1913 Governo de Afonso Costa e criação da formiga branca, contra radicais e monárquicos  

1914  Da frustrada bernardização à Guerra

Governo nº 60 (de 9 de Janeiro de 1913 até 9 de Fevereiro de 1914) Afonso Costa (396 dias, cerca de 13 meses). O primeiro gabinete monopartidário do regime, integrado por democráticos e pelos independentes agrupados de António Maria da Silva (1872-1950), com o apoio parlamentar dos unionistas e a oposição frontal dos evolucionistas. Afonso Costa chega a convidar Marnoco e Sousa, antigo ministro da monarquia, em nome de uma política nacional patriótica, mas o velho mestre resiste à sedução adesiva. Tentam lançar as bases para a reforma financeira do regime e estabelecer um compromisso com a Igreja Católica, mas enfrentam a primeira sedição militar não monárquica e não conseguem também pacificar as relações entre o novo regime e os movimentos sindicalistas.

Afonso Augusto Costa acumula a presidência com as finanças. Na justiça: o líder dos jovens turcos Álvaro Xavier de Castro, um dos primeiros diplomados pela Escola Colonial. No interior, o médico Rodrigo José Rodrigues (1879-1963), governador civil de Aveiro depois de 1910. Nos estrangeiros, António Caetano Macieira Júnior. Nas colónias, Artur Rodrigues de Almeida Ribeiro (n. 1865). Na guerra, João Pereira Bastos. Na marinha, José de Freitas Ribeiro. No fomento, António Maria da Silva. Volta também a instituir-se, em 7 de Julho, um ministério da instrução, entregue a António Joaquim Sousa Júnior (1871-1938), lente de medicina, colaborador de Ricardo Jorge.

Coligação intrapartidária – António Maria da Silva é o único governante não formalmente filiado nos democráticos. O gabinete é negociado, dentro dos democráticos, pelos jovens turcos, representados no governo por Álvaro de Castro e Pereira Bastos. Trata-se, com efeito, de uma espécie de coligação intrapartidária. Aliás, O Mundo critica a táctica de aproximação aos camachistas, denunciando especialmente o ministro da justiça por fazer salamaleques aos conservadores.

Um ciclone e um cronómetro – Afonso Costa é o tipo de bicho de escritório que julga tudo segundo a papelada e mete a vida viva dentro de articulados… é um ciclone e um cronómetro (Guerra Junqueiro). A sua obra política é sempre dirigida contra alguma coisa ou contra alguém ( João Chagas). O mais audaz, o mais inepto e o mais imoral de todos os tiranos (Machado Santos). Faltou-lhe sempre a visão arquitectónica … a compreensão de um plano de conjunto (Raúl Brandão).

Durante este governo vai dar-se um retraimento do movimento sindical; os bispos parecem querer alinhar dentro das regras do jogo e combater o sistema por dentro; estrutura-se uma polícia política irregular, constituindo-se os batalhões de voluntários da república; surgem os primeiros sinais de estabilidade que levam também a uma aproximação com gente de negócios e notáveis da província.

  Governo anterior

Governo posterior  

Governo de Afonso Costa

De 9 de Janeiro de 1913 a 9 de Fevereiro de 1914.

396 dias

Treze meses.

5º governo republicano

4º governo constitucional

1º governo democrático

Fernando Tomás Rosa Gouveia, Orgânica Governamental…, p. 21; Jesus Pabón, A Revolução Portuguesa, p. 171.

Promove as eleições para as vagas de 35 deputados de 16 de Novembro de 1913 e as eleições para os corpos administrativos de 30 de Novembro

 

Presidência e Finanças

Afonso Augusto Costa acumula a presidência com as finanças

Justiça

 

O jurista e capitão do exército Álvaro Xavier de Castro. Como líder dos jovens turcos, tinha sido chefe de gabinete de Correia Barreto em 1910-1911. Como democrático, será ministro das finanças de Azevedo Coutinho (12 de Dezembro de 1914 a 24 de Janeiro de 1915), das colónias de Sá Cardoso (3 a 21 de Janeiro de 1920), bem como presidente do ministério e ministro do interior (de 20 a 30 de Novembro de 1920). Como reconstituinte será ministro da guerra de 30 de Novembro a 23 de maio de 1921. Como accionista voltará a ser presidente do ministério de 18 de Dezembro de 1923 a 6 de Julho de 1924, acumulando as finanças e, desde 28 de Dezembro de 1923, o interior. Membro da junta que derrubou Pimenta de Castro, será também governador de Moçambique entre 1915 e 1917.

Interior

No interior, Rodrigo José Rodrigues (médico). Antigo governador civil de Aveiro e Porto, em 1910-1911. De 1922 a 1924 será governador de Macau.

Estrangeiros

Nos estrangeiros, António Caetano Macieira Júnior (advogado). Tinha sido ministro da justiça do governo de Augusto de Vasconcelos, de 12 de Novembro de 1911 a 16 de Junho de 1912. Falecerá em 1918.

Colónias

 

Nas colónias, Artur Rodrigues de Almeida Ribeiro. Juiz. Será ministro do interior de Afonso Costa, de 29 de Novembro de 1915 a 15 de Março de 1916; subsecretário de Estado das finanças de 18 de Maio de 1916 a 25 de Abril de 1917, no governo de António José de Almeida; voltará a ministro do interior no governo de Afonso Costa, de 25 de Abril a 10 de Dezembro de 1917 (neste período foi também interino da instrução pública e das finanças). Será, depois, irradiado do PRP por aceitar ser vogal do Conselho Superior das Colónias em 1928.

Guerra

 

Na guerra, João Pereira Bastos (tenente-coronel). Primeira e única experiência governativa deste membro do grupo dos jovens turcos.

Marinha

Na marinha, José de Freitas Ribeiro.

Fomento

 

No fomento, António Maria da Silva (engenheiro). Era a primeira experiência governativa da figura liderante dos democráticos na década de 20. Será depois ministro do fomento no governo de Afonso Costa de 29 de Novembro de 1915 a 15 de Março de 1916; ministro do trabalho e da previdência social no ministério da União Sagrada, presidido por António José de Almeida, de 16 de Março de 1916 a 25 de Abril de 1917; ministro das finanças no governo de Sá Cardoso, de 3 a 15 de Janeiro de 1920; presidente e ministro das finanças de 26 de Junho a 19 de Julho de 1920; presidente e ministro do interior, de 7 de Fevereiro de 1922 a 15 de Novembro de 1923; presidente e ministro da guerra, de 1 de Julho a 1 de Agosto de 1925; presidente e ministro do interior entre 17 de Dezembro de 1925 a 28 de Maio de 1926.

Instrução

Volta também a instituir-se, em 7 de Julho, um ministério da instrução, entregue a António Joaquim Sousa Júnior (lente de medicina). Voltará ao cargo no governo de José Domingues dos Santos de Novembro de 1924 a Fevereiro de 1925.

Janeiro de 1913

·Em 9 de Janeiro, governo reúne democráticos e um membro do grupo dos independentes agrupados, António Maria da Silva, o único governante não formalmente filiado nos democráticos, contando com o apoio parlamentar dos unionistas. O apoio destes foi negociado, dentro dos democráticos, pelos jovens turcos, representados no governo por Álvaro de Castro e Pereira Bastos. Trata-se, com efeito, de uma espécie de coligação intrapartidária, até porque O Mundo criticava essa táctica de aproximação aos camachistas, criticando especialmente o ministro da justiça por fazer salamaleques aos conservadores. Oposição frontal dos evolucionistas. Alexandre Braga na Câmara dos Deputados proclama: fechou-se a era da instabilidade e da confusão[2].

·Durante este governo vai dar-se um retraimento do movimento sindical; os bispos decidem alinhar dentro das regras do jogo e combater o sistema por dentro; estrutura-se uma polícia política irregular, constituindo-se os batalhões de voluntários da república; os primeiros sinais de estabilidade levam também a uma aproximação com a gente de negócios e com os notáveis da província[3]

·Apresentação do orçamento para 1913-1914, com um saldo negativo de 3 435 884$, em 15 de Janeiro[4].

·Conferência de Afonso Costa no salão da Imprensa Nacional, em 26 de Janeiro, sobre Catolicismo, Socialismo e Sindicalismo. Os sindicalistas passam a alcunhá-lo de racha sindicatos[5].

Fevereiro de 1913

·Sai o primeiro número da revista teórica anarquista Terra Livre, em 13 de Fevereiro. Entre os colaboradores, destaca-se Pinto Quartim. Proclama no primeiro editorial: a política deixará de estar monopolizada em poderes e passará a ser exercida directamente pelos indivíduos como uma das suas funções sociais. Deixa de ser poder e passa a ser função … Terra Livre quer pois dizer – terra de libertados e de libertários. A revista será proibida em Julho seguinte[6].

·Lei de reforma da contribuição predial, em 15 de Fevereiro. Novo código em 5 de Junho. Forte descontentamento dos proprietários rurais[7].

·Moção evolucionista sobre a amnistia é derrotada por 65-28[8].

Março de 1913

·Ofício colectivo dos bispos, dirigido a Manuel de Arriaga, protestando contra a Lei da Separação (15 de Março)[9].

·Lei travão sobre a contenção de despesas, em 15 de Março[10].

·Greve das peixeiras de Lisboa e assalto à Juventude Católica

Abril de 1913

·II Congresso Nacional dos Trabalhadores Rurais em Évora nos dias 5, 6 e 7 de Abril. Curiosa a intervenção de Lucinda Tavares em defesa da educação operária: educar é revolucionar, porque onde há instrução, a luta é mais intensa. Do mesmo modo assume a luta de classes: um facto da natureza, os trabalhadores vivem-na mais pelo sentimento do que pelo raciocínio[11].

·Congresso do partido democrático em 7 de Abril de 1913. Afonso Costa reeleito, tendo como rival Alfredo Magalhães.

·Comemorações do primeiro aniversário da Lei da Separação em 26 de Abril (sábado).

·Revolta radical em 27 de Abril (domingo). O primeiro golpe organizado por republicanos contra um governo republicano[12]. Manifestação de sócios da Federação Radical Republicana, liderada pelo advogado Mário Monteiro, e da Sociedade nº 1 de Instrução Militar, diante do quartel da Infantaria 5, cerca da 2 horas. Saem do quartel o capitão Lima Dias e o tenente Dinis, com meia centena de soldados que juntamente com os civis manifestantes percorrem outros quartéis à procura de adesões. Os líderes militares são presos, juantamente com os oficiais da marinha capitão de mar e guerra Álvaro Soares Andrea e João Cerejo e o general Fausto Guedes[13].

·Na sequência do golpe são suspensos os jornais O Dia, A Nação, O Intransigente, O Socialista e O Sindicalista. O jornal O Mundo logo havia culpado os monárquicos do sucedido.

·No dia 28, Brito Camacho chama bandidos aos revoltosos. Machado Santos logo responde que os deputados devem as carteiras a muitos dos revoltosos. Diz também que o golpe resultou de um plano traçado pelos democráticos durante o governo de Duarte Leite. Foi também preso o civil Mário Monteiro. Alguns dos detidos eram antigos apoiantes e organizadores das manifestações de rua dos democráticos[14].

·No dia 29, tiroteio em Lisboa, depois de disparos do cruzador S. Rafael. O governo de Afonso Costa, convertido à moderação sofre os efeitos do radicalismo da canalha que antes açulara. Fala-se em afastar Costa, Camacho e Almeida, com a criação de uma comuna  em Lisboa, a ser presidida por Magalhães Lima. O governo desmatela o regimento de Infantaria 5, dispersando os sargentos pela província, depacha cem revoltosos para os Açores, afasta os navios de guerra do Tejo e pensa em mudar o arsenal para a Margueira. Teme, sobretudo, o quartel dos marinheiros em Alcântara comandado pelo deputado Ladislau Parreira[15].

·Por acção do governador civil de Lisboa, Daniel Rodrigues, e com o apoio do seu irmão, Rodrigo Rodrigues, então ministro do interior, começa a estruturar-se a chamada formiga branca, uma rede de espionagem interna. O modelo foi desde logo denunciado por Machado Santos nas páginas de O Intransigente[16].

Maio de 1913

·Greve em Vila Boim no dia 8 de Maio. Presos vários sindicalistas[17].

·Lei sobre as rendas de casa em 13 de Maio.

·Comício contra a carestia da vida em Lisboa, no dia 25 de Maio[18].

·Greve dos soldadores de Olhão com assalto a fábricas.

Junho de 1913

·Lançamento de bombas sobre o cortejo de homenagem a Camões. Um grupo de sindicalistas com bandeiras negras quis incorporar-se no cortejo. Explosão de bomba na rua Carmo (um morto e 29 feridos). Represálias das autoridades contra os sindicalistas. Implicados os dirigentes da revista Terra Livre. Pinto Quartim parte para o exílio no Brasil (10 de Junho)[19].

·Afonso Costa discursa na Câmara dos Deputados sobre a reforma eleitoral: se quiserem fazer eleições com analfabetos, façam-nas os senhores, porque eu quero fazê-las com votos conscientes… Indivíduos que não sabem os confins da sua paróquia, que não têm ideias nítidas e exactas de coisa nenhuma, nem de nenhuma pessoa, não devem ir à urna, para não se dizer que foi com carneiros que confirmámos a repúblicai[20].

·Lei dos adidos de 14 de Junho[21].

·Governo dissolve a casa sindical no dia 15. 100 sindicalistas presos, entre os quais Carlos Rates. Os presos, no final do ano, serão transferidos do Limoeiro para o forte de Elvas. As medidas afrouxam a acção de organização do movimento anarco-sindicalista e Afonso Costa, à maneira de D. Manuel II, tenta apoiar a organização do Partido Socialista[22].

·Lei de 21 de Junho remodela o sistema monetário.

·No Senado, João de Freitas acusa Afonso Costa de não actuar no escândalo de terrenos do Estado em S. Tomé serem ocupados por particulares. Quando outro senador avança para ele puxa da pistola e ameaça dar-lhe um tiro (25 de Junho)

·Criada a Faculdade de Estudos Sociais e Direito em Lisboa pela lei orçamental (30 de Junho)[23]

·Conflitos estudantis em Coimbra.

Julho de 1913

·Novos preços e novos tipos de pão, alterando-se o modelo até então vigente, proveniente da lei de Elvino de Brito (3 de Julho)

·Nova legislação eleitoral em 3 de Julho, o chamado código eleitoral de Afonso Costa.

·Recriado o ministério da instrução pública (7 de Julho). Regulamento em 27 de Novembro[24].

·Lei de 9 de Julho estabelece novo modelo de organização dos serviços agrícolas ( António Maria da Silva) que vai vigorar até 1918, com 3 circunscrições agrícolas.

·Apelo do Episcopado aos Católicos Portugueses, o chamado apelo de Santarém, convidando os católicos a agremiarem-se numa União Católica (10 de Julho)[25].

·Extinta a embaixada de Portugal no Vaticano (10 de Julho).

·Tentativas de assalto a vários quartéis de Lisboa, com lançamento de bombas, no dia 20 de Julho. Implicados os monárquicos, embora a acção tenha sido de radicais. O governo manda fechar a sociedade carbonária Aurora Redentora (20 de Julho)[26].

·Bombas abandonadas na via pública geram várias explosões, morrendo várias crianças (22 de Julho)[27].

·Publicação de legislação sobre acidentes de trabalho (24 de Julho).

·Proibida a revista anarquista Terra Livre[28].

Agosto de 1913

·Padre Amadeu de Vasconcelos (Mariotte) lança em Paris Os meus Cadernos (Agosto)

·Acordo secreto entre a Alemanha e o Reino Unido sobre a partilha das possessões coloniais portuguesas (Agosto)

·Alterado o artigo 149º do Código Civil, a chamada lei das binubas (15 de Agosto)

·Greve dos tecelões em Lisboa. Bombas no Porto.

Setembro de 1913

·Pelo decreto no 118 de 4 de Setembro, organização do funcionamento das Faculdades de Direito, conforme as propostas de uma comissão integrada por Guilherme Moreira, Marnoco e Souza, Machado Vilela, José Alberto dos Reis e Lobo d’Ávila Lima[29].

·Casamento de D. Manuel II com D. Augusta Vitória de Hohenzollern. Monteiro Milhões em Lisboa organiza subscrição para um presente de casamento (4 de Setembro).

Outubro de 1913

·Fundação das escolas móveis (3 de Outubro).

·Conspiração em 21 de Outubro de 1913. Destruído em Lisboa o Museu da Revolução ao Quelhas. Dirigida em Lisboa por João de Azevedo Coutinho e no Porto por Jorge Camacho. Colabora o director de O Dia, Moreira de Almeida. Participam também carbonários e sindicalistas. A primeira outubrada. Freitas Ribeiro impede que os marinheiros de Alcântara alinhem no golpe e prende os cabecilhas. Corte de linhas telegráficas e breves levantamentos em Viseu e Viana do Castelo. O governo tinha um infiltrado entre os conspiradores, Homero de Lencastre[30].

·Assalto aos jornais monárquicos O Dia e A Nação por membros da formiga branca. Prendem o empresário Monteiro Milhões. Grupos afectos a Machado Santos, a chamada formiga preta impede o assalto a O Intransigente. Nas estradas há barragens de comités de vigilância ao serviço do governo[31].

·A outubrada impende que se consume a Liga das Oposições, com a junção do grupo de Brito Camacho a António José de Almeida e Machado Santos, e onde alinhavam o jornal O Rebate, influenciado por Alfredo de Magalhães[32].

·Por decreto de 23 de Outubro, o professor de direito Lobo de Ávila Lima é demitido[33].

·Tumultos em Paço do Bispo no mês de Outuro, provocados por sindicalistas.

Novembro de 1913

·Constituído o júri de admissão de professores para a Faculdade de Estudos Sociais e Direito em 9 de Novembro. Admitidos os candidatos Albino Vieira da Rocha, Fernando Emídio da Silva, Ludgero Soares das Neves, António Abranches Ferrão e J. M. Vilhena Barbosa de Magalhães. Excluído Alfredo Pimenta.

·Afonso Costa declara, em 13 de Novembro, ao embaixador britânico que as finanças tinham sido ordenadas, que estavam a ser construídos caminhos de ferro e que já havia ideias para o desenvolvimento das colónias[34].

·Eleições suplementares em 16 de Novembro. O comité organizador dos democráticos tinha a dirigi-lo Artur Costa, Rodrigo Rodrigues e Henrique Cardoso[35].

·Eleições para os corpos administrativos em 30 de Novembro. Os unionistas acusam os democráticos de colaboração com caciques monárquicos disfarçados de vermelho[36].

·Greve dos metalúrgicos no Porto e dos mecânicos na Madeira.

Dezembro de 1913

·Partido Socialista adere à II Internacional (14 de Dezembro). Vivia na altura em idílio com os democráticos que pretendiam usá-lo para contrabalançar a dominante anarco-sindicalista do movimento operário.

·Em 15 de Dezembro, o conselho da Faculdade de Estudos Sociais e Direito de Lisboa escolhe o ministro das finanças Afonso Costa para director. Escolha confirmada por decreto de 20 de Dezembro. Quando recebe os colegas no seu gabinete ministerial, Costa sugere o nome de Basílio Teles para a área das ciências políticas, dado que já estão providas as vagas de ciências económicas. Nesse ano lectivo inicial, há 68 alunos inscritos. Artur Montenegro assume as funções de director interino. Em Janeiro de 1915, Afonso Costa pede licença, ficando a substitui-lo Barbosa de Magalhães. Ainda preside a uma reunião do Conselho em Novembro, mas logo passa a presidente do ministério[37].

Janeiro de 1914

·O senador João de Freitas, em 9 de Janeiro, ataca pessoalmente Afonso Costa, acusando-o de favorecimentos a antigos clientes do escritório. Democráticos, em protesto, saem da sala[38].

·Um dos dois deputados socialistas das eleições suplementares de 1913 passa para os democráticos. Dos independentes, que eram 19, passam 11[39]

·Começa a greve dos ferroviários, com sabotagens, em 14 de Janeiro[40]. Dura até 23 de Janeiro e envolve cerca de sete mil trabalhadores. Encerramento do sindicato ferroviários e tumultos no Rossio, com mortos e feridos. Lisboa chegou a estar isolada da província[41].

·Afonso Costa apresenta orçamento em 14 de Janeiro[42].

·Brito Camacho requer que a revisão da Lei da Separação entre em imediata discussão (16 de Janeiro)[43].

·Senado vota moção contra o governo, com apoio de unionistas e evolucionistas (21 de Janeiro). Havia sido nomeado um governador da Guiné, sem se ouvir o Senado, violando ao artigo 25º da Constituição[44].

·Manuel de Arriaga, em 24 de Janeiro, apresenta aos três principais partidos uma carta programa, pedindo trégua nas lutas políticas e a constituição de um governo extrapartidário, com eleições gerais depois da acalmação[45]. Recebe apoio dos unionistas (em 31 de Janeiro) e dos evolucionistas (em 1 de Fevereiro). Oposição de Afonso Costa (4 de Fevereiro). Como salienta João Chagas no seu Diário, Arriaga, chamado aos oitenta anos a ser árbitro de conflitos humanos, o humanitarista de 48, o paladino da paz universal, o autor de “Harmonias Sociais”! O que vai ele fazer? O que fazem todos os portugueses em presença de conflitos – pedir ordem. A palavra ordem é a expressão máxima da sisudez nacional[46]. Mas em Portugal só há ordem e paz quando não se levantam conflitos de ideias. Quando estes surgem, tudo grita e ninguém se entende…[47]

·Governo pede a demissão em carta datada de 25 de Janeiro, mas no dia 26 pede uma moção de confiança ao Congresso que é aprovada por 114-93. Protesto dos deputados e senadores da oposição que abandonam a sala[48].

·Em 26 de Janeiro, à noite, Afonso Costa promove cortejo de apoio aos democráticos, com foguetes, vivório, filarmónicas e um balão à veneziana; a manifestação é dispersa por oposicionistas ao tabefe, no Rossio. Bandos de formigas pretas chegam a cercar o jornal O Mundo.

Fevereiro de 1914

·Em 4 de Fevereiro, manifestação oposicionista nocturna, do Largo de Camões para Belém, organizada por Machado Santos, Júlio Martins, Carlos da Maia e Rocha Martins exige a queda de Afonso Costa, amnistia para todos os presos políticos e reabertura das associações sindicais encerradas. Entram na manifestação sindicalistas armados de archotes, a partir da Avenida 24 de Julho. Almeida e Camacho recusam participar e os comerciantes de Lisboa não fecharam as portas[49].


 

[1] Fernando Tomás Rosa Gouveia, Orgânica Governamental…, p. 21; Jesus Pabón, A Revolução Portuguesa, p. 171.

[2] Rui Ramos, p. 466.

[3] Rui Ramos, p. 467.

[4] David Ferreira, I, pp. 98-99.

[5] David Ferreira, I, p. 100; Rui Ramos, p. 469.

[6] José Pacheco Pereira, p. 79.

[7] Rui Ramos, p. 467.

[8] Rui Ramos, p. 467.

[9] Manuel Braga da Cruz, pp. 259-260.

[10] Rui Ramos, p. 467.

[11] Ventura, pp. 109 ss.

[12] Rui Ramos, p. 467.

[13] David Ferreira, I, pp. 102-103.

[14] Rui Ramos, p. 468.

[15] Rui Ramos, p. 468.

[16] Rui Ramos, p. 469.

[17] Ventura, p. 157.

[18] Rui Ramos, p. 469.

[19] David Ferreira, I, p. 107; José Pacheco Pereira, p. 79.

[20] Oliveira Marques, As Estruturas…, p. 594.

[21] Rui Ramos, p. 467.

[22] Rui Ramos, p. 469.

[23] Marcello Caetano, Apontamentos…, p. 9.

[24] David Ferreira, I, p. 109.

[25] Manuel Braga da Cruz, pp. 260 ss.

[26] David Ferreira, I, p. 107; Rui Ramos, pp. 468-469.

[27] David Ferreira, I, p. 107.

[28] José Pacheco Pereira, p. 79.

[29] Marcello Caetano, Apontamentos…, pp. 10 ss.

[30] Rui Ramos, pp. 470-471.

[31] Rui Ramos, p. 471.

[32] Rui Ramos, p. 470.

[33] Marcello Caetano, Apontamentos…, p. 15.

[34] Rui Ramos, p. 467.

[35] David Ferreira, I, pp. 110-111.

[36] David Ferreira, I, pp. 112-113; Rui Ramos, p. 472.

[37] Marcello Caetano, pp. 20-21 e p. 34.

[38] David Ferreira, I, p. 126; Rui Ramos, p. 473.

[39] David Ferreira, I, p. 133.

[40] David Ferreira, I, p. 126.

[41] Damião Peres, p. 21; Rui Ramos, p. 473.

[42] David Ferreira, I, p. 113.

[43] David Ferreira, I, p. 117.

[44] Jesus Pabón, p. 177.

[45] David Ferreira, I, p. 140; Jesus Pabón, p. 177.

[46] João Chagas, Diário, I, p. 17.

[47] Idem, p. 18.

[48] Rui Ramos, p. 474.

[49] Rui Ramos, p. 474; Jesus Pabón, p. 178, n. 48.

Projecto CRiPE- Centro de Estudos em Relações Internacionais, Ciência Política e Estratégia. © José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: 31-03-2009