1918 O sidonismo: a República Nova com um Presidente-Rei 1919  Da Traulitânia e Monsanto ao regresso da República Velha

Governo nº 69 de Tamagnini Barbosa (35 dias, desde 23 de Dezembro). O presidente do ministério acumula o interior e mantêm-se alguns dos anteriores titulares: nos estrangeiros, Egas Moniz, ausente em Paris na Conferência de Paz, é logo substituído, interinamente, por Azevedo Neves; no comércio, José Alberto Pereira de Azevedo Neves; na instrução, Alfredo Magalhães; no trabalho (Forbes Bessa); na agricultura (Fernandes de Oliveira); e nos abastecimentos (Capitão José da Cruz Azevedo), adepto do republicanismo. Como salienta Jesus Pabón, este governo, que a todos quis agradar, não agradará a ninguém.

  Tamagniniö será grão-mestre da maçonaria do rito escocês em 1933, organização a que pertence desde 1911. Sucessivamente, evolucionista, camachista, centrista, sidonista, liberal e nacionalista. Revela o trajecto típico do republicano não alinhado com o afonsismo e o situacionismo da I República. Sucede a Sidónio, depois deste ser assassinado, mas não consegue, como líder dessa transição, assegurar a permanência institucional dos sidonistas depois de 1919. Nasce em Macau, onde é educado pelos jesuítas. Oficial do exército. Candidato a presidente da república, derrotado em 1911, quando se apresenta como esquerdista contra o PRP. Circula entre os apoiantes de Brito Camacho. Membro do Partido Centrista Republicano que em 1917 se destacou dos evolucionistas (companheiro de Egas Moniz e Malva do Vale). Um dos conspiradores do dezembrismo, por banda dos camachistas. Abandona os unionistas quando estes saem do governo de Sidónio.

  Governo anterior

Governo posterior  

 

Governo de Tamagnini Barbosa

De 23 de Dezembro de 1918 a 27 de Janeiro de 1919

35 dias

14º governo republicano[1]

 

·Presidente do minstério, Tamagnini Barbosa acumula o interior.

Mantêm-se os anteriores titulares

·Dos estrangeiros, Egas Moniz, ausente em Paris na Conferência de Paz e logo substituído, interinamente, por Azevedo Neves.

·No comércio, José Alberto Pereira de Azevedo Neves.

·Na instrução, Alfredo Magalhães.

·No trabalho (Forbes Bessa),

·Na agricultura (Fernandes de Oliveira) e

·Nos abastecimentos (Capitão José da Cruz Azevedo), adepto do republicanismo.

Novos ministros:

·Afonso de Melo Pinto Veloso (justiça);

·Capitão Ventura Malheiro Reimão (finanças);

·Coronel Luís da Cunha Corte Real (guerra);

·Capitão de fragata José Dionísio Carneiro de Sousa e Faro (marinha);

·Coronel Alfredo Baptista Coelho (colónias)

Dezembro de 1918

·Logo após a morte de Sidónio, reuniões no governo civil e em Belém, participando inúmeras personalidades apoiantes do sidonismo, de António Sardinha e Aires de Ornelas a Vasconcelos e Sá.

·Em 15 de Dezembro, o governo investe-se na totalidade do poder executivo e elege para presidente Canto e Castro. Decretado luto geral de 30 dias. Opta-se pelo regresso pleno à Constituição de 1911, revogando-se o decreto nº 3 997 de 30 de Março.

·No dia 16, regressa-se à designação de ministérios, enquanto no parlamento sidonista Canto e Castro é eleito Presidente da República, por 137 votos dos 138 votantes, dada a abstenção dos deputados monárquicos. Estabelecera-se também o regresso ao modelo da eleição presidencial da Constituição de 1911[2]. Nesse dia, o deputado Botelho Moniz pede a restauração da pena de morte. Conforme Cunha Leal, então deputado, estava terminada esta primeira fase de agonia do sidonismo, sem que, na realidade, o tivessem feito sair do estado de coma, em que o deixara prostrado a morte do seu progenitor[3]

·Junta Militar do Norte faz uma proclamação em 18 de Dezembro: se não for escutada a voz implorante, a Junta assumirá toda a acção governativa, com todas as responsabilidades que lhe são inerentes. As Juntas Militares são chefiadas pelo coronel Silva  Ramos no Porto e pelo coronel João de Almeida em Lisboa.

·Canto e Castro, no dia 19, convida Nunes da Ponte, republicano e católico, antigo ministro de Pimenta de Castro, a formar governo, mas este desiste. Unionistas aproximam-se do presidente e aprovam uma moção nesse sentido[4].

·Artigo de Pereira e Sousa no jornal Pátria: o nosso dever de portugueses é colocarmo-nos ao lado de todos os que querem um governo neutro e forte que possa fazer administração e meter tudo isto nos eixos, como se costuma dizer.

·Funerais de Sidónio nos Jerónimos em 21 de Dezembro.

·O governo vive a pressão das juntas militares monárquicas e das reacções político-militares republicanas. Como salienta Cunha Leal, a congregação sidonista do republicanismo moderado com o religiosismo católico veio a soçobrar, já depois da sua morte, por força do irridentismo monarquizante[5]

·Em 18 de Dezembro, juntas militares monárquicas, com Silva Ramos, Carvalho da Silva, Sollari Alegro, Cunha Prelada e Aires Abreu, lançam ultimato ao presidente, para este constituir um ministério de força. Cruz Azevedo põe em causa a lealdade do então ministro da guerra, Álvaro de Mendonça[6].

·Em 23 de Dezembro Tamagnini constitui governo, tentando o meio termo. Nesse mesmo dia João de Almeida tenta um pronunciamento militar monárquico, levando para a serra de Monsanto vários regimentos. Unidades de infantaria, comandadas pelo tenente-coronel Pimenta de Castro e de engenharia não alinham.

·Tropas da Junta ocupam o Parque Eduardo VII, em 26 de Dezembro e avistam-se com Canto e Castro e Tamagnini. João de Almeida é convencido a recuar pelo general Garcia Rosado[7].

Janeiro de 1919

·Membros da Junta Militar do Norte conferenciam com Canto e Castro no dia 2 de Janeiro. Pedem que Egas Moniz e Afonso de Melo abandonem o governo. No dia seguinte já esta Junta faz nova proclamação do país.

·Manifestação unitária de sindicalistas e socialistas, apoiada por republicanos contra as movimentações monárquicas (5 de Janeiro).

·Confrontos entre militares monárquicos e republicanos em Vila Real. Coronel Ribeiro de Carvalho, republicano nomeado por Tamagnini, enfrenta uma coluna do major Alberto Margaride, enviado pela Junta do Norte (6 de Janeiro)[8].

Em 7 de Janeiro de 1919:

Francisco Joaquim Fernandes, monárquico, na justiça, substitui Afonso de Melo;

·General José Alberto da Silva Basto, na guerra;

·Capitão Eurico Máximo Cameira Coelho e Sousa, no trabalho, substitui Forbes Bessa.

·Egas Moniz mantém-se nos estrangeiros, de novo substituído interinamente por Azevedo Neves.

·Tamagnini Barbosa cede à pressão das juntas monárquicas e afasta do governo as pessoas mais ligadas a Egas Moniz, nomeadamente Afonso de Melo Pinto Veloso, coronel  Corte Real e Forbes Bessa .

·O novo governo faz a sua apresentação parlamentar em 8 de Janeiro, sendo criticado por Cunha Leal e, no dia 9, no Senado, por Machado Santos. Denunciam a entrega do regime aos monárquicos[9].

·A partir do dia 10, eclodem movimentos revolucionários em Lisboa, Covilhã e Santarém, sob o comando de uma junta revolucionária constituída por Álvaro de Castro (então democrático que reptia o modelo insurrecional de 14 de Maio de 1915), Francisco Couceiro da Costa (evolucionista), António Granjo (evolucionista), Jaime de Morais (deputado dezembrista), Augusto Dias da Silva (socialista) e Cunha Leal (deputado dezembrista). Apoiam a junta os militares Ramos de Miranda, Jaime de Figueiredo, capitão Tribolet e António Maria Baptista. Em Lisboa revolta-se o tenente Prestes Salgueiro, até então membro do gabinete do ministro da marinha[10].

·No dia 12 começa a revolta de Santarém com Cunha Leal. Junta declara querer acabar com a influência monárquica no poder, depurar o exército, defender em todos os campos e inalteravelmente a República. Defendem a nomeação de um governo presidido por Nunes da Ponte, com o general Tamagnini de Abreu a ministro da guerra. Mas este antigo comandante do CEP chefiava as tropas governamentais que se dirigiam para Santarém.

·Nesse mesmo dia 12, o governo, em nota oficiosa refere a existência de prenúncios de um movimento revolucionário capitaneado por democratas e secundado por agentes bolchevistas.

·No dia 16 os revoltosos de Santarém rendem-se incondicionalmente, graças à acção da coluna negra vinda da Covilhã e comandada pelo tenente Teófilo Duarte, governador de Cabo Verde. Esta coluna impediu que a cidade fosse tomada pelas tropas das Juntas, comandadas por Silva Ramos, que tencionava pedir a Paiva Couceiro que encabeçasse o movimento.

·Em 18 de Janeiro começa a conferência de paz de Versalhes, estando Portugal representado por Egas Moniz.

·Em 19 de Janeiro, Paiva Couceiro restaura a monarquia no Porto[11].

·Em 21 de Janeiro, manifestação de republicanos em Lisboa diante do ministério do interior.

·Em 22 de Janeiro, voluntários civis concentram-se no Campo Pequeno para receberem armas e instrução militar. Destaca-se a acção do major de infantaria André Brun. São mobilizados antigos apoiantes civis do sidonismo, como Manuel Inácio Ferraz[12]

·Em 23 de Janeiro, revolta monárquica de Monsanto em Lisboa. No dia 22 à noite, tropas pró-monárquicas começam a deslocar-se para Monsanto. Assume o comando o próprio Aires de Ornelas, com o apoio do tenente-coronel Álvaro de Mendonça. As tropas republicanas pró-governamentais são comandadas pelo tenente-coronel Vieira da Rocha. Os monárquicos resistem até às 17 horas do dia 24. A escalada de Monsanto ficou como uma data histórica e para mim superior à própria proclamação da República (Magalhães Lima)[13].

·Em 26 de Janeiro recomeça a publicar-se O Mundo e o governo apresenta a demissão. O jornal logo comunica que o partido democrático defende uma concentração republicana.


 

[1] Rui Ramos, p. 620; Fernando Tomás Rosa Gouveia, Orgânica Governamental…, p. 33 (17º ministério 1º do mandato presidencial de Canto e Castro, até 7 de Janeiro de 1919; 18º ministério, o 2º do mandato presidencial de Canto e Castro, de 7 a 27 de Janeiro de 1919).

[2] Damião Peres, p. 203.

[3] II, p. 139.

[4] Damião Peres, p. 204.

[5] II, p. 135.

[6] Damião Peres, p. 205.

[7] Damião Peres, p. 206.

[8] Damião Peres, p. 206.

[9] Damião Peres, p. 207.

[10] Damião Peres, p. 207.

[11] Damião Peres, p. 209.

[12] Jesus Pabón, p. 369.

[13] Magalhães Lima, Episódios da Minha Vida, I, p. 267.

Projecto CRiPE- Centro de Estudos em Relações Internacionais, Ciência Política e Estratégia. © José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: 31-03-2009