Gomes, Francisco da Costa  (n. 1914)

 

Subsecretário do exército durante a Abrilada de 1961. Implicado no processo, é colocado em Beja como chefe do Distrito de Recrutamento e Mobilização. Passa em Agosto de 1962 para comandante do RL1 de Elvas. Inspector da Arma de Cavalaria. Brigadeiro desde 1964. 2º comandante da região militar de Moçambique desde Agosto de 1965. Comandante da mesma região em 1967. General desde Novembro de 1968. Comandante chefe de Angola desde Abril de 1970. Sucede a Venâncio Deslandes como CEMGFA em 15 de Setembro de 1972. Demitido em 14 de Março de 1974.

 

Membro da Junta de Salvação Nacional desde 25 de Abril de 1974, assume o cargo de Chefe de Estado Maior General das Forças Armadas. Presidente da República de 30 de Setembro de 1974 até 13 de Julho de 1976. Presidente do Conselho Mundial da Paz desde 13 de Maio de 1977. Considera-se um católico progressista que partilha muitas ideias do marxismo. Tem um primeiro livro de autojustificação em 1979, Sobre Portugal. Diálogos com Alexandre Manuel, Lisboa, A Regra do Jogo.

 

Tradição e Revolução, vol. II

 

1977

 

Morte de Costa Gomes. Chega ao fim a era Costa Gomes, esse misterioso militar que, muito tecnocraticamente, serviu o salazarismo, o marcelismo e o abrilismo, do pluralista ao vanguardista. Depois de se destacar como amigo dos americanos e da NATO, durante o golpe de Botelho Moniz, de 1961, acaba o respectivo activismo político como aliado dos soviéticos e simpatizante dos comunistas. Se foi suspeito de servir objectivamente a CIA, também não deixou de ser acusado de coincidir com o KGB. Mas talvez seja mais simples reconhecer que sempre foi fiel à respectiva interpretação dos interesses nacionais portugueses e deixar que futuros historiadores, depois de consultarem os arquivos de Washington e de Moscovo, descubram o fio da meada. Basta recordar que, nos começos do Outono de 1988, em pleno estado de graça do cavaquismo, o mesmo Marechal Costa Gomes concede ao semanário Expresso uma curiosa entrevista, onde confessa que sempre preferiu uma evolução natural da ditadura para um novo sistema em que se pudesse abordar noutros termos a política ultramarina. Acrescenta também que o plano operacional do golpe do 25 de Abril de 1974 foi mal feito: por acaso tudo correu bem e as coisas passam-se de uma maneira muito cómica. Porque se a PIDE tivesse actuado bem, hoje não tínhamos o 25 de Abril. Isto é, para o falecido marechal, o 25 de Abril não passou de um acaso cómico, isto é, de uma tragicomédia que quase nos transformou numa espécie de manicómio em autogestão, conforme uma expressão coeva de Almeida Santos. Por outras palavras, reconhece que o 25 de Abril de 1974 se inseriu na linha de outros acasos cómicos, como os de 5 de Outubro de 1910 e de 28 de Maio de 1926, onde emergem sempre os Machado Santos, os Gomes da Costa e os Otelo Saraiva de Carvalho. Só que estes acasos modificam profundamente a história política portuguesa e confirmam a nossa ancestral tendência para o improviso. Mas, num povo dado a estes acasos do destino, podem acontecer processos racionalizados de conquista do poder, marcados pelo maquiavélico pragmatismo. Talvez por isso, os cravos vermelhos do mito de Abril elevaram à categoria de vértice da revolução e da pós-revolução, tanto em 28 de Setembro de 1974 como em 25 de Novembro de 1975, um dos principais generais do ancien régime, cuja gélida racionalidade, típica de um matemático, sempre o configuraram como uma espécie de anti-herói, de um Sancho Pança, seguidor do more geometrico, analítico-dedutivo, que, depois de acompanhar na sombra vários Quixotes, acabou por ser o administrador das desilusões que os mesmos geraram. Costa Gomes apenas foi uma das faces da dupla personalidade portuguesa. Pelo aspecto e pelo discurso, não tinha imagem para o espectáculo político, sendo o exacto contrário de António de Spínola, um dos últimos heróis românticos da nossa história. Costa Gomes é mais uma consequência do que uma causa. Nos primeiros dias de Abril, saúda a revolução liberalizante. Não tarda que seja um dos sustentáculos das tentativas comunistas de controlo do processo. Mas quando as relações das forças vivas apontaram no sentido do pluralismo e da democracia representativa, com o 25 de Novembro de 1975, também foi capaz de navegar nesse sentido, sendo um dos que garantiu a aprovação da Constituição e a realização de eleições livres. Sem nunca ousar pegar o touro de caras e preferindo sempre a cernelha, apenas abriu a faina ao cerimonial da pós-revolução, com toda essa estirpe de Sancho Pança que tanto não luta contra moinhos de vento como, perante o desafio do Adamastor, não quer morrer tentando, preferindo regressar à praia da partida. Sem Tormentas, nem Boa Esperança

 

 

Biografia oficial PR:

 

Francisco Costa Gomes

Nasceu em Chaves a 30 de Junho de 1914, tendo falecido em 31 de Julho de 2001.

Filho de António José Gomes e de Idalina Júlia Moreira da Costa. Seus pais eram de origem camponesa com posses medianas. O pai, capitão do Exército, morre quando o filho tinha apenas 7 anos.

Casou com Estela da Costa Gomes em 1952. Do seu casamento tem apenas um filho.

CARREIRA ACADÉMICA

Frequentou o Colégio Militar de 1925 a 1931.

Licenciou-se em Ciências Matemáticas pela Universidade do Porto, em 1944 com distinção.

CARGOS DESEMPENHADOS ATÉ À PRESIDÊNCIA DA REPUBLICA

Alistou-se em 1931, escolhendo a arma de Cavalaria. Foi colocado no Regimento de Cavalaria 9, sendo promovido a alferes em 1935. Iniciou a sua prestação de serviço na Guarda Nacional Republicana. Entre 1945 e 1946 prestou serviço no quartel-general do Supremo Comando Aliado do Atlântico, em Norfolk, nos Estados Unidos, tornando-se profundo conhecedor dos assuntos NATO (OTAN - Organização do Tratado do Atlântico Norte). Participou em várias conferências daquela organização.

Exerceu sucessivamente as funções de subchefe e chefe do Estado-Maior da província de Macau de 1949 a 1951, tendo assistido ao desenrolar da guerra da Coreia. Em 1952, deu aulas no Colégio São João de Deus, acumulando com as suas funções militares.

Desempenhou o cargo de subsecretário de Estado do Exército, em 1958, tendo estado envolvido na intentona militar de Abril de 1961 com o general Botelho Moniz, então ministro da Defesa, e em virtude disso foi exonerado dessas funções.

É durante o exercício dessas funções que envia a primeira missão militar de observação à Argélia com o objectivo de preparar futuramente as tropas portuguesas para enfrentarem a guerra subversiva.

Criou a Companhia de Caçadores de Lamego para preparar tropas antiguerrilha, atitude tomada depois da visita, em 1958, a Angola, Guiné, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Exonerado das funções de subsecretário em 1961, é afastado e enviado para o quartel de Beja.

Exerceu as funções de docente no Curso de Altos Comandos, no Instituto de Altos Estudos Militares entre 1962 e 1965, como brigadeiro.

Exerceu as funções de 2.º comandante da Região Militar de Moçambique a partir de 1965, onde se manteve quatro anos.

Em 1970, exerceu as funções de comandante da Região Militar de Angola, onde procedeu à remodelação do comando-chefe e é o impulsionador da ideia de entendimento militar com a UNITA (União para a Independência Total de Angola), entendimento este quebrado em 1972, por erros não imputáveis ao seu comando. É nomeado para exercer o cargo de chefe do Estado-Maior das Forças Armadas a 12 de Setembro de 1972, em substituição do general Venâncio Deslandes.

É exonerado do cargo em Março de 1974 , pouco antes do 25 de Abril, por se ter recusado à prestação de lealdade ao governo de Marcelo Caetano.

Foi um dos sete militares que compuseram a Junta de Salvação Nacional, em Abril de 1974, após o golpe de estado que derrubou o regime do Estado Novo.

De 25 de Abril a 30 de Setembro de 1974 exerceu as funções de chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas com prerrogativas de primeiro-ministro.

Assume a Presidência da República por indicação da Junta de Salvação Nacional, devido à demissão do general Spínola a 30 de Setembro de 1974.

Ocupará o cargo de Presidente da República até 27 de Junho de 1976, altura em que se realizaram as eleições que levaram à Suprema Magistratura da Nação o general Ramalho Eanes.

PRINCIPAIS OBRAS PUBLICADAS

Sobre Portugal: Diálogo com Alexandre Manuel, Lisboa, Regra do Jogo, 1979.

Visages de Corée, Lisboa, s.e., 1981.

Ecosocialismo, Uma Alternativa Verde para a Europa, em co-autoria com Carlos Antunes e Isabel do Carmo, Lisboa, Divergência, cop. 1990.

Ao nos referirmos a esta personalidade, não nos referimos apenas ao homem que foi Presidente da República em momento crucial - o da consolidação do 25 de Abril. Referimo-nos a esta personalidade no seu todo. O que fez e o que faz até hoje.

Os homens não devem ser olhados apenas pelo que foram ou representaram num dado momento da história.

Costa Gomes possui uma exemplar folha de serviços militares. Uma formação militar virada para a técnica. Um contacto com o exterior frequente que lhe dá a percepção da inovação tecnológica, e uma noção realista da política internacional.

Chamado para o governo por Botelho Moniz,então ministro da Defesa , é-lhe entregue a missão de reorganização das Forças Armadas. Tem aqui a possibilidade de aplicar a experiência adquirida. São palavras suas, dadas em entrevista ao Diário de Lisboa, em Julho de 1976:

"Em 1958 - mais precisamente no dia 4 de Abril de 1958, saiu um diploma reorganizando militarmente o Ultramar em função do auxílio que ele pudesse prestar à Metrópole numa guerra convencional... a reorganização a que me refiro nem sequer admitia a hipótese duma guerra subversiva e estava tão afastada da realidade africana que nem sequer contemplava a possibilidade de virmos a enfrentar uma guerra dentro de pouco tempo".
A reorganização que então fez, acabou por não se concretizar. No entanto, dá-nos a ideia do perfil desta personalidade realista e prática.
Costa Gomes demonstrou sempre um carácter firme na defesa das ideias em que acredita. São disso exemplo a defesa pública de uma solução política para a guerra no Ultramar, em Abril de 1961, a recusa do pactuar com os generais, em Março de 1974, ainda que tais decisões tivessem consequências negativas para a sua vida pessoal e profissional. Indicado para assumir a Presidência da República, após a demissão de António de Spínola, em Setembro de 1974, assumiu a missão de levar o País às primeiras eleições livres e democráticas. Terminou a sua missão com sucesso, apesar de ter que percorrer um caminho difícil e cheio de percalços.

Poderia ter parado aqui. O seu valor e mérito estavam sobejamente demonstrados. Sempre negou ser um político. Sempre se afirmou um militar.

Após a sua saída da Presidência da República, trabalhou no seio do Conselho Mundial da Paz, do qual foi vice-presidente e presidente do Comité Português.

Todas as suas atitudes, no entanto, apesar de estarem dentro do campo militar ou relacionadas com ele, foram sempre políticas.

 

                   

Projecto CRiPE- Centro de Estudos em Relações Internacionais, Ciência Política e Estratégia. © José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: 22-04-2007