Gomes, Manuel Teixeira (1860-1941)

Escritor, diplomata e político português. Ministro de Portugal em Londres em 1911-1918. Presidente da República 1923-1925. Eleito em 6 de Agosto de 1923. Posse em 5 de Outubro de 1923. Demite-se em 11 de Dezembro de 1925. Sobe à presidência da república por sugestão de Afonso Costa, muito desgostando Bernardino Machado. Ver Norberto Lopes, O Exilado de Bougie. Perfil de Teixeira Gomes, Lisboa, Parceria António Maria Pereira, 1942.
Tradição e Revolução, vol. II
1923
●Teixeira Gomes é eleito presidente da República contra a candidatura de Bernardino Machado, apoiada pelos nacionalistas (6 de Agosto). Afonso Costa que tinha prometido apoiar Bernardino, acaba por inverter a sua posição naquilo que é considerada uma incursão afonsista, vinda de Paris. Gomes desembarca em Lisboa, vindo de Londres, em 3 de Outubro e ttoma posse como Presidente da República no dia 5. Passa a ser alvo de imensas calúnias, desde a de pederasta, insinuada até por João Chagas, à de pedófilo, mais recentemente lançada por Vasco Pulido Valente, quando não passava de um literato que descrevia sem limites morais a respectiva sensibilidade, ainda por cima negociante de sucesso e um aventureiro mulherengo. Como diz Norberto Lopes, um epicurista, o verdadeiro tipo do diletante em tudo: nos estudos, na vida, nas letras, na política.
●Revolta Radical (10 de Dezembro) Novo golpe revolucionário radical liderado pelo João Manuel de Carvalho, antigo ministro da guerra nos governos de Maia Pinto e Cunha Leal. Implicados no golpe Agatão Lança e Nuno Simões. Participam vários membros do PCP. Insinua-se que Teixeira Gomes terá sido o inspirador da movimentação, contida energicamente por Carmona, o único ministro que não está no Porto. Como se vai dizer: um governo exautorado perante a revolução pelo próprio chefe de Estado. Ginestal Machado, no dia 10, pede ao Presidente da República a dissolução parlamentar. Carvalho declarará: faltou tudo! Faltaram todos! Só eu cumpri o meu dever e honrei os meus galões.
● Cunha Leal defende ditadura salvadora, apelando ao Exército (17 de Dezembro), numa conferência realizada na Sociedade de Geografia, onde aparece ladeado por Júlio Dantas e Ginestal Machado.
●Alvaristas – Também a 17, Alberto Xavier comunica formalmente à Câmara dos Deputados a constituição do grupo parlamentar da Acção Republicana.
●Regime de força – Teixeira Gomes observa em carta: sentia que a atmosfera se ia tornando, a pouco e pouco, favorável a um regime de força (17 de Dezembro).
1925
●Governo nº 94 (Agosto) de Domingos Pereira (138 dias). Um interregno de quatro meses e meio liderado pelo antigo dissidente democrático, durante o qual se realizam as últimas eleições da I República, em 8 de Novembro, onde os bonzos obtêm uma escassa vitória.
●Depois de Teixeira Gomes procurar para a chefia do governo um independente, tentando, primeiro, o general Bernardo Faria e, depois, um republicano independente, o professor de direito Joaquim Pedro Martins, a solução de transição antes das eleições acaba por ser encabeçada pelo presidente da Câmara dos Deputados, o democrático, que havia sido dissidente, Domingos Pereira, personalidade que dava certas garantias de imparcialidade a nacionalistas e esquerdistas. Se o principal facto político desta governação são as eleições de 8 de Novembro, aliás, as últimas da I República, importa assinalar que logo depois destas se torna público o escândalo Alves dos Reis. Antes delas, acontece outro facto fundamental, com o julgamento dos implicados no 18 de Abril, com o tribunal militar a absolvê-los. Por outras palavras, acaba condenada a própria liderança dos democráticos, sendo reconhecida a legitimidade da insurreição contra o poder estabelecido. Bem tentam alguns dos criadores do modelo de regresso à República Velha uma reacção defensiva, com o alvarista Sá Cardoso a procurar criar uma Liga de Defesa da República. Mas o exército republicano já não consegue parar a conspiração para uma Nova República, pouco se importando com os partidos e com o resultado das eleições. Aliás, o próprio líder intelectual dos seareiros, António Sérgio justifica doutrinariamente uma ditadura de reforma das instituições, visando a criação de uma verdadeira democracia. Mas Sérgio não consegue assumir-se como Alexandre Herculano, repetindo a Regeneração e não apenas pelo facto de não haver Saldanha. O impulso reformista e messiânico da República esgotara-se. O presidente Teixeira Gomes, que aguentara o pedido de renúncia para depois das eleições, abandona a gaiola de Belém e parte para o exílio deixando a Bernardino Machado a tarefa de fechar a porta ao sistema. A revolução do remorso está para breve. Realizam-se, entretanto, as últimas eleições do regime, em 5 Novembro de 1925, com os democráticos bonzos, liderados por António Maria da Silva a conseguirem 82 deputados, contra 31 dos nacionalistas. Até que em 17 de Dezembro, Teixeira Gomes parte num cargueiro para o exílio argelino: vou enfim libertar-me de 15 anos de cativeiro, arrastados por Londres e Lisboa
Biografia de Maria Luiza Paiva Boléo
Manuel Teixeira Gomes
Nasceu a 27 de Maio de 1862, em Vila Nova de Portimão. Era filho de José Libânio Gomes e de Maria da Glória Teixeira Gomes. O pai, além de proprietário abastado, dedicava-se ao comércio de frutos secos em larga escala. Homem muito viajado e instruído em França, onde assistiu à revolução de 1848, advogava princípios republicanos, chegando a ser cônsul da Bélgica no Algarve.
De Belmira das Neves, oriunda de famílias modestas de pescadores, terá duas filhas.
Morreu em 18 de Outubro de 1941, em Bougie,
na Argélia.
ACTIVIDADE PROFISSIONAL
Foi educado pelos pais até entrar no Colégio de São Luís Gonzaga em Portimão, onde estuda o ensino básico.
Aos 10 anos, como era uso nas famílias abastadas da época, é enviado para o Seminário de Coimbra, tendo por condiscípulo José Relvas.
Aos 15 anos, matricula-se na Faculdade de Medicina daquela cidade. Desiste do curso, contrariando a vontade paterna, e instala-se em Lisboa onde frequenta a Biblioteca Nacional e se torna amigo de João de Deus e de Fialho de Almeida.
Após ter cumprido o serviço militar, vai viver para o Porto, onde acamarada com Sampaio Bruno, Basílio Teles, Soares dos Reis e outros. Com Joaquim Coimbra e Queirós Veloso publica o jornal de teatro Gil Vicente, colaborando no Primeiro de Janeiro e na Folha Nova.
Cansado da estúrdia, regressa a Portimão reconciliando-se com a família.
Entretanto, em 1891, o pai formara, com outros sócios, uma sociedade intitulada "Sindicato de Exportadores de Figos do Algarve", que durou três anos. Manuel foi encarregado de encontrar mercados na França, na Bélgica e na Holanda. Viaja então imenso, visita a Europa, demorando-se na Itália. Alarga o seu campo cultural, deambulando pela África do Norte e pela Ásia Menor.
Dissolvida a sociedade, pai e filho continuam o negócio agora por conta própria. Em breve, o êxito motiva o alargamento do mercado pelas novas áreas que, embora já reconhecidas anteriormente, isto é, Norte de África e Próximo Oriente, o obrigam a viajar nove meses por ano, regressando a Portugal só para estar presente durante a campanha do figo.
A partir de 1895, estabelece novos contactos com os meios literários de Lisboa. Por intermédio de Fialho de Almeida conhece Marcelino Mesquita, Gomes Leal e outros. Alfredo Mesquita, Luís Osório e António Nobre entusiasmam-no para a publicação da sua primeira obra O Inventário de Junho, que aparece a público em 1899.
Mais tranquilo, dispondo de mais tempo, pois a idade avançada de seu pai
obriga-o a estadas maiores em Portimão, publica Cartas sem Moral
Nenhuma e Agosto Azul, em 1904, Sabrina Freire, em 1905,
Desenhos e Anedotas de João de Deus, em 1907 e Gente Singular,
em 1909.
PERCURSO POLÍTICO
Democrata e republicano desde muito jovem, colaborou assiduamente no diário A Luta de Brito Camacho, de quem também era amigo pessoal.
Após a implantação da República é convidado para exercer o cargo de ministro de Portugal em Londres. Em Abril de 1911, segue para a capital inglesa, apresentando credenciais ao rei Jorge V, em 11 de Outubro.
Substituir o marquês de Soveral e enfrentar o facto de que a família real portuguesa residia em solo inglês, não constituíam, à partida, factores de bom augúrio para início de carreira, mas Teixeira Gomes, através de uma acção diplomática adequada, cedo soube grangear a simpatia, amizade e a confiança das autoridades britânicas.
É de salientar a sua acção na problemática das negociações anglo-germânicas acerca da divisão das colónias portuguesas e a colaboração prestada aos governos de Portugal, acerca da entrada de Portugal na Grande Guerra, a ser solicitada pelo Estado inglês. Esta colaboração custou-lhe o ódio dos sectores não guerristas, tais como Brito Camacho, e a destituição do cargo durante o consulado de Sidónio Pais.
Em 1919, depois da morte do caudilho, desempenha o cargo de ministro de Portugal em Madrid, mas a breve trecho é reempossado nas suas antigas funções em Londres.
Em 1922, é nomeado delegado de Portugal junto da Sociedade das Nações, desempenhando as funções de um dos seus vice-presidentes.
Em 6 de Agosto de 1923, é eleito Presidente da República, cargo de que toma posse em 5 de Outubro do mesmo ano.
ELEIÇÕES E PERÍODO PRESIDENCIAL
Manuel Teixeira Gomes foi eleito Presidente Da República na sessão do Congresso de 6 de Agosto de 1923, após um acto eleitoral muito renhido, em que o resultado final só foi conhecido ao fim do terceiro escrutínio.
Na primeira votação, com a presença de 197 congressistas, foram escrutinados os resultados seguintes:
Teixeira Gomes 108 votos
Bernardino Machado 73 votos
Duarte Leite 3 votos
Augusto Soares 2 votos
Magalhães Lima 1 voto
Listas brancas 10
No segundo escrutínio, com a presença dos mesmos 197 congressistas, o resultado
ficou assim traduzido:
Teixeira Gomes 114 votos
Bernardino Machado 71 votos
Augusto Soares 2 votos
Duarte Leite 1 voto
Listas brancas 9
Como nenhum dos candidatos tivesse obtido os dois terços de votos exigidos pela
Constituição, procedeu-se finalmente ao terceiro escrutínio em que dos 195
congressistas presentes, 121 votaram em Teixeira Gomes, somente 5 em Bernardino
Machado e 68 votaram em branco.
O novo Presidente da República tomou posse em 6 de Outubro desse ano, depois de ter prestado juramento de fidelidade à Constituição, perante o mesmo Congresso.
De início, com o objectivo de se inteirar dos problemas, pede a António Maria da Silva para prosseguir no Governo, ao mesmo tempo que convida Afonso Costa. Depois deste ter, finalmente, declinado o convite, recomeçou a dança dos executivos.
O de Ginestal Machado dura um mês e três dias, o de Álvaro de Castro, seis meses e dezanove dias, quatro meses e onze dias o de Alfredo Rodrigues Gaspar, que terminará a 22 de Novembro de 1924, abrindo uma crise geral que só terminará com a queda da I República. Os dois meses e vinte e três dias de José Domingos dos Santos, os quatro meses e meio de Vitorino Guimarães, os trinta e um dias de António Maria da Silva, e os quatro meses e meio de Domingos Pereira, só vêm confirmar o ambiente de perturbação existente.
Perante o quadro de efervescência política, social e militar, se nos lembrarmos das greves e das tentativas de tomada do poder, de que são exemplo os acontecimentos militares de 18 de Abril de 1925, Teixeira Gomes sentindo, por um lado, que as forças republicanas estão cada vez mais isoladas e desunidas, e, por outro, que não dispõe de poderes para poder intervir no quadro legal imposto pela Constituição, resigna do seu mandato, em 11 de Dezembro de 1925.
Em 17 de Dezembro, embarca no paquete grego Zeus, não regressando mais em vida a Portugal.
ACTIVIDADE PÓS-PRESIDENCIAL
Em 1931, instalou-se em Bougie, na Argélia, onde viveu os seus últimos dez anos. É desta localidade que continua a colaborar com o jornal O Diabo e com a revista Seara Nova.
Morreu, como já foi referido, em 18 de Outubro de 1941, no quarto número 13, do Hotel I'Étoile, e foi sepultado no cemitério de Bougie.
Em 16 de Outubro de 1950, a pedido da família, os seus restos mortais foram trasladados daquele último local, para o cemitério de Portimão, transportados a bordo do contra torpedeiro Dão.
Durante a cerimónia fúnebre, o antigo Presidente da República foi agraciado, a título póstumo, com a Grã-Cruz das três Ordens Militares Portuguesas, a Legião de Honra e as mais altas condecorações inglesas.
OBRAS PRINCIPAIS
Às obras já referidas há que acrescentar as escritas no seu retiro argelino, Cartas a Columbano, de 1932, Novelas Eróticas e Regressos, em 1935, Miscelânea, em 1937, e, por último Mana Adelaide e Carnaval Literário, em 1938. Elas espelham bem a ânsia de justiça e o desejo de espalhar benefícios do autor, e noutra vertente, o seu gosto pela sensualidade e o reconhecimento do direito à vida plena de cada ser humano, denunciando enfim, o grande conteúdo humanista e estético que o caracterizava.
Projecto
CRiPE- Centro de Estudos em Relações Internacionais, Ciência Política e Estratégia.
© José Adelino
Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em:
22-04-2007 ![]()