que o insucesso se
deveu essencialmente “à falta de acção de elementos militares mais do
que suficientes para garantir o seu êxito em todo o País, e que no
momento necessário faltaram” (9).
As feridas abertas pelo 28 de Maio no seio da família republicana ainda
não haviam sarado e isso seria fatal para a revolta, como o seria para
as que se lhe seguiriam. Apesar da orientação cada vez mais claramente
fascizante da ditadura, os sectores republicanos mais conservadores
ainda não haviam rompido com ela, outros defendiam que não se deveria
hostilizá‑la e os restantes continuavam profundamente divididos quanto à
estratégia para combater a ditadura e quanto ao futuro político
imediato, designadamente entre os que defendiam uma acção revolucionária
nos moldes tradicionais republicanos e o retorno imediato à normalidade
constitucional, e os que preconizavam um movimento essencialmente
militar seguido de “um forte governo nacional”. Sousa Dias encontrava‑se
no primeiro campo. O excerto seguinte de uma carta por si enviada de S.
Tomé, em 1927, ao General Norton de Matos é uma clara demonstração disso
mesmo:
“ (...) Aquando da consulta aos Deportados, feita pela Liga de Paris
sobre se mais conviria, após um movimento triunfante, constituir‑se um
«Governo Provisório» ou entrar‑se imediatamente na normalidade
constitucional – emitimos, eu e o Coronel Freiria, como chefes
militares que fomos do movimento constitucional de 3 de Fevereiro, no
Porto, a seguinte opinião: de que se deveria enveredar por esta última
fórmula governativa.
Justificávamos este nosso critério, nas circunstâncias especiais que
se davam nos que, como nós, de armas na mão, tínhamos combatido a acção
ditaturial de 28 de Maio.
Em uma série de «considerandos», enviados à Liga por essa ocasião,
manifestávamos, bem claramente, que este nosso critério se fundamentava,
apenas e em absoluto, na coherência que se nos impunha manter perante a
nossa acção constitucional, no movimento referenciado: isto é, tendo‑nos
lançado ativamente, e de armas na mão, contra uma situação ditaturial,
não seria coherente que enveredássemos, após a sua queda, pela adopção
dos mesmos processos governativos. (...).” (10)
Mas Sousa Dias não era a pessoa intransigente que já então certos
republicanos o acusavam de ser e que alguns autores também fazem crer.
Numa outra carta de resposta a Norton de Matos, publicada na obra citada
de A.H. de Oliveira Marques, desmente‑o claramente, aceitando a proposta
de compromisso que lhe é apresentada por aquele, no sentido do
apoio a uma solução de substituição da ditadura por um outro regime
forte, liderado por um militar, capaz de garantir a transição
democrática, uma fórmula com que se pretendia reunir os democráticos e
os liberais e muitos dos militares sem filiação:
“ (...).Tenho timbrado sempre – escreve – em respeitar as opiniões de
todos – para me constituir no direito de que me respeitem, por seu
turno, as minhas convicções; e impróprio do meu caracter – a que o meu
passado tem completo jus – seria impôr ais demais o meu critério ou o
que se me afigura de melhor (...)
Como V. Ex.cia, eu considero de integral exigência: Que de vez se
termine com as ditaduras – seja qual for o caracter de que ele se
revistam!
Não desconheço, todavia, que após um acto revolucionário triunfante,
se trona mister manter durante algum tempo o estado de coisas inerentes
a situações anormais, – e que prevalecem até que possível seja
regularizar e normalizar‑se a situação.
Mas, esse interregno imperioso, deve, a meu ver, ser da mais curta
duração e estender‑se apenas ao que estritamente for julgado necessário
e indispensável estabelecer‑se. (...)” (11)
Na sequência do fracasso do 3 de Fevereiro, o General Sousa Dias, como
muitos outros líderes revolucionários, foi preso e separado do serviço
activo, com direito a apenas metade do respectivo vencimento (12),
sendo‑lhe fixada residência obrigatória em São Tomé e Príncipe, uma
situação considerada oficialmente como de deportação política que se
prolongou por nove meses, sujeito aos caprichos atrabiliários do
Governo. Do degredo continuou a manter activa ligação com os exilados
políticos da Liga de Paris, sempre coerente com a sua lealdade aos
princípios, valores e ideais constitucionais da República e sempre
confiante no triunfo final desta contra a ditadura.
Transferido, em Dezembro de 1927, de S. Tomé para o Faial (Açores), foi
julgado em 1929, no Forte da Graça, em Elvas, por um tribunal especial e
condenado a dois anos de prisão, tendo‑lhe sido descontado o tempo
passado em São Tomé e nos Açores. Voltou a ser‑lhe fixada residência no
Faial, sendo em 1930 transferido para o Funchal.
O movimento militar de 3 de Fevereiro traduziu‑se em centenas de mortos
e feridos e em milhares de presos e deportados, marcando o início de uma
era de repressão como não havia memória no passado.
Os opositores à ditadura não descansaram e, logo após a derrota deste
primeiro movimento revolucionário, constituiu‑se entre os muitos
exilados na capital francesa a «Liga de Defesa da República» (vulgo
«Liga de Paris»), com o objectivo de fazer a unidade entre todos os
republicanos e coordenar a luta contra a ditadura. Os seus principais
dirigentes eram Afonso Costa, Bernardino Machado, Álvaro de Castro
(falecido em 1928), José Domingues dos Santos, Jaime Cortesão e António
Sérgio. Mas aquele objectivo nunca seria conseguido e foi,
precisamente, com o Partido Republicano Português que a Liga de Paris
teve mais problemas, pois no seu directório havia gente com programas
políticos e estratégias revolucionárias bastante diferentes. No campo
oposto situavam‑se os elementos democráticos, mas as relações destes com
a Liga também não foram pacíficas. Só a solidariedade republicana os
unia. No mais, e sobretudo na acção concreta, a unidade nunca existiu e,
à medida que o tempo passava, mais ela se esbatia.
O núcleo de exilados políticos em Paris teve na organização dos
posteriores movimentos revolucionários um papel preponderante, mas a
falta de direcção efectiva e a descoordenação entre os revoltosos
conduziram a novos fracassos a 20 de Junho de 1928 e a 21 de Julho de
1930, de que se aproveitou mais uma vez o regime para fortalecer o seu
poder com a prisão, deportação ou exílio de mais umas dezenas de
militares e políticos opositores ao regime, entre eles alguns dos
apoiantes e organizadores do 28 de Maio.
Quando, em 4 de Abril de 1931, na sequência dos movimentos populares de
Fevereiro devidos à crise económica com que a ilha se debatia, eclodiu a
«revolta da Madeira», de novo foi o General Sousa Dias chamado a chefiar
este último grande «cerco à ditadura», como se lhe refere Helena Matos
(13). Com ele estavam importantes unidades militares ali estacionadas,
vários deportados políticos e alguns dos revolucionários de Fevereiro de
1927, reclamando o restabelecimento das liberdades públicas e da
normalidade constitucional.
Telegrama dos revolucionários enviado ao Governo:
“Exmo. Senhor Presidente da República
Em 4 de Abril – Lisboa
.
Tendo‑me sido entregue pelos oficiais da Guarnição da Madeira o
Governo desta Ilha, informo Vossa Excelência que esta guarnição,
conforme finalidade seu movimento e acordo opinião maioria do Exercito e
Marinha, levada conhecimento Governo Ditadura em Janeiro ultimo, só
obedecerá a um Governo Republicano que restaure liberdades publicas e
procurando realizar em curto prazo volta normalidade constitucional sem
subterfugios.”
a) Governador Militar – Sousa Dias, General.” (14)
A revolta ocorreu às primeiras horas da manhã, sem qualquer resistência,
dominando rapidamente as forças recém‑chegadas do Continente, de
Caçadores 5 e Metralhadoras 1, e a guarnição da ilha, composta por
Infantaria 13 e uma Bateria de Artilharia de Costa. As adesões locais ao
movimento revolucionário não se fizeram esperar, sobretudo entre os
numerosos deportados políticos, alguns dos quais esperavam transferência
para as colónias africanas. O rastilho da revolta alastrou no dia 7 aos
Açores, depois à Guiné e, na madrugada de 12 de Maio, ocorreram
incidentes em S. Tomé.
A revolta durou vinte e sete dias. A ideia era forçar o Governo a
dividir forças para combater os revoltosos nas ilhas, criando assim
melhores condições para o sucesso do levantamento militar decisivo na
Metrópole. Este movimento revolucionário poderia muito bem ter
representado o fim da ditadura, até porque, entretanto, fora proclamada
a República na vizinha Espanha. Depois do 3 de Fevereiro, nenhum outro
movimento revolucionário reuniu tantas condições e meios para expressar
os seus objectivos políticos como a “Revolta das Ilhas”. Mas, uma vez
mais, a ditadura acabaria por vencer. Tal como em Fevereiro de 1927,
esperava‑se uma ampla adesão à revolta de outras unidades militares do
Continente, o que não viria a acontecer, tal como nos casos anteriores
por hesitações e atrasos nos preparativos e porque, entretanto, o
governo tomara medidas de prevenção, mandando concentrar diversas
unidades militares nos entroncamentos ferroviários, fazendo abortar os
movimentos insurrecionais previstos para 2 de Maio, numa altura em que
os revoltosos da Madeira se haviam já rendido. A réplica, tardia e
fraca, da revolta da Madeira no Continente só aconteceria cerca de três
meses depois, a 26 de Agosto.
Desde a anterior revolta de 20 de Julho, muitos republicanos moderados,
civis e militares, anteriores apoiantes do 28 de Maio, haviam‑se
começado a transferir para o campo revolucionário, descontentes pela
marcha da ditadura. Mas mantinham‑se ainda abertas algumas divisões
políticas do passado e novas se exacerbaram entretanto entre os
opositores ao regime no país e os exilados políticos, e o mesmo
acontecia entre os militares. O grupo democrático de Afonso Costa e
José Domingues dos Santos insistia na continuação da estratégia
revolucionária militar‑civil, seguida da imediata reinstauração do
regime constitucional republicano anterior ao 28 de Maio; o grupo ligado
à Aliança Republicana Socialista, criada por Norton de Matos e Mendes
Cabeçadas, e que Bernardino Machado passara a apoiar, apostava agora
tudo na via legal e exclusivamente política do confronto eleitoral, na
linha dos velhos partidos republicanos, abandonando definitivamente a
sua posição contrária anterior; por sua vez, a maioria dos militares,
com o grupo mais liberal de Cunha Leal e Carlos Vilhena, mantinha‑se
intransigente numa solução essencialmente realizada pelas forças
armadas, um novo 28 de Maio ao contrário, que implementasse um programa
reformador apoiado transitoriamente num governo com uma forte base
militar.
Fiel ao ideário democrático, o General Sousa Dias manteve‑se sempre
firmemente um defensor da primeira modalidade de acção, sem contudo
inviabilizar, como se viu, uma alternativa conciliatória com o grupo
militar. Mas as divergências na oposição republicana minaram
definitivamente a unidade da sua direcção política, impedindo qualquer
acção eficaz contra a ditadura e conduzindo aos sucessivos fracassos. A
Liga de Paris representou, em determinada altura, uma esperança, mas não
foi além disso. Começava, também, a ser demasiado tarde. A implacável
repressão exercida sobre os revolucionários e conspiradores, as
precárias condições de vida dos exilados e deportados e o regresso e
reintegração de muitos deles entretanto amnistiados, reduzia cada vez
mais as forças do campo republicano democrático e as suas possibilidades
de êxito. Os fracassos das posteriores revoltas de 4 de Abril e de 26 de
Agosto de 1931 representaram a prova dramática disso mesmo, marcando o
epílogo da primeira fase da resistência contra a ditadura.
Derrotado, o General Sousa Dias, com muito outros militares e civis
implicados, foi demitido do seu posto e lugar que ocupava no Exército,
privado de todas as honras, vencimentos, garantias e direitos que
usufruía e colocado à disposição do governo (15). Como consequência
directa da demissão, foi abatido aos quadros do Exército, perdeu a
dignidade do posto e a qualidade militar, assim como o direito a usar
medalhas militares e condecorações e a haver quaisquer recompensas ou
pensões por serviços anteriores (16).
Mais umas largas centenas de deportados seguiram para as colónias de
África e de Timor. Foi então que se criaram, para os internar, os
primeiros campos de concentração, prática que só cessaria na década de
1950. Ao mesmo tempo, na metrópole, encheram‑se as cadeias de
conspiradores ou havidos como tais. O fracasso da posterior revolta de
26 de Agosto desse mesmo ano, fez aumentar o número de presos e
deportados políticos a um máximo porventura jamais atingido durante o
Estado Novo.
Deportado para Cabo Verde, Sousa Dias foi primeiro internado no Campo de
Concentração de Presos Políticos de S. Nicolau, instalado num antigo
seminário, onde permaneceu até 21 de Agosto desse ano. O Governo da
colónia pretendeu, ainda, fazê‑lo embarcar para Timor, o que não
conseguiu devido à recusa do comandante do transporte de guerra Gil
Eanes, que levava deportados para a ilha asiática. Foi depois
transferido para a ilha de Santo Antão e, por último, para a de S.
Vicente.
“(...).Vencidos, como fatalmente tínhamos de ser pois não fomos
convenientemente secundados, a pesar da nossa resistência durante quase
um mez – escreveu Sousa Dias numa carta a seu filho Adalberto, de 21
de Agosto de 1931 – o tratamento que nos tem sido infringido, é dos
mais vexatórios, arbitrarios e despóticos que a nossa historia regista!
– Incomunicáveis; encerrados em campo de arame farpado, em alojamentos
restritos e com as janelas pregadas, numa aglomeração de pessoas nas
condições mais anti‑higiénicas; guardados por tropas indígenas, com
instruções irritantes; sem dispormos dos mais insignificantes cobertura,
digo, recursos médico cirúrgicos, para nos acudir caso o nosso estado de
saúde assim o reclamasse; com uma alimentação contra‑indicada para este
clima africano (servindo‑nos, amiudadas vezes, carne de porco); sujeitos
na Praia como no seminário de S. Nicolau, a vexames de toda a ordem;
suportando as violentas medidas repressivas de draconeanas instruções,
dadas pelos miseráveis «carcereiros» que, para afronta e vergonha nossa,
ainda conservam uns galões nos braços e se dizem oficiais do exercito;
mantendo‑se uma rigorosa e irritante censura à nossa correspondência, –
a maior das vilanias cometidas; chegando, por demais, a infâmia cometida
pela violação da vida doméstica, ao ponto de – após a leitura da nossa
correspondência, – divulga‑la, publicamente, com comentários galhofeiros
e vergonhosos – aqui tens, muito sumariamente, e sem que todos os pontos
arbitrários sejam realçados ainda, o que se vem cometendo contra nós, há
mais de 3 meses, após o nosso movimento constitucional da Madeira.(...).”
(17)
Todavia, apesar do ostracismo a que foi votado pela ditadura, da
violência da repressão sobre ele exercida e das condições degradantes e
humilhantes a que foi sujeito, com os restantes deportados, Sousa Dias
manteve sempre uma atitude de grande coerência, dignidade e elevação
moral, como o reconheceram os próprios companheiros de degredo. Na
correspondência trocada com estes, com seu filho e com os exilados
políticos da Liga de Paris, a todos surpreendia com as suas qualidades
de carácter, firmeza de princípios e solidariedade – a ponto de recusar
tratamento diferente ao dos companheiros de desterro que haviam servido
sob as suas ordens.
Extracto de carta dos núcleos de deportados de Angola ao General Sousa
Dias, em 20 de Março de 1928.
“ (...) nós já em Angola tínhamos tido conhecimento da nobreza do
procedimento de V. Ex.cia e nem ao de leve nos poderia Ter passado pelo
espírito que, da parte de V. Ex.cia, tivesse havido qualquer fraqueza ou
desânimo, pois que todos que tem a honra de terem tratado com v. Ex.cia
e servido debaixo das suas ordens, conhecem bem e prestam a devida e
justa homenagem às suas elevadas qualidades de carácter e energia moral.
(...)” (18)
Mas a precaridade das condições de vida, a insalubridade do clima, a
subnutrição e a doença foram minando a sua saúde, o que sempre escondeu
porém dos seus familiares. Na carta a seu filho atrás citada, de 21 de
Agosto de 1931, escreveria a propósito:
“ (...).Continuo gozando óptima saúde; e, como notas, desfrutando a
melhor das disposições morais. Oxalá toda a família se encontre da mesma
maneira com o mesmo bem‑estar. (...)”.
Mas, à cautela, contudo, sempre ia prevenindo seu filho:
“ (...).Escusado será dizer‑te que á família, e principalmente a tua
mãe e irmão – nada lhe deverás dizer do assunto desta carta.(...)”
Sousa Dias acabaria por falecer no Mindelo, em 27 de Abril de 1934.
Naquela mesma carta havia ele escrito, então, como que
premonitoriamente:
“ (...)se não deixo bens de fortuna material deixar‑vos‑ei um nome,
que não vos envergonhará... bem pelo contrário.(...)”.
A amargura, desilusão e revolta contra as deslealdades e traições haviam
começado a dominá‑lo nos últimos dois anos de vida, sem contudo lhe
afectar a sua energia e verticalidade. Numa carta a seu filho, datada de
29 de Outubro de 1932 e publicada por A. H. de Oliveira Marques na sua
mesma obra já citada por diversas vezes neste artigo, escrevia Sousa
Dias:
“ (...).De cá e de lá – que estendal de nojeiras e que lamaçal de
baixezas e ignominias... Cada vez mais – se é possível – cresce em mim,
a onda de nojo e asco por essas castradas creaturas que se tem rebaixado
ás mais asquerosas e repugnantes atitudes morais e sociais!...
(...).Bandalhos da mais ínfima espécie! Eles, os únicos responsáveis
pelo passado que permitiu o presente; eles, que se locupletaram com os
mais chorudos e altos cargos do Regime republicano; (...); são eles, a
grande massa dos «indefectiveis», que estão apoiando moralmente essa...
coisa que pr’aí está, são esses «antigos políticos» da nossa ingénua
Republica, que a estão deixando submergir e sufocar, sem que deles parta
o mais leve gesto, a mais insignificante atitude, o mais ténue
sacrifício em prol do Regime que os acarinhou e que lhes proporcionou a
sua «vidinha» de desenfreado regabófe!... Miseráveis!...”(19)
Com a morte de Sousa Dias a ditadura respirou de alívio, porque se viu
definitivamente livre de um dos seus mais acérrimos opositores e de um
dos mais intrépidos lutadores pela República e pela Constituição. A
ditadura jamais haveria de perdoar ao mais destacado e graduado dos
militares dissidentes; quando, em 5 de Dezembro de 1932, através do
Decreto n º 21 943, publicou uma ampla amnistia reintegrando os que
contra ele haviam lutado, o governo teve o cuidado de excluir
expressamente da sua aplicação cinquenta personalidades – a cabeça
político‑militar revolucionária republicana – consideradas
particularmente «perigosas». Sousa Dias era o primeiro da respectiva
lista. E só dois anos após a sua morte o Estado Novo autorizaria a
transladação do corpo, secretamente transportado para o cemitério da
cidade da Guarda.
Sousa Dias: A memória do patriota e democrata.
Três anos após o 25 de Abril de 1974 e a restauração da República e da
Democracia, porque lutou sem êxito durante os últimos oito anos de vida,
por decreto do Conselho da Revolução, Sousa Dias foi reintegrado no
Exército e no seu posto de General, com todas as honras ao mesmo
inerentes e o direito às condecorações e graus honoríficos que possuía.
O respectivo Decreto Lei n º 232/77, de 2 de Junho, regista de forma
lapidar as suas qualidades:
“ (...) Vulto destacado na história da época, o general Sousa Dias é
bem o exemplo das mais altas virtudes morais que a nobre profissão de
soldado exige, com toda a abnegação de alma, verticalidade, aprumo e
absoluta intransigência no cumprimento dos princípios que jurara
defender, sem olhar a sacrifícios ou perigos. (...)
Em 1980 foi condecorado com o grau de Grande Oficial da Ordem da
Liberdade, com vários outros políticos e militares que mais se
evidenciaram no combate à Ditadura e ao Estado Novo. Contudo, no
turbilhão daqueles anos, não houve a oportunidade de dar a estes actos o
relevo público que toda uma vida de coerência, firmeza, coragem,
sacrifício e entrega total à causa República bem justificaria e, trinta
anos depois do «25 de Abril», Sousa Dias continua à espera de ser
sepultado definitivamente com as honras a que tem, agora de novo,
legítimo e justo direito. Para a grande maioria dos portugueses, civis e
militares, o General Sousa Dias continua a ser um desconhecido e nas
listas de antiguidade do Exército mantém‑se o seu abate aos quadros em
1931, prova de que nem o próprio Exército ainda o reabilitou. Deixar
esquecer a sua memória é cortar a raiz ao Portugal livre e democrático
que Abril fez renascer, é esquecer o seu percurso histórico e os valores
e ideais que lhe deram força.
O General Sousa Dias foi um exemplo raro de indefectível lealdade à
República, de tenacidade, firmeza, coragem, coerência, sacrifício e luta
na defesa dos ideais de que foi portadora em 1910, mesmo quando começava
a não ser já mais que uma lembrança passada. No dizer de Raúl Rego, a
sua figura podia «servir de modelo a quantos se bateram contra ditadura
e aos processos de repressão do regime que ainda se dizia República»
(18). Ao comemorarem‑se trinta anos sobre o 25 de Abril, setenta sobre a
morte do General Sousa Dias e cento e trinta e nove sobre o seu
nascimento, a melhor homenagem que lhe poderá ser feita será sepultá‑lo
dignamente, prestando‑se‑lhe as honras militares que lhe foram recusadas
na morte e cumprindo‑se assim o disposto no respectivo decreto de
reabilitação:
“ (...). Julga‑se que a vida exemplar e trágica deste oficial, que
tanto deu de si próprio em proveito do povo, bem merece um gesto de
apreço e de reconhecimento do Portugal de hoje, finalmente livre. (...)”
E, afinal, o General Sousa Dias estava do lado certo. A revolução não se
faria pela via exclusivamente política, ensaiada sem êxito com as
candidaturas à Presidência da República de Norton de Matos, Quintão de
Meireles e Humberto Delgado. Também não se faria pela via exclusivamente
militar, tendo fracassado todas as revoltas até 16 de Março de 1974. A
revolução far‑se‑ia, finalmente, em 25 de Abril de 1974, pelo Povo em
aliança com as Forças Armadas.
Notas e Bibliografia
1.José Freire Antunes, “A Política dos Militares no Século XX
Português”, Revista Comemorativa do 25 de Abril, Edição do Estado Maior
General das Forças Armadas, Abril de 1980.
2.Fernando Rosas, “O Estado Novo (1926‑1974)”, in História de Portugal,
Direcção de José Mattoso, Sétimo Volume, Edição Círculo de Leitores,
1994, p. 222.
3.Existem divergências entre vários autores quanto relativamente às
datas de promoção de Sousa Dias.
As datas que cito foram retiradas da obra do Tenente‑Coronel Castro
Ambrósio, (2000), “Generais do Exército Português nos anos de 1900 a
1999”, elaborada com base nas listas gerais de antiguidade dos Oficiais
do Exército (Quadro Permanente), publicadas durante o século XX pelo
EME.
4.Fernando Rosas, ídem, p. 215.
5. A.H. de Oliveira Marques, “O General Sousa Dias e as Revoltas contra
a Ditadura 1926‑1931”, publicações Dom Quixote, 1975, p. 31 e 32.
6. A.H. de Oliveira Marques, idem, p. 27.
7. José Freire Antunes, “A Desgraça da República na Ponta das Baionetas
– As Forças Armadas do 28 de Maio”, Livraria Bertrand, Amadora, 1978, p.
155.
8. Raúl Rego, “História da República” Vol. V, Círculo de Leitores, 1987,
p. 84.
9. A. H. de Oliveira Marques, idem, p. 41.
10. Idem, p. 76, 77.
11. Idem, p. 100.
12. Decreto n º 13 137, de 15 de Fevereiro de 1927 e Decreto de 14 de
Julho de 1927.
13. Helena Matos, “Salazar, Volume I, A Construção do Mito”, Temas e
Debates, Rio de Mouro, 2003, p. 165.
14. A. H. de Oliveira Marques, idem, p. 109.
13. Decreto n º 19 567, de 7 de Abril de 1931 e Decreto de 15 de Abril
de 1931.
14. Decreto n º 11 292, de 26 de Novembro de 1925.
15. A.H. de Oliveira Marques, idem, p. 146,147.
16. Idem, p. 62.
17. Idem, p. 266, 267.
18. Raúl Rego, “História da República, vol. V, Como se destrói uma
democracia”. Círculo de Leitores, 1987, p. 146.
