Anticabralismo

1842

Oposição tenta sobreviver – Criada uma ampla coalizão, de setembristas a miguelistas (30 de Março). Segundo palavras do miguelista João de Lemos, de 1847, porque a fracção setembrista, ainda sendo a maioria da minoria, era impotente por si só, apelaram para os realistas que tinham toda a força física filha de um número muito superior, e toda a força moral filha da honradez, apesar de permanecerem na vida privada, sem subirem aos empregos. Para José Miguel Sardica não passa de uma espécie de liga nacional de todos os excluídos do cabralismo...uma continuação da lógica centrista do terceiro partido de Rodrigo.

Contra o absolutismo – Os oposicionistas, segundo comunicado eleitoral, temem a criação de um simulacro de representação nacional, onde só uma facção será representada, repudiando o absolutismo de um só ou de muitos e disfarçado sob qualquer manto.

Contra a monstruosa coligação – Já segundo Fronteira, então cabralista, ainda neste país não apareceu uma associação política mais revolucionária e anárquica que foi essa associação eleitoral permanente, filha da monstruosa coligação, infelizmente composta de sumidades dos três partidos que se coligaram.

1843

Luís Mouzinho de Albuquerque discursa na Câmara dos Deputados, sobre a questão da aprovação do bill de indemnidade. Assume o programa moral de combate ao cabralismo, considerando que o princípio único de toda a Política é a Moral. Finanças, interesses materiais, formas de Governo, tudo é adventício, tudo é subordinado a esse princípio único. Tudo são entidades secundárias, tudo são acessórios do Edifício da existência social. Em nome da independência portuguesa e do carácter nacional, fala em servir o Estado... o Estado, a República... este dever todo moral, todo patriótico, declarando não querer ser subserviente: quem se persuadiria haver neste Reino alguém que pudesse, pela violência, curvar a minha cabeça diante de outra coisa, que não fosse o dever e a Lei? Capital engano. O meu ser frágil poderia ser esmagado, aniquilado; mas nunca foi, nem há-de ser envilecido. Hei-de permanecer, fora e dentro da Câmara, com toda a minha liberdade e independência. (27 de Janeiro. ).

1844

Oposição à procura de pé – José Jorge Loureiro e Luís Mouzinho de Albuquerque tentam organizar uma alternativa política a Costa Cabral, contactando Palmela (Março). Apenas são apoiados por Sá da Bandeira (Agosto). Silva Carvalho e Rodrigo da Fonseca também convidam Palmela para chefe da oposição (Dezembro).

Revolução de Setembro – Na altura já é activo o jornal A Revolução de Setembro, dirigido por António Rodrigues Sampaio, o primeiro a qualificar a situação de cabralismo, caracterizando-o pelo cerceamento das liberdades e pelo abuso de poder.

Protestos institucionais – Protesto dos tribunais contra a usurpação do poder legislativo (14 de Agosto). Encabeça o movimento o Supremo Tribunal de Justiça que, desde a respectiva fundação, uma década antes, é presidido por José da Silva Carvalho. Em Outubro, também várias câmaras municipais pedem a dissolução do governo. São todas demitidas.

Pela resistência legal – Silvestre Pinheiro Ferreira, em 28 de Outubro, apela a uma uma resistência legal que não obedeça à tirania: a obediência dos povos só exprime a vontade da Nação quando não é extorquida pela força; e é extorquida pela força quando se acha em contradição com as cláusulas livremente especificadas nas Procurações dos seus Representantes: essa e incontestavelmente a vontade da Nação, único principio de legitimidade nos Governos sinceramente Constitucionais.

O dinheiro é tudo – O miguelista João de Lemos, em 1847, há-de considerar que o dinheiro é sempre uma alavanca poderosa em toda a parte, mas num país empobrecido o dinheiro é tudo.

1845

Oposições à procura de sistema – Em Janeiro, oposições unificadas editam o jornal Coalizão. Têm reunião geral em 15 de Março em casa do Visconde de Fonte de Arcada, presidida por Luís Mouzinho de Albuquerque, onde também Sá da Bandeira e Manuel da Silva Passos apelam à resistência, visando opor a força moral à força bruta e ao não abandono da urna (15 de Março).

1846

Pelo centro excêntrico! Luís Mouzinho de Albuquerque proclama-se excêntrico a todas as parcialidades, a todas as exclusões, a todas as intolerâncias, mas concêntrico com a nação, defendendo que a nação seja governada para a nação e pela nação. Quer ser governada no interesse de todos, e não no interesse de alguns; quer ser governada pela influência colectiva de todos, e não pela influência exclusiva de uma parcialidade; que o concurso de todas as virtudes, de todos os talentos, de todas as probidades para presidir aos seus destinos, sem distinção de cores, sem exclusões partidárias.

●Assume a bandeira nacional, que seja excêntrica a todas as paixões, a todos os ódios, a todas as vinganças, em nome do desejo do povo que não aspira à governança, mas sim à felicidade. A opinião que representa quer o governo representativo, não em nome, mas em realidade. Quer um regime, verdadeiro e sincero; quer ser governada com justiça, com verdade e com amor; porque mal dos povos que não são governados com amor, mal das nações que são regidas sem sinceridade.

●Porque a força oprime temporariamente as nações, e as nações têm a faculdade de renascer pela reacção contra a força; mas da gangrena moral ninguém ressurge, não é essa gangrena uma das fermentações tumultuosas que transformam uns produtos em outros; é a fermentação pútrida, que destrói radicalmente o ser orgânico, que desagrega, que dispersa os átomos componentes (23 de Janeiro).

Projecto CRiPE- Centro de Estudos em Relações Internacionais, Ciência Política e Estratégia. © José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: 03-05-2007