Governo de Saldanha  (1835)

1835 Devoristas, fusão, godos e vândalos

Governo nº 7 de Saldanha (176 dias, desde 27 de Maio, pouco mais de cinco meses). O chamado governo dos impossíveis sucedendo ao ministério devorista, embora os chamorros tenham tentado um governo presidido por Agostinho José Freire sem palmelistas. Conforme a opinião de Oliveira Martins, Saldanha aparece, então, como um general sem exército, sucedendo a um Palmela , dotado de uma clientela firme.

Saldanha, um general sem exército, um homem sem ideias, os partidos e programas são para ele ocasiões, e nada mais (Oliveira Martins), acumula a presidência e a guerra. Há dois elementos da esquerda: Francisco António Campos, na fazenda, e o Marquês de Loulé, na marinha. Dois ministros são considerados conservadores: João de Sousa Pinto de Magalhães (1780-1865) no reino e o Duque de Palmela, nos estrangeiros. Sem facção, apenas Manuel António de Carvalho, o primeiro barão de Chanceleiros, na justiça.

O governo dos impossíveis – A feição do ministério é muito difícil de descrever. O Presidente do Conselho é um dos chefes da oposição que ele tinha abandonado pelo lugar de Enviado Extraordinário em Paris, sem dar a menor explicação; Francisco António de Campos e o Marquês de Loulé igualmente chefes da mesma oposição; o Duque de Palmela um dos membros mais salientes da oposição chamorra; Pinto de Magalhães e Manuel António de Carvalho sem cor política pronunciada... (Marquês de Fronteira sobre o governo de Saldanha).

Saldanha escreve a Silva Carvalho: se o Agostinho entrar, toda a direita será oposição. No dia 10, Terceira, em carta a Silva Carvalho salienta: é preciso que V. Exª entre e que o marquês de Saldanha fique (11 de Julho).

Remodelações. Em 15 de Julho: Rodrigo da Fonseca, novo ministro do reino. João de Sousa Pinto de Magalhães passa para a justiça. José da Silva Carvalho regressa à fazenda, em lugar de Francisco António Campos.

Em 25 de Julho: António Aluísio Jervis de Atouguia substitui Loulé na marinha.

O ministério dos godos – Dá-se uma mudança radical no governo, com a entrada de Rodrigo da Fonseca, segundo uma combinação feita entre Silva Carvalho e Saldanha. O governo deixa de ser o ministério dos impossíveis e passa a ser chamado o ministério do rei dos godos ou ministério do último rei godo, aludindo-se ao nome de Rodrigo, então com 43 anos. O jornal da oposição O Nacional publica então um famoso artigo sobre as 51 caras de Saldanha.

Pressão de Mendizábal e Walden – O enviado do novo governo a Londres, Jervis de Atouguia, amigo pessoal de Saldanha, regressou com o recado de Mendizábal, no sentido da substituição de Francisco António de Campos. Saem imediatamente Campos e Manuel António de Carvalho. Dez dias depois é a vez de Loulé. O governo ficou puramente chamorro. Em todo o processo é marcante a acção do embaixador britânico Howard de Walden, bastante procurado por Saldanha e Silva Carvalho.

Confusão na oposição. Mas, entre os deputados oposicionistas também reina grande confusão, com Leonel, Passos Manuel e Barjona a entrarem em conflito. Ao facto não são estranhas as manobras de António Dias de Oliveira, então espião de Silva Carvalho.

A nova elite – Uma elite se ergueu sobre os escombros das ruínas provocadas pela extinção dos conventos e por sobre a miséria dos seus ex-moradores. Foram os barões de Garrett; os nobres antigos e os enobrecidos recentes, não hostis ao regime; e os não nobres também, favorecidos pela sorte ou pelo dinheiro ou pela política ou pelo que se lhe quiser chamar. Foi também a classe política: o grupo daqueles que, instalados no poder ou perto dele, mais facilmente se puderam socorrer dos meios e das condições necessárias para acederem a uma fatia razoável na partilha dos prédios leiloados ditos nacionais. Se já eram privilegiados antes, tornaram-se poderosos agora (A Martins da Silva).

Política de empregadagem – Emitido decreto sobre a reorganização administrativa de 18 de Julho de 1835 que reforça o poder central, habilmente manobrado por Rodrigo da Fonseca que instaura uma política de empregadagem e de distribuição de mercês. Diz na altura que postos todos a comer à mesma mesa depressa passariam de convivas satisfeitos a amigos dedicados. Desencadeada uma política de criação de barões, como os de Moncorvo, Samodães, Bonfim, Sabrosa, Setúbal, Ruivós, Bóbeda, Leiria. Como então dizia Garrett, foge, cão, que te fazem barão. Para onde? Se me fazem visconde...

  Governo anterior

Governo posterior  

Governo de Saldanha

Desde 27 de Maio de 1835 a 18 de Novembro de 1835

· Saldanha acumula a guerra.

Dois elementos da esquerda:

· Francisco António de Campos na fazenda (até 15 de Julho de 1835)

·Marquês de Loulé na marinha (até 25 de Julho de 1835).

Dois conservadores:

· João de Sousa Pinto de Magalhães no reino (até 15 de Julho de 1835)

·Duque de Palmela nos estrangeiros.

Sem facção, apenas:

· Manuel António de Carvalho, o primeiro barão de Chanceleiros, na justiça (até 15 de Julho de 1835).

·O novo governo surge depois dos tumultos radicais de 28 a 30 de Março. Nasce, sobretudo, das intrigas palacianas.

·Era o chamado governo dos impossíveis sucedendo ao ministério devorista. Os chamorros tentaram um governo presidido por Agostinho José Freire sem palmelistas. Conforme a opinião de Oliveira Martins, Saldanha aparece então como um general sem exército, sucedendo a um Palmela, dotado de uma clientela firme. Os opositores chamavam então a Palmela, o ministro dos estrangeiros em Portugal.

·Segundo Fronteira, que foi com Saldanha convidar os novos ministros, a feição do ministério é muito difícil de descrever. O Presidente do Conselho era um dos chefes da oposição que ele tinha abandonado  pelo lugar de Enviado Extraordinário em Paris, sem dar a menor explicação; Francisco António de Campos e o Marquês de Loulé igaulmente chefes da mesma oposição; o Duque de Palmela um dos membros mais salientes da oposição chamorra; Pinto de Magalhães e Manuel António de Carvalho sem cor política pronunciada[1]

·Palmela aceitou o convite de Saldanha na condição de Terceira ser nomeado comandante em chefe do exército.

· Saldanha escreve a Silva Carvalho em 11 de Julho: se o Agostinho entrar, toda a direita será oposição. No dia 10, Terceira, em carta a Silva Carvalho salienta: é preciso que V. Exª entre e que o marquês de Saldanha fique.  

Em 15 de Julho de 1835:

· Rodrigo da Fonseca, novo ministro do reino.

·João de Sousa Pinto de Magalhães passa para a justiça.

· Silva Carvalho regressa à fazenda[2].

·Em 15 de Julho dá-se uma mudança radical no governo, com a entrada de Rodrigo da Fonseca, segundo uma combinação feita entre Silva Carvalho e Saldanha. O governo deixa de ser o ministério dos impossíveis e passa a ser chamado como o ministério do rei dos godos ou ministério do último rei godo, aludindo-se ao nome de Rodrigo, então com 43 anos. Como refere Barbosa Colen, finda o simulacro da fusão[3].

·O jornal da oposição O Nacional publica então um famoso artigo sobre as 51 caras de Saldanha. Mas, entre os deputados oposicionistas reina grande confusão, com Leonel, Passos Manuel e Barjona a entrarem em conflito. Ao facto não são estranhas as manobras de António Dias de Oliveira, então espião de Silva Carvalho[4].

·O enviado do novo governo a Londres, Jervis de Atouguia, amigo pessoal de Saldanha, regressou com o recado de Mendizabal, no sentido da substituição de Francisco António de Campos. Saem imediatamente Campos e Manuel António de Carvalho. Dez dias depois era a vez de Loulé. O governo ficou puramente chamorro[5].

·Em todo o processo foi marcante a acção do embaixador britânico Howard de Walden, bastante procurado  por Saldanha e Silva Carvalho.

·Em 18 de Julho, decreto sobre a reorganização administrativa de Rodrigo da Fonseca, com a criação de 17 distritos.Cabe também a este ministro a organização do Instituto de Ciências Físicas e Matemáticas, futura Escola Politécnica de Lisboa, numa altura em que também se pensou mudar a universidade para a capital.

·Gera-se também a chamada política de empregadagem[6]. Rodrigo da Fonseca dizia então: postos todos a comer à mesa depressa passariam de convivas satisfeitos a amigos dedicados. Segundo os versos de Brás Tisana: Uma nação de empregados/ É Portugal? certamente/ Até D. Miguel do trono/ De Maria … é pretendente. É então que se concretiza o foge cão que te fazem barão… para onde, se me fazem visconde?. É longa a lista de mercês, abrangendo os novos títulos de Moncorvo, Samodães, Sabrosa, Setúbal, Ruivós, Bóbeda, Leiria[7].

·Gomes de Castro é enviado a Londres, ao serviço de Silva Carvalho. O juiz da relação do Porto, António Dias de Oliveira continua o serviço de espionagem e intriga ao serviço dos chamorros, atacando Palmela e João de Sousa Pinto de Magalhães. O terceiro agente de Silva Carvalho era o visconde de Carreira, então embaixador em Madrid.

· Saldanha tem como aliado Jervis de Atouguia, ambos utilizando o barão da Ribeira Sabrosa.

·Palmela tem como principal aliado João de Sousa Pinto Magalhães.

Em 25 de Julho de 1835:

· António Aluísio Jervis de Atouguia substitui Loulé  na marinha.

·Em Agosto de 1835 deu-se uma ruptura entre Sá da Bandeira e Saldanha, O primeiro acusa o segundo de ter fugido em 1828 e desafia-o para um duelo.

·Em 15 de Setembro, Juan Alvarez Mendizabal no governo espanhol. Era pessoa activa, insaciável, metediça … um político e um fanático liberal. Como bom judeu, contudo, sabia aliar o entusiasmo ao cálculo, sem comprometer a fortuna pelas ideias[8]

·No dia 1 de Outubro, fornada de 15 pares. Só um se assume como da oposição. O governo não precisava deles para obter maioria, mas fê-lo para bsequiar amigos e pagar serviços, como refere Fronteira[9].

·Decreto de 9 de Outubro de 1835 manda proceder a eleições suplementares para a Câmar dos Deputados e à eleição simultânea das juntas gerais de distrito. Há uma vigorosa campanha da oposição, com um novo jornal Gazeta de Portugal.

·Decreto sobre a venda das Lezírias em 3 de Novembro de 1835. Protestos de pares e deputados[10]. Nasceu da proposta de uma comissão criada em 15 de Outubro, presidida pelo conde de Farrobo e participada por Mouzinho . A venda será concretizada em Abril de 1835.


 

[1] Parte VI, p. 145

[2] Lavradio, II, p. 80.

[3] Colen, X, p. 95

[4] Colen, X, p. 84

[5] Idem, parte VI, p. 146.

[6] Colen, X, p. 110

[7] Colen, X, p. 134.

[8] Oliveira Martins, I, p. 215.

[9] Parte VI, p. 149

[10] Entre os pares protestantes, Fronteira, Loulé, Taipa, e Sá da Bandeira, em 10 de Novembro. Segue-se, em 14 de Novembro, uma lista de deputados protestantes, destacando-se Passos manuel, João Gualberto de Pina Cabral, Jerónimo Veloso da Cruz, António Dias de Oliveira, José Plácido Campeã e Bernardo Joaquim Pinto.

Projecto CRiPE- Centro de Estudos em Relações Internacionais, Ciência Política e Estratégia. © José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: 31-03-2009